Quando acordei meus olhos custaram a abrir. Tentei levar as mãos no rosto, mas elas pareciam adormecidas. Eu sentia todo o calor do sol invadindo a cama. Virei-me de lado e senti a pele dela, Lorena. E de repente ela não estava mais ali.
Quando pude ergui meu corpo em um movimento único e lento, saí ainda de olhos fechados para fora da cama. E então toquei o chão. Esperei até meus pés estarem seguros e me levantei por completo.
O chão desapareceu.
A queda foi devagar. O vento estava carregando folhas, que vinham de um bosque ao leste. Uma dessas folhas passou pelo meu olho. Ele coçava, e eu vi tudo embaçado. Contudo, quando pude abrir meus olhos por completo, a única coisa que eu conseguia ver era o imenso lago em que eu estava prestes a cair. E eu não sei nadar.
Pássaros começaram a atravessar minha visão. Ora andorinhas, ora urubus. E o lago ficava cada vez mais próximo. E então ouvi um nome.
Lorena me chamava. A voz dela me lembrava o sino da capela em que eu ia quando pequeno. Uma voz metálica, forte e delicada como seda. Uma voz que não existe em mais ninguém.
Nesse exato momento, minha pele tocou o lago. A água estava quente, quase queimava minha pele. Eu pedia para Lorena me ajudar, mas minha voz e a voz dela foram sumindo a medida que eu afundava. Em um segundo estava completamente submergido, lutando para respirar.
Peixes rondaram meu corpo. Ora peixes pequenos, ora peixes enormes. Uma alga gigante prendeu meu pé e me puxou muito rápido para uma espécie de penhasco.
Lorena voltou a chamar. Meu medo agora se concentrou no que ela estaria passando. O que estariam fazendo com ela.
Arrisquei abrir a boca para chamá-la, perguntar onde ela estava, mas a água queimou minha língua. Meus olhos se fecharam e não pude ver mais nada.
Minutos se passaram e senti que estava fora da água. Lorena estava mais próxima. Recuperei a visão e deparei-me com o bosque. Árvores enormes que cortavam meu corpo, folhas que me prendiam, amarravam-me, machucavam-me.
Lorena agora gritava. Aventurei-me no meio do bosque, machucado, correndo atrás da voz dela. O bosque escuro, a medida que eu corria, ia clareando. Imaginava estar chegando perto do sol.
Faltavam apenas dois pinheiros para a luz tomar conta do meu ser, então corri. Empurrei os galhos com toda a força, e fui cegado por uma luz amarela radiante. Estava em uma clareira.
A voz dela indicava que Lorena estava ali, no centro da clareira, e eu não podia vê-la. A folha realmente machucara meus olhos. Segui sua voz e encontrei-a deitada, suando. Ela segurou minha mão e beijou meus olhos. Ela dizia sinto muito.
O que mais me incomodava era não poder vê-la, ajudá-la, entender o que estava acontecendo. Uma criança chorava.
Comecei a chorar. Não estava compreendendo. Eu queria ajudá-la.
E então ela desapareceu. O choro também. Minhas roupas molhadas, a luz radiante, tudo sumiu. Voltei a escuridão.
Quando acordei meus olhos custaram a abrir. Tentei levar as mãos no rosto, mas elas pareciam adormecidas. Eu sentia todo o calor do sol invadindo a cama. Virei-me de lado e senti a pele dela, Lorena. Ouvi sua voz metálica sedando minha alma.
"Gregório?", sua voz estava diferente.
"Lô, você não tem noção de que sonho eu tive, querida!", tentei me levantar, "Lô? O que está acontecendo?"
Ouvi Lorena chorando, balbuciando palavras que eu não entendia.
"Querido, você não lembra de nada?", ela perguntou por meios soluços.
"Não! O que aconteceu, Lorena?", sua voz sumiu aos poucos.
Ela beijou a testa minha testa, e respirou fundo.
"Gregório," ela tentou não chorar ao dizer meu nome, "seu avião caiu, não se lembra?"
Avião? Que avião?
À vista disso, tudo voltou a minha mente. Sim, avião. Eu peguei um avião ontem. Dormira durante a viagem, mas não lembrava de ter chegado em casa.
"O avião caiu, Gregório. Caiu em um lago. O médico disse que você estava desacordado o tempo todo, não viu nada", eu quase podia ouvir os batimentos cardíacos dela, mas acredito que eram os meus.
O avião caiu? Nossa.
"Sobreviveram você e mais três pessoas, graças a Deus", ela começou a me beijar.
Afastei-a de mim aos poucos, queria vê-la.
"Lorena, por que não consigo ver você?".
O choro de Lorena, minha Lorena da voz metálica, a voz que parecia o sino da capela de quando eu ia quando pequeno, a voz de seda, foi sufocada pelo choro.
"Lorena?", e comecei a chorar.
Nossos batimentos cardíacos juntos, nossas lágrimas juntas, naquele quarto de hospital.
Eu não precisava ver nada para sentir tudo.
dezembro 08, 2010
novembro 18, 2010
3x4
O cobertor enroscou no pé de Eloise pela manhã. Seus lábios sorriram acordar. Virou-se e esparramou-se ainda mais pela cama. Puxou um travesseiro e bateu com ele no rosto três vezes. Levantou-se arrumando o cabelo, bebeu um copo de água que estava ao lado da cama e desviou a tempo de bater o pé no criado mudo.
Olhou em volta e viu que no pequeno apartamento daquele último andar não havia mais ninguém além dela. Ela sempre achara que havia seu charme em morar em um apartamento pequeno, no último andar de um prédio, com uma varanda maior que a sala de estar; e sua cozinha pequena com uma grande janela, que por ela era possível quase tocar o céu. Mas estava naquele dia em que por mais que a estante de livros fosse a maior coisa de sua casa, aquela foto três por quatro deles teria valores muito maiores.
Andou descalça pelo carpete, esticou os braços, alongou as pernas. Dançou ballet, interpretou Shakespeare. Beijou sua imagem no espelho. Começou mais um livro.
Pensou em caminhar pelas ruas. Talvez visitá-lo no trabalho. Ultimamente ele estivera tão bonito usando camisa. Seus olhos verdes brilhavam mais nesta época. Não, deixou para lá. Ele estaria ocupado para um lanche.
Pensou em sair para comprar um jornal, mas talvez assim também o encontrasse. E Romeo estaria ocupado demais para um lanche.
Começou outro livro. Este último parecia ser bom. Ficaria na pilha da esquerda.
Em jejum, ficou sentada na varanda por horas olhando os aviões. Apoiou-se na grade cheia de ramos de flores que envolve seu andar e olhou para a rua. Eram onze andares que não pareciam ser tão altos. Dependurou-se na base da grade e viu um homem de camisa branca passando na rua e pensou que fosse ele.
Vou ligar.
Não.
Sim, vou ligar.
Não.
Não ligou. Começou a chorar.
Foi buscar a três por quatro, fitou-a por um bom tempo. Até o telefone tocar.
- Romeo?
- Eloise.
E conversaram. Ele dissera que estava ocupado, mas que quando ela quisesse poderiam marcar um lanche. Seria ótimo.
Ela disse que precisava desligar. Ele também. Muito trabalho. Despediram-se.
Eloise voltou para a varanda. Dependurou-se novamente. Viu o carteiro.
Desceu até o térreo e pegou suas correspondências.
Nenhuma de Romeo. Talvez ele estivesse ocupado demais para escrever.
Subiu para seu apartamento. Olhou sua pilha de livros não tão bons, que ficava na direita, e levou-os até a varanda. Beijava-os um a um e oferecia aos céus, mandando-os voar.
Ela ouviu gritos e reclamações, e deu risadas alto. Como era possível se ouvir gritos do décimo primeiro andar. Voltou para a sala de estar.
Pegou a três por quatro e guardou-a dentro do primeiro livro da pilha da esquerda. Pensou em dormir.
Sim.
Não, e se ele ligar?
Mas preciso descansar.
Aposto que ele vai ligar.
Apoiou-se ao lado do telefone e dormiu.
Acordou quando o telefone tocou.
- Romeo?
- Eloise! Sinto muito, teremos que marcar para outro dia, estou trancado aqui, não poderei sair tão cedo.
Ah, sim, tudo bem. Você estaria ocupado demais para um lanche.
- Tudo bem, então. Um beijo.
E desligou.
Olhou para a pilha da esquerda, a dos livros bons, e pensou que era preciso deixá-los voar também. Livres. Todos estavam ocupado demais, precisavam de liberdade.
Estava quase escuro e a brisa era leve. Não havia lua, não havia chuva.
Pegou o primeiro livro da pilha e arremessou-o à imensidão do céu.
Viu a três por quatro voando também.
Não, ela não precisava ficar livre.
Decidiu ir buscá-la no céu.
Segurou na grade, tocou os ramos de flores, dependurou-se na base e voou atrás da foto.
Voando, viu à distancia um homem de camisa branca. Talvez fosse Romeo.
Pensou em dizer a ele que estava ali, voando. Mas a sensação era tão boa, que de repente se esqueceu do homem de camisa, de Romeo, e da foto três por quatro.
Somente sentiu a imensidão da liberdade.
Olhou em volta e viu que no pequeno apartamento daquele último andar não havia mais ninguém além dela. Ela sempre achara que havia seu charme em morar em um apartamento pequeno, no último andar de um prédio, com uma varanda maior que a sala de estar; e sua cozinha pequena com uma grande janela, que por ela era possível quase tocar o céu. Mas estava naquele dia em que por mais que a estante de livros fosse a maior coisa de sua casa, aquela foto três por quatro deles teria valores muito maiores.
Andou descalça pelo carpete, esticou os braços, alongou as pernas. Dançou ballet, interpretou Shakespeare. Beijou sua imagem no espelho. Começou mais um livro.
Pensou em caminhar pelas ruas. Talvez visitá-lo no trabalho. Ultimamente ele estivera tão bonito usando camisa. Seus olhos verdes brilhavam mais nesta época. Não, deixou para lá. Ele estaria ocupado para um lanche.
Pensou em sair para comprar um jornal, mas talvez assim também o encontrasse. E Romeo estaria ocupado demais para um lanche.
Começou outro livro. Este último parecia ser bom. Ficaria na pilha da esquerda.
Em jejum, ficou sentada na varanda por horas olhando os aviões. Apoiou-se na grade cheia de ramos de flores que envolve seu andar e olhou para a rua. Eram onze andares que não pareciam ser tão altos. Dependurou-se na base da grade e viu um homem de camisa branca passando na rua e pensou que fosse ele.
Vou ligar.
Não.
Sim, vou ligar.
Não.
Não ligou. Começou a chorar.
Foi buscar a três por quatro, fitou-a por um bom tempo. Até o telefone tocar.
- Romeo?
- Eloise.
E conversaram. Ele dissera que estava ocupado, mas que quando ela quisesse poderiam marcar um lanche. Seria ótimo.
Ela disse que precisava desligar. Ele também. Muito trabalho. Despediram-se.
Eloise voltou para a varanda. Dependurou-se novamente. Viu o carteiro.
Desceu até o térreo e pegou suas correspondências.
Nenhuma de Romeo. Talvez ele estivesse ocupado demais para escrever.
Subiu para seu apartamento. Olhou sua pilha de livros não tão bons, que ficava na direita, e levou-os até a varanda. Beijava-os um a um e oferecia aos céus, mandando-os voar.
Ela ouviu gritos e reclamações, e deu risadas alto. Como era possível se ouvir gritos do décimo primeiro andar. Voltou para a sala de estar.
Pegou a três por quatro e guardou-a dentro do primeiro livro da pilha da esquerda. Pensou em dormir.
Sim.
Não, e se ele ligar?
Mas preciso descansar.
Aposto que ele vai ligar.
Apoiou-se ao lado do telefone e dormiu.
Acordou quando o telefone tocou.
- Romeo?
- Eloise! Sinto muito, teremos que marcar para outro dia, estou trancado aqui, não poderei sair tão cedo.
Ah, sim, tudo bem. Você estaria ocupado demais para um lanche.
- Tudo bem, então. Um beijo.
E desligou.
Olhou para a pilha da esquerda, a dos livros bons, e pensou que era preciso deixá-los voar também. Livres. Todos estavam ocupado demais, precisavam de liberdade.
Estava quase escuro e a brisa era leve. Não havia lua, não havia chuva.
Pegou o primeiro livro da pilha e arremessou-o à imensidão do céu.
Viu a três por quatro voando também.
Não, ela não precisava ficar livre.
Decidiu ir buscá-la no céu.
Segurou na grade, tocou os ramos de flores, dependurou-se na base e voou atrás da foto.
Voando, viu à distancia um homem de camisa branca. Talvez fosse Romeo.
Pensou em dizer a ele que estava ali, voando. Mas a sensação era tão boa, que de repente se esqueceu do homem de camisa, de Romeo, e da foto três por quatro.
Somente sentiu a imensidão da liberdade.
novembro 05, 2010
Pura conveniência
"Mais um dia de trabalho. Estou cansado.
Acordar cedo, entrar em um trem lotado, tentar ler algum livro enquanto estou espremido entre as camisas sociais e as mochilas, fazer o mesmo trajeto para o mesmo estabelecimento. E então esboçar sorrisos forçados para algumas pessoas e apertar levemente a mão dos bons colegas de sempre. Sentar na cadeira atrás do caixa 19 e esperar.
Primeiro cliente de hoje: Pães e cigarros - apesar que não me lembro se era um homem ou uma mulher, afinal, nós quase não nos olhamos.
O movimento hoje pela manhã não esteve tão bem. Talvez por ser uma terça-feira.
Depois de mais alguns clientes, tive de fechar o caixa para uma pequena reunião com minha chefe. Ela sorria e pude ver que desabotoou o primeiro botão da camisa. Usava uma saia e o cabelo solto. E eu sabia o que ela estava tentando - e o que sempre tentou.
Eu dizia que não, esta noite eu estaria ocupado. Ou talvez aceitar e nunca acertar o dia. E hoje não seria diferente. Disse que iria sair, quando ficaria em casa lendo meu livro e comendo comida pronta, como fiz um pouco mais cedo.
Voltei para o mesmo caixa depois do horário de almoço, atendi clientes brutos, uma mãe grávida acompanhada de seu outro filho, e até uma adolescente que não era destituída de graça. Mas, definitivamente, ninguém foi como aquela senhora.
Era uma senhora de cabelos grisalhos, negra, simpática. Até agora não sei o que houve, mas coincidentemente não havia ninguém atrás dela, não havia fila.
Não me dissera seu nome, mas ela disse que eu parecia com o filho dela. Que eu era alto, bonito e que não deveria estar sentado naquela cadeira.
Passei sua compra - um pé de alface, cebolas, tomates e pão -, e ela me contara que faria uma sopa. Pensei "Com alface?", mas ela, como se ouvisse meus pensamentos, disse que ninguém conhece sopa com alface, mas que é uma delícia.
Acredito que eu tenha feito uma cara de desgosto e ela me descobriu.
Incrivelmente, ela me olhou por alguns segundos e disse que eu estava com a feição triste, abatido. Respondi que era só cansaço. E simplesmente, ela entendera.
Aquela senhora disse que morava perto dali e que se eu quisesse, ela poderia trazer um pouco da sopa, que poderia me animar. Eu agradeci, mas neguei. E então, ela sorrindo, começou a me contar algo.
Algo sobre como o tempo passa rápido. Como estamos na terça-feira e de repente já chegou domingo. De como as pessoas passaram rápido pela vida dela, e quantas ela quis que permanecessem e não puderam - ou como eu, negaram-se. Ela disse que ficou viúva cedo, e que sinceramente, não poderia dizer que amou de verdade o marido dela. Naquela época era convencional casar achando que com o tempo o amor chegaria. Contou que ele morrera 'de tanto fumar' e que seu filho segue o mesmo mau hábito. E então ela disse que coisas assim, como ele morrer e o filho fumar são coisas que não entendemos por que acontecem, mas que acontecem.
Como colocar uma alface em uma sopa.
Achei isso incrível.
Isso sim fez com que meu dia melhorasse de um jeito estranho. Como se o cansaço passasse. As camisas no trem, que voltavam suadas, não parecessem ter um cheiro tão desagradável. As mochilas não apertavam tanto. E talvez minha chefe só estivesse se sentindo sozinha.
Não sei."
O quarto ficou em silêncio. Eu a olhei, deitada ao meu lado. Ela me olhou.
"E o seu dia, como foi?", perguntei.
"Ah, foi bom", ela respondeu.
Então, voltei a ler meu livro e comer minha comida pronta, assim como ela.
Acordar cedo, entrar em um trem lotado, tentar ler algum livro enquanto estou espremido entre as camisas sociais e as mochilas, fazer o mesmo trajeto para o mesmo estabelecimento. E então esboçar sorrisos forçados para algumas pessoas e apertar levemente a mão dos bons colegas de sempre. Sentar na cadeira atrás do caixa 19 e esperar.
Primeiro cliente de hoje: Pães e cigarros - apesar que não me lembro se era um homem ou uma mulher, afinal, nós quase não nos olhamos.
O movimento hoje pela manhã não esteve tão bem. Talvez por ser uma terça-feira.
Depois de mais alguns clientes, tive de fechar o caixa para uma pequena reunião com minha chefe. Ela sorria e pude ver que desabotoou o primeiro botão da camisa. Usava uma saia e o cabelo solto. E eu sabia o que ela estava tentando - e o que sempre tentou.
Eu dizia que não, esta noite eu estaria ocupado. Ou talvez aceitar e nunca acertar o dia. E hoje não seria diferente. Disse que iria sair, quando ficaria em casa lendo meu livro e comendo comida pronta, como fiz um pouco mais cedo.
Voltei para o mesmo caixa depois do horário de almoço, atendi clientes brutos, uma mãe grávida acompanhada de seu outro filho, e até uma adolescente que não era destituída de graça. Mas, definitivamente, ninguém foi como aquela senhora.
Era uma senhora de cabelos grisalhos, negra, simpática. Até agora não sei o que houve, mas coincidentemente não havia ninguém atrás dela, não havia fila.
Não me dissera seu nome, mas ela disse que eu parecia com o filho dela. Que eu era alto, bonito e que não deveria estar sentado naquela cadeira.
Passei sua compra - um pé de alface, cebolas, tomates e pão -, e ela me contara que faria uma sopa. Pensei "Com alface?", mas ela, como se ouvisse meus pensamentos, disse que ninguém conhece sopa com alface, mas que é uma delícia.
Acredito que eu tenha feito uma cara de desgosto e ela me descobriu.
Incrivelmente, ela me olhou por alguns segundos e disse que eu estava com a feição triste, abatido. Respondi que era só cansaço. E simplesmente, ela entendera.
Aquela senhora disse que morava perto dali e que se eu quisesse, ela poderia trazer um pouco da sopa, que poderia me animar. Eu agradeci, mas neguei. E então, ela sorrindo, começou a me contar algo.
Algo sobre como o tempo passa rápido. Como estamos na terça-feira e de repente já chegou domingo. De como as pessoas passaram rápido pela vida dela, e quantas ela quis que permanecessem e não puderam - ou como eu, negaram-se. Ela disse que ficou viúva cedo, e que sinceramente, não poderia dizer que amou de verdade o marido dela. Naquela época era convencional casar achando que com o tempo o amor chegaria. Contou que ele morrera 'de tanto fumar' e que seu filho segue o mesmo mau hábito. E então ela disse que coisas assim, como ele morrer e o filho fumar são coisas que não entendemos por que acontecem, mas que acontecem.
Como colocar uma alface em uma sopa.
Achei isso incrível.
Isso sim fez com que meu dia melhorasse de um jeito estranho. Como se o cansaço passasse. As camisas no trem, que voltavam suadas, não parecessem ter um cheiro tão desagradável. As mochilas não apertavam tanto. E talvez minha chefe só estivesse se sentindo sozinha.
Não sei."
O quarto ficou em silêncio. Eu a olhei, deitada ao meu lado. Ela me olhou.
"E o seu dia, como foi?", perguntei.
"Ah, foi bom", ela respondeu.
Então, voltei a ler meu livro e comer minha comida pronta, assim como ela.
outubro 21, 2010
Água fervente
Era primavera e pouco sol adentrava pela grande parede de vidro daquele andar. Antonieta usava a mesa mais próxima da janela, no andar 21, e os papéis, naquele dia, quase brilhavam quando a luz do sol os tocavam. Quando pôde ver, a bela tarde acabara, o sol deu lugar à uma lua minguante, todas as nuvens haviam desaparecido e era hora de ir embora. Não reparara que quase todos do andar já haviam ido e que ninguém havia dito "boa noite". Antonieta pegara sua bolsa e se despediu dos três estagiários do seu andar. Queria ir para casa, tomar um banho e encontrar Romeo.
Quando chegou ao seu apartamento, imediatamente tirou a camiseta que usava e jogou-a juntamente com a calça jeans no cesto de roupa suja. Deixou a bota caída no meio da sala, em cima do tapete empoierado.
Tirou o sutiã e amarrou o cabelo cacheado em um rabo de cavalo, para não molhá-lo. Olhou-se por alguns minutos no espelho, mexendo nos longos cílios, na pinta que tinha no pescoço, no novo umbigo.
Tomou um banho morno, e cantou por alguns momentos. Pensou em Romeo. Não demorara muito no banho, e quando terminou atravessou o apartamento nua até o seu quarto, onde deixara a toalha. Vestiu o pijama rapidamente e foi para a sala de estar para continuar a ler seu livro.
- Eu vi você andando por aqui sem roupa, viu. - repreendeu uma voz vinda do cômodo ao lado, uma voz que ela adorava ouvir.
Ela foi até a cozinha com o livro na mão. Encontrou-o sentado, esperando uma água na chaleira ferver.
- Romeo, nunca fui boa no esconde-esconde. - Antonieta beijou-o sem pressa.
Ficou sentada no colo dele, ora olhando em seus olhos, ora com a cabeça deitada em seu ombro.
Quando Antonieta se levantou, a água na já havia evaporado. Foi até o quarto, depositou o livro em cima de uma pilha de livros no chão e abriu a janela do quarto. As luzes da cidade invadiram o quarto, assim como Romeo quando as viu.
Ele se deitou na cama e ela sentou no chão, na frente da janela, olhando tudo. Aos poucos, seus ombros eretos começaram a se curvar, caindo. Um pequeno ruído encheu o cômodo e Romeo levantou-se confuso.
- Você está chorando? - ele perguntou.
- Sim.
Era a primeira vez que ela assumia que estava chorando, e não dava desculpas engraçadas. Isso era alarmante.
Romeu foi até ela, agachou-se e a abraçou. Lágrimas quentes começaram a cair em seu braço. E ela, Antonieta, não se mexia.
- Por que está chorando? - ele a apertava mais a cada lágrima que caia em seu braço.
- Às vezes eu acho que amo tanto você que se um dia isso acabasse, seria como uma arma nuclear. E afinal, pela primeira vez, eu sinto que quero passar o resto da minha vida com a mesma pessoa, com você, sempre. Mas você parece não notar isso.
Romeo a virou com tanta facilidade, deitou-a em seu peito e encostou a boca no alto da cabeça dela. Ele não conseguia falar nada, nem pensar em nada. Somente pôs a mão na barriga dela e a afagou suavemente. Respirou fundo e soltou as palavras como um uníssono:
- Eu amo você, amo vocês duas. Eu só não sei demonstrar a proporção desse amor. Eu nunca entendi de amor, nunca soube como isso funcionava. Achava que era fácil, que coisas aconteceriam e tudo permaneceria bem. E então você veio e me mostrou que isso de amor é difícil, cansativo, mas recompensador. E agora esse meu pedaço aí, dentro de você, só mostra que tudo foi feito para dar certo.
Ela o abraçou forte, e começou a rir.
- Desculpe, Romeo, eu sei que você me ama. É isso de gravidez que me deixa confusa.
Romeo a abraçou, pegou-a no colo e a deitou na cama. Deitaram-se de frente um para o outro, e sorrindo ela começou a dormir.
- Não durma Antonieta, preciso dizer uma coisa. - ele disse.
Ela abriu os olhos lentamente.
- Eu amo você.
Antonieta virou de costas para ele e disse:
- Romeo, chega de amor por hoje.
E ele riu, ajeitando-se nas costas dela.
- Você não me nota - ele disse, imitando uma voz que ele imaginara parecer com a de Antonieta -, você não diz que me ama!
E então os três pegaram no sono, sorrindo.
Quando chegou ao seu apartamento, imediatamente tirou a camiseta que usava e jogou-a juntamente com a calça jeans no cesto de roupa suja. Deixou a bota caída no meio da sala, em cima do tapete empoierado.
Tirou o sutiã e amarrou o cabelo cacheado em um rabo de cavalo, para não molhá-lo. Olhou-se por alguns minutos no espelho, mexendo nos longos cílios, na pinta que tinha no pescoço, no novo umbigo.
Tomou um banho morno, e cantou por alguns momentos. Pensou em Romeo. Não demorara muito no banho, e quando terminou atravessou o apartamento nua até o seu quarto, onde deixara a toalha. Vestiu o pijama rapidamente e foi para a sala de estar para continuar a ler seu livro.
