O seu olhar estava vacilante e eu o via caminhando pelo corredor. Não sei por que os vizinhos reclamam da iluminação do prédio. Eu conseguia ver a expressão de mágoa escondida sobre a sobrancelha grossa do meu irmão pelo olho mágico.
Ele parou diante da minha porta e tocou a campainha, respirando fundo. Esperei-o até que tocasse novamente e quando abri a imponente porta branca, ele parecia ter engolido todo aquele sentimento que o dominava. Eu o conhecia bem, sabia que ele achava que era fraco mostrar seus sentimentos para as pessoas. Eu o conhecia bem e sabia que ele pusera aquela máscara de segurança quando girei a maçaneta.
"Gustaf", disse ele esboçando um sorriso forçado.
Eu o olhei rapidamente e seu estado era deplorável. Seu cabelo ruivo estava curto como o meu, estava pálido, com olheiras e sua camisa que eu sempre vira dentro da calça, estava hoje solta, livre.
"Você quer entrar?", não pude deixar de perguntar.
"Não". Ele foi rápido, seguro, livre. Ele mentiu.
Meu irmão ficara fora do país por três anos e eu raramente conseguia notícias dele. Talvez tenha sido porque da última vez que nos falamos ele disse que não queria mais ver minha cara, nem pintada de ouro, nem em um caixão. Interpretei como uma ofensa pessoal e não queria mais vê-lo também. Construímos juntos um bloqueio, uma barreira, que juramos não ultrapassar. No entanto, três anos depois, não haveria motivo para não abrir um pequeno buraco e observar como ia a vida no terreno vizinho, e sempre que precisasse, cobrir com uma rolha.
Eu passei minha infância como se fosse filho único. Ele é o irmão mais velho, começou a sair de casa e a conhecer outras pessoas quando eu comecei a brincar de carrinho e rabiscar as paredes. Quando ele estava com dezessete anos se apaixonou. O nome dela era Alana, era filha de franceses e usava um gorro vermelho.
Quando ficaram juntos, ele quase não ficava em casa. Ficaram juntos até eu completar vinte e dois anos. Quando eu estava com vinte e três construímos a barreira e vivemos completamente separados. O oceano parecia pequeno, pois mesmo ele estando longe, eu o sentia perto.
Nossa mãe morreu quando eu estava com vinte e cinco e ele não veio se despedir. Mandou uma carta para o nosso pai pedindo que enviasse um pouco das cinzas para ele. Ainda hoje não sabemos o que ele fizera com elas. Pensei em perguntar.
"E a mamãe?", arrisquei.
"Que tem?", ele perguntou na defensiva.
"O que fez com ela? Jogou no meio da neve?", eu estava ficando nervoso. Eu não o via há três anos, nunca senti saudades, nunca tivemos contato e agora eu estava como um adolescente prestes a se declarar. Ele estava lindo, parecia com mamãe.
"Uma parte joguei na neve", ele sorriu, dessa vez parecendo verdadeiro. Puxou algo de dentro da blusa e vi que era uma corrente. "O resto está aqui".
Tentei imaginar o quanto de mamãe meu pai enviara.
"Você não quer mesmo entrar?", confirmei coçando a cabeça.
"Não", ele era sempre rápido.
Encostei-me na porta e olhei-o no fundo dos olhos.
Lembrei daquele dia, meu aniversário de vinte e três anos. Eu nunca me apaixonara e até hoje acho que isso não aconteceu. Todos diziam que estar solteiro em sua festa de vinte e três anos era sinônimo de solidão. Alana estava preparando a festa junto com meu irmão, desde cedo arrumavam a grande casa branca. Era manhã e eu ainda não completara 23 anos. A namorada de meu irmão esperara até minutos antes da festa e me levara para o quarto dele. Até hoje me lembro do que Alana me disse, "você está bonito esta noite", "parece tanto seu irmão", "não, você é uma versão melhorada". Ela mexeu em meu cabelo e eu não suportei o calor de sua pele quando me abraçou. Beijei-a. O relógio marcava 19:02. Fazia três minutos que eu envelhecera. O problema é o que se seguiu. Meu irmão, que na época tinha os cabelos ruivos volumosos, lisos e bagunçados, entrou no quarto me chamando e deparou com aquela cena que mais parecia de novela. Soltei-me dela e Alana segurou minha mão. Compreendi que eles tinham acabado de terminar.
