agosto 10, 2010

Intensidade

- Sienna, Sienna. Eu sei que falei besteiras nos últimos recados, mas você quer o quê? Eu estou rastejando aos seus pés, sua louca. É isso que você quer, não é? Você queria que eu me apaixonasse por você. É disso que você vive, não é? Mas que droga! Eu sinto tantas saudades de você aqui! Vê, você até me deixou até sem sentido como um garoto de dezessete anos de novo! Pare de fazer isso, não aguento mais. Quero você aqui, hoje. Preciso de você - o telefone ficou em silêncio por alguns segundos - O que estou dizendo? Estou fazendo papel de mocinho doce? Você é uma louca insuportável - o telefone ficou mudo.
Uma mulher de longos cabelos caminhou pela sala bagunçada somente de roupas íntimas e uma camiseta cinza surrada. Ela tinha um copo na mão e a maquiagem era escura. Parou a frente da mesa de madeira onde o único abajur da casa se encontrava e desligou a mensagem que a secretária eletrônica acabara de gravar.

Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa pequena e com poucos móveis, encontrava-se Sergio, que ainda estava com a mão sobre o telefone.
À frente do espelho ele analisou a figura desconhecida. Um homem alto, com o cabelo cortado rente, os olhos com olheiras, uma camisa xadrez aberta e rasgada no bolso. Seus olhos que costumavam ser cor de mel estavam castanho escuro. A poltrona estava marcada com seu tamanho exato. Já fariam três dias em que somente se levantava dali para usar o banheiro.
A cortina suja não escondeu que de repente o dia se tornara noite e Sergio, sentado na poltrona que sempre serviu de sofá para um homem sozinho, viu-se saindo do banheiro imundo que ficava ao lado do espelho. No entanto, aquele não era mais o Sergio. Ou o homem da poltrona que deixara de ser o forte e estúpido Sergio de sempre. O vencedor finalmente perdera. Ele começara assistir ao seu próprio filme.
O Sergio que saía do banheiro usava a mesma camisa xadrez que o Sergio da poltrona, mas ela não estava rasgada, nem sequer no estado deplorável em que o mesmo se encontrava sentado. O Sergio que saía do banheiro era bonito, seus olhos tinham uma profundidade tentadora e seu modo de andar era singular, sedutor. A campainha tocou e bruscamente ele abriu a porta. O Sergio da poltrona assistia sem reação - até Sienna romper pela porta.
Ela usava uma saia curta, seus cabelos lisos estavam bagunçados em um rabo-de-cavalo, seu moletom cinza cheirava à cidade. Eles se beijaram ardentemente e abraçados encostaram-se no braço da poltrona em que Sergio ainda se encontrava sentado, assistindo agora pelo espelho. As pernas de Sienna se enrolaram nos quadris fortes de Sergio, que puxava seu cabelo.
- Vamos sair - ela tinha o tom de voz forte, marcante.
Sienna pegou Sergio pela mão e a velocidade dela era um pouco maior que a dele. Ele sorria. Sergio da poltrona pegou sua caixa de cigarros e saiu atrás, olhando o casal arrogante que andava pela rua escura.
Andaram até chegar a um posto de gasolina e Sienna entrou na pequena loja. Enquanto os dois Sergios esperavam do lado de fora - um impaciente, o outro desolado -, ela distraiu o vendedor e pegou uma caixa de cigarros.
Saiu exibindo sua aquisição e riu. Pegou-o pela mão na mesma sintonia de quando saíram os três de casa. Sergio de olheiras ainda assistia.
Sergio sempre fora inconstante. Saía sem rumo quando queria e fazia o que queria. Não se prendera a ninguém até conhecer Sienna. Que foi por quem ele chegou o mais perto de se apaixonar.
Passaram pelas pessoas e chamaram atenção. Por serem novos, bonitos e despertar a ira de qualquer transeunte. Beijaram-se, simularam o que faziam dentro de seus quartos no meio de lugares repletos de gente. Passaram duas noites sem andar, sem tomar banho, sem trocar de roupa, e vivendo de pegar comida escondida. O outro Sergio, que os seguia fielmente, envelhecia a cada sorriso do casal.
Durante o retiro, Sienna fumava e gritava ofensas. Juntos fingiam brigar para chamar atenção. Passaram as madrugadas acordados. Sergio da camisa rasgada assistiu a tudo, como uma terceira pessoa. Até chegar o momento em que Sienna, beijando-o, rasgou-lhe o bolso da camisa. Somente dois riram, enquanto um quase chorou. Dormiram juntos à beira de um penhasco e sobre a terra.
Quando os três voltaram para casa, Sergio sorridente se deitou na cama respirando fundo. Sienna se deitou ao seu lado na pequena cama de solteiro. Sergio voltou para sua poltrona e pegou no sono. Nenhum Sergio viu quando Sienna abriu a porta e saiu lentamente, carregando consigo tudo que já havia deixado lá.
Dias se passaram sem notícias de Sienna. Sergio se viu sentando-se na poltrona ao lado do telefone e ligando a cada momento para a casa dela. Ora deixava recados agressivos, ora apaixonados, pedindo perdão. Ela nunca atendera.
Até a noite em que Sergio resolveu atear fogo em sua camisa rasgada.

O telefone tocou enquanto Sergio estava na cozinha, tentando se concentrar em algo para comer. Sem atender, a ligação foi atendida pela secretária eletrônica.
- Sergio, eu cansei dessa vida. Eu sou uma idiota, você não sabe o quanto estou me odiando neste momento, mas eu quero você. Eu quero você de verdade, com amor - o recado havia terminado assim.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa antiga e com vários móveis, encontrava-se Sienna. Sentada em um grande sofá macio e em um ambiente desorganizado, ela olhou para o espelho a sua frente. O reflexo mostrava Sergio, um Sergio real, que usava uma camiseta branca amarelada, entrando em sua casa.
- Eu também - ele disse a única coisa que ela queria ouvir.