- Eu vi você andando por aqui sem roupa, viu. - repreendeu uma voz vinda do cômodo ao lado, uma voz que ela adorava ouvir.
Ela foi até a cozinha com o livro na mão. Encontrou-o sentado, esperando uma água na chaleira ferver.
- Romeo, nunca fui boa no esconde-esconde. - Antonieta beijou-o sem pressa.
Ficou sentada no colo dele, ora olhando em seus olhos, ora com a cabeça deitada em seu ombro.
Quando Antonieta se levantou, a água na já havia evaporado. Foi até o quarto, depositou o livro em cima de uma pilha de livros no chão e abriu a janela do quarto. As luzes da cidade invadiram o quarto, assim como Romeo quando as viu.
Ele se deitou na cama e ela sentou no chão, na frente da janela, olhando tudo. Aos poucos, seus ombros eretos começaram a se curvar, caindo. Um pequeno ruído encheu o cômodo e Romeo levantou-se confuso.
- Você está chorando? - ele perguntou.
- Sim.
Era a primeira vez que ela assumia que estava chorando, e não dava desculpas engraçadas. Isso era alarmante.
Romeu foi até ela, agachou-se e a abraçou. Lágrimas quentes começaram a cair em seu braço. E ela, Antonieta, não se mexia.
- Por que está chorando? - ele a apertava mais a cada lágrima que caia em seu braço.
- Às vezes eu acho que amo tanto você que se um dia isso acabasse, seria como uma arma nuclear. E afinal, pela primeira vez, eu sinto que quero passar o resto da minha vida com a mesma pessoa, com você, sempre. Mas você parece não notar isso.
Romeo a virou com tanta facilidade, deitou-a em seu peito e encostou a boca no alto da cabeça dela. Ele não conseguia falar nada, nem pensar em nada. Somente pôs a mão na barriga dela e a afagou suavemente. Respirou fundo e soltou as palavras como um uníssono:
- Eu amo você, amo vocês duas. Eu só não sei demonstrar a proporção desse amor. Eu nunca entendi de amor, nunca soube como isso funcionava. Achava que era fácil, que coisas aconteceriam e tudo permaneceria bem. E então você veio e me mostrou que isso de amor é difícil, cansativo, mas recompensador. E agora esse meu pedaço aí, dentro de você, só mostra que tudo foi feito para dar certo.
Ela o abraçou forte, e começou a rir.
- Desculpe, Romeo, eu sei que você me ama. É isso de gravidez que me deixa confusa.
Romeo a abraçou, pegou-a no colo e a deitou na cama. Deitaram-se de frente um para o outro, e sorrindo ela começou a dormir.
- Não durma Antonieta, preciso dizer uma coisa. - ele disse.
Ela abriu os olhos lentamente.
- Eu amo você.
Antonieta virou de costas para ele e disse:
- Romeo, chega de amor por hoje.
E ele riu, ajeitando-se nas costas dela.
- Você não me nota - ele disse, imitando uma voz que ele imaginara parecer com a de Antonieta -, você não diz que me ama!
E então os três pegaram no sono, sorrindo.
outubro 15, 2010
O mesmo vento de sempre
A cortina ao lado da cama estava balançando e comecei a brincar com ela. Cada vez que o vento a empurrava em minha direção, e eu o provocava empurrando a cortina violentamente. Não era um dia de sol, tudo indicava que choveria. Assim como aquele dia, há muito tempo atrás, quando o vento fez a mesma brincadeira. Agora vejo que a vida é assim, vive de repetições, mas como constantemente mudamos, elas não são tão visíveis.
O vento e eu ficamos nessa disputa até ela entrar pelo quarto, enrolada em minha toalha preta, com os cabelos molhados. Sua pequena estatura ficara em contraste com o tamanho da toalha, que arrastava no chão.
Ela parara na porta do meu quarto e encostara na base da porta, olhando-me seriamente. Zoé era uma criança engraçada, madura. Ela parecia saber de coisas que nunca viveu ou que nunca ouviu falar.
"Pai," ela me disse aquele dia "acho que o chuveiro quebrou".
"Por quê?"
"Ele está frio, e está machucando a minha pele porque as gotinhas estão muito geladas", ela estava convicta de sua teoria.
"Talvez você o tenha aberto demais".
"Ah, mas teve um clarão também", ela imitou a proporção do curto circuito exagerando um pouco.
"Então quebrou, Zoé"
"É, pai, eu disse isso". Às vezes suas frases adolescentes não se encaixavam com seus 6 anos.
Ela veio devagar e se sentou encostada na minha barriga, olhando para o meu rosto. Seu cabelo louro chegou às minhas costas, molhando minha camisa. Ela se aninhou em mim enquanto eu fazia carinho eu seu cabelo.
"Pai?", ela levantou a cabeça para perguntar.
Eu a olhei.
"Pode contar de novo?"; e era quase sempre assim. Quase todos os dias. Às vezes eu só queria contar uma história de sapinhos ou astronautas, mas ela insistia nessa longa história.
Respirei fundo e comecei a contar tudo. Zoé, por mais que parecesse adormecida, estava prestando muita atenção. Tentei contar de um modo diferente, como faço todos os dias.
Contei como sua mãe é inteligente, e que me conquistara justamente assim. De todas as longas viagens que fizemos. De coisas genéricas.
"Pai, e quando o senhor foi mais feliz?", ela perguntou quando terminei.
Imediatamente lembrei-me do dia em que ela, sua mãe, saiu do banho com o cabelo molhado, penteando-o para os lados, e me olhou deitado na cama. Que então ela se aproximou e deitou a cabeça em minha barriga, molhando minhas costas. E sua toalha marcava exatamente a barriga protuberante, a pequena Zoé se desenvolvendo. E ela me perguntou que nome eu gostaria de dar. Eu disse que ela escolheria. E foi então que ela comentou que "Zoé" era o nome que ela queria ter.
Minha ex-mulher, prezava diversas coisas, e confesso que ser mãe nunca foi uma delas. Por isso agora estou aqui, somente Zoé e eu. Lembrei daquele sorriso quando ela disse "Zoé". Talvez aquele tenha sido o momento mais romântico, sincero e feliz do nosso casamento.
Pensei antes de responder.
"Zoé, não sei, sua mãe e eu vivemos tantas coisas felizes, não sei escolher uma", menti, enfim.
"Nem uminha?", não.
"No dia em que ela descobriu que estava grávida de você, talvez", menti.
"Legal!", ela se sentou, empolgada. "Como foi?"
Lembrei de como ela ficou assustada, sem saber o que fazer. E gritava o tempo todo que era minha culpa. Não foi um dia bom.
"Foi incrível, mas é uma história longa, amanhã eu conto", tentei sorrir.
Zoé arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
"Promete?"
"Claro, Zoé", e afaguei seu cabelo.
E quando eu menos esperava, ela pegou no sono. Nos meus braços.
Peguei-a no colo e levei até seu quarto, devagar. Zoé era leve como uma pluma, o que facilitava muita coisa. Coloquei o pijama nela e coloquei o cobertor por cima de seu corpo. Parecia mesmo que ia chover.
Antes de apagar a luz, a foto em cima do criado mudo me chamou atenção, como faz todas as noites. Uma foto da mãe dela, há muito tempo atrás, ao meu lado, em uma de nossas viagens.
E por um momento ela pareceu perto, como o vento, resistindo. Mesmo estando a milhas daqui.
O vento e eu ficamos nessa disputa até ela entrar pelo quarto, enrolada em minha toalha preta, com os cabelos molhados. Sua pequena estatura ficara em contraste com o tamanho da toalha, que arrastava no chão.
Ela parara na porta do meu quarto e encostara na base da porta, olhando-me seriamente. Zoé era uma criança engraçada, madura. Ela parecia saber de coisas que nunca viveu ou que nunca ouviu falar.
"Pai," ela me disse aquele dia "acho que o chuveiro quebrou".
"Por quê?"
"Ele está frio, e está machucando a minha pele porque as gotinhas estão muito geladas", ela estava convicta de sua teoria.
"Talvez você o tenha aberto demais".
"Ah, mas teve um clarão também", ela imitou a proporção do curto circuito exagerando um pouco.
"Então quebrou, Zoé"
"É, pai, eu disse isso". Às vezes suas frases adolescentes não se encaixavam com seus 6 anos.
Ela veio devagar e se sentou encostada na minha barriga, olhando para o meu rosto. Seu cabelo louro chegou às minhas costas, molhando minha camisa. Ela se aninhou em mim enquanto eu fazia carinho eu seu cabelo.
"Pai?", ela levantou a cabeça para perguntar.
Eu a olhei.
"Pode contar de novo?"; e era quase sempre assim. Quase todos os dias. Às vezes eu só queria contar uma história de sapinhos ou astronautas, mas ela insistia nessa longa história.
Respirei fundo e comecei a contar tudo. Zoé, por mais que parecesse adormecida, estava prestando muita atenção. Tentei contar de um modo diferente, como faço todos os dias.
Contei como sua mãe é inteligente, e que me conquistara justamente assim. De todas as longas viagens que fizemos. De coisas genéricas.
"Pai, e quando o senhor foi mais feliz?", ela perguntou quando terminei.
Imediatamente lembrei-me do dia em que ela, sua mãe, saiu do banho com o cabelo molhado, penteando-o para os lados, e me olhou deitado na cama. Que então ela se aproximou e deitou a cabeça em minha barriga, molhando minhas costas. E sua toalha marcava exatamente a barriga protuberante, a pequena Zoé se desenvolvendo. E ela me perguntou que nome eu gostaria de dar. Eu disse que ela escolheria. E foi então que ela comentou que "Zoé" era o nome que ela queria ter.
Minha ex-mulher, prezava diversas coisas, e confesso que ser mãe nunca foi uma delas. Por isso agora estou aqui, somente Zoé e eu. Lembrei daquele sorriso quando ela disse "Zoé". Talvez aquele tenha sido o momento mais romântico, sincero e feliz do nosso casamento.
Pensei antes de responder.
"Zoé, não sei, sua mãe e eu vivemos tantas coisas felizes, não sei escolher uma", menti, enfim.
"Nem uminha?", não.
"No dia em que ela descobriu que estava grávida de você, talvez", menti.
"Legal!", ela se sentou, empolgada. "Como foi?"
Lembrei de como ela ficou assustada, sem saber o que fazer. E gritava o tempo todo que era minha culpa. Não foi um dia bom.
"Foi incrível, mas é uma história longa, amanhã eu conto", tentei sorrir.
Zoé arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
"Promete?"
"Claro, Zoé", e afaguei seu cabelo.
E quando eu menos esperava, ela pegou no sono. Nos meus braços.
Peguei-a no colo e levei até seu quarto, devagar. Zoé era leve como uma pluma, o que facilitava muita coisa. Coloquei o pijama nela e coloquei o cobertor por cima de seu corpo. Parecia mesmo que ia chover.
Antes de apagar a luz, a foto em cima do criado mudo me chamou atenção, como faz todas as noites. Uma foto da mãe dela, há muito tempo atrás, ao meu lado, em uma de nossas viagens.
E por um momento ela pareceu perto, como o vento, resistindo. Mesmo estando a milhas daqui.
outubro 09, 2010
Antagônico
"Meu nome é Benjamin e eu odeio esse nome. Apesar de seu significado compelir exatamente a mim. Imagino que se minha mãe tivesse escolhido Leon - como no filme do assassino -, a vida seria mais fácil.
São poucas pessoas no mundo que realmente acreditam que o nome altera a personalidade e eu estou fora dessa lista, sou descrente em qualquer matéria. Contudo, odeio meu nome, parece que Leon seria um nome muito mais tragável.
A palavra "tragável" desperta em mim uma vontade louca de fumar. Mas não sou fumante. É como quando os adolescentes sentem vontade de beber a latinha de cerveja na geladeira ou o conhaque no alto do armário escondido, mas não o fazem por medo do papai ou da mamãe descobrirem e proibirem-los de sair para a festinha do amigo mais velho. A diferença é que minha mãe morreu há anos e meu pai se casou novamente, sem me explicar que fumar não fazia bem. Então não fumo por quê?
Minha vida é tão inerte que por um acaso, esse deva ser o motivo. É indiferente se eu fumar, ter câncer no pulmão e morrer por consequência disso ou de um atropelamento. No entanto, se eu levantar dessa poltrona agora para comprar cigarros, há a possibilidade de eu ser morto atropelado. Mas isso também não é lá grande coisa.
Não gosto de pensar em cigarros. Eu gosto de pensar. Adoro divagar sobre o amor. Às vezes penso que ele é mágico, imutável, eterno quando verdadeiro. De resto, não é amor. Aquilo que agora chamam de amor é inerte, intragável, hipócrita. O amor é complexo, sincero, difícil, puro. Não encontrei ninguém para viver meu amor porque li tantos livros sobre Platão que ele me convenceu que para o amor ser verdadeiro, tem que ser inalcançável.
Qualquer um que ler isto entenderá que sou um pessimista sem esperanças. Não sou. Somente odeio meu nome, não fumo, e amo Serena. Adoro falar esse nome. Serena é um nome que se encaixa perfeitamente com Leon. Mas minha mãe me deu o nome de Benjamin.
Serena uma vez disse que me amava. Eu disse que também a amava. Ela disse que achava meu nome lindo. Mas nunca ficamos juntos. Platão.
Pois bem, o amor é realmente estranho.
Gosto de pensar também sobre tudo. Menos cigarros.
A vida é assim, inerte, inalcançável, mágica, hipócrita, eterna, platônica. Eu sou assim. Benjamin é assim."
- Querido, pode vir aqui um instante? - Serena o chamou.
- Claro, só estou terminando de escrever.
Ela subiu os degraus da escada os contando, criando uma melodia.
- Não precisa mais, Benjamin - aproximou-se dele. Está escrevendo sobre o quê?
- Sobre inércia, dificuldades, amor, mágica, hipocrisia. Várias coisas - ele respondeu se virando.
Ela o olhou intrigada.
- É sobre você? Ou nós?
- Não. É sobre um homem que inventei com um nome feio.
Ela sorriu e passou a mão pelos cabelos dele.
- Eu amo você, Benjamin.
Benjamin não respondeu. Somente deu uma longa tragada no pequeno cigarro que queimava no cinzeiro.
São poucas pessoas no mundo que realmente acreditam que o nome altera a personalidade e eu estou fora dessa lista, sou descrente em qualquer matéria. Contudo, odeio meu nome, parece que Leon seria um nome muito mais tragável.
A palavra "tragável" desperta em mim uma vontade louca de fumar. Mas não sou fumante. É como quando os adolescentes sentem vontade de beber a latinha de cerveja na geladeira ou o conhaque no alto do armário escondido, mas não o fazem por medo do papai ou da mamãe descobrirem e proibirem-los de sair para a festinha do amigo mais velho. A diferença é que minha mãe morreu há anos e meu pai se casou novamente, sem me explicar que fumar não fazia bem. Então não fumo por quê?
Minha vida é tão inerte que por um acaso, esse deva ser o motivo. É indiferente se eu fumar, ter câncer no pulmão e morrer por consequência disso ou de um atropelamento. No entanto, se eu levantar dessa poltrona agora para comprar cigarros, há a possibilidade de eu ser morto atropelado. Mas isso também não é lá grande coisa.
Não gosto de pensar em cigarros. Eu gosto de pensar. Adoro divagar sobre o amor. Às vezes penso que ele é mágico, imutável, eterno quando verdadeiro. De resto, não é amor. Aquilo que agora chamam de amor é inerte, intragável, hipócrita. O amor é complexo, sincero, difícil, puro. Não encontrei ninguém para viver meu amor porque li tantos livros sobre Platão que ele me convenceu que para o amor ser verdadeiro, tem que ser inalcançável.
Qualquer um que ler isto entenderá que sou um pessimista sem esperanças. Não sou. Somente odeio meu nome, não fumo, e amo Serena. Adoro falar esse nome. Serena é um nome que se encaixa perfeitamente com Leon. Mas minha mãe me deu o nome de Benjamin.
Serena uma vez disse que me amava. Eu disse que também a amava. Ela disse que achava meu nome lindo. Mas nunca ficamos juntos. Platão.
Pois bem, o amor é realmente estranho.
Gosto de pensar também sobre tudo. Menos cigarros.
A vida é assim, inerte, inalcançável, mágica, hipócrita, eterna, platônica. Eu sou assim. Benjamin é assim."
- Querido, pode vir aqui um instante? - Serena o chamou.
- Claro, só estou terminando de escrever.
Ela subiu os degraus da escada os contando, criando uma melodia.
- Não precisa mais, Benjamin - aproximou-se dele. Está escrevendo sobre o quê?
- Sobre inércia, dificuldades, amor, mágica, hipocrisia. Várias coisas - ele respondeu se virando.
Ela o olhou intrigada.
- É sobre você? Ou nós?
- Não. É sobre um homem que inventei com um nome feio.
Ela sorriu e passou a mão pelos cabelos dele.
- Eu amo você, Benjamin.
Benjamin não respondeu. Somente deu uma longa tragada no pequeno cigarro que queimava no cinzeiro.
setembro 29, 2010
Edgar
O vento está soprando lá fora e consigo ouvir até o miado dos gatos de Maria Eulália daqui de cima, tamanho é o silêncio que esta casa se deixou dominar depois que Dolores se foi. Todas as vezes que penso em Dolores meus lábios ressecados pela idade abrem pequenas fendas, pois tento sorrir. Mas só basta pegar um copo de água que Maria deixa ao meu lado antes de ir trabalhar, e pensar em Lola não me faz mais sangrar.
Passo a manhã em meu quarto, bebendo minha água, pensando em minha Lola, lembrando da minha boa vida. Quando esta mesma não me faz esquecê-la. Meu genro usa o termo "gagá" quando não estou perto para dizer qual a minha situação aos oitenta e três anos de idade. Minha filha, Maria Eulália, cuida de mim. Diz que eu preciso exercitar minhas memórias, e que eu "poderia contar minha vida para Edgar", meu neto.
Edgar é um bom nome. Se Dolores e eu tivéssemos tido um filho homem, ele se chamaria Edgar, assim como meu pai. Assim como eu.
Edgar deve ter uns quatro anos, ou pelo menos ele estava assim quando o vi pela última vez. Isto é estranho, porque ele mora comigo, em minha casa. Minha casa e de Dolores. Se eu continuar assim, minha água acabará rápido.
Casamo-nos ainda muito jovens, eu estava no auge de minha carreira e ela estudava advocacia. Lola tinha um gênio forte, era teimosa, mandona. Ela era independente.
Eu era maestro, regia a maior orquestra daqui e todos me conheciam. Foi Edgar, meu pai, quem me ensinou a tocar. Na verdade eu regi por muitos anos, até a orquestra me substituir. Afinal, eu já estava velho, precisava descansar. E Dolores assistia a todas as apresentações. Ficou grávida de Maria Eulália e decidiu não prosseguir com a carreira de advogada. Ela, de uma forma ou de outra, nascera para ser mãe.
Enquanto eu escrevia as partituras, ela cuidava de Maria Eulália e lia. Sempre adorou ler. Sempre fora sua vontade escrever um livro.
O tempo passara e Maria cresceu. Decidiu cursar Letras e escrever livros. Talvez algum dia seus livros fiquem famosos. Uma vez ela me disse que escreveria um livro sobre Edgar. Não sobre seu avô, nem sobre seu filho. Mas sim sobre seu pai maestro e sua mãe Lola.
Mas Edgar, meu neto, está um rapazote tão bonito. Está com dezoito anos, acabei de me lembrar. Ele veio aqui no quarto hoje pela manhã perguntar como estava me sentindo. Eu respondi "muito bem, obrigado". Às vezes o olho e fico confuso. Não sei mais se ele tem quatro ou dezoito anos. Ah! Maria Eulália me avisou pela manhã que tenho que me vestir bem esta noite. Ela irá apresentar seu novo livro hoje. Estou pensando em usar meu smoking de maestro. O que será que Dolores irá achar?
Oh, não! Dolores, como sou tolo. Ela só está a me ver agora. Mas eu sinto sua falta. Sinto falta de sua teimosia, coragem, independência. Edgar, meu neto, parece muito com ela. Ele está com quatro anos e é um garoto tão esperto!
Não, não será hoje a apresentação. Isso foi semana passada, se não me engano. Preciso perguntar a Edgar quando ele voltar aqui, o que devo vestir. Maria Eulália disse que o livro é sobre mim e Dolores. O nome é "Edgar".
Outro dia encontrei minhas partituras com a ajuda de Edgar. Foi como ver todo o teatro a nós assistindo novamente. Na última folha há até a marca de batom de Dolores, ela deixara ali de propósito.
Mas eu a amo. Ela sempre está por perto. Quando há um infartado em casa, todos têm que ficar por perto. Maria Eulália, Edgar, Edgar, Dolores, meu genro. Mas ela se foi, e logo eu também irei. Assim como meu copo de água, que agora está vazio.
Preciso dizer que amo Maria antes de ir. De abraçar meu neto Edgar de dezoito anos, e agradecer ao meu genro.
Estou com sede, minha água acabou. Talvez Dolores tenha um pouco de água para me dar. Vou só fechar os olhos, um pouquinho. O vento não reparará, os gatos de Maria Eulália continuarão miando.
Só fecharei os olhos por um instante. É rápido.
Talvez eu encontre Lola.
Passo a manhã em meu quarto, bebendo minha água, pensando em minha Lola, lembrando da minha boa vida. Quando esta mesma não me faz esquecê-la. Meu genro usa o termo "gagá" quando não estou perto para dizer qual a minha situação aos oitenta e três anos de idade. Minha filha, Maria Eulália, cuida de mim. Diz que eu preciso exercitar minhas memórias, e que eu "poderia contar minha vida para Edgar", meu neto.
Edgar é um bom nome. Se Dolores e eu tivéssemos tido um filho homem, ele se chamaria Edgar, assim como meu pai. Assim como eu.
Edgar deve ter uns quatro anos, ou pelo menos ele estava assim quando o vi pela última vez. Isto é estranho, porque ele mora comigo, em minha casa. Minha casa e de Dolores. Se eu continuar assim, minha água acabará rápido.
Casamo-nos ainda muito jovens, eu estava no auge de minha carreira e ela estudava advocacia. Lola tinha um gênio forte, era teimosa, mandona. Ela era independente.
Eu era maestro, regia a maior orquestra daqui e todos me conheciam. Foi Edgar, meu pai, quem me ensinou a tocar. Na verdade eu regi por muitos anos, até a orquestra me substituir. Afinal, eu já estava velho, precisava descansar. E Dolores assistia a todas as apresentações. Ficou grávida de Maria Eulália e decidiu não prosseguir com a carreira de advogada. Ela, de uma forma ou de outra, nascera para ser mãe.
Enquanto eu escrevia as partituras, ela cuidava de Maria Eulália e lia. Sempre adorou ler. Sempre fora sua vontade escrever um livro.
O tempo passara e Maria cresceu. Decidiu cursar Letras e escrever livros. Talvez algum dia seus livros fiquem famosos. Uma vez ela me disse que escreveria um livro sobre Edgar. Não sobre seu avô, nem sobre seu filho. Mas sim sobre seu pai maestro e sua mãe Lola.
Mas Edgar, meu neto, está um rapazote tão bonito. Está com dezoito anos, acabei de me lembrar. Ele veio aqui no quarto hoje pela manhã perguntar como estava me sentindo. Eu respondi "muito bem, obrigado". Às vezes o olho e fico confuso. Não sei mais se ele tem quatro ou dezoito anos. Ah! Maria Eulália me avisou pela manhã que tenho que me vestir bem esta noite. Ela irá apresentar seu novo livro hoje. Estou pensando em usar meu smoking de maestro. O que será que Dolores irá achar?
Oh, não! Dolores, como sou tolo. Ela só está a me ver agora. Mas eu sinto sua falta. Sinto falta de sua teimosia, coragem, independência. Edgar, meu neto, parece muito com ela. Ele está com quatro anos e é um garoto tão esperto!
Não, não será hoje a apresentação. Isso foi semana passada, se não me engano. Preciso perguntar a Edgar quando ele voltar aqui, o que devo vestir. Maria Eulália disse que o livro é sobre mim e Dolores. O nome é "Edgar".
Outro dia encontrei minhas partituras com a ajuda de Edgar. Foi como ver todo o teatro a nós assistindo novamente. Na última folha há até a marca de batom de Dolores, ela deixara ali de propósito.
Mas eu a amo. Ela sempre está por perto. Quando há um infartado em casa, todos têm que ficar por perto. Maria Eulália, Edgar, Edgar, Dolores, meu genro. Mas ela se foi, e logo eu também irei. Assim como meu copo de água, que agora está vazio.
Preciso dizer que amo Maria antes de ir. De abraçar meu neto Edgar de dezoito anos, e agradecer ao meu genro.
Estou com sede, minha água acabou. Talvez Dolores tenha um pouco de água para me dar. Vou só fechar os olhos, um pouquinho. O vento não reparará, os gatos de Maria Eulália continuarão miando.
Só fecharei os olhos por um instante. É rápido.
Talvez eu encontre Lola.
setembro 18, 2010
Todas as consequências
Do outro lado do vidro da sacada era possível enxergar a figura de longos cabelos sentada na poltrona estampada admirando o nascer do sol através do prédios. O rapaz viera de seu quarto caminhando vagarosamente, descalço, sem fazer barulho. A figura na poltrona não percebera quando ele abriu a porta de vidro e se sentou no chão encostado na parede.
- Bom dia - ele disse. Sua voz era grave, serena.
Ela o olhou espantada e arrumou o camiseta branca o suficiente para cobrir as pernas.
- Você gosta de café? Eu acabei fazendo um pouco para mim e sobrou - ele estava envergonhado, assim como ela.
- Claro - ela respondeu com um sorriso tímido. Ele não havia reparado em sua voz estridente.
Ele se levantou e foi até a cozinha. Ela não se mexeu. Quando ele voltou, entregou a ela uma caneca branca cheia de café e se encostou no muro da sacada. Ele se virou de costas para ela e ficou olhando para os prédios, perdido. Ela ficara o olhando por todos aqueles poucos minutos.
- Obrigada pelo café e por me trazer para cá, mas já tenho que ir - ela disse se levantando.
- Ah, tudo bem. Eu daria uma carona, mas você destruiu meu carro - ele tinha um modo engraçado de sorrir.
Ele enrubesceu.
Quando voltaram para dentro do apartamento, ela pôde ver o quão organizado ele era e que sua aparência era melhor do que as fotos que estavam no aparador demonstravam. Ela olhou para a camiseta branca.
- Vou arrumar um jeito de devolver-lhe a camiseta. É que, bom, eu não ficaria perambulando pelo sua casa do jeito que eu vim ao mundo. Não seria a coisa mais bonita de se ver - ela disse indo na direção da porta.
- Você é muito nova. Se fizesse isso, não seria a beleza que me preocuparia, mas a polícia na minha porta.
As bochechas dela ficaram vermelhas.
- Eu não sei como ir para casa. Destruí o meu carro, o seu carro, meu irmão não pode nem sonhar que eu estou aqui e não posso pegar um ônibus quase nua - ela finalmente falara mais a vontade.
Ele a olhou, pegou a xícara da mão dela e levou para a cozinha.
A torneira da cozinha fazia um barulho típico e ela foi até onde ele poderia vê-la para agradecer novamente e dizer que estava de saída.
- Espere - disse ele -, qual seu nome?
- Penélope.
- Bom, Penélope. Por que não fica aqui? Você não está realmente nua, a polícia não entrará aqui e depois eu converso com seu irmão.
Penélope parara e observara o que aquilo poderia acarretar: um amor não correspondido, um beijo roubado, o amor verdadeiro ou somente sofrimento. Ele era diferente, aquilo que estava acontecendo era diferente. Suas bochechas não ficaram rosadas quando ela contornou o balcão da cozinha, pegou o pano de prato pendurado em um puxador e secou a caneca de café.
- Não sei por que, mas eu acho que devo ficar. Nem que seja por enquanto.
Ele parara e observara o que aquilo poderia acarretar: filhos, viagens, flores.
- Que bom. Acho que tenho muita louça para lavar.
- Bom dia - ele disse. Sua voz era grave, serena.
Ela o olhou espantada e arrumou o camiseta branca o suficiente para cobrir as pernas.
- Você gosta de café? Eu acabei fazendo um pouco para mim e sobrou - ele estava envergonhado, assim como ela.
- Claro - ela respondeu com um sorriso tímido. Ele não havia reparado em sua voz estridente.
Ele se levantou e foi até a cozinha. Ela não se mexeu. Quando ele voltou, entregou a ela uma caneca branca cheia de café e se encostou no muro da sacada. Ele se virou de costas para ela e ficou olhando para os prédios, perdido. Ela ficara o olhando por todos aqueles poucos minutos.
- Obrigada pelo café e por me trazer para cá, mas já tenho que ir - ela disse se levantando.
- Ah, tudo bem. Eu daria uma carona, mas você destruiu meu carro - ele tinha um modo engraçado de sorrir.
Ele enrubesceu.
Quando voltaram para dentro do apartamento, ela pôde ver o quão organizado ele era e que sua aparência era melhor do que as fotos que estavam no aparador demonstravam. Ela olhou para a camiseta branca.
- Vou arrumar um jeito de devolver-lhe a camiseta. É que, bom, eu não ficaria perambulando pelo sua casa do jeito que eu vim ao mundo. Não seria a coisa mais bonita de se ver - ela disse indo na direção da porta.
- Você é muito nova. Se fizesse isso, não seria a beleza que me preocuparia, mas a polícia na minha porta.
As bochechas dela ficaram vermelhas.
- Eu não sei como ir para casa. Destruí o meu carro, o seu carro, meu irmão não pode nem sonhar que eu estou aqui e não posso pegar um ônibus quase nua - ela finalmente falara mais a vontade.
Ele a olhou, pegou a xícara da mão dela e levou para a cozinha.
A torneira da cozinha fazia um barulho típico e ela foi até onde ele poderia vê-la para agradecer novamente e dizer que estava de saída.
- Espere - disse ele -, qual seu nome?
- Penélope.
- Bom, Penélope. Por que não fica aqui? Você não está realmente nua, a polícia não entrará aqui e depois eu converso com seu irmão.
Penélope parara e observara o que aquilo poderia acarretar: um amor não correspondido, um beijo roubado, o amor verdadeiro ou somente sofrimento. Ele era diferente, aquilo que estava acontecendo era diferente. Suas bochechas não ficaram rosadas quando ela contornou o balcão da cozinha, pegou o pano de prato pendurado em um puxador e secou a caneca de café.
- Não sei por que, mas eu acho que devo ficar. Nem que seja por enquanto.
Ele parara e observara o que aquilo poderia acarretar: filhos, viagens, flores.
- Que bom. Acho que tenho muita louça para lavar.
setembro 08, 2010
Transição
A rua estava silenciosa e o barulho do carro não tão antigo contornando a esquina se destacou. Ela ainda estava em seu apartamento, mas ao contrário da imagem que tentara passar, já vestia a roupa escolhida e usava a mínima maquiagem de sempre. Ouviu o barulho da inconfundível buzina três andares abaixo e se debruçou na janela. Acenou em direção ao carro de Alonzo. Olhou-se uma última vez no espelho e bagunçou novamente os cabelos louros compridos.
Desceu de elevador assoviando, de costas para o espelho. Não era mais necessário. Chegou ao térreo, sorriu para o porteiro e abriu o portão preto.
- Você! - disse Alonzo de dentro do carro, iluminando seu rosto com o tão único sorriso.
- Você! - ela repetiu, sorrindo também. Entrou no carro e cumprimentou-o com um habitual encontro de bochechas, que alguns chamam de beijo.
Alonzo deu a partida e alguns minutos depois entraram no trânsito da noite.
- Sabe o que eu estava me lembrando? - ele perguntou se virando para ela.
- Não faço ideia - ela estava com o braço encostado na janela aberta, e virou a cabeça para olhá-lo.
- Quando nos falamos eu lembrei do dia em que teve aquela reunião na sua casa - ele comentou -, em que eu cheguei atrasado, estava de carro. E então você veio abrir o portão da sua casa.
Ela o olhou, atônita.
- Você gostava de mim? Não que isso mude algo hoje, mas eu sempre quis saber - a voz dela não estava tão nervosa quanto imaginara.
Ele pensou por alguns segundos e o carro se encheu de sons da cidade.
- Não sei - Alonzo disse com a sinceridade estampada na voz -, mas talvez minha história faça você me ajudar a identificar se gostava ou não. Como eu ia dizendo - ele sorrira o mesmo sorriso que ela tanto gostava -, eu entrei e você me deu um beijo no rosto, toda envergonhada.
"Nós entramos, a reunião foi rápida e você mostrou o papai noel que dançava que sua mãe tinha comprado. Nós falamos um pouco sobre bandas, se não me engano. Bom, e eu disse que ia embora, já que todos estavam comendo o bolo que estava na cozinha e nós dois não estávamos fazendo nada - ele piscou. E você foi abrir o portão, mas eu pedi para ir no carro comigo. Você entrou e - Alonzo começou a rir.
Ela o olhou, e desde que ele começara a história ela não queria nem piscar, não queria perder sequer um segundo daquele momento.
- Eu entrei no carro, e você me perguntou que estação rádio eu gostava de escutar. Eu disse a primeira que me veio à cabeça e você disse que aquela era ruim. Eu lembro que você colocou na que achava melhor. Mas saiba que eu nunca fui muito fã de rádio, sem contar que eu estava nervosa por estar dentro do carro com você - ela quase o completou. As bochechas de Alonzo enrubesceram e ele sorriu.
- Isso mesmo. E então você foi se despedir, porque estava frio ou algo assim e se debruçou para me dar um beijo no rosto. E eu virei o rosto para a janela dizendo que não - ele repetiu o movimento -, e por incrível que pareça, você concordou, brava, e bateu a porta do carro. Eu abaixei o vidro e pedi para você se despedir direito.
"Você brava virou as costas, mas não se negou. Invadiu o carro pela janela e quase caiu em mim para somente um beijo. Na hora em que olhei você voltando para o portão, pensei em como era difícil, você com doze anos, eu com dezessete. Tudo era difícil.
Ela se calou e ele também. Alonzo ligou o rádio do carro na rádio que ele julgara ruim e ambos riram.
Chegaram ao lugar combinado e resolveram sentar no bar. O salão estava repleto de gente, mas era possível escutar um ao outro facilmente. Pediram suas bebidas e voltaram a conversar. Ele tomou partido, como antes.
- Então, antes havia essa grande diferença - ele gesticulava -, mas agora eu tenho vinte e cinco, você tem vinte. Eu acho você incrível e talvez eu até tenha esperado você crescer. E agora, nós temos uma nova chance. É como se você tivesse com doze anos novamente, mas não houvesse problemas em ficarmos juntos.
Ela o olhou, sorriu e deixou seu copo no balcão. Pousou sua delicada mão no rosto de Alonzo e foi aproximando-se lentamente de sua face. Ele fechou os olhos. Aquele era o momento pelo qual a menina de doze anos tanto esperara e o homem de vinte e cinco também ansiava.
- Alonzo - ela desviou da boca dele e seguiu para cochichar em seu ouvido -, eu não tenho doze anos.
Ela sorriu e bebeu mais um gole do copo que estava no balcão. Virou-se e saiu.
Ela deixara de ser uma garota de doze anos, agora era uma mulher de vinte.
Desceu de elevador assoviando, de costas para o espelho. Não era mais necessário. Chegou ao térreo, sorriu para o porteiro e abriu o portão preto.
- Você! - disse Alonzo de dentro do carro, iluminando seu rosto com o tão único sorriso.
- Você! - ela repetiu, sorrindo também. Entrou no carro e cumprimentou-o com um habitual encontro de bochechas, que alguns chamam de beijo.
Alonzo deu a partida e alguns minutos depois entraram no trânsito da noite.
- Sabe o que eu estava me lembrando? - ele perguntou se virando para ela.
- Não faço ideia - ela estava com o braço encostado na janela aberta, e virou a cabeça para olhá-lo.
- Quando nos falamos eu lembrei do dia em que teve aquela reunião na sua casa - ele comentou -, em que eu cheguei atrasado, estava de carro. E então você veio abrir o portão da sua casa.
Ela o olhou, atônita.
- Você gostava de mim? Não que isso mude algo hoje, mas eu sempre quis saber - a voz dela não estava tão nervosa quanto imaginara.
Ele pensou por alguns segundos e o carro se encheu de sons da cidade.
- Não sei - Alonzo disse com a sinceridade estampada na voz -, mas talvez minha história faça você me ajudar a identificar se gostava ou não. Como eu ia dizendo - ele sorrira o mesmo sorriso que ela tanto gostava -, eu entrei e você me deu um beijo no rosto, toda envergonhada.
"Nós entramos, a reunião foi rápida e você mostrou o papai noel que dançava que sua mãe tinha comprado. Nós falamos um pouco sobre bandas, se não me engano. Bom, e eu disse que ia embora, já que todos estavam comendo o bolo que estava na cozinha e nós dois não estávamos fazendo nada - ele piscou. E você foi abrir o portão, mas eu pedi para ir no carro comigo. Você entrou e - Alonzo começou a rir.
Ela o olhou, e desde que ele começara a história ela não queria nem piscar, não queria perder sequer um segundo daquele momento.
- Eu entrei no carro, e você me perguntou que estação rádio eu gostava de escutar. Eu disse a primeira que me veio à cabeça e você disse que aquela era ruim. Eu lembro que você colocou na que achava melhor. Mas saiba que eu nunca fui muito fã de rádio, sem contar que eu estava nervosa por estar dentro do carro com você - ela quase o completou. As bochechas de Alonzo enrubesceram e ele sorriu.
- Isso mesmo. E então você foi se despedir, porque estava frio ou algo assim e se debruçou para me dar um beijo no rosto. E eu virei o rosto para a janela dizendo que não - ele repetiu o movimento -, e por incrível que pareça, você concordou, brava, e bateu a porta do carro. Eu abaixei o vidro e pedi para você se despedir direito.
"Você brava virou as costas, mas não se negou. Invadiu o carro pela janela e quase caiu em mim para somente um beijo. Na hora em que olhei você voltando para o portão, pensei em como era difícil, você com doze anos, eu com dezessete. Tudo era difícil.
Ela se calou e ele também. Alonzo ligou o rádio do carro na rádio que ele julgara ruim e ambos riram.
Chegaram ao lugar combinado e resolveram sentar no bar. O salão estava repleto de gente, mas era possível escutar um ao outro facilmente. Pediram suas bebidas e voltaram a conversar. Ele tomou partido, como antes.
- Então, antes havia essa grande diferença - ele gesticulava -, mas agora eu tenho vinte e cinco, você tem vinte. Eu acho você incrível e talvez eu até tenha esperado você crescer. E agora, nós temos uma nova chance. É como se você tivesse com doze anos novamente, mas não houvesse problemas em ficarmos juntos.
Ela o olhou, sorriu e deixou seu copo no balcão. Pousou sua delicada mão no rosto de Alonzo e foi aproximando-se lentamente de sua face. Ele fechou os olhos. Aquele era o momento pelo qual a menina de doze anos tanto esperara e o homem de vinte e cinco também ansiava.
- Alonzo - ela desviou da boca dele e seguiu para cochichar em seu ouvido -, eu não tenho doze anos.
Ela sorriu e bebeu mais um gole do copo que estava no balcão. Virou-se e saiu.
Ela deixara de ser uma garota de doze anos, agora era uma mulher de vinte.
setembro 05, 2010
Granadas
Estava noite e eu aposto que assustamos o velho homem que dirigia o taxi e todos os moradores do meu prédio com aquela gritaria. Eu sei que o porteiro não impediu nossa entrada porque ele conhecia muito bem o homem com quem eu adentrava o prédio. Mas gostaria que o tivesse feito.
Oliver fez com que todos achassem que aquela era uma cena de um casal apaixonado brincando. Ele tinha esse poder sobre as pessoas. Mesmo quando eu estava presa como um saco de cimento em suas costas, envolvida por aqueles braços que não aparentavam ser tão fortes. Mesmo quando ele me tirou do táxi com uma agilidade assustadora e me puxou pelas mãos para cair sobre seus ombros.
Depois de subirmos cinco andares, Oliver tirou as chaves do apartamento do meu bolso da calça fingindo que não ouvia meus gritos e que não se importava que eu debatesse as pernas violentamente. Ele raspara o cabelo naquela manhã e sua barba precisava ser feita. Seus olhos castanhos eram como os do meu pai.
Ele empurrou a porta com os meus pés e me levara até o quarto, jogara-me na cama sem pensar que poderia me machucar. Oliver era assim, não pensava que podia machucar as pessoas.
Levantei-me rapidamente e também sem pensar, desferi um soco nos olhos castanhos iguais aos do papai. Por um momento os confundi.
"O que você tem de força eu tenho de coragem, Oliver", disse.
Ele levou as mãos ao olho esquerdo e começou a rir, aquela risada me irritava.
"Afinal," ele disse "estamos quites".
Concordei. Fui a cozinha buscar gelo para seu olho e para o meu cotovelo, que bati na madeira da cama.
Deitei-me na cama de modo a encaixar nossas cabeças lado a lado. Passei-lhe sua parcela de gelo e investi a minha no machucado.
"Oliver," comecei, "vou tentar descrever como me sinto".
Ele ficou em silêncio. Era como ele encorajava as pessoas. Resolvi continuar.
"Eu me sinto como se meu coração tivesse subido para a garganta e se transformado em uma granada, pronta para explodir. E ela explode. Explode todas as vezes que brigamos. Mas é uma explosão que não dói".
"Você é idiota", ele disse.
"Por que?", perguntei virando-me a ponto de encostar o nariz em sua bochecha.
"As pessoas", respondeu "se sentem assim quando se apaixonam".
Liguei a televisão.
"E você já se apaixonou, Oliver?", desafiei-o.
"Não".
"Então como sabe?", insisti.
"Por que o amor não é tão difícil quanto os outros falam, só isso".
Ficamos em silêncio, o único ruído no quarto era o da televisão.
"E você?", perguntou.
"Acho que estou apaixonada por você", respondi.
Começamos a rir, mas a gargalhada dele me irritava.
"Você é tão irritante quando ri", disse.
Ele se levantou da cama e puxou meu pé. Caí. Bati o outro cotovelo.
Levantei-me e desferi outro soco, no olho direito.
"Sobre isso da granada," Oliver disse jogando o forte corpo sobre a cama "às vezes sinto o mesmo por você".
Desliguei a televisão e não demonstrei que achara a última frase melhor que qualquer filme de romance do mundo.
"Acho que deveríamos nos casar", disse rindo.
Ele levantou a cabeça e ficou me olhando deitada no chão.
"Não", dissemos juntos.
Oliver se deitou sobre mim e dormimos assim, machucados, no chão e destruídos por uma granada.
Oliver fez com que todos achassem que aquela era uma cena de um casal apaixonado brincando. Ele tinha esse poder sobre as pessoas. Mesmo quando eu estava presa como um saco de cimento em suas costas, envolvida por aqueles braços que não aparentavam ser tão fortes. Mesmo quando ele me tirou do táxi com uma agilidade assustadora e me puxou pelas mãos para cair sobre seus ombros.
Depois de subirmos cinco andares, Oliver tirou as chaves do apartamento do meu bolso da calça fingindo que não ouvia meus gritos e que não se importava que eu debatesse as pernas violentamente. Ele raspara o cabelo naquela manhã e sua barba precisava ser feita. Seus olhos castanhos eram como os do meu pai.
Ele empurrou a porta com os meus pés e me levara até o quarto, jogara-me na cama sem pensar que poderia me machucar. Oliver era assim, não pensava que podia machucar as pessoas.
Levantei-me rapidamente e também sem pensar, desferi um soco nos olhos castanhos iguais aos do papai. Por um momento os confundi.
"O que você tem de força eu tenho de coragem, Oliver", disse.
Ele levou as mãos ao olho esquerdo e começou a rir, aquela risada me irritava.
"Afinal," ele disse "estamos quites".
Concordei. Fui a cozinha buscar gelo para seu olho e para o meu cotovelo, que bati na madeira da cama.
Deitei-me na cama de modo a encaixar nossas cabeças lado a lado. Passei-lhe sua parcela de gelo e investi a minha no machucado.
"Oliver," comecei, "vou tentar descrever como me sinto".
Ele ficou em silêncio. Era como ele encorajava as pessoas. Resolvi continuar.
"Eu me sinto como se meu coração tivesse subido para a garganta e se transformado em uma granada, pronta para explodir. E ela explode. Explode todas as vezes que brigamos. Mas é uma explosão que não dói".
"Você é idiota", ele disse.
"Por que?", perguntei virando-me a ponto de encostar o nariz em sua bochecha.
"As pessoas", respondeu "se sentem assim quando se apaixonam".
Liguei a televisão.
"E você já se apaixonou, Oliver?", desafiei-o.
"Não".
"Então como sabe?", insisti.
"Por que o amor não é tão difícil quanto os outros falam, só isso".
Ficamos em silêncio, o único ruído no quarto era o da televisão.
"E você?", perguntou.
"Acho que estou apaixonada por você", respondi.
Começamos a rir, mas a gargalhada dele me irritava.
"Você é tão irritante quando ri", disse.
Ele se levantou da cama e puxou meu pé. Caí. Bati o outro cotovelo.
Levantei-me e desferi outro soco, no olho direito.
"Sobre isso da granada," Oliver disse jogando o forte corpo sobre a cama "às vezes sinto o mesmo por você".
Desliguei a televisão e não demonstrei que achara a última frase melhor que qualquer filme de romance do mundo.
"Acho que deveríamos nos casar", disse rindo.
Ele levantou a cabeça e ficou me olhando deitada no chão.
"Não", dissemos juntos.
Oliver se deitou sobre mim e dormimos assim, machucados, no chão e destruídos por uma granada.
setembro 03, 2010
O peixe apático
O molho de chave tilintava na fechadura, cumprindo todas as três voltas. Pela porta entrava Iwana tirando os cabelos cacheados da face. Estava frio e ventava do lado de fora. Se houvesse alguém sentado no sofá, esse repararia que os olhos castanhos dela estavam com olheiras e que não usava seu batom habitual.
Iwana jogou sua bolsa em cima desse mesmo sofá, andou até a mesa de centro e pegou um elástico de cabelo. Usou-o para prender seus longos cachos em um coque desajeitado no alto da cabeça. Escolheu um filme de sua coleção e o deixou rodando, para somente escutar o áudio. Adorava a trilha sonora.
Sentou-se no tapete velho, apoiou-se pelas mãos e olhou para o teto, pensando no que faria. Lembrou-se de seu pequeno peixe: precisava trocar a água do aquário.
Levantou-se sem problemas, ela tinha o equilíbrio de uma bailarina e a vivacidade de uma viajante. Não era nenhuma das duas coisas. Dirigiu-se até antigo aparador de madeira que ficava entre uma escada e uma porta e inclinou-se para colocar o dedo indicador na água. Seu peixe era apático, toda vez que ela fazia ondas com os dedos ele parecia não se importar. Na verdade, ele nem parecia perceber. Ele não tinha nome, Iwana o tratava como uma coisa aleatória que se mexia, do mesmo jeito que ele a tratava. Mesmo assim, sempre que podia, inclinava-se e desenhava símbolos do infinito na água, formando ondas. Olhando para o peixe arriscou até contar uma história.
Naquela sexta-feira pegou o aquário e o levou até a grande pia da cozinha. Sempre que cumpria aquele ritual pensava em jogar o peixe apático pelo ralo, não para matá-lo, mas para libertá-lo. Naquele dia não fora diferente. Pegou-o na mão e destampou o ralo da pia, mas desistiu. Ele não teria mais ninguém. Ela não teria mais ninguém.
Devolveu-o ao aquário e pegou no armário de produtos de limpeza o pote onde colocava a água onde o peixe ficaria esperando. Encheu-o e pegou o peixe novamente na mão.
Ela ouviu a porta da sala abrindo e voltou a sala para espiar quem era. Contudo, Iwana sabia quem era a única pessoa que fazia isso às sextas-feiras.
Vestindo uma calça jeans, um casaco preto e uma touca cinza folgada entrava o rapaz das sextas-feiras. Ele entrara com as sobrancelhas franzidas e balbuciando algo contra o frio.
- A única coisa que gosto no frio, querida - ele disse quando a viu -, é que seu nariz fica vermelhinho.
Ela sorrira e o abraçara. Foi quando ele a apertava a cintura e ela dançava seus braços pelo pescoço dele, que ela sentiu a pequena coisa gelada mexendo em sua mão. Soltou-se rapidamente e voltou correndo para a cozinha.
- Eu me esqueci do peixe! - disse ela.
- E desde quando você cozinha? - ele perguntou depois de perceber o acontecido.
O rapaz das sextas-feiras olhara o cômodo rapidamente e voltara para a sala. Sentara-se no sofá, ao lado da bolsa dela, e identificou o filme.
- Eu gosto muito da trilha sonora desse filme - ele disse para que Iwana o ouvisse.
O filme estava aos quarenta e nove minutos quando ela voltou para sala com um edredon escuro e cabelos soltos, tirou sua bolsa do sofá e ocupou seu lugar.
- Para que assistir ao filme se podemos conversar? - ele perguntou.
Ela desligou a televisão e deitou a cabeça na coxa dele, e completou que haviam também outras coisas para fazer além de conversar.
O rapaz das sextas-feiras pegou um longo cacho do cabelo dela e começou a enrolá-lo no dedo. Ela tirava aos poucos os fiapos de idade que juntavam no edredon.
- Eu nunca disse que amo você, não é? - ela perguntou.
Ele a olhou.
- Os filmes fazem parecer que é muito simples falar a uma pessoa que a ama. As atitudes valem mais do que qualquer coisa - ele respondeu.
- Sim, mas então como alguém mostra a outra pessoa que a ama? - ela insistiu.
O rapaz bagunçou o cabelo de Iwana e disse "Mais ou menos assim".
Ela sorriu.
- Eu estava olhando para o aquário do peixe apático e percebi que você é como meu dedo. Você faz ondas na minha vida, faz eu me mexer, eu sentir coisas diferentes, mas eu sempre ajo como alguém inativo. A única vez que fiz algo foi naquele dia, quando estávamos na sua casa. Quando eu disse que precisava de você - ela disse. - Talvez tenha sido aquilo que tenha feito você estar aqui agora.
- Iwana, sabe por que eu amo você?
Ela chacoalhou a cabeça negativamente.
- Eu amo você porque você me esquenta quando eu estou com frio, mesmo estando com as mãos frias. Porque quando você sorri eu me sinto uma pessoa útil. Porque você filosofa maluquices olhando para um aquário. Eu amo você porque você sempre agiu como você mesma ao meu lado. Eu amo você porque você sempre diz coisas sem pensar ao meu lado. Eu amo você porque você disse que precisava de mim, que nós ficássemos juntos. Eu amo você porque você me ama do mesmo jeito que ama o seu peixe. Do jeito seguro.
Ela sorriu.
- E eu não sei por que amo você, só sei que amo - Iwana disse puxando a cabeça dele para baixo e beijando-o levemente os lábios. - Eu só amo você.
Ela dormiu no colo dele e ele dormiu com as mãos enroladas no cabelo dela.
- O que você acha, peixe apático? - perguntou Iwana. - Daria uma boa história de amor, não é? Pena que isso só acontece em histórias de mentirinha criadas por adolescentes patéticos.
Iwana destampou o ralo e deu adeus ao peixe apático.
Iwana jogou sua bolsa em cima desse mesmo sofá, andou até a mesa de centro e pegou um elástico de cabelo. Usou-o para prender seus longos cachos em um coque desajeitado no alto da cabeça. Escolheu um filme de sua coleção e o deixou rodando, para somente escutar o áudio. Adorava a trilha sonora.
Sentou-se no tapete velho, apoiou-se pelas mãos e olhou para o teto, pensando no que faria. Lembrou-se de seu pequeno peixe: precisava trocar a água do aquário.
Levantou-se sem problemas, ela tinha o equilíbrio de uma bailarina e a vivacidade de uma viajante. Não era nenhuma das duas coisas. Dirigiu-se até antigo aparador de madeira que ficava entre uma escada e uma porta e inclinou-se para colocar o dedo indicador na água. Seu peixe era apático, toda vez que ela fazia ondas com os dedos ele parecia não se importar. Na verdade, ele nem parecia perceber. Ele não tinha nome, Iwana o tratava como uma coisa aleatória que se mexia, do mesmo jeito que ele a tratava. Mesmo assim, sempre que podia, inclinava-se e desenhava símbolos do infinito na água, formando ondas. Olhando para o peixe arriscou até contar uma história.
Naquela sexta-feira pegou o aquário e o levou até a grande pia da cozinha. Sempre que cumpria aquele ritual pensava em jogar o peixe apático pelo ralo, não para matá-lo, mas para libertá-lo. Naquele dia não fora diferente. Pegou-o na mão e destampou o ralo da pia, mas desistiu. Ele não teria mais ninguém. Ela não teria mais ninguém.
Devolveu-o ao aquário e pegou no armário de produtos de limpeza o pote onde colocava a água onde o peixe ficaria esperando. Encheu-o e pegou o peixe novamente na mão.
Ela ouviu a porta da sala abrindo e voltou a sala para espiar quem era. Contudo, Iwana sabia quem era a única pessoa que fazia isso às sextas-feiras.
Vestindo uma calça jeans, um casaco preto e uma touca cinza folgada entrava o rapaz das sextas-feiras. Ele entrara com as sobrancelhas franzidas e balbuciando algo contra o frio.
- A única coisa que gosto no frio, querida - ele disse quando a viu -, é que seu nariz fica vermelhinho.
Ela sorrira e o abraçara. Foi quando ele a apertava a cintura e ela dançava seus braços pelo pescoço dele, que ela sentiu a pequena coisa gelada mexendo em sua mão. Soltou-se rapidamente e voltou correndo para a cozinha.
- Eu me esqueci do peixe! - disse ela.
- E desde quando você cozinha? - ele perguntou depois de perceber o acontecido.
O rapaz das sextas-feiras olhara o cômodo rapidamente e voltara para a sala. Sentara-se no sofá, ao lado da bolsa dela, e identificou o filme.
- Eu gosto muito da trilha sonora desse filme - ele disse para que Iwana o ouvisse.
O filme estava aos quarenta e nove minutos quando ela voltou para sala com um edredon escuro e cabelos soltos, tirou sua bolsa do sofá e ocupou seu lugar.
- Para que assistir ao filme se podemos conversar? - ele perguntou.
Ela desligou a televisão e deitou a cabeça na coxa dele, e completou que haviam também outras coisas para fazer além de conversar.
O rapaz das sextas-feiras pegou um longo cacho do cabelo dela e começou a enrolá-lo no dedo. Ela tirava aos poucos os fiapos de idade que juntavam no edredon.
- Eu nunca disse que amo você, não é? - ela perguntou.
Ele a olhou.
- Os filmes fazem parecer que é muito simples falar a uma pessoa que a ama. As atitudes valem mais do que qualquer coisa - ele respondeu.
- Sim, mas então como alguém mostra a outra pessoa que a ama? - ela insistiu.
O rapaz bagunçou o cabelo de Iwana e disse "Mais ou menos assim".
Ela sorriu.
- Eu estava olhando para o aquário do peixe apático e percebi que você é como meu dedo. Você faz ondas na minha vida, faz eu me mexer, eu sentir coisas diferentes, mas eu sempre ajo como alguém inativo. A única vez que fiz algo foi naquele dia, quando estávamos na sua casa. Quando eu disse que precisava de você - ela disse. - Talvez tenha sido aquilo que tenha feito você estar aqui agora.
- Iwana, sabe por que eu amo você?
Ela chacoalhou a cabeça negativamente.
- Eu amo você porque você me esquenta quando eu estou com frio, mesmo estando com as mãos frias. Porque quando você sorri eu me sinto uma pessoa útil. Porque você filosofa maluquices olhando para um aquário. Eu amo você porque você sempre agiu como você mesma ao meu lado. Eu amo você porque você sempre diz coisas sem pensar ao meu lado. Eu amo você porque você disse que precisava de mim, que nós ficássemos juntos. Eu amo você porque você me ama do mesmo jeito que ama o seu peixe. Do jeito seguro.
Ela sorriu.
- E eu não sei por que amo você, só sei que amo - Iwana disse puxando a cabeça dele para baixo e beijando-o levemente os lábios. - Eu só amo você.
Ela dormiu no colo dele e ele dormiu com as mãos enroladas no cabelo dela.
- O que você acha, peixe apático? - perguntou Iwana. - Daria uma boa história de amor, não é? Pena que isso só acontece em histórias de mentirinha criadas por adolescentes patéticos.
Iwana destampou o ralo e deu adeus ao peixe apático.
agosto 18, 2010
Barricada
O seu olhar estava vacilante e eu o via caminhando pelo corredor. Não sei por que os vizinhos reclamam da iluminação do prédio. Eu conseguia ver a expressão de mágoa escondida sobre a sobrancelha grossa do meu irmão pelo olho mágico.
Ele parou diante da minha porta e tocou a campainha, respirando fundo. Esperei-o até que tocasse novamente e quando abri a imponente porta branca, ele parecia ter engolido todo aquele sentimento que o dominava. Eu o conhecia bem, sabia que ele achava que era fraco mostrar seus sentimentos para as pessoas. Eu o conhecia bem e sabia que ele pusera aquela máscara de segurança quando girei a maçaneta.
"Gustaf", disse ele esboçando um sorriso forçado.
Eu o olhei rapidamente e seu estado era deplorável. Seu cabelo ruivo estava curto como o meu, estava pálido, com olheiras e sua camisa que eu sempre vira dentro da calça, estava hoje solta, livre.
"Você quer entrar?", não pude deixar de perguntar.
"Não". Ele foi rápido, seguro, livre. Ele mentiu.
Meu irmão ficara fora do país por três anos e eu raramente conseguia notícias dele. Talvez tenha sido porque da última vez que nos falamos ele disse que não queria mais ver minha cara, nem pintada de ouro, nem em um caixão. Interpretei como uma ofensa pessoal e não queria mais vê-lo também. Construímos juntos um bloqueio, uma barreira, que juramos não ultrapassar. No entanto, três anos depois, não haveria motivo para não abrir um pequeno buraco e observar como ia a vida no terreno vizinho, e sempre que precisasse, cobrir com uma rolha.
Eu passei minha infância como se fosse filho único. Ele é o irmão mais velho, começou a sair de casa e a conhecer outras pessoas quando eu comecei a brincar de carrinho e rabiscar as paredes. Quando ele estava com dezessete anos se apaixonou. O nome dela era Alana, era filha de franceses e usava um gorro vermelho.
Quando ficaram juntos, ele quase não ficava em casa. Ficaram juntos até eu completar vinte e dois anos. Quando eu estava com vinte e três construímos a barreira e vivemos completamente separados. O oceano parecia pequeno, pois mesmo ele estando longe, eu o sentia perto.
Nossa mãe morreu quando eu estava com vinte e cinco e ele não veio se despedir. Mandou uma carta para o nosso pai pedindo que enviasse um pouco das cinzas para ele. Ainda hoje não sabemos o que ele fizera com elas. Pensei em perguntar.
"E a mamãe?", arrisquei.
"Que tem?", ele perguntou na defensiva.
"O que fez com ela? Jogou no meio da neve?", eu estava ficando nervoso. Eu não o via há três anos, nunca senti saudades, nunca tivemos contato e agora eu estava como um adolescente prestes a se declarar. Ele estava lindo, parecia com mamãe.
"Uma parte joguei na neve", ele sorriu, dessa vez parecendo verdadeiro. Puxou algo de dentro da blusa e vi que era uma corrente. "O resto está aqui".
Tentei imaginar o quanto de mamãe meu pai enviara.
"Você não quer mesmo entrar?", confirmei coçando a cabeça.
"Não", ele era sempre rápido.
Encostei-me na porta e olhei-o no fundo dos olhos.
Lembrei daquele dia, meu aniversário de vinte e três anos. Eu nunca me apaixonara e até hoje acho que isso não aconteceu. Todos diziam que estar solteiro em sua festa de vinte e três anos era sinônimo de solidão. Alana estava preparando a festa junto com meu irmão, desde cedo arrumavam a grande casa branca. Era manhã e eu ainda não completara 23 anos. A namorada de meu irmão esperara até minutos antes da festa e me levara para o quarto dele. Até hoje me lembro do que Alana me disse, "você está bonito esta noite", "parece tanto seu irmão", "não, você é uma versão melhorada". Ela mexeu em meu cabelo e eu não suportei o calor de sua pele quando me abraçou. Beijei-a. O relógio marcava 19:02. Fazia três minutos que eu envelhecera. O problema é o que se seguiu. Meu irmão, que na época tinha os cabelos ruivos volumosos, lisos e bagunçados, entrou no quarto me chamando e deparou com aquela cena que mais parecia de novela. Soltei-me dela e Alana segurou minha mão. Compreendi que eles tinham acabado de terminar.
"Você vai vê-la?", perguntei virando-me de costas para ir pegar um copo de suco na cozinha.
"Não", ele respondeu.
"Quer suco?", não pude deixar de oferecer.
"Não".
Cansei-me do diálogo negativo e voltei para a porta.
"O que você veio fazer aqui?", perguntei.
"Vim perguntar se é verdade o que dizem", pela primeira vez ele foi sincero.
"Que isto aqui é culpa sua?", apontei para minha perna.
Assentiu. Ele tentou ficar apático, mas não havia como.
"Não", respondi. "Não considero culpa sua. Aquele dia eu bebi porque eu quis, peguei o carro porque eu quis".
Eu nunca considerei culpa dele aquele dia. Eu beijei Alana, eu mereci o soco, eu o vi saindo pela porta gritando injúrias, eu bebi todas as garrafas de vinho da casa, eu peguei o carro, eu sofri o acidente, eu fiquei apagado por meses e minha perna que foi amputada. Ele estava viajando, fugindo.
"Você me perdoa?" eu perguntei soltando as muletas e sentando no sofá branco.
"Não", respondeu. Era exatamente o que eu esperava.
"Tudo bem, também não perdoo você", disse.
Ficamos em silêncio.
Acho que ele resolveu ir embora, pois virou as costas para mim e saiu andando.
"Ei", gritei "você pode pelo menos fechar a porta para mim?".
Ele voltou de cabeça erguida, seguro, livre e pôs a mão na maçaneta.
"Eu amo você", ele disse batendo a porta e saindo.
A última frase saiu leve, segura, rápida. Era mentira.
Ele parou diante da minha porta e tocou a campainha, respirando fundo. Esperei-o até que tocasse novamente e quando abri a imponente porta branca, ele parecia ter engolido todo aquele sentimento que o dominava. Eu o conhecia bem, sabia que ele achava que era fraco mostrar seus sentimentos para as pessoas. Eu o conhecia bem e sabia que ele pusera aquela máscara de segurança quando girei a maçaneta.
"Gustaf", disse ele esboçando um sorriso forçado.
Eu o olhei rapidamente e seu estado era deplorável. Seu cabelo ruivo estava curto como o meu, estava pálido, com olheiras e sua camisa que eu sempre vira dentro da calça, estava hoje solta, livre.
"Você quer entrar?", não pude deixar de perguntar.
"Não". Ele foi rápido, seguro, livre. Ele mentiu.
Meu irmão ficara fora do país por três anos e eu raramente conseguia notícias dele. Talvez tenha sido porque da última vez que nos falamos ele disse que não queria mais ver minha cara, nem pintada de ouro, nem em um caixão. Interpretei como uma ofensa pessoal e não queria mais vê-lo também. Construímos juntos um bloqueio, uma barreira, que juramos não ultrapassar. No entanto, três anos depois, não haveria motivo para não abrir um pequeno buraco e observar como ia a vida no terreno vizinho, e sempre que precisasse, cobrir com uma rolha.
Eu passei minha infância como se fosse filho único. Ele é o irmão mais velho, começou a sair de casa e a conhecer outras pessoas quando eu comecei a brincar de carrinho e rabiscar as paredes. Quando ele estava com dezessete anos se apaixonou. O nome dela era Alana, era filha de franceses e usava um gorro vermelho.
Quando ficaram juntos, ele quase não ficava em casa. Ficaram juntos até eu completar vinte e dois anos. Quando eu estava com vinte e três construímos a barreira e vivemos completamente separados. O oceano parecia pequeno, pois mesmo ele estando longe, eu o sentia perto.
Nossa mãe morreu quando eu estava com vinte e cinco e ele não veio se despedir. Mandou uma carta para o nosso pai pedindo que enviasse um pouco das cinzas para ele. Ainda hoje não sabemos o que ele fizera com elas. Pensei em perguntar.
"E a mamãe?", arrisquei.
"Que tem?", ele perguntou na defensiva.
"O que fez com ela? Jogou no meio da neve?", eu estava ficando nervoso. Eu não o via há três anos, nunca senti saudades, nunca tivemos contato e agora eu estava como um adolescente prestes a se declarar. Ele estava lindo, parecia com mamãe.
"Uma parte joguei na neve", ele sorriu, dessa vez parecendo verdadeiro. Puxou algo de dentro da blusa e vi que era uma corrente. "O resto está aqui".
Tentei imaginar o quanto de mamãe meu pai enviara.
"Você não quer mesmo entrar?", confirmei coçando a cabeça.
"Não", ele era sempre rápido.
Encostei-me na porta e olhei-o no fundo dos olhos.
Lembrei daquele dia, meu aniversário de vinte e três anos. Eu nunca me apaixonara e até hoje acho que isso não aconteceu. Todos diziam que estar solteiro em sua festa de vinte e três anos era sinônimo de solidão. Alana estava preparando a festa junto com meu irmão, desde cedo arrumavam a grande casa branca. Era manhã e eu ainda não completara 23 anos. A namorada de meu irmão esperara até minutos antes da festa e me levara para o quarto dele. Até hoje me lembro do que Alana me disse, "você está bonito esta noite", "parece tanto seu irmão", "não, você é uma versão melhorada". Ela mexeu em meu cabelo e eu não suportei o calor de sua pele quando me abraçou. Beijei-a. O relógio marcava 19:02. Fazia três minutos que eu envelhecera. O problema é o que se seguiu. Meu irmão, que na época tinha os cabelos ruivos volumosos, lisos e bagunçados, entrou no quarto me chamando e deparou com aquela cena que mais parecia de novela. Soltei-me dela e Alana segurou minha mão. Compreendi que eles tinham acabado de terminar.
"Você vai vê-la?", perguntei virando-me de costas para ir pegar um copo de suco na cozinha.
"Não", ele respondeu.
"Quer suco?", não pude deixar de oferecer.
"Não".
Cansei-me do diálogo negativo e voltei para a porta.
"O que você veio fazer aqui?", perguntei.
"Vim perguntar se é verdade o que dizem", pela primeira vez ele foi sincero.
"Que isto aqui é culpa sua?", apontei para minha perna.
Assentiu. Ele tentou ficar apático, mas não havia como.
"Não", respondi. "Não considero culpa sua. Aquele dia eu bebi porque eu quis, peguei o carro porque eu quis".
Eu nunca considerei culpa dele aquele dia. Eu beijei Alana, eu mereci o soco, eu o vi saindo pela porta gritando injúrias, eu bebi todas as garrafas de vinho da casa, eu peguei o carro, eu sofri o acidente, eu fiquei apagado por meses e minha perna que foi amputada. Ele estava viajando, fugindo.
"Você me perdoa?" eu perguntei soltando as muletas e sentando no sofá branco.
"Não", respondeu. Era exatamente o que eu esperava.
"Tudo bem, também não perdoo você", disse.
Ficamos em silêncio.
Acho que ele resolveu ir embora, pois virou as costas para mim e saiu andando.
"Ei", gritei "você pode pelo menos fechar a porta para mim?".
Ele voltou de cabeça erguida, seguro, livre e pôs a mão na maçaneta.
"Eu amo você", ele disse batendo a porta e saindo.
A última frase saiu leve, segura, rápida. Era mentira.
agosto 12, 2010
Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que
o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos
esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre
a face das águas.
Manuel Bandeira. Libertinagem.
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que
o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos
esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre
a face das águas.
Manuel Bandeira. Libertinagem.
agosto 10, 2010
Intensidade
- Sienna, Sienna. Eu sei que falei besteiras nos últimos recados, mas você quer o quê? Eu estou rastejando aos seus pés, sua louca. É isso que você quer, não é? Você queria que eu me apaixonasse por você. É disso que você vive, não é? Mas que droga! Eu sinto tantas saudades de você aqui! Vê, você até me deixou até sem sentido como um garoto de dezessete anos de novo! Pare de fazer isso, não aguento mais. Quero você aqui, hoje. Preciso de você - o telefone ficou em silêncio por alguns segundos - O que estou dizendo? Estou fazendo papel de mocinho doce? Você é uma louca insuportável - o telefone ficou mudo.
Uma mulher de longos cabelos caminhou pela sala bagunçada somente de roupas íntimas e uma camiseta cinza surrada. Ela tinha um copo na mão e a maquiagem era escura. Parou a frente da mesa de madeira onde o único abajur da casa se encontrava e desligou a mensagem que a secretária eletrônica acabara de gravar.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa pequena e com poucos móveis, encontrava-se Sergio, que ainda estava com a mão sobre o telefone.
À frente do espelho ele analisou a figura desconhecida. Um homem alto, com o cabelo cortado rente, os olhos com olheiras, uma camisa xadrez aberta e rasgada no bolso. Seus olhos que costumavam ser cor de mel estavam castanho escuro. A poltrona estava marcada com seu tamanho exato. Já fariam três dias em que somente se levantava dali para usar o banheiro.
A cortina suja não escondeu que de repente o dia se tornara noite e Sergio, sentado na poltrona que sempre serviu de sofá para um homem sozinho, viu-se saindo do banheiro imundo que ficava ao lado do espelho. No entanto, aquele não era mais o Sergio. Ou o homem da poltrona que deixara de ser o forte e estúpido Sergio de sempre. O vencedor finalmente perdera. Ele começara assistir ao seu próprio filme.
O Sergio que saía do banheiro usava a mesma camisa xadrez que o Sergio da poltrona, mas ela não estava rasgada, nem sequer no estado deplorável em que o mesmo se encontrava sentado. O Sergio que saía do banheiro era bonito, seus olhos tinham uma profundidade tentadora e seu modo de andar era singular, sedutor. A campainha tocou e bruscamente ele abriu a porta. O Sergio da poltrona assistia sem reação - até Sienna romper pela porta.
Ela usava uma saia curta, seus cabelos lisos estavam bagunçados em um rabo-de-cavalo, seu moletom cinza cheirava à cidade. Eles se beijaram ardentemente e abraçados encostaram-se no braço da poltrona em que Sergio ainda se encontrava sentado, assistindo agora pelo espelho. As pernas de Sienna se enrolaram nos quadris fortes de Sergio, que puxava seu cabelo.
- Vamos sair - ela tinha o tom de voz forte, marcante.
Sienna pegou Sergio pela mão e a velocidade dela era um pouco maior que a dele. Ele sorria. Sergio da poltrona pegou sua caixa de cigarros e saiu atrás, olhando o casal arrogante que andava pela rua escura.
Andaram até chegar a um posto de gasolina e Sienna entrou na pequena loja. Enquanto os dois Sergios esperavam do lado de fora - um impaciente, o outro desolado -, ela distraiu o vendedor e pegou uma caixa de cigarros.
Saiu exibindo sua aquisição e riu. Pegou-o pela mão na mesma sintonia de quando saíram os três de casa. Sergio de olheiras ainda assistia.
Sergio sempre fora inconstante. Saía sem rumo quando queria e fazia o que queria. Não se prendera a ninguém até conhecer Sienna. Que foi por quem ele chegou o mais perto de se apaixonar.
Passaram pelas pessoas e chamaram atenção. Por serem novos, bonitos e despertar a ira de qualquer transeunte. Beijaram-se, simularam o que faziam dentro de seus quartos no meio de lugares repletos de gente. Passaram duas noites sem andar, sem tomar banho, sem trocar de roupa, e vivendo de pegar comida escondida. O outro Sergio, que os seguia fielmente, envelhecia a cada sorriso do casal.
Durante o retiro, Sienna fumava e gritava ofensas. Juntos fingiam brigar para chamar atenção. Passaram as madrugadas acordados. Sergio da camisa rasgada assistiu a tudo, como uma terceira pessoa. Até chegar o momento em que Sienna, beijando-o, rasgou-lhe o bolso da camisa. Somente dois riram, enquanto um quase chorou. Dormiram juntos à beira de um penhasco e sobre a terra.
Quando os três voltaram para casa, Sergio sorridente se deitou na cama respirando fundo. Sienna se deitou ao seu lado na pequena cama de solteiro. Sergio voltou para sua poltrona e pegou no sono. Nenhum Sergio viu quando Sienna abriu a porta e saiu lentamente, carregando consigo tudo que já havia deixado lá.
Dias se passaram sem notícias de Sienna. Sergio se viu sentando-se na poltrona ao lado do telefone e ligando a cada momento para a casa dela. Ora deixava recados agressivos, ora apaixonados, pedindo perdão. Ela nunca atendera.
Até a noite em que Sergio resolveu atear fogo em sua camisa rasgada.
O telefone tocou enquanto Sergio estava na cozinha, tentando se concentrar em algo para comer. Sem atender, a ligação foi atendida pela secretária eletrônica.
- Sergio, eu cansei dessa vida. Eu sou uma idiota, você não sabe o quanto estou me odiando neste momento, mas eu quero você. Eu quero você de verdade, com amor - o recado havia terminado assim.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa antiga e com vários móveis, encontrava-se Sienna. Sentada em um grande sofá macio e em um ambiente desorganizado, ela olhou para o espelho a sua frente. O reflexo mostrava Sergio, um Sergio real, que usava uma camiseta branca amarelada, entrando em sua casa.
- Eu também - ele disse a única coisa que ela queria ouvir.
Uma mulher de longos cabelos caminhou pela sala bagunçada somente de roupas íntimas e uma camiseta cinza surrada. Ela tinha um copo na mão e a maquiagem era escura. Parou a frente da mesa de madeira onde o único abajur da casa se encontrava e desligou a mensagem que a secretária eletrônica acabara de gravar.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa pequena e com poucos móveis, encontrava-se Sergio, que ainda estava com a mão sobre o telefone.
À frente do espelho ele analisou a figura desconhecida. Um homem alto, com o cabelo cortado rente, os olhos com olheiras, uma camisa xadrez aberta e rasgada no bolso. Seus olhos que costumavam ser cor de mel estavam castanho escuro. A poltrona estava marcada com seu tamanho exato. Já fariam três dias em que somente se levantava dali para usar o banheiro.
A cortina suja não escondeu que de repente o dia se tornara noite e Sergio, sentado na poltrona que sempre serviu de sofá para um homem sozinho, viu-se saindo do banheiro imundo que ficava ao lado do espelho. No entanto, aquele não era mais o Sergio. Ou o homem da poltrona que deixara de ser o forte e estúpido Sergio de sempre. O vencedor finalmente perdera. Ele começara assistir ao seu próprio filme.
O Sergio que saía do banheiro usava a mesma camisa xadrez que o Sergio da poltrona, mas ela não estava rasgada, nem sequer no estado deplorável em que o mesmo se encontrava sentado. O Sergio que saía do banheiro era bonito, seus olhos tinham uma profundidade tentadora e seu modo de andar era singular, sedutor. A campainha tocou e bruscamente ele abriu a porta. O Sergio da poltrona assistia sem reação - até Sienna romper pela porta.
Ela usava uma saia curta, seus cabelos lisos estavam bagunçados em um rabo-de-cavalo, seu moletom cinza cheirava à cidade. Eles se beijaram ardentemente e abraçados encostaram-se no braço da poltrona em que Sergio ainda se encontrava sentado, assistindo agora pelo espelho. As pernas de Sienna se enrolaram nos quadris fortes de Sergio, que puxava seu cabelo.
- Vamos sair - ela tinha o tom de voz forte, marcante.
Sienna pegou Sergio pela mão e a velocidade dela era um pouco maior que a dele. Ele sorria. Sergio da poltrona pegou sua caixa de cigarros e saiu atrás, olhando o casal arrogante que andava pela rua escura.
Andaram até chegar a um posto de gasolina e Sienna entrou na pequena loja. Enquanto os dois Sergios esperavam do lado de fora - um impaciente, o outro desolado -, ela distraiu o vendedor e pegou uma caixa de cigarros.
Saiu exibindo sua aquisição e riu. Pegou-o pela mão na mesma sintonia de quando saíram os três de casa. Sergio de olheiras ainda assistia.
Sergio sempre fora inconstante. Saía sem rumo quando queria e fazia o que queria. Não se prendera a ninguém até conhecer Sienna. Que foi por quem ele chegou o mais perto de se apaixonar.
Passaram pelas pessoas e chamaram atenção. Por serem novos, bonitos e despertar a ira de qualquer transeunte. Beijaram-se, simularam o que faziam dentro de seus quartos no meio de lugares repletos de gente. Passaram duas noites sem andar, sem tomar banho, sem trocar de roupa, e vivendo de pegar comida escondida. O outro Sergio, que os seguia fielmente, envelhecia a cada sorriso do casal.
Durante o retiro, Sienna fumava e gritava ofensas. Juntos fingiam brigar para chamar atenção. Passaram as madrugadas acordados. Sergio da camisa rasgada assistiu a tudo, como uma terceira pessoa. Até chegar o momento em que Sienna, beijando-o, rasgou-lhe o bolso da camisa. Somente dois riram, enquanto um quase chorou. Dormiram juntos à beira de um penhasco e sobre a terra.
Quando os três voltaram para casa, Sergio sorridente se deitou na cama respirando fundo. Sienna se deitou ao seu lado na pequena cama de solteiro. Sergio voltou para sua poltrona e pegou no sono. Nenhum Sergio viu quando Sienna abriu a porta e saiu lentamente, carregando consigo tudo que já havia deixado lá.
Dias se passaram sem notícias de Sienna. Sergio se viu sentando-se na poltrona ao lado do telefone e ligando a cada momento para a casa dela. Ora deixava recados agressivos, ora apaixonados, pedindo perdão. Ela nunca atendera.
Até a noite em que Sergio resolveu atear fogo em sua camisa rasgada.
O telefone tocou enquanto Sergio estava na cozinha, tentando se concentrar em algo para comer. Sem atender, a ligação foi atendida pela secretária eletrônica.
- Sergio, eu cansei dessa vida. Eu sou uma idiota, você não sabe o quanto estou me odiando neste momento, mas eu quero você. Eu quero você de verdade, com amor - o recado havia terminado assim.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa antiga e com vários móveis, encontrava-se Sienna. Sentada em um grande sofá macio e em um ambiente desorganizado, ela olhou para o espelho a sua frente. O reflexo mostrava Sergio, um Sergio real, que usava uma camiseta branca amarelada, entrando em sua casa.
- Eu também - ele disse a única coisa que ela queria ouvir.
julho 29, 2010
Eufemismos
Eu pensei em muitos meios de começar esta carta. Pensei em escrever "Querido Rocco", mas em voz alta soou clichê. Pensei em tentar com apenas um "Olá", ou talvez como eu gostava de chamar você, "Pequeno Grande Rocco". Se eu começasse esta carta com "Meu Rocco" pareceria que você ainda é meu - mesmo eu sentindo que sempre será -, ou se começasse com somente "Rocco" eu aumentaria o pequeno abismo que ainda insisto em tentar pular. Estamos longe de sermos meros desconhecidos ou colegas casuais, estamos longe de sermos amantes ou apaixonados. Nós só encontramos um no outro nós mesmos.
Você achará covardia de minha parte, e eu também acho covardia escrever tudo aqui e simplesmente enviar a você. Como se tudo fosse como uma folha nova de outono caída no chão, que meramente pisamos e a sujamos, mas passamos batido. No entanto, não haveria motivos para voltar, abaixar e limpar a folha. Como nós.
Eu gosto de contar e recontar como nos conhecemos. Você sempre acreditou em destino e eu em coincidências, mas não importa o que aconteceu aquele dia. Não agora.
Acredito que nunca contei a parte em que sonhara com você antes mesmo de nos encontrarmos fisicamente. Você não acreditaria. Eu gostei daquele primeiro dia em que você passou com seu cachorro na minha rua e eu ainda estava de pijama. Saí para pegar as correspondências e você me olhou. Você não olhou para minha camisola de seda, nem para meu decote. Você olhou em meus olhos. E aquilo que deve ter durado dois segundos, equivaleu a dois minutos para mim. Clichê, ponto.
Você sempre achou mais importante quando nos falamos, quando nos conhecemos de fato. Quando você estendeu a toalha para me secar. Talvez eu nunca mais me sinta protegida como aquele dia, quando chovia e aqueles dois homens me seguiram pela rua solitária. Quando você estava saindo de casa e reparou. O exato minuto em que me abraçou olhando para os homens e disse em tom audível que já estava saindo para se encontrar comigo, que sentira minha falta. Quando você me levou para dentro da sua casa, esperou que passassem e pegou uma toalha.
Você diz que se apaixonou por mim aí. Eu me apaixonei quando me abraçou.
Ficamos juntos a partir daquela chuva, ficamos juntos até eu achar que seria para sempre. Quando homens me seguirem novamente, vou esperar que você saia de alguma casa me abraçando, dizendo que sentiu minha falta.
Eu vou sentir sua falta. De quando você penteava o cabelo para trás e pedia para eu desarrumar. E sorrindo me abraçava. Dos dias em que eu inventava de sair na chuva e fingir que era uma desconhecida, para fazermos tudo novamente. Eu vou sentir falta de quando você deitava na minha barriga e se cobria até a cabeça com o cobertor para eu cuidar de você. Sentirei falta de quando você colocava minhas músicas favoritas e desenhava círculos em meu braço. Sentirei falta do dia em que nós fomos até a praça, durante a noite, para andar com um guarda-chuva quebrado - sendo que não chovia.
E eu ainda não entendi porque sinto isso, mas não posso mais. Eu sinto isso. Você uma vez me disse que ás vezes sentimos coisas que não entendemos, então espero que aceite isso bem. Não podemos mais.
Terei que lavar meus travesseiros para tirar seu cheio protetor dele, terei que queimar nossas fotos - mesmo querendo salvar aquela em que estamos no vento, você sorrindo e eu fingindo que chorava, terei que ir para casa sem passar na sua rua.
Você sabe que não sou ciumenta ou preocupada, que sou segura o suficiente. No entanto, você está estranho. Não é mais o mesmo. As pessoas sempre nos falaram que coisas assim aconteceriam, que esfriaríamos. E nós sempre dizíamos que não conosco. Agora eu me pergunto "Por que não conosco?".
Vou viajar. Decidi que tenho que ficar fora por um tempo. Para reencontrar a pessoa que eu era antes de você me salvar. Antes de acontecer a coisa mais linda da minha vida.
Eu amo você, e esse amor será para sempre, mesmo eu não o sentindo agora.
Um beijo, um abraço, um aconchego com seu cobertor, um guarda-chuva para noites quentes, o meu coração.
Boa noite.
Você achará covardia de minha parte, e eu também acho covardia escrever tudo aqui e simplesmente enviar a você. Como se tudo fosse como uma folha nova de outono caída no chão, que meramente pisamos e a sujamos, mas passamos batido. No entanto, não haveria motivos para voltar, abaixar e limpar a folha. Como nós.
Eu gosto de contar e recontar como nos conhecemos. Você sempre acreditou em destino e eu em coincidências, mas não importa o que aconteceu aquele dia. Não agora.
Acredito que nunca contei a parte em que sonhara com você antes mesmo de nos encontrarmos fisicamente. Você não acreditaria. Eu gostei daquele primeiro dia em que você passou com seu cachorro na minha rua e eu ainda estava de pijama. Saí para pegar as correspondências e você me olhou. Você não olhou para minha camisola de seda, nem para meu decote. Você olhou em meus olhos. E aquilo que deve ter durado dois segundos, equivaleu a dois minutos para mim. Clichê, ponto.
Você sempre achou mais importante quando nos falamos, quando nos conhecemos de fato. Quando você estendeu a toalha para me secar. Talvez eu nunca mais me sinta protegida como aquele dia, quando chovia e aqueles dois homens me seguiram pela rua solitária. Quando você estava saindo de casa e reparou. O exato minuto em que me abraçou olhando para os homens e disse em tom audível que já estava saindo para se encontrar comigo, que sentira minha falta. Quando você me levou para dentro da sua casa, esperou que passassem e pegou uma toalha.
Você diz que se apaixonou por mim aí. Eu me apaixonei quando me abraçou.
Ficamos juntos a partir daquela chuva, ficamos juntos até eu achar que seria para sempre. Quando homens me seguirem novamente, vou esperar que você saia de alguma casa me abraçando, dizendo que sentiu minha falta.
Eu vou sentir sua falta. De quando você penteava o cabelo para trás e pedia para eu desarrumar. E sorrindo me abraçava. Dos dias em que eu inventava de sair na chuva e fingir que era uma desconhecida, para fazermos tudo novamente. Eu vou sentir falta de quando você deitava na minha barriga e se cobria até a cabeça com o cobertor para eu cuidar de você. Sentirei falta de quando você colocava minhas músicas favoritas e desenhava círculos em meu braço. Sentirei falta do dia em que nós fomos até a praça, durante a noite, para andar com um guarda-chuva quebrado - sendo que não chovia.
E eu ainda não entendi porque sinto isso, mas não posso mais. Eu sinto isso. Você uma vez me disse que ás vezes sentimos coisas que não entendemos, então espero que aceite isso bem. Não podemos mais.
Terei que lavar meus travesseiros para tirar seu cheio protetor dele, terei que queimar nossas fotos - mesmo querendo salvar aquela em que estamos no vento, você sorrindo e eu fingindo que chorava, terei que ir para casa sem passar na sua rua.
Você sabe que não sou ciumenta ou preocupada, que sou segura o suficiente. No entanto, você está estranho. Não é mais o mesmo. As pessoas sempre nos falaram que coisas assim aconteceriam, que esfriaríamos. E nós sempre dizíamos que não conosco. Agora eu me pergunto "Por que não conosco?".
Vou viajar. Decidi que tenho que ficar fora por um tempo. Para reencontrar a pessoa que eu era antes de você me salvar. Antes de acontecer a coisa mais linda da minha vida.
Eu amo você, e esse amor será para sempre, mesmo eu não o sentindo agora.
Um beijo, um abraço, um aconchego com seu cobertor, um guarda-chuva para noites quentes, o meu coração.
Boa noite.
julho 23, 2010
Um telefonema
Meu quarto estava desarrumado, a colcha que deveria estar na cama já estava jogada no chão e minha jaqueta caíra da poltrona. O sol iluminava metade da minha cama e alcançava o tronco de Levi, que usava a camiseta branca que eu fizera.
Nós estávamos sentados um de frente para o outro. Minhas pernas estavam esticadas de modo que meus pés ficavam no colo dele. Aproveitando-se de nossa posição, Levi passava a mão por minha panturrilha, e quando se inclinava um pouco, brincava com meus joelhos.
Eu prendi meu cabelo em um coque desgrenhado que teimava em se soltar cada vez que eu cedia à brincadeira e jogava minha cabeça para trás. Era fácil ceder a qualquer coisa quando estava com Levi. Nós quase não discutíamos, sempre gostamos um do outro mesmo discordando da maioria das coisas. Nunca tivemos ciúmes um do outro - nenhum ciúme pronunciado, pelo menos -, porque sabemos que estamos juntos, mas que não somos donos um do outro.
Levi sempre despertou algo em mim. Afinal, eu sempre tive preferência por homens, não por garotos. E eu gosto do jeito como ele deixa o cabelo castanho claro para trás, da barba rala que faz cócegas quando toca meu rosto, de toda a altura incomparável dele e do mais incrível, o sorriso - mesmo ele não o exibindo muito.
Para nós não precisarmos sair da cama, eu deixei o telefone ao meu lado. Eva disse que ligaria para mim logo depois do almoço. Levi aparecera de surpresa e ele mesmo preparara algo para comermos.
O telefonema daquele dia talvez tenha sido o grande causador de tudo o que aconteceu.
Estávamos brincando com a luz do sol na minha perna quando o telefone tocou. Coloquei no viva voz. Conversamos um pouco até chegar ao principal motivo da ligação.
"Aurora", a voz dela era envergonhada, "o Levi não está aí, não é?".
"Não, Eva, pode falar", Levi sorriu quando eu menti.
"Vocês já dormiram juntos?". Ela fora rápida e direta.
"Já. Quando ele dorme aqui, sim".
"Não estou falando disso", e continuou como uma repreensão "Você sabe do que eu estou falando...".
Eu soltei um riso abafado.
"Ah, é claro. Não, isso ainda não", disse olhando para ele. "Logo, logo", acrescentei sorrindo.
Levi gesticulou e eu entendi quando ele proferiu "Que ótima notícia" sorrindo.
Não deu tempo de me despedir de Eva, pois ele mesmo puxara o fio do telefone e o deixara mudo.
Surpreendentemente fiquei agradecida, não queria falar com mais ninguém, nem pensar em mais nada, e muito menos fazer outra coisa a não ser aquilo que estávamos fazendo.
Com a cabeça pendurada como antes, tentei puxar algum assunto.
"Qual seu tipo de mulher, Levi?", perguntei.
Ouvi quando ele riu baixinho. Inclinei-me para ver seu rosto e ele, olhando para minhas pernas, tirou-as de seu colo e ajeitou a calça jeans.
"Eu gosto de mulheres mais novas, que têm cabelos castanhos compridos e que os usa em um coque bagunçado", ele fez uma pausa e piscara para mim.
Não estava mais sentado, estava ajoelhado sobre a cama.
"O meu tipo de mulher," disse continuando, "tem que ter olhos castanhos", seus joelhos o traziam aos poucos para os meus, "tem que ser mediana, ter pernas macias o suficiente para eu brincar com elas, mentir para as amigas sobre o meu paradeiro".
Ele parou de falar quando estava com o corpo esguio sobre o meu, que já estava deitado.
"Os cabelos dela têm que se soltar do coque toda vez que ela se deitar", disse passando a mão por meus cabelos livres e completou "e tem que ser a pessoa mais incrível que eu já tenha visto".
"E não se esqueça que ela não gosta de ficar por baixo, mon amour", eu disse enquanto contornava os longos braços dele e me apossava de seu tronco, que agora repousava sobre a cama.
Lentamente, eu desabotoei minha camisa e a joguei onde estava minha jaqueta. Ele pôs as mãos nos olhos sorrindo.
"E qual é o seu tipo de homem, Aurora?", ele perguntou colocando as mãos nas minhas costas e me abaixando para um beijo.
"Aquele tipo que gosta de me descrever fingindo que não sou eu", respondi.
Levi sorriu.
Eu não dormi depois de ficarmos juntos. Levantei-me quando ele adormecera e fui para o banheiro. Passei pelo espelho e meu cabelo estava todo ensebado de suor. Decidi tomar um banho.
A água gelada caía e eu me ensaboava pouco. Distraída, pensava em Levi quando ele mesmo abriu a porta.
"Não precisa fechar a porta, já vi o que tinha que ver, pequena", ele disse.
"É a força do hábito", respondi de dentro da banheira. Estava de olhos fechados.
Quando virei o rosto para a direção de sua voz, vi que ele estava enrolado no meu lençol.
"Não precisa usar um lençol, já vi o que tinha que ver", disse rindo por poder repetir sua fala.
"Eu achei que para o que vou fazer agora precisasse", ele respondeu, mas eu não havia entendido.
Ele se ajoelhou ao meu lado, pôs a mão dentro da banheira para procurar minha mão, e quando a achou, roçou seus dedos por meus quadris. Segurando-a firme, mas suavemente, ele sorriu.
"O que você responderia se eu pedisse nesse exato momento para você casar comigo?"
Surpresa, fechei os olhos e respirei fundo.
"Diria que sempre foi meu sonho ser pedida em casamento dentro do meu banheiro, pelada", eu sorri. "E aceitaria, é claro!", completei.
Ele soltou minha mão, levantou-se, retirou o lençol dos quadris e entrou na banheira, na minha frente. Pegou minhas pernas e começou a brincar com elas. Levi jogou a cabeça para trás e disse que me amava.
"Eu sei", respondi.
Nós estávamos sentados um de frente para o outro. Minhas pernas estavam esticadas de modo que meus pés ficavam no colo dele. Aproveitando-se de nossa posição, Levi passava a mão por minha panturrilha, e quando se inclinava um pouco, brincava com meus joelhos.
Eu prendi meu cabelo em um coque desgrenhado que teimava em se soltar cada vez que eu cedia à brincadeira e jogava minha cabeça para trás. Era fácil ceder a qualquer coisa quando estava com Levi. Nós quase não discutíamos, sempre gostamos um do outro mesmo discordando da maioria das coisas. Nunca tivemos ciúmes um do outro - nenhum ciúme pronunciado, pelo menos -, porque sabemos que estamos juntos, mas que não somos donos um do outro.
Levi sempre despertou algo em mim. Afinal, eu sempre tive preferência por homens, não por garotos. E eu gosto do jeito como ele deixa o cabelo castanho claro para trás, da barba rala que faz cócegas quando toca meu rosto, de toda a altura incomparável dele e do mais incrível, o sorriso - mesmo ele não o exibindo muito.
Para nós não precisarmos sair da cama, eu deixei o telefone ao meu lado. Eva disse que ligaria para mim logo depois do almoço. Levi aparecera de surpresa e ele mesmo preparara algo para comermos.
O telefonema daquele dia talvez tenha sido o grande causador de tudo o que aconteceu.
Estávamos brincando com a luz do sol na minha perna quando o telefone tocou. Coloquei no viva voz. Conversamos um pouco até chegar ao principal motivo da ligação.
"Aurora", a voz dela era envergonhada, "o Levi não está aí, não é?".
"Não, Eva, pode falar", Levi sorriu quando eu menti.
"Vocês já dormiram juntos?". Ela fora rápida e direta.
"Já. Quando ele dorme aqui, sim".
"Não estou falando disso", e continuou como uma repreensão "Você sabe do que eu estou falando...".
Eu soltei um riso abafado.
"Ah, é claro. Não, isso ainda não", disse olhando para ele. "Logo, logo", acrescentei sorrindo.
Levi gesticulou e eu entendi quando ele proferiu "Que ótima notícia" sorrindo.
Não deu tempo de me despedir de Eva, pois ele mesmo puxara o fio do telefone e o deixara mudo.
Surpreendentemente fiquei agradecida, não queria falar com mais ninguém, nem pensar em mais nada, e muito menos fazer outra coisa a não ser aquilo que estávamos fazendo.
Com a cabeça pendurada como antes, tentei puxar algum assunto.
"Qual seu tipo de mulher, Levi?", perguntei.
Ouvi quando ele riu baixinho. Inclinei-me para ver seu rosto e ele, olhando para minhas pernas, tirou-as de seu colo e ajeitou a calça jeans.
"Eu gosto de mulheres mais novas, que têm cabelos castanhos compridos e que os usa em um coque bagunçado", ele fez uma pausa e piscara para mim.
Não estava mais sentado, estava ajoelhado sobre a cama.
"O meu tipo de mulher," disse continuando, "tem que ter olhos castanhos", seus joelhos o traziam aos poucos para os meus, "tem que ser mediana, ter pernas macias o suficiente para eu brincar com elas, mentir para as amigas sobre o meu paradeiro".
Ele parou de falar quando estava com o corpo esguio sobre o meu, que já estava deitado.
"Os cabelos dela têm que se soltar do coque toda vez que ela se deitar", disse passando a mão por meus cabelos livres e completou "e tem que ser a pessoa mais incrível que eu já tenha visto".
"E não se esqueça que ela não gosta de ficar por baixo, mon amour", eu disse enquanto contornava os longos braços dele e me apossava de seu tronco, que agora repousava sobre a cama.
Lentamente, eu desabotoei minha camisa e a joguei onde estava minha jaqueta. Ele pôs as mãos nos olhos sorrindo.
"E qual é o seu tipo de homem, Aurora?", ele perguntou colocando as mãos nas minhas costas e me abaixando para um beijo.
"Aquele tipo que gosta de me descrever fingindo que não sou eu", respondi.
Levi sorriu.
Eu não dormi depois de ficarmos juntos. Levantei-me quando ele adormecera e fui para o banheiro. Passei pelo espelho e meu cabelo estava todo ensebado de suor. Decidi tomar um banho.
A água gelada caía e eu me ensaboava pouco. Distraída, pensava em Levi quando ele mesmo abriu a porta.
"Não precisa fechar a porta, já vi o que tinha que ver, pequena", ele disse.
"É a força do hábito", respondi de dentro da banheira. Estava de olhos fechados.
Quando virei o rosto para a direção de sua voz, vi que ele estava enrolado no meu lençol.
"Não precisa usar um lençol, já vi o que tinha que ver", disse rindo por poder repetir sua fala.
"Eu achei que para o que vou fazer agora precisasse", ele respondeu, mas eu não havia entendido.
Ele se ajoelhou ao meu lado, pôs a mão dentro da banheira para procurar minha mão, e quando a achou, roçou seus dedos por meus quadris. Segurando-a firme, mas suavemente, ele sorriu.
"O que você responderia se eu pedisse nesse exato momento para você casar comigo?"
Surpresa, fechei os olhos e respirei fundo.
"Diria que sempre foi meu sonho ser pedida em casamento dentro do meu banheiro, pelada", eu sorri. "E aceitaria, é claro!", completei.
Ele soltou minha mão, levantou-se, retirou o lençol dos quadris e entrou na banheira, na minha frente. Pegou minhas pernas e começou a brincar com elas. Levi jogou a cabeça para trás e disse que me amava.
"Eu sei", respondi.
julho 15, 2010
Tempo para sonhar
Chovia muito e o barulho da água caindo nas telhas era alto. Era noite e era impossível ver um pouco mais que nuvens cobrindo a lua e as estrelas. Cansada de esperar tanto, Adele deitou-se na cama de casal, segurando o travesseiro de seu marido que se atrasara mais uma vez, e pedia em silêncio "Oh, Deus, que ele não beba essa noite!".
Estando deitada, poucos minutos foram necessários para ela adormecer.
Abriu os olhos aos poucos e sentiu braços envolvendo seu corpo. Não pôde deixar de sorrir.
O homem que a segurava pôs a boca em sua orelha e sussurrou "Feliz aniversário, minha amada". Adele, ainda de costas, segurou firme a mão dele em resposta.
- Obrigada! E que bom que você está assim.. Bem - disse ela se virando e deparando com um homem completamente diferente daquele que ela esperara que fosse.
Ela se afastou com rapidez do homem e levantou-se carregando o lençol cobrindo seu corpo. Ele continuou deitado, usava somente uma calça de pijama, era alto, um pouco grisalho e seus olhos eram azuis. Seu sorriso era hipnotizante.
- Você pode me dizer quem é? - Adele gritava.
- Isso de novo, Adele?!
- Ah, é claro que você sabe meu nome! Seu pervertido, quem é você? - ela estava ficando agressiva.
Ele se levantou calmamente, ajustou a calça na altura dos quadris e contornou a cama para encontrar Adele.
- Meu nome é Sebastian, Adele, pela milionésima vez! - ele respondeu se aproximando.
Adele pensou em pegar o abajur e se virou na direção do criado mudo. Pegando-o na mão, o abajur esbarrou no porta-retratos que caiu no chão e quebrou.
- Que droga! Viu o que você fez? - ela disse enquanto abaixava e ao mesmo tempo encarava o intruso.
O abajur estalou no chão quando ela olhou quem estava na foto. Era ela e Marcus, seu marido, em sua lua-de-mel.
- Onde está o meu marido? - ela se sentou na cama, seu corpo entrando em inércia.
- Eu sou seu marido - ele respondeu.
Sebastian sentou ao lado de Adele, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - Sebastian disse beijando-a.
A música favorita de Adele começou a tocar em sua cabeça, e aquele beijo era diferente de todos. Não parecia nada com o beijo com gosto de cerveja do Marcus. Adele se entregou, pôs as mãos na nuca de Sebastian e esqueceu de fazer mais perguntas.
- Você está linda hoje. Envelhecer faz tão bem a você. - Sebastian dizia isso enquanto deitava Adele novamente, para envolvê-la novamente.
Minutos passaram até que Adele rompesse o silêncio.
- Espero que você seja meu presente de aniversário, Sebastian. Espero que você seja real. Eu amo o Marcus, mas...
- Eu sei - Sebastian interrompeu -, mas ele faz você sofrer demais. Eu mesmo, que não tenho nenhum contato direto com ele, não suporto o que ele faz quando bebe. Você não sabe o quanto meu coração se parte ao vê-la padecer na mão dele.
Ela se voltou na direção de Sebastian e o olhou nos olhos.
- Você tem olhos tão bonitos.. - ela disse passando a mão sobre as pálpebras de Sebastian. - Mas como você me conhece? - seu tom de voz era delicado.
- Esqueça isso, Adele. Só pense que sou seu presente de aniversário.
Sebastian colocou suavemente a mão esquerda na coxa de Adele e a puxou sobre o seu corpo. Ela sorriu. Ele era tranqüilo, delicado, concentrado. Tudo o que Marcus era antes de aquilo acontecer.
- Não quero que você pense na sua filha essa noite - ele disse retirando a alça da camisola do ombro dela.
Ela encaixou seu rosto na omoplata dele e fechou os olhos. Ficou de olhos fechados o tempo todo. O máximo que Adele fazia era acariciar o cabelo de Sebastian.
- Sebastian - ela chamou depois que o silêncio dominou o quarto -, você dormiu? Não me deixe acordada e sozinha hoje.
- Estou acordado, mon chéri. Estava pensando em você e no Marcus... - virou-se para a direção dela e se apoiou pelo braço - Adele, você já disse que o acidente não foi culpa dele?
- Já, Sebastian! - ela ficou vermelha.
- Adele, diga-me a verdade, você realmente acredita que a culpa foi dele?
Ela respirou fundo e os olhos encheram-se de lágrimas.
- Não.
Sebastian a abraçou novamente.
- Você acha que ele bebeu naquela noite? - ele sussurrou.
- Sim. - as primeiras lágrimas de Adele começavam a cair.
- Mas não bebeu. Não foi culpa dele. Acredite em mim. - Sebastian dizia e passava o dedo para reter o choro dela. - Você precisa acreditar para libertá-lo disso. Libertar vocês dois.
Gotas de chuva começaram a cair no rosto de Adele. E ela acordou quando a porta da sala abriu e um barulho estrondoso atravessou os cômodos. Ela olhou pela janela, seus olhos rodearam o quarto e não via nenhum vestígio da passagem de Sebastian. Não havia nem cacos de vidro no carpete.
O barulho foi se aproximando, e ele gritava injúrias.
A porta do quarto abrira e Marcus adentrava o cômodo cantando parabéns. Seu tom era rude e ele substituiu o nome de sua esposa por ofensas.
Adele levantou e andou até ele, ainda vestia sua camisola. Em sua cabeça ecoava as últimas palavras de Sebastian.
- Marcus... - ela tentou.
Adele foi interrompida quando Marcus levantou a mão para ela e um tapa cortou o ar e os lábios da pequena sonhadora, que fora parar no chão.
Ela batera as costas no criado mudo e o porta-retratos caiu, deixando cacos de vidro espalhados pelo chão.
- Marcus! Marcus! - ela chorava - Não foi sua culpa, meu amor! Não foi sua culpa!
As palavras pareciam tê-lo irrompido.
Marcus sentou na cama e começou a chorar.
Longos minutos se passaram, até que ele deu a mão para Adele e a colocou na cama ao seu lado, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - ele disse beijando-a.
O pouco de sangue se misturou no beijo, mas isso não mais importava.
Estando deitada, poucos minutos foram necessários para ela adormecer.
Abriu os olhos aos poucos e sentiu braços envolvendo seu corpo. Não pôde deixar de sorrir.
O homem que a segurava pôs a boca em sua orelha e sussurrou "Feliz aniversário, minha amada". Adele, ainda de costas, segurou firme a mão dele em resposta.
- Obrigada! E que bom que você está assim.. Bem - disse ela se virando e deparando com um homem completamente diferente daquele que ela esperara que fosse.
Ela se afastou com rapidez do homem e levantou-se carregando o lençol cobrindo seu corpo. Ele continuou deitado, usava somente uma calça de pijama, era alto, um pouco grisalho e seus olhos eram azuis. Seu sorriso era hipnotizante.
- Você pode me dizer quem é? - Adele gritava.
- Isso de novo, Adele?!
- Ah, é claro que você sabe meu nome! Seu pervertido, quem é você? - ela estava ficando agressiva.
Ele se levantou calmamente, ajustou a calça na altura dos quadris e contornou a cama para encontrar Adele.
- Meu nome é Sebastian, Adele, pela milionésima vez! - ele respondeu se aproximando.
Adele pensou em pegar o abajur e se virou na direção do criado mudo. Pegando-o na mão, o abajur esbarrou no porta-retratos que caiu no chão e quebrou.
- Que droga! Viu o que você fez? - ela disse enquanto abaixava e ao mesmo tempo encarava o intruso.
O abajur estalou no chão quando ela olhou quem estava na foto. Era ela e Marcus, seu marido, em sua lua-de-mel.
- Onde está o meu marido? - ela se sentou na cama, seu corpo entrando em inércia.
- Eu sou seu marido - ele respondeu.
Sebastian sentou ao lado de Adele, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - Sebastian disse beijando-a.
A música favorita de Adele começou a tocar em sua cabeça, e aquele beijo era diferente de todos. Não parecia nada com o beijo com gosto de cerveja do Marcus. Adele se entregou, pôs as mãos na nuca de Sebastian e esqueceu de fazer mais perguntas.
- Você está linda hoje. Envelhecer faz tão bem a você. - Sebastian dizia isso enquanto deitava Adele novamente, para envolvê-la novamente.
Minutos passaram até que Adele rompesse o silêncio.
- Espero que você seja meu presente de aniversário, Sebastian. Espero que você seja real. Eu amo o Marcus, mas...
- Eu sei - Sebastian interrompeu -, mas ele faz você sofrer demais. Eu mesmo, que não tenho nenhum contato direto com ele, não suporto o que ele faz quando bebe. Você não sabe o quanto meu coração se parte ao vê-la padecer na mão dele.
Ela se voltou na direção de Sebastian e o olhou nos olhos.
- Você tem olhos tão bonitos.. - ela disse passando a mão sobre as pálpebras de Sebastian. - Mas como você me conhece? - seu tom de voz era delicado.
- Esqueça isso, Adele. Só pense que sou seu presente de aniversário.
Sebastian colocou suavemente a mão esquerda na coxa de Adele e a puxou sobre o seu corpo. Ela sorriu. Ele era tranqüilo, delicado, concentrado. Tudo o que Marcus era antes de aquilo acontecer.
- Não quero que você pense na sua filha essa noite - ele disse retirando a alça da camisola do ombro dela.
Ela encaixou seu rosto na omoplata dele e fechou os olhos. Ficou de olhos fechados o tempo todo. O máximo que Adele fazia era acariciar o cabelo de Sebastian.
- Sebastian - ela chamou depois que o silêncio dominou o quarto -, você dormiu? Não me deixe acordada e sozinha hoje.
- Estou acordado, mon chéri. Estava pensando em você e no Marcus... - virou-se para a direção dela e se apoiou pelo braço - Adele, você já disse que o acidente não foi culpa dele?
- Já, Sebastian! - ela ficou vermelha.
- Adele, diga-me a verdade, você realmente acredita que a culpa foi dele?
Ela respirou fundo e os olhos encheram-se de lágrimas.
- Não.
Sebastian a abraçou novamente.
- Você acha que ele bebeu naquela noite? - ele sussurrou.
- Sim. - as primeiras lágrimas de Adele começavam a cair.
- Mas não bebeu. Não foi culpa dele. Acredite em mim. - Sebastian dizia e passava o dedo para reter o choro dela. - Você precisa acreditar para libertá-lo disso. Libertar vocês dois.
Gotas de chuva começaram a cair no rosto de Adele. E ela acordou quando a porta da sala abriu e um barulho estrondoso atravessou os cômodos. Ela olhou pela janela, seus olhos rodearam o quarto e não via nenhum vestígio da passagem de Sebastian. Não havia nem cacos de vidro no carpete.
O barulho foi se aproximando, e ele gritava injúrias.
A porta do quarto abrira e Marcus adentrava o cômodo cantando parabéns. Seu tom era rude e ele substituiu o nome de sua esposa por ofensas.
Adele levantou e andou até ele, ainda vestia sua camisola. Em sua cabeça ecoava as últimas palavras de Sebastian.
- Marcus... - ela tentou.
Adele foi interrompida quando Marcus levantou a mão para ela e um tapa cortou o ar e os lábios da pequena sonhadora, que fora parar no chão.
Ela batera as costas no criado mudo e o porta-retratos caiu, deixando cacos de vidro espalhados pelo chão.
- Marcus! Marcus! - ela chorava - Não foi sua culpa, meu amor! Não foi sua culpa!
As palavras pareciam tê-lo irrompido.
Marcus sentou na cama e começou a chorar.
Longos minutos se passaram, até que ele deu a mão para Adele e a colocou na cama ao seu lado, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - ele disse beijando-a.
O pouco de sangue se misturou no beijo, mas isso não mais importava.
julho 12, 2010
julho 05, 2010
A vida é curta demais para vivê-la em vão
Quando acordei o céu estava cheio de nuvens de chuva e a neblina embaçava a visão dos trabalhadores que saíam cedo, e a minha. Era quinta feira, e eu não estava saindo para trabalhar.
Levantei-me com o máximo de cuidado possível, troquei-me de roupa e fui até o banheiro, onde vira minha cara amassada e escovara os dentes. Fui silenciosamente até a cozinha e preparei um café, peguei meu maço de cigarros na sala e saí de casa, sem fazer barulho algum.
Assim minha mãe não acordaria.
Acordei com um barulho vindo da cozinha. Primeiramente pensei que Matteu estivesse com sede, não me importei.
Olhei pela janela e vi que o céu estava escuro e nublado, mas já havia amanhecido.
Sempre que vejo o céu nublado, lembro dos dias felizes que passamos nessa casa antes "dele" ir embora. Sinto tanta falta do meu marido, do meu amante, do pai do meu filho, que às vezes tenho vontade de acabar com tudo. Mas então Matteu me vem à cabeça, e decido continuar com tudo.
Quando liguei o carro, torci para que ela não notasse que barulho do motor vinha da nossa garagem. Acho ridículo ter que sair escondido, mas o que estou indo fazer ela nunca permitiria. Minha mãe diz ter aversão a "tatuagens".
Dirigi fumando um cigarro, esqueci minha mãe ou qualquer preocupação. O som do carro tocara minha música favorita e minha jaqueta vibrava a cada batida mais forte.
Ouvi um barulho de carro saindo da garagem. Quando meus pensamentos entraram em sintonia, levantei-me correndo e fui para o quarto de Matteu. A cama estava somente com o pijama largado em cima.
Corri para a sala com esperança de encontrá-lo e vi que a chave do carro não estava ao lado do cinzeiro e que o maço de cigarros não estava na mesa de centro. Naquele momento entendi onde Matteu fora.
Minha cabeça girou e lembrei que saí da cama muito rápido. Desmaiei.
Não teria muito sentido eu ir para o estúdio às sete da manhã. Dirigi horas sem rumo enquanto minha mãe tentava falar comigo pelo celular. Antes de desligá-lo vi o aviso de treze ligações perdidas.
No entanto, meu coração bateu forte e lembrei do meu pai.
Entrei onde a placa indicava "Retorno".
Quando despertei, minha cabeça doía e tive que deitar no sofá branco, mesmo sujando-o, para me acalmar.
Peguei o telefone e liguei diversas vezes para meu filho, até o celular indicar que estava desligado. Desisti.
Inclinei minha cabeça e me deparei com o porta-retratos em cima da mesinha, onde tinha uma foto de nós três. Eu abraçada à ele, ele abraçado ao Matteu.
Matteu, desde que cortou o cabelo castanho bem rente, está mais parecido com o pai. Os olhos cor de mel eram como os meus, mas a boca, o nariz e o sorriso eram "dele".
Comecei a chorar.
Parei o carro na frente do cemitério e exitei ao entrar. Cemitérios me deixavam atordoado, e imaginar que meu pai estava ali acabava comigo.
Antes de adentrar, comprei flores para pôr em sua lápide.
Quando criei coragem suficiente para entrar, caminhei olhando para os lados e avistei meu pai. Depositei as flores e lembrei de tudo. Comecei a chorar, saí correndo.
Voltei para o carro e me dirigi ao estúdio.
Peguei no sono abraçada ao porta-retratos e com o telefone na mão.
Não havia ninguém aguardando na minha frente, mas quando o tatuador saiu, uma moça linda o acompanhava. Não duvido que aquela fosse a mais bela mulher que já vira. Ela sorriu para mim e se despediu do tatuador. Seu sorriso pareceu quebrar tudo o que eu tinha por dentro.
E então ela saiu pela porta que entrei e o grandalhão careca me chamou. Era finalmente a minha vez.
Expliquei-lhe e ele entendeu tudo com facilidade. Fui de regata para ajudar no processo e quando terminou, ele fechou com um papel branco.
Minha nuca estava então desenhada.
Eu acordei quando o carro parou na frente de casa. Matteu vinha sorrindo e assobiando. Quando me viu sua cara fechou e se transformou numa máscara carrancuda.
"Matteu, diga que você não fez!", eu gritei.
Ele passou por mim sem dizer uma palavra. Segurei-o pelo braço, que apesar de forte, ainda era do meu filho.
"Matteu!", gritei ainda mais alto.
"O que foi?", ele disse com a voz abafada.
"Você fez uma tatuagem?", perguntei.
"Sim, senhora", e pôs a mão na testa, como em continência.
"Quem você pensa que é? Eu nunca autorizei isso, Matteu!", disse chacoalhando-o.
Ele retirou os braços da minha mão com força.
"Sinto muito, já está feita. Ah, aliás, o corpo é meu!", ele disse essa última parte gritando.
Bati-lhe a face.
"Enquanto morar na minha casa, você tem que obedecer o que eu digo", meu tom diminuiu.
"Ótimo, então vou embora!", ele abaixou o tom também.
Ele caminhou até o carro e ligou-o novamente.
"Adieu, mamãe", ele disse saindo com o carro.
Meu coração disparou quando ouvi.
Liguei o carro e saí olhando para o lado errado. Senti uma pressão em meu peito e um estrondo atravessou meus tímpanos.
Não vi mais nada, fechei os olhos.
Não sei o que senti quando vi aquele caminhão quebrando o carro do meu filho em dois. Nunca algo ardera tanto dentro de mim.
Corri na direção do carro quando vi Matteu de bruços no chão, ensangüentado.
Eu não o sentia respirar. Gritei socorro a todos, mas as pessoas só se aproximaram quando o carro começou a pegar fogo.
Tentei acordá-lo, mas ele não reagia. Pessoas tentavam me tirar de perto dele e do fogo. Mas não queria soltá-lo.
Pus a mão sobre a fita branca e a retirei da nuca.
Estava escrito "A vida muito curta para vivê-la em vão".
Gritei o máximo que pude, até sentir vários braços em minha volta e tudo ficar preto novamente. Desmaiei.
Matteu foi cremado e suas cinzas foram jogadas ao mar. Sinto falta dele, e às vezes penso em acabar com tudo. Mas não o faço porque ele não iria querer isso.
Ele me ensinou que a vida é curta demais para vivê-la em vão.
Levantei-me com o máximo de cuidado possível, troquei-me de roupa e fui até o banheiro, onde vira minha cara amassada e escovara os dentes. Fui silenciosamente até a cozinha e preparei um café, peguei meu maço de cigarros na sala e saí de casa, sem fazer barulho algum.
Assim minha mãe não acordaria.
Acordei com um barulho vindo da cozinha. Primeiramente pensei que Matteu estivesse com sede, não me importei.
Olhei pela janela e vi que o céu estava escuro e nublado, mas já havia amanhecido.
Sempre que vejo o céu nublado, lembro dos dias felizes que passamos nessa casa antes "dele" ir embora. Sinto tanta falta do meu marido, do meu amante, do pai do meu filho, que às vezes tenho vontade de acabar com tudo. Mas então Matteu me vem à cabeça, e decido continuar com tudo.
Quando liguei o carro, torci para que ela não notasse que barulho do motor vinha da nossa garagem. Acho ridículo ter que sair escondido, mas o que estou indo fazer ela nunca permitiria. Minha mãe diz ter aversão a "tatuagens".
Dirigi fumando um cigarro, esqueci minha mãe ou qualquer preocupação. O som do carro tocara minha música favorita e minha jaqueta vibrava a cada batida mais forte.
Ouvi um barulho de carro saindo da garagem. Quando meus pensamentos entraram em sintonia, levantei-me correndo e fui para o quarto de Matteu. A cama estava somente com o pijama largado em cima.
Corri para a sala com esperança de encontrá-lo e vi que a chave do carro não estava ao lado do cinzeiro e que o maço de cigarros não estava na mesa de centro. Naquele momento entendi onde Matteu fora.
Minha cabeça girou e lembrei que saí da cama muito rápido. Desmaiei.
Não teria muito sentido eu ir para o estúdio às sete da manhã. Dirigi horas sem rumo enquanto minha mãe tentava falar comigo pelo celular. Antes de desligá-lo vi o aviso de treze ligações perdidas.
No entanto, meu coração bateu forte e lembrei do meu pai.
Entrei onde a placa indicava "Retorno".
Quando despertei, minha cabeça doía e tive que deitar no sofá branco, mesmo sujando-o, para me acalmar.
Peguei o telefone e liguei diversas vezes para meu filho, até o celular indicar que estava desligado. Desisti.
Inclinei minha cabeça e me deparei com o porta-retratos em cima da mesinha, onde tinha uma foto de nós três. Eu abraçada à ele, ele abraçado ao Matteu.
Matteu, desde que cortou o cabelo castanho bem rente, está mais parecido com o pai. Os olhos cor de mel eram como os meus, mas a boca, o nariz e o sorriso eram "dele".
Comecei a chorar.
Parei o carro na frente do cemitério e exitei ao entrar. Cemitérios me deixavam atordoado, e imaginar que meu pai estava ali acabava comigo.
Antes de adentrar, comprei flores para pôr em sua lápide.
Quando criei coragem suficiente para entrar, caminhei olhando para os lados e avistei meu pai. Depositei as flores e lembrei de tudo. Comecei a chorar, saí correndo.
Voltei para o carro e me dirigi ao estúdio.
Peguei no sono abraçada ao porta-retratos e com o telefone na mão.
Não havia ninguém aguardando na minha frente, mas quando o tatuador saiu, uma moça linda o acompanhava. Não duvido que aquela fosse a mais bela mulher que já vira. Ela sorriu para mim e se despediu do tatuador. Seu sorriso pareceu quebrar tudo o que eu tinha por dentro.
E então ela saiu pela porta que entrei e o grandalhão careca me chamou. Era finalmente a minha vez.
Expliquei-lhe e ele entendeu tudo com facilidade. Fui de regata para ajudar no processo e quando terminou, ele fechou com um papel branco.
Minha nuca estava então desenhada.
Eu acordei quando o carro parou na frente de casa. Matteu vinha sorrindo e assobiando. Quando me viu sua cara fechou e se transformou numa máscara carrancuda.
"Matteu, diga que você não fez!", eu gritei.
Ele passou por mim sem dizer uma palavra. Segurei-o pelo braço, que apesar de forte, ainda era do meu filho.
"Matteu!", gritei ainda mais alto.
"O que foi?", ele disse com a voz abafada.
"Você fez uma tatuagem?", perguntei.
"Sim, senhora", e pôs a mão na testa, como em continência.
"Quem você pensa que é? Eu nunca autorizei isso, Matteu!", disse chacoalhando-o.
Ele retirou os braços da minha mão com força.
"Sinto muito, já está feita. Ah, aliás, o corpo é meu!", ele disse essa última parte gritando.
Bati-lhe a face.
"Enquanto morar na minha casa, você tem que obedecer o que eu digo", meu tom diminuiu.
"Ótimo, então vou embora!", ele abaixou o tom também.
Ele caminhou até o carro e ligou-o novamente.
"Adieu, mamãe", ele disse saindo com o carro.
Meu coração disparou quando ouvi.
Liguei o carro e saí olhando para o lado errado. Senti uma pressão em meu peito e um estrondo atravessou meus tímpanos.
Não vi mais nada, fechei os olhos.
Não sei o que senti quando vi aquele caminhão quebrando o carro do meu filho em dois. Nunca algo ardera tanto dentro de mim.
Corri na direção do carro quando vi Matteu de bruços no chão, ensangüentado.
Eu não o sentia respirar. Gritei socorro a todos, mas as pessoas só se aproximaram quando o carro começou a pegar fogo.
Tentei acordá-lo, mas ele não reagia. Pessoas tentavam me tirar de perto dele e do fogo. Mas não queria soltá-lo.
Pus a mão sobre a fita branca e a retirei da nuca.
Estava escrito "A vida muito curta para vivê-la em vão".
Gritei o máximo que pude, até sentir vários braços em minha volta e tudo ficar preto novamente. Desmaiei.
Matteu foi cremado e suas cinzas foram jogadas ao mar. Sinto falta dele, e às vezes penso em acabar com tudo. Mas não o faço porque ele não iria querer isso.
Ele me ensinou que a vida é curta demais para vivê-la em vão.
julho 03, 2010
Inorgânico
O porão era feito de madeira, com várias estantes cheias de livros e uma adega ao canto. E ela descia sempre que podia para ler um livro e beber uma taça de vinho.
Naquele dia ouviu um barulho de carro parando na frente de sua casa, subiu lentamente, caminhou em direção a porta e olhou, através do vidro, quem chegara.
Descalçou os chinelos e subiu para o quarto correndo. Abriu o armário e puxou uma camisa, enquanto habilmente desabotoava a calça jeans.
Já estava quase vestida quando ouviu os passos pela escada. No momento em que viu a sombra do motorista parando na frente da porta, ela se virou de costas.
"Fique aí, ainda não terminei de me vestir", ela gritou.
Um riso abafado atravessou a porta e a sombra parou atrás da parede.
Vestiu sua saia favorita e a arrumou com a camisa branca que gostava de usar, calçou seus tênis e saiu para o corredor, encarando frente a frente Benício. Ela sorriu envergonhada e o beijou a face.
"Desculpe, eu me distraí enquanto lia", ela disse timidamente.
Ele olhou a roupa que Marion usava e disse que ela estava realmente bela, enquanto a garota de cabelos castanhos enrubescia.
"Onde vamos hoje?", ela perguntou caminhando em direção a escada.
Rapidamente, Benício a pegou pela mão e começou a andar com ela.
"Estive pensando na praia", ele respondeu.
"É muito longe!", ela bufou.
"E você está com pressa?", ele finalizou a conversa.
Benício usava uma camiseta branca, bermuda e sapatos cáqui e os cabelos castanhos e lisos estavam em harmonia com a barba que recomeçara a nascer.
Eles desceram juntos e ele saiu pela porta dos fundos, a qual ele tinha a chave, enquanto ela saía pela porta da frente, que trancaria.
Quando Benício contornou a casa, Marion estava encostada no carro dele, usando óculos escuros e olhando para os lados.
Entraram no carro e fizeram uma longa viagem, parando somente uma vez para ela usar o banheiro. O rádio tocava sempre a mesma música. E sempre no mesmo trecho, os dois, como em coro, cantavam juntos.
"Ali está", ele disse.
Marion olhou em volta e viu a grande montanha, cheia de árvores. A praia logo embaixo e poucas pessoas caminhando pela orla. Ela havia percebido que estavam muito longe de casa, mas não imaginara o quanto até identificar o lugar.
"Você é louco!", ela disse sorrindo.
Ele estacionou o carro e os dois desceram. Marion andou até a areia e abriu os braços, sentindo o sol fraco fazer cócegas em sua pele. Até que Benício pôs as mãos em seu corpo e fez os pêlos se arrepiarem e se esquecerem do sol. Ela se virou e agarrou o pescoço dele, abraçando-o fortemente. Seus lábios se tocaram suavemente, como todas as vezes, e andaram de mãos dadas na direção do mar.
O mar estava calmo, suas ondas eram baixas e a água estava limpa. A areia estava limpa, o céu estava limpo, a alma de Marion estava limpa.
Deitaram-se na areia e Marion pôs a cabeça no tronco de Benício, fazendo um "T" humano. Ele acariciava o cabelo dela enquanto ela observava o movimento da água, que se aproximava do pé de Benício, mas não o suficiente para tocá-lo.
Conversaram sobre o sol e quando anoiteceu, sobre as estrelas. Imaginaram desenhos e histórias, ele a ouviu cantar e ela o admirou quando ele pegara no sono.
Faltando pouco tempo para o sol nascer, Benício acordou e delicadamente pegou-a no colo para não a despertar. Carregou-a até o carro e dirigiu de volta para casa.
Já era manhã quando o carro parou novamente na frente da casa. Ele a pegou no colo, mas ela acordou e decidiu não avisá-lo. Entraram pela porta dos fundos, ele carregou-a até a cama e despediu-se com um beijo na testa dela.
Marion voltou a dormir e Benício foi para sua casa, que ficava a alguns quilômetros dali.
Poucos dias se passaram e Marion já havia terminado o outro livro e começara um novo, da coleção de sua mãe. Quando se cansara, subiu com a taça de vinho para sua sala e ficou assistindo algum seriado que ela não acompanhava, mas que parecia a única coisa menos ruim na televisão.
Ouviu um barulho de carro e já sabia quem era. Descalçou os chinelos e subiu correndo, como um ritual, para o seu quarto. Trocou de roupa sem se importar com o tempo e ouviu, outra vez, os passos pela escada.
Faltava somente fechar o botão e o zíper de sua calça jeans do outro dia. Mas, sem pensar, Marion, para impedir que Benício a visse se trocando, foi de encontro a ele para mandar ele não entrar.
Quando percebeu, estavam um na frente do outro, ele ainda em um degrau da escada, com a cabeça na direção de seus ombros. Ela corou e ele sorriu. Olhando-a diretamente nos olhos, Benício pôs as mãos na calça dela, fechou o botão e subiu o zíper.
Beijou-lhe os lábios e disse um "Olá", quando ela o abraçou.
"Hoje é meu dia de decidir onde vamos?", ela perguntou.
"Não, hoje roubarei sua vez".
"Ótimo, estava sem idéia alguma. Qual sua sugestão?", disse ela aguardando resposta.
"Vamos ficar aqui", a voz dele estava tingida pela certeza.
Surpresa, ela aceitou.
Passaram o dia deitados no quarto dela, o amplo cômodo branco com detalhes vermelhos, escutando e cantando músicas.
Conversando sobre o sol e sobre as estrelas. Fazendo o jantar juntos. Bebendo vinho.
Dormindo abraçados, sem necessidade de libido algum.
Naquele dia ouviu um barulho de carro parando na frente de sua casa, subiu lentamente, caminhou em direção a porta e olhou, através do vidro, quem chegara.
Descalçou os chinelos e subiu para o quarto correndo. Abriu o armário e puxou uma camisa, enquanto habilmente desabotoava a calça jeans.
Já estava quase vestida quando ouviu os passos pela escada. No momento em que viu a sombra do motorista parando na frente da porta, ela se virou de costas.
"Fique aí, ainda não terminei de me vestir", ela gritou.
Um riso abafado atravessou a porta e a sombra parou atrás da parede.
Vestiu sua saia favorita e a arrumou com a camisa branca que gostava de usar, calçou seus tênis e saiu para o corredor, encarando frente a frente Benício. Ela sorriu envergonhada e o beijou a face.
"Desculpe, eu me distraí enquanto lia", ela disse timidamente.
Ele olhou a roupa que Marion usava e disse que ela estava realmente bela, enquanto a garota de cabelos castanhos enrubescia.
"Onde vamos hoje?", ela perguntou caminhando em direção a escada.
Rapidamente, Benício a pegou pela mão e começou a andar com ela.
"Estive pensando na praia", ele respondeu.
"É muito longe!", ela bufou.
"E você está com pressa?", ele finalizou a conversa.
Benício usava uma camiseta branca, bermuda e sapatos cáqui e os cabelos castanhos e lisos estavam em harmonia com a barba que recomeçara a nascer.
Eles desceram juntos e ele saiu pela porta dos fundos, a qual ele tinha a chave, enquanto ela saía pela porta da frente, que trancaria.
Quando Benício contornou a casa, Marion estava encostada no carro dele, usando óculos escuros e olhando para os lados.
Entraram no carro e fizeram uma longa viagem, parando somente uma vez para ela usar o banheiro. O rádio tocava sempre a mesma música. E sempre no mesmo trecho, os dois, como em coro, cantavam juntos.
"Ali está", ele disse.
Marion olhou em volta e viu a grande montanha, cheia de árvores. A praia logo embaixo e poucas pessoas caminhando pela orla. Ela havia percebido que estavam muito longe de casa, mas não imaginara o quanto até identificar o lugar.
"Você é louco!", ela disse sorrindo.
Ele estacionou o carro e os dois desceram. Marion andou até a areia e abriu os braços, sentindo o sol fraco fazer cócegas em sua pele. Até que Benício pôs as mãos em seu corpo e fez os pêlos se arrepiarem e se esquecerem do sol. Ela se virou e agarrou o pescoço dele, abraçando-o fortemente. Seus lábios se tocaram suavemente, como todas as vezes, e andaram de mãos dadas na direção do mar.
O mar estava calmo, suas ondas eram baixas e a água estava limpa. A areia estava limpa, o céu estava limpo, a alma de Marion estava limpa.
Deitaram-se na areia e Marion pôs a cabeça no tronco de Benício, fazendo um "T" humano. Ele acariciava o cabelo dela enquanto ela observava o movimento da água, que se aproximava do pé de Benício, mas não o suficiente para tocá-lo.
Conversaram sobre o sol e quando anoiteceu, sobre as estrelas. Imaginaram desenhos e histórias, ele a ouviu cantar e ela o admirou quando ele pegara no sono.
Faltando pouco tempo para o sol nascer, Benício acordou e delicadamente pegou-a no colo para não a despertar. Carregou-a até o carro e dirigiu de volta para casa.
Já era manhã quando o carro parou novamente na frente da casa. Ele a pegou no colo, mas ela acordou e decidiu não avisá-lo. Entraram pela porta dos fundos, ele carregou-a até a cama e despediu-se com um beijo na testa dela.
Marion voltou a dormir e Benício foi para sua casa, que ficava a alguns quilômetros dali.
Poucos dias se passaram e Marion já havia terminado o outro livro e começara um novo, da coleção de sua mãe. Quando se cansara, subiu com a taça de vinho para sua sala e ficou assistindo algum seriado que ela não acompanhava, mas que parecia a única coisa menos ruim na televisão.
Ouviu um barulho de carro e já sabia quem era. Descalçou os chinelos e subiu correndo, como um ritual, para o seu quarto. Trocou de roupa sem se importar com o tempo e ouviu, outra vez, os passos pela escada.
Faltava somente fechar o botão e o zíper de sua calça jeans do outro dia. Mas, sem pensar, Marion, para impedir que Benício a visse se trocando, foi de encontro a ele para mandar ele não entrar.
Quando percebeu, estavam um na frente do outro, ele ainda em um degrau da escada, com a cabeça na direção de seus ombros. Ela corou e ele sorriu. Olhando-a diretamente nos olhos, Benício pôs as mãos na calça dela, fechou o botão e subiu o zíper.
Beijou-lhe os lábios e disse um "Olá", quando ela o abraçou.
"Hoje é meu dia de decidir onde vamos?", ela perguntou.
"Não, hoje roubarei sua vez".
"Ótimo, estava sem idéia alguma. Qual sua sugestão?", disse ela aguardando resposta.
"Vamos ficar aqui", a voz dele estava tingida pela certeza.
Surpresa, ela aceitou.
Passaram o dia deitados no quarto dela, o amplo cômodo branco com detalhes vermelhos, escutando e cantando músicas.
Conversando sobre o sol e sobre as estrelas. Fazendo o jantar juntos. Bebendo vinho.
Dormindo abraçados, sem necessidade de libido algum.
junho 17, 2010
Utopia
O sol ainda não tinha nascido, o quarto estava escuro. Antônio podia ouvir a respiração de sua esposa, que dormia de costas para o lado dele. Ele tirou o lençol cuidadosamente e saiu do colchão, pensando no quanto tentou convencer aquela bela moça de cabelos castanhos cacheados a comprar uma cama.
Andou pelo quarto e apagou três velas que ainda insistiam em queimar – ele ainda não se conformara de como esqueceu de pagar a conta. Foi até banheiro, escovou os dentes, deu alguns tapinhas no rosto na frente do espelho, tirou a calça que usava para dormir e vestiu uma calça jeans que usara no dia anterior. Voltou ao quarto, pegou uma camiseta e uma blusa de moletom no armário e as vestiu rapidamente. Pegou uma mochila que estava em cima de uma cadeira e voltou para o banheiro. Bagunçou o cabelo com as mãos, foi para a sala de estar. Calçou os sapatos que havia largado lá noite passada, pegou as chaves do carro que estavam jogadas no sofá e a chave da porta, que estava no porta-chaves que compraram na lua-de-mel.
Antônio passou pela porta e a trancou rapidamente. Andou alguns passos, mas deu meia volta. Voltou à porta, passou a mão para desembaçar a vidraça e olhou para o cômodo completamente bagunçado, lembrando-o da noite passada. Mesmo assim prosseguiu.
Tirou o carro da garagem, ligou-o e saiu da casa. Logo depois estava fora da rua, do bairro, quase fora da cidade. E o relógio marcava 4:32 da manhã.
Antônio dirigiu por mais alguns metros e chegou a um parque. Várias árvores cobriam o campo, as luzes da rua falhavam e depois de ultrapassar a pequena selva, ele viu quem esperava.
Uma sombra caminhava até ele, as luzes piscavam e por alguns momentos Antônio pôde ver os cachos louros. Reciprocamente se abraçaram. Beijaram-se.
"Que bom que você veio", disse ela, prendendo-se ao pescoço de Antônio.
Ele era um misto de sentimentos: felicidade, preocupação, liberdade, culpa.
"Eu disse que ficaria com você para sempre", ele respondera depois de beijá-la novamente.
"Quando disse que largaria tudo para ficar comigo, confesso que não acreditei, Antônio". Ela sorria tão sinceramente.
Ele não conseguia falar muito, afinal, não parava de pensar qual seria a reação de sua musa morena ao acordar e ver que ele não havia terminado com a outra, e sim com ela. Não era uma curiosidade má, mas uma expectativa de que ela não sofresse mais.
Antônio e sua nova mulher se dirigiram até o carro, viajaram horas a fio até chegar a uma nova cidade, onde ele trocou o celular e sacou todo o dinheiro da poupança que reservara.
No entanto, ainda não. Ainda eram 2:58, o sol não tinha nascido e Antônio ainda estava deitado ao lado de sua esposa, ouvindo-a respirar e pensando na conta de luz que não pagara.
Andou pelo quarto e apagou três velas que ainda insistiam em queimar – ele ainda não se conformara de como esqueceu de pagar a conta. Foi até banheiro, escovou os dentes, deu alguns tapinhas no rosto na frente do espelho, tirou a calça que usava para dormir e vestiu uma calça jeans que usara no dia anterior. Voltou ao quarto, pegou uma camiseta e uma blusa de moletom no armário e as vestiu rapidamente. Pegou uma mochila que estava em cima de uma cadeira e voltou para o banheiro. Bagunçou o cabelo com as mãos, foi para a sala de estar. Calçou os sapatos que havia largado lá noite passada, pegou as chaves do carro que estavam jogadas no sofá e a chave da porta, que estava no porta-chaves que compraram na lua-de-mel.
Antônio passou pela porta e a trancou rapidamente. Andou alguns passos, mas deu meia volta. Voltou à porta, passou a mão para desembaçar a vidraça e olhou para o cômodo completamente bagunçado, lembrando-o da noite passada. Mesmo assim prosseguiu.
Tirou o carro da garagem, ligou-o e saiu da casa. Logo depois estava fora da rua, do bairro, quase fora da cidade. E o relógio marcava 4:32 da manhã.
Antônio dirigiu por mais alguns metros e chegou a um parque. Várias árvores cobriam o campo, as luzes da rua falhavam e depois de ultrapassar a pequena selva, ele viu quem esperava.
Uma sombra caminhava até ele, as luzes piscavam e por alguns momentos Antônio pôde ver os cachos louros. Reciprocamente se abraçaram. Beijaram-se.
"Que bom que você veio", disse ela, prendendo-se ao pescoço de Antônio.
Ele era um misto de sentimentos: felicidade, preocupação, liberdade, culpa.
"Eu disse que ficaria com você para sempre", ele respondera depois de beijá-la novamente.
"Quando disse que largaria tudo para ficar comigo, confesso que não acreditei, Antônio". Ela sorria tão sinceramente.
Ele não conseguia falar muito, afinal, não parava de pensar qual seria a reação de sua musa morena ao acordar e ver que ele não havia terminado com a outra, e sim com ela. Não era uma curiosidade má, mas uma expectativa de que ela não sofresse mais.
Antônio e sua nova mulher se dirigiram até o carro, viajaram horas a fio até chegar a uma nova cidade, onde ele trocou o celular e sacou todo o dinheiro da poupança que reservara.
No entanto, ainda não. Ainda eram 2:58, o sol não tinha nascido e Antônio ainda estava deitado ao lado de sua esposa, ouvindo-a respirar e pensando na conta de luz que não pagara.
junho 07, 2010
Arabesque
O salão de ballet era grande, com um espelho gigantesco que ocupava duas paredes enquanto as outras duas eram brancas. O assoalho era de madeira escura e com aparência de novo. A janela ficava na parede adjacente ao espelho e era feita da mesma escura da madeira que o piso. Logo abaixo da janela, do lado de fora, há uma placa com os dizeres "Desde 1953".
Emma tinha vinte e sete anos e estuda no Instituto França desde os nove. Seu cabelo é curto e ruivo ao natural, no nariz um pouco bruto para o rosto delicado há sardas. Terminara a faculdade de cinema e treinava ballet somente às sextas.
Era a terceira sexta-feira de janeiro, Emma acordou cedo e foi para o instituto. A professora chegou pouco tempo depois e abriu o salão para ela treinar sozinha, o momento que Emma mais gostava. Quando a aula começou, a professora baixinha de cabelos grisalhos apresentou o novo aluno: Fabrizzio.
Fabrizzio tinha dezenove anos e aquela seria sua primeira aula. Estava na faculdade de Astronomia há um ano e não planejava sua semana. Ele costumava chamar atenção por seus cabelos castanhos grandes e bagunçados, os olhos com um tom de verde discreto e os lábios, o superior um pouco maior que o inferior. Quando chegou ao instituto usava um lenço verde na cabeça, a cor favorita de Emma.
A primeira vez que o viu, Emma não percebeu que ele era tão novo. Justamente ela, a veterana, foi escolhida para mostrar-lhe as posições principais.
Emma fazia enquanto a professora repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque". Fabrizzio não tirava os olhos dos pés de Emma, curioso para entender. Emma, que sempre fora concentrada, estava com um pouco de dificuldade por ele estar a olhando tão atentamente. Ela pensava que ele estava observando-a como um todo, o rosto, os braços, os quadris, enquanto Fabrizzio somente olhava os pés.
A professora agradeceu e pediu para que Fabrizzio tentasse as mesmas posições. Fabrizzio olhou para o chão e sorriu - um sorriso que aparentava vergonha, mas que vinha dos lábios de um rapaz seguro. "Charmoso", pensou Emma, e também sorriu. Todas as outras sete meninas perceberam que ela sorrira por causa dele, pois todas as outras sete também sorriram. Entretanto, Emma fora a única que sorriu com os olhos fechados e que soltara um pequeno ruído.
Ele não a olhou, não olhara para as outras e não poderia dizer a cor da roupa da professora. Somente repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque".
Ao final da aula, as duas alunas mais corajosas foram falar com ele. Aproximaram-se e enquanto uma enrolava o cabelo com os dedos, a outra disse "Parabéns, você foi muito bem", inclinando os ombros na direção de Fabrizzio, que virando-se de costas disse um "Valeu" indiferente e pegou um fone de ouvido que vinha do bolso da blusa que acabara de vestir.
Naquela sexta-feira, Fabrizzio e Emma demoraram quase o mesmo tempo para sair do Instituto. Quando passaram pela porta, esbarraram-se e ela sorriu, da mesma forma que antes. Ele respondeu com o mesmo sorriso de antes e indicou que ela fosse à frente.
Saíram do prédio juntos e caminharam separados o mesmo trecho. Emma caminhava um pouco mais à frente e parou na frente de uma motocicleta. Tirou do bolso da jaqueta uma chave e colocou o capacete. Fabrizzio pensou em passar reto, mas voltou.
"É Emma, não é?", Fabrizzio disse aproximando-se da moto.
"Sim", ela respondeu colocando o pé no acelerador.
"Você dança muito bem", ele disse. "Você se importaria de me auxiliar fora do instituto também?"
Ele sorriu e olhou para baixo. Emma não controlou o riso e aceitou a proposta.
Passaram-se alguns meses de sextas-feiras de aula no Instituto França e algumas aulas particulares. Emma estava apaixonada, Fabrizzio era ágil e interessado, aprendia rápido. Com o tempo, o belo rapaz demonstrou não somente interesse pelo ballet quanto pela bailarina.
O primeiro beijo foi ardente e na quarta aula particular. Na aula seguinte, Fabrizzio sugeriu que ela dançasse para ele o máximo que sabia. Quando Emma caiu exausta no chão, ele a pegou no colo, subiu as escadas da pequena casa dela e levou-a para o quarto. A ardência se espalhou pelo corpo todo e foi de um jeito que surpreendeu os dois. Nem Kubrick conseguiria retratar tanta ousadia e sintonia, nem Sirius brilharia mais. Dançavam ballet, amavam-se, violavam-se.
Formaram arabescos na cama e um no outro.
Emma tinha vinte e sete anos e estuda no Instituto França desde os nove. Seu cabelo é curto e ruivo ao natural, no nariz um pouco bruto para o rosto delicado há sardas. Terminara a faculdade de cinema e treinava ballet somente às sextas.
Era a terceira sexta-feira de janeiro, Emma acordou cedo e foi para o instituto. A professora chegou pouco tempo depois e abriu o salão para ela treinar sozinha, o momento que Emma mais gostava. Quando a aula começou, a professora baixinha de cabelos grisalhos apresentou o novo aluno: Fabrizzio.
Fabrizzio tinha dezenove anos e aquela seria sua primeira aula. Estava na faculdade de Astronomia há um ano e não planejava sua semana. Ele costumava chamar atenção por seus cabelos castanhos grandes e bagunçados, os olhos com um tom de verde discreto e os lábios, o superior um pouco maior que o inferior. Quando chegou ao instituto usava um lenço verde na cabeça, a cor favorita de Emma.
A primeira vez que o viu, Emma não percebeu que ele era tão novo. Justamente ela, a veterana, foi escolhida para mostrar-lhe as posições principais.
Emma fazia enquanto a professora repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque". Fabrizzio não tirava os olhos dos pés de Emma, curioso para entender. Emma, que sempre fora concentrada, estava com um pouco de dificuldade por ele estar a olhando tão atentamente. Ela pensava que ele estava observando-a como um todo, o rosto, os braços, os quadris, enquanto Fabrizzio somente olhava os pés.
A professora agradeceu e pediu para que Fabrizzio tentasse as mesmas posições. Fabrizzio olhou para o chão e sorriu - um sorriso que aparentava vergonha, mas que vinha dos lábios de um rapaz seguro. "Charmoso", pensou Emma, e também sorriu. Todas as outras sete meninas perceberam que ela sorrira por causa dele, pois todas as outras sete também sorriram. Entretanto, Emma fora a única que sorriu com os olhos fechados e que soltara um pequeno ruído.
Ele não a olhou, não olhara para as outras e não poderia dizer a cor da roupa da professora. Somente repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque".
Ao final da aula, as duas alunas mais corajosas foram falar com ele. Aproximaram-se e enquanto uma enrolava o cabelo com os dedos, a outra disse "Parabéns, você foi muito bem", inclinando os ombros na direção de Fabrizzio, que virando-se de costas disse um "Valeu" indiferente e pegou um fone de ouvido que vinha do bolso da blusa que acabara de vestir.
Naquela sexta-feira, Fabrizzio e Emma demoraram quase o mesmo tempo para sair do Instituto. Quando passaram pela porta, esbarraram-se e ela sorriu, da mesma forma que antes. Ele respondeu com o mesmo sorriso de antes e indicou que ela fosse à frente.
Saíram do prédio juntos e caminharam separados o mesmo trecho. Emma caminhava um pouco mais à frente e parou na frente de uma motocicleta. Tirou do bolso da jaqueta uma chave e colocou o capacete. Fabrizzio pensou em passar reto, mas voltou.
"É Emma, não é?", Fabrizzio disse aproximando-se da moto.
"Sim", ela respondeu colocando o pé no acelerador.
"Você dança muito bem", ele disse. "Você se importaria de me auxiliar fora do instituto também?"
Ele sorriu e olhou para baixo. Emma não controlou o riso e aceitou a proposta.
Passaram-se alguns meses de sextas-feiras de aula no Instituto França e algumas aulas particulares. Emma estava apaixonada, Fabrizzio era ágil e interessado, aprendia rápido. Com o tempo, o belo rapaz demonstrou não somente interesse pelo ballet quanto pela bailarina.
O primeiro beijo foi ardente e na quarta aula particular. Na aula seguinte, Fabrizzio sugeriu que ela dançasse para ele o máximo que sabia. Quando Emma caiu exausta no chão, ele a pegou no colo, subiu as escadas da pequena casa dela e levou-a para o quarto. A ardência se espalhou pelo corpo todo e foi de um jeito que surpreendeu os dois. Nem Kubrick conseguiria retratar tanta ousadia e sintonia, nem Sirius brilharia mais. Dançavam ballet, amavam-se, violavam-se.
Formaram arabescos na cama e um no outro.
junho 05, 2010
Sem suposições
Acabei de sair do banho, estava me vestindo quando de repente estava na sala, somente de calças jeans, tênis sujos e cabelos molhados, lutando com o tapete para não escorregar e chegar ao telefone a tempo. Sentei-me no braço do sofá individual e peguei, com as mãos falseando, o telefone.
- Alô?
Desequilibrei-me e o telefone caiu.
- Alô? - repeti, pegando-o desesperadamente.
- Oi - respondeu-me ela, com a voz entrecortada.
Ela, Beni, nunca fez-me esquecê-la. Nunca.
Desde o início em que ela gostava de mim, em que insistia em uma amizade na qual ela sofria. Eu nunca saberia o quão duro foi para ela se eu mesmo não tivesse passado por isso.
É difícil acreditar que aquela garotinha, seis anos mais nova que eu, com cabelos castanhos bagunçados, olhos azuis desesperados e rosto de criança se tornaria a mulher que está do outro lado da linha, a mulher que eu amo.
No início não me dava conta de que aquilo que ela sentia por mim era sério. Não imaginava que garotas de onze anos poderiam se apaixonar por homens mais velhos. E além de tudo, não conseguia vê-la como uma mulher; não tenho um Humbert Humbert retraído dentro de mim.
Talvez ela tenha passado por aqueles estágios do amor por minha culpa. O estágio do amor cego deve ter sido no início, quando eu era sorridente, bonito e minhas ações eram completamente coniventes. O estágio do ciúmes, quando ela começou a notar que eu não era dela. O estágio da raiva, onde eu era culpado por tudo que dava errado na vida dela. E o último estágio, o do amor limpo, que ela me amaria de qualquer jeito, sem ilusão e sem raiva.
Nós conversávamos muito, mas nos encontrávamos somente uma ou duas vezes por semana, no máximo. Alguns rapazes da minha idade aproveitariam-se da situação quando soubessem que o que ela sentia era verdadeiro.
Nunca saímos juntos. Mesmo quando ela cresceu mais um pouco. Não me lembro muito bem, mas nos vimos com frequência até os treze anos dela. Não sei o que houve depois, mas aos poucos ela se afastou, eu me afastei. Cheguei à ir a casa dela algumas vezes, para não ficar no ar uma posição ausente de minha parte. Às vezes eu penso que a visitava porque estava começando a sentir algo por aquela menina-moça de rosto de criança. Até aquele dia.
Eu estava com vinte e dois anos e ela com dezesseis. O cabelo dela estava longo, os olhos azuis discretos e o rosto que nunca mudara. Usava um vestido vermelho, simples, mas com uma jaqueta por cima, um tênis desamarrado, vários anéis na mão e óculos escuros. Fazia dois anos ou mais que não a visitava. Cheguei a vê-la poucas vezes de longe, com o mesmo aceno de sempre.
No entanto, aquele dia foi diferente. Quando ela abaixou os óculos e caminhou até mim, calmamente, fiquei em estado de choque. O cabelo continuava bagunçado, os olhos - de um azul nervoso, passaram para um azul claro, brando. Paramos frente à frente, ela sorriu e disse um "oi" suave com a voz que eu nunca mais esqueceria. Enfim ela se tornara uma mulher.
Naquele mesmo dia saímos. Ela não me olhava com o olhar suplicante de garota apaixonada, mas como se ela realmente tivesse crescido e descoberto que ela era uma criança. No entanto, eu nunca fora um observador nato; sempre errara minhas suposições.
Não me lembro qual filme assistimos, mas o sorvete que Beni pediu foi o de iogurte com limão e ela não parava de rir. Nós estávamos crescidos, finalmente poderíamos pensar sobre coisas parecidas sem ela se passar por Dolores Haze.
Hoje, quando me lembro daquele dia vejo que foi aí que troquei de papel com ela.
Pela personalidade que ela sempre teve, deve ter sido tremendamente recompensador se vingar. Não que ela queria isso, mas foi o que aconteceu.
Afinal, saímos novamente. Eu disse que tinha algo para contar, e Beni disse o mesmo. Preferi que ela falasse primeiro. Foi quando ouvi "Estou doente, Enzo".
Minha cabeça girou.
Quando eu disse o que ela sempre quis ouvir, Beni começou a chorar. Só disse que essa era a parte boa, saber que nunca foi em vão. Abraçamo-nos e ficamos na companhia um do outro. Falamos poucas vezes sobre isso, além da nossa promessa.
Beni me prometeu que ligaria e diria "Sentirei sua falta" para se despedir. E eu prometi que nunca a visitaria no hospital.
E toda vez que ela vai para o hospital, eu fico desesperado sempre que o telefone toca. Essa semana ela foi internada. Toda nossa história que nunca aconteceu passou pela minha cabeça enquanto esperava ela dizer alguma coisa pelo telefone.
Sentei-me no sofá e encostei a cabeça, pesando, segurando as lágrimas. O silêncio doía. Sua respiração não estava boa, o silêncio me fez entender que ela diria "Sentirei sua falta".
- Enzo, - ela disse baixinho.
Eu repetia o mesmo "não, não, não" sem parar.
- Enzo, ainda não foi dessa vez. - ela completou.
Meu choro triplicou. Pude sentir que ela ria enquanto eu chorava.
- Sairei hoje do hospital. Enquanto você chora eu estou esperando um convite para sair. Esperei muito tempo por um primeiro beijo. - ela disse.
- Amanhã - eu respondi aliviado - passo na sua casa. Meu Deus, Beni, eu amo tanto você!
O silêncio voltou. Minhas últimas palavras foram rindo.
- Eu também, Enzo, você não sabe o quanto. - ela respondeu chorando.
Afinal, acho que vou parar de fazer suposições.
- Alô?
Desequilibrei-me e o telefone caiu.
- Alô? - repeti, pegando-o desesperadamente.
- Oi - respondeu-me ela, com a voz entrecortada.
Ela, Beni, nunca fez-me esquecê-la. Nunca.
Desde o início em que ela gostava de mim, em que insistia em uma amizade na qual ela sofria. Eu nunca saberia o quão duro foi para ela se eu mesmo não tivesse passado por isso.
É difícil acreditar que aquela garotinha, seis anos mais nova que eu, com cabelos castanhos bagunçados, olhos azuis desesperados e rosto de criança se tornaria a mulher que está do outro lado da linha, a mulher que eu amo.
No início não me dava conta de que aquilo que ela sentia por mim era sério. Não imaginava que garotas de onze anos poderiam se apaixonar por homens mais velhos. E além de tudo, não conseguia vê-la como uma mulher; não tenho um Humbert Humbert retraído dentro de mim.
Talvez ela tenha passado por aqueles estágios do amor por minha culpa. O estágio do amor cego deve ter sido no início, quando eu era sorridente, bonito e minhas ações eram completamente coniventes. O estágio do ciúmes, quando ela começou a notar que eu não era dela. O estágio da raiva, onde eu era culpado por tudo que dava errado na vida dela. E o último estágio, o do amor limpo, que ela me amaria de qualquer jeito, sem ilusão e sem raiva.
Nós conversávamos muito, mas nos encontrávamos somente uma ou duas vezes por semana, no máximo. Alguns rapazes da minha idade aproveitariam-se da situação quando soubessem que o que ela sentia era verdadeiro.
Nunca saímos juntos. Mesmo quando ela cresceu mais um pouco. Não me lembro muito bem, mas nos vimos com frequência até os treze anos dela. Não sei o que houve depois, mas aos poucos ela se afastou, eu me afastei. Cheguei à ir a casa dela algumas vezes, para não ficar no ar uma posição ausente de minha parte. Às vezes eu penso que a visitava porque estava começando a sentir algo por aquela menina-moça de rosto de criança. Até aquele dia.
Eu estava com vinte e dois anos e ela com dezesseis. O cabelo dela estava longo, os olhos azuis discretos e o rosto que nunca mudara. Usava um vestido vermelho, simples, mas com uma jaqueta por cima, um tênis desamarrado, vários anéis na mão e óculos escuros. Fazia dois anos ou mais que não a visitava. Cheguei a vê-la poucas vezes de longe, com o mesmo aceno de sempre.
No entanto, aquele dia foi diferente. Quando ela abaixou os óculos e caminhou até mim, calmamente, fiquei em estado de choque. O cabelo continuava bagunçado, os olhos - de um azul nervoso, passaram para um azul claro, brando. Paramos frente à frente, ela sorriu e disse um "oi" suave com a voz que eu nunca mais esqueceria. Enfim ela se tornara uma mulher.
Naquele mesmo dia saímos. Ela não me olhava com o olhar suplicante de garota apaixonada, mas como se ela realmente tivesse crescido e descoberto que ela era uma criança. No entanto, eu nunca fora um observador nato; sempre errara minhas suposições.
Não me lembro qual filme assistimos, mas o sorvete que Beni pediu foi o de iogurte com limão e ela não parava de rir. Nós estávamos crescidos, finalmente poderíamos pensar sobre coisas parecidas sem ela se passar por Dolores Haze.
Hoje, quando me lembro daquele dia vejo que foi aí que troquei de papel com ela.
Pela personalidade que ela sempre teve, deve ter sido tremendamente recompensador se vingar. Não que ela queria isso, mas foi o que aconteceu.
Afinal, saímos novamente. Eu disse que tinha algo para contar, e Beni disse o mesmo. Preferi que ela falasse primeiro. Foi quando ouvi "Estou doente, Enzo".
Minha cabeça girou.
Quando eu disse o que ela sempre quis ouvir, Beni começou a chorar. Só disse que essa era a parte boa, saber que nunca foi em vão. Abraçamo-nos e ficamos na companhia um do outro. Falamos poucas vezes sobre isso, além da nossa promessa.
Beni me prometeu que ligaria e diria "Sentirei sua falta" para se despedir. E eu prometi que nunca a visitaria no hospital.
E toda vez que ela vai para o hospital, eu fico desesperado sempre que o telefone toca. Essa semana ela foi internada. Toda nossa história que nunca aconteceu passou pela minha cabeça enquanto esperava ela dizer alguma coisa pelo telefone.
Sentei-me no sofá e encostei a cabeça, pesando, segurando as lágrimas. O silêncio doía. Sua respiração não estava boa, o silêncio me fez entender que ela diria "Sentirei sua falta".
- Enzo, - ela disse baixinho.
Eu repetia o mesmo "não, não, não" sem parar.
- Enzo, ainda não foi dessa vez. - ela completou.
Meu choro triplicou. Pude sentir que ela ria enquanto eu chorava.
- Sairei hoje do hospital. Enquanto você chora eu estou esperando um convite para sair. Esperei muito tempo por um primeiro beijo. - ela disse.
- Amanhã - eu respondi aliviado - passo na sua casa. Meu Deus, Beni, eu amo tanto você!
O silêncio voltou. Minhas últimas palavras foram rindo.
- Eu também, Enzo, você não sabe o quanto. - ela respondeu chorando.
Afinal, acho que vou parar de fazer suposições.
maio 27, 2010
Duas peles de cordeiro para uma loba
"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco", disse-me ele.
Gostaria que ele soubesse o quanto isso me irrita.
"Cale a boca, Baco, que saco. Não me apresse.", respondi.
Ele rira, parara e arrumara a roupa social. Impaciente, soltei-me do braço dele e subi as escadas. Baco foi mais rápido - como sempre, subiu os degraus de dois em dois e bloqueou minha passagem.
"Você é ridículo. Fica o tempo todo me puxando a força, quando bem entende me solta e se acha no direito de me impedir", disse inclinando-me para a frente, para ficar face à face, para ele sentir minha raiva.
Ele pegou meus braços à força e me beijou. Cedi facilmente, não é à toa que estamos juntos nessa. Quando nossos rostos se separaram olhei-o, completamente, e vi o quanto ele estava bonito com aquele sobretudo preto que eu dera semana passada.
"Baco", parei para respirar, "o combinado não é na escada".
"É mesmo!", disse ele pegando minha mão novamente, e puxando-a com desespero, "Mas agora estou mais animado".
"Ótimo, era isso que eu queria". Quando disse, minha voz pareceu sumir entre todos os andares de escada.
Corremos por mais uns dois lances até pararmos na frente de uma porta com uma placa vertical escrita "Andar 27".
Ele abriu a porta e me puxou novamente, minha peruca preta caiu no chão. Soltei-me novamente, voltei dois passos no corredor e abaixei para pegá-la, então Baco soltou um "Hummm", aproximou-se de mim e pôs as mãos em minha cintura.
"Anita," disse ele levantando meu tronco, "você quer mesmo que seja aqui? Você aí com esse vestido preto e eu aqui sem conseguir me controlar".
"Mais alguns passos, Baco, faltam poucos.", e coloquei a peruca novamente.
Andamos até o fim do corredor e nos deparamos com a porta "2222", nossa vítima. Peguei minha chave universal e entramos no apartamento.
Era pequeno, com uma cama de casal, um banheiro ao fundo, um criado mudo e um cinzeiro. Tão sem vida que parecia quarto de hotel.
"Agora se deite aí, Baco!", e ele obedeceu. Não tinha mais com o quê relutar.
Retirei minha peruca enquanto encostava na parede laranja que descascara com o tempo, passei meu batom vermelho enquanto ele desabotoava a camisa, abri o zíper do meu vestido enquanto ele estava no zíper da calça. Fui lentamente até a cama.
Quando me apoiei com os dois braços na beira da cama, Baco pegou minhas mãos e me colocou em cima do corpo dele.
"Eu quero você", disse ele, como sempre diz antes de nos invadirmos.
"Aqui e agora", eu disse, que é minha resposta habitual.
Ele abriu meu sutiã, arrancou minha meia calça, enquanto eu somente lutava para tirar a camisa dos ombros largos dele.
Além dos ombros marcantes, Baco tem o cabelo raspado, olhos castanhos e finos, mas expressão rude.
Ele puxava meus cabelos louros, marcava minha pele clara e olhava intensamente para meus olhos negros. E nos invadimos, rindo baixo.
Não deu tempo de dormirmos, nunca dá.
"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco!", repetiu ele.
Vesti-me novamente, fui até o banheiro e retoquei meu batom. Ele acendeu um cigarro.
"E aí, qual surpresa deixaremos hoje?", perguntou.
"Minha meia-calça.", respondi. Era mais incerto deixar algum pertence nosso na casa.
"Está bem. Arrumamos a cama?"
"Não, eu quero que o dono desta se surpreenda.", eu disse, escondendo meu tom maléfico.
Fomos embora, não trancamos a porta. A cama estava bagunçada e minha meia calça preta estava largada no chão. Quando saímos do prédio, Baco esbarrou com o dono do quarto "2222".
Ele nos olhou, estava de cabeça baixa. Continuamos sem olhar para trás, até chegarmos ao nosso hotel. Ficaríamos pouco tempo na minha cidade natal.
Abrimos a porta do apartamento e Baco resolvera tomar banho.
O telefone tocou.
"Sabia que ligaria...", eu disse quando atendi.
Do outro lado da linha, ele riu.
"Obrigado pela meia-calça, Anita, e pelo telefone que deixou dentro dela."
"Vamos nos encontrar, sinto saudades de você e dos velhos tempos", disse eu, conferindo se Baco não estaria ouvindo.
"Quando você quiser. Você está com alguém?", perguntou.
"O nome dele é Baco e ele está no banheiro. Vamos nos encontrar amanhã, no seu apartamento?", sugeri.
"Ótimo.", concordou.
Sorri.
"Agora vou desligar, ele pode chegar daqui a pouco."
Gostaria que ele soubesse o quanto isso me irrita.
"Cale a boca, Baco, que saco. Não me apresse.", respondi.
Ele rira, parara e arrumara a roupa social. Impaciente, soltei-me do braço dele e subi as escadas. Baco foi mais rápido - como sempre, subiu os degraus de dois em dois e bloqueou minha passagem.
"Você é ridículo. Fica o tempo todo me puxando a força, quando bem entende me solta e se acha no direito de me impedir", disse inclinando-me para a frente, para ficar face à face, para ele sentir minha raiva.
Ele pegou meus braços à força e me beijou. Cedi facilmente, não é à toa que estamos juntos nessa. Quando nossos rostos se separaram olhei-o, completamente, e vi o quanto ele estava bonito com aquele sobretudo preto que eu dera semana passada.
"Baco", parei para respirar, "o combinado não é na escada".
"É mesmo!", disse ele pegando minha mão novamente, e puxando-a com desespero, "Mas agora estou mais animado".
"Ótimo, era isso que eu queria". Quando disse, minha voz pareceu sumir entre todos os andares de escada.
Corremos por mais uns dois lances até pararmos na frente de uma porta com uma placa vertical escrita "Andar 27".
Ele abriu a porta e me puxou novamente, minha peruca preta caiu no chão. Soltei-me novamente, voltei dois passos no corredor e abaixei para pegá-la, então Baco soltou um "Hummm", aproximou-se de mim e pôs as mãos em minha cintura.
"Anita," disse ele levantando meu tronco, "você quer mesmo que seja aqui? Você aí com esse vestido preto e eu aqui sem conseguir me controlar".
"Mais alguns passos, Baco, faltam poucos.", e coloquei a peruca novamente.
Andamos até o fim do corredor e nos deparamos com a porta "2222", nossa vítima. Peguei minha chave universal e entramos no apartamento.
Era pequeno, com uma cama de casal, um banheiro ao fundo, um criado mudo e um cinzeiro. Tão sem vida que parecia quarto de hotel.
"Agora se deite aí, Baco!", e ele obedeceu. Não tinha mais com o quê relutar.
Retirei minha peruca enquanto encostava na parede laranja que descascara com o tempo, passei meu batom vermelho enquanto ele desabotoava a camisa, abri o zíper do meu vestido enquanto ele estava no zíper da calça. Fui lentamente até a cama.
Quando me apoiei com os dois braços na beira da cama, Baco pegou minhas mãos e me colocou em cima do corpo dele.
"Eu quero você", disse ele, como sempre diz antes de nos invadirmos.
"Aqui e agora", eu disse, que é minha resposta habitual.
Ele abriu meu sutiã, arrancou minha meia calça, enquanto eu somente lutava para tirar a camisa dos ombros largos dele.
Além dos ombros marcantes, Baco tem o cabelo raspado, olhos castanhos e finos, mas expressão rude.
Ele puxava meus cabelos louros, marcava minha pele clara e olhava intensamente para meus olhos negros. E nos invadimos, rindo baixo.
Não deu tempo de dormirmos, nunca dá.
"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco!", repetiu ele.
Vesti-me novamente, fui até o banheiro e retoquei meu batom. Ele acendeu um cigarro.
"E aí, qual surpresa deixaremos hoje?", perguntou.
"Minha meia-calça.", respondi. Era mais incerto deixar algum pertence nosso na casa.
"Está bem. Arrumamos a cama?"
"Não, eu quero que o dono desta se surpreenda.", eu disse, escondendo meu tom maléfico.
Fomos embora, não trancamos a porta. A cama estava bagunçada e minha meia calça preta estava largada no chão. Quando saímos do prédio, Baco esbarrou com o dono do quarto "2222".
Ele nos olhou, estava de cabeça baixa. Continuamos sem olhar para trás, até chegarmos ao nosso hotel. Ficaríamos pouco tempo na minha cidade natal.
Abrimos a porta do apartamento e Baco resolvera tomar banho.
O telefone tocou.
"Sabia que ligaria...", eu disse quando atendi.
Do outro lado da linha, ele riu.
"Obrigado pela meia-calça, Anita, e pelo telefone que deixou dentro dela."
"Vamos nos encontrar, sinto saudades de você e dos velhos tempos", disse eu, conferindo se Baco não estaria ouvindo.
"Quando você quiser. Você está com alguém?", perguntou.
"O nome dele é Baco e ele está no banheiro. Vamos nos encontrar amanhã, no seu apartamento?", sugeri.
"Ótimo.", concordou.
Sorri.
"Agora vou desligar, ele pode chegar daqui a pouco."
maio 14, 2010
Jaquetas de couro e cigarros
- Sr. Lionel.
Ela se levantou. Estava com a jaqueta de couro que gostava, uma camiseta branca por baixo, o jeans preto agora acinzentado e seu tênis habitual. Seus cabelos lisos e louros estavam presos em um coque improvisado. Aqueles pequenos fios de cabelo crescendo estavam arrepiados, atenuando sua expressão cansada.
- É "Senhorita", por favor.
- Oh, desculpe. - Ele inclinou os braços indicando a porta - Pode entrar.
O consultório era grande e impessoal. As cores das paredes eram brancas, a mesa estava organizada, as cadeiras eram confortáveis e a poltrona era da mesma cor e material que a jaqueta de Lionel. Nada de plantas, nada de fotos de família, somente uma longa estante para livros.
- Bom, o que traz você... Posso chamá-la de você, não é?
- Sim.
- O que traz você aqui, senhorita Lionel?
- Meu coração.
Ele coçou a cabeça e mexeu na pequena placa dourada que estava cima da mesa. Quando a luz da janela parou de refletir, Lionel viu que estava escrito "Cardiologia" e se irritou com a sutileza.
- O que há com seu coração?
- Doutor, eu posso fumar aqui?
- Não.
- Por quê?
- Porque não. Senhorita Lionel, o que a traz aqui?
- Meu coração, já disse.
Pela janela viam-se pequeninos homens trabalhando içados por cordas em outros prédios. Usavam capacetes e uma madeira que incansavelmente passavam pelos vidros. Atenta nessa imagem, Lionel puxou um cigarro e o acendeu.
- Doutor, meu coração dói.
- Por favor, pode não fumar aqui dentro?
Ela se esticou da cadeira, pôs as mãos em um pote em cima da mesa e achou um único cigarro. Entregou-o ao doutor.
- Vamos, me acompanhe.
- Senhorita...
- Vamos! - interrompeu-o.
Ele pegou o cigarro e o acendeu.
- Ótimo. Como eu ia dizendo, meu coração dói.
- Então vou encaminhar você para fazer alguns exames; - pegou uma folha e uma caneta - são três e você terá que voltar aqui daqui há uns doi...
- Mas já, doutor? Eu não lhe disse o que sinto.
Ele levantou os olhos.
- Pode me dizer, senhorita Lionel?
- Ótimo. Eu não sei.
- Faremos os exames então.
- Caramba, que coisa banal! - Ela apagou o cigarro na mesa de madeira dele. - Eu vim aqui porque meu coração está se sentindo mal. Ele guarda rancor de uma pessoa, ódio.
Ele empurrou um pouco a cadeira de couro em que sentava e pensava em como tirar aquela louca de sua sala.
- Senhorita Lionel, eu não sou psicólogo.
- Eu sei, doutor, mas escute, eu tenho dezessete anos. Fui criada pelo meu pai, mas agora moro sozinha. Saí do colégio e não pretendo fazer uma faculdade. Agora eu fumo como uma condenada.
- Senhorit...
Ela atravessou a mesa, inclinou-se para o homem grisalho na cadeira e disse baixo em seu ouvido:
- O senhor se lembra de um paciente chamado Dionísio?
- Sim - disse ele espantado com o clímax da cena.
Lionel pôs as mãos na cadeira e a girou para que estivessem face à face.
- O que houve com ele?
Silêncio.
- O que houve com ele, doutor?
- Infelizmente... Ele não sobreviveu à cirurgia de... Transplante de coração.
- Infelizmente... Ele era meu pai. - Ela bateu com os punhos cerrados na mesa. - Agora eu estou sozinha, fumando e perdida.
Ele se calou.
- Você ao menos sente muito? Bom, duvido. Olhe em volta. Você tem tudo o que precisa aqui.
Silêncio.
- Oh, não. Vejo que falta uma família. Seu coração deve doer, não é? - Ele assentiu - Acho que nós dois não somos muito diferentes um do outro. Que tal... - ela retirou uma mecha de cabelo da frente do olho - Que tal o senhor procurar um cardiologista?
Silêncio.
Lionel saiu sem olhar para trás. Seus tênis quase não faziam barulho. O doutor continuou sentado, com o rosto inanimado.
- Doutor?! - Disse a secretária batendo na porta. - Posso chamar o próximo paciente?
Ele somente assentiu com a cabeça. Parecia fraco.
- Com licença, doutor.
Ajeitando-se na cadeira, pegou a ficha do próximo paciente.
- Senhor Bernardo, - respirou fundo - o que o traz aqui hoje?
Bernardo tinha cabelos louros, usava uma jaqueta de couro e reservava um maço de cigarros no bolso.
- Meu coração. Ele dói.
Ela se levantou. Estava com a jaqueta de couro que gostava, uma camiseta branca por baixo, o jeans preto agora acinzentado e seu tênis habitual. Seus cabelos lisos e louros estavam presos em um coque improvisado. Aqueles pequenos fios de cabelo crescendo estavam arrepiados, atenuando sua expressão cansada.
- É "Senhorita", por favor.
- Oh, desculpe. - Ele inclinou os braços indicando a porta - Pode entrar.
O consultório era grande e impessoal. As cores das paredes eram brancas, a mesa estava organizada, as cadeiras eram confortáveis e a poltrona era da mesma cor e material que a jaqueta de Lionel. Nada de plantas, nada de fotos de família, somente uma longa estante para livros.
- Bom, o que traz você... Posso chamá-la de você, não é?
- Sim.
- O que traz você aqui, senhorita Lionel?
- Meu coração.
Ele coçou a cabeça e mexeu na pequena placa dourada que estava cima da mesa. Quando a luz da janela parou de refletir, Lionel viu que estava escrito "Cardiologia" e se irritou com a sutileza.
- O que há com seu coração?
- Doutor, eu posso fumar aqui?
- Não.
- Por quê?
- Porque não. Senhorita Lionel, o que a traz aqui?
- Meu coração, já disse.
Pela janela viam-se pequeninos homens trabalhando içados por cordas em outros prédios. Usavam capacetes e uma madeira que incansavelmente passavam pelos vidros. Atenta nessa imagem, Lionel puxou um cigarro e o acendeu.
- Doutor, meu coração dói.
- Por favor, pode não fumar aqui dentro?
Ela se esticou da cadeira, pôs as mãos em um pote em cima da mesa e achou um único cigarro. Entregou-o ao doutor.
- Vamos, me acompanhe.
- Senhorita...
- Vamos! - interrompeu-o.
Ele pegou o cigarro e o acendeu.
- Ótimo. Como eu ia dizendo, meu coração dói.
- Então vou encaminhar você para fazer alguns exames; - pegou uma folha e uma caneta - são três e você terá que voltar aqui daqui há uns doi...
- Mas já, doutor? Eu não lhe disse o que sinto.
Ele levantou os olhos.
- Pode me dizer, senhorita Lionel?
- Ótimo. Eu não sei.
- Faremos os exames então.
- Caramba, que coisa banal! - Ela apagou o cigarro na mesa de madeira dele. - Eu vim aqui porque meu coração está se sentindo mal. Ele guarda rancor de uma pessoa, ódio.
Ele empurrou um pouco a cadeira de couro em que sentava e pensava em como tirar aquela louca de sua sala.
- Senhorita Lionel, eu não sou psicólogo.
- Eu sei, doutor, mas escute, eu tenho dezessete anos. Fui criada pelo meu pai, mas agora moro sozinha. Saí do colégio e não pretendo fazer uma faculdade. Agora eu fumo como uma condenada.
- Senhorit...
Ela atravessou a mesa, inclinou-se para o homem grisalho na cadeira e disse baixo em seu ouvido:
- O senhor se lembra de um paciente chamado Dionísio?
- Sim - disse ele espantado com o clímax da cena.
Lionel pôs as mãos na cadeira e a girou para que estivessem face à face.
- O que houve com ele?
Silêncio.
- O que houve com ele, doutor?
- Infelizmente... Ele não sobreviveu à cirurgia de... Transplante de coração.
- Infelizmente... Ele era meu pai. - Ela bateu com os punhos cerrados na mesa. - Agora eu estou sozinha, fumando e perdida.
Ele se calou.
- Você ao menos sente muito? Bom, duvido. Olhe em volta. Você tem tudo o que precisa aqui.
Silêncio.
- Oh, não. Vejo que falta uma família. Seu coração deve doer, não é? - Ele assentiu - Acho que nós dois não somos muito diferentes um do outro. Que tal... - ela retirou uma mecha de cabelo da frente do olho - Que tal o senhor procurar um cardiologista?
Silêncio.
Lionel saiu sem olhar para trás. Seus tênis quase não faziam barulho. O doutor continuou sentado, com o rosto inanimado.
- Doutor?! - Disse a secretária batendo na porta. - Posso chamar o próximo paciente?
Ele somente assentiu com a cabeça. Parecia fraco.
- Com licença, doutor.
Ajeitando-se na cadeira, pegou a ficha do próximo paciente.
- Senhor Bernardo, - respirou fundo - o que o traz aqui hoje?
Bernardo tinha cabelos louros, usava uma jaqueta de couro e reservava um maço de cigarros no bolso.
- Meu coração. Ele dói.
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