"Você vai vê-la?", perguntei virando-me de costas para ir pegar um copo de suco na cozinha.
"Não", ele respondeu.
"Quer suco?", não pude deixar de oferecer.
"Não".
Cansei-me do diálogo negativo e voltei para a porta.
"O que você veio fazer aqui?", perguntei.
"Vim perguntar se é verdade o que dizem", pela primeira vez ele foi sincero.
"Que isto aqui é culpa sua?", apontei para minha perna.
Assentiu. Ele tentou ficar apático, mas não havia como.
"Não", respondi. "Não considero culpa sua. Aquele dia eu bebi porque eu quis, peguei o carro porque eu quis".
Eu nunca considerei culpa dele aquele dia. Eu beijei Alana, eu mereci o soco, eu o vi saindo pela porta gritando injúrias, eu bebi todas as garrafas de vinho da casa, eu peguei o carro, eu sofri o acidente, eu fiquei apagado por meses e minha perna que foi amputada. Ele estava viajando, fugindo.
"Você me perdoa?" eu perguntei soltando as muletas e sentando no sofá branco.
"Não", respondeu. Era exatamente o que eu esperava.
"Tudo bem, também não perdoo você", disse.
Ficamos em silêncio.
Acho que ele resolveu ir embora, pois virou as costas para mim e saiu andando.
"Ei", gritei "você pode pelo menos fechar a porta para mim?".
Ele voltou de cabeça erguida, seguro, livre e pôs a mão na maçaneta.
"Eu amo você", ele disse batendo a porta e saindo.
A última frase saiu leve, segura, rápida. Era mentira.
agosto 12, 2010
Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que
o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos
esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre
a face das águas.
Manuel Bandeira. Libertinagem.
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que
o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos
esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre
a face das águas.
Manuel Bandeira. Libertinagem.
agosto 10, 2010
Intensidade
- Sienna, Sienna. Eu sei que falei besteiras nos últimos recados, mas você quer o quê? Eu estou rastejando aos seus pés, sua louca. É isso que você quer, não é? Você queria que eu me apaixonasse por você. É disso que você vive, não é? Mas que droga! Eu sinto tantas saudades de você aqui! Vê, você até me deixou até sem sentido como um garoto de dezessete anos de novo! Pare de fazer isso, não aguento mais. Quero você aqui, hoje. Preciso de você - o telefone ficou em silêncio por alguns segundos - O que estou dizendo? Estou fazendo papel de mocinho doce? Você é uma louca insuportável - o telefone ficou mudo.
Uma mulher de longos cabelos caminhou pela sala bagunçada somente de roupas íntimas e uma camiseta cinza surrada. Ela tinha um copo na mão e a maquiagem era escura. Parou a frente da mesa de madeira onde o único abajur da casa se encontrava e desligou a mensagem que a secretária eletrônica acabara de gravar.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa pequena e com poucos móveis, encontrava-se Sergio, que ainda estava com a mão sobre o telefone.
À frente do espelho ele analisou a figura desconhecida. Um homem alto, com o cabelo cortado rente, os olhos com olheiras, uma camisa xadrez aberta e rasgada no bolso. Seus olhos que costumavam ser cor de mel estavam castanho escuro. A poltrona estava marcada com seu tamanho exato. Já fariam três dias em que somente se levantava dali para usar o banheiro.
A cortina suja não escondeu que de repente o dia se tornara noite e Sergio, sentado na poltrona que sempre serviu de sofá para um homem sozinho, viu-se saindo do banheiro imundo que ficava ao lado do espelho. No entanto, aquele não era mais o Sergio. Ou o homem da poltrona que deixara de ser o forte e estúpido Sergio de sempre. O vencedor finalmente perdera. Ele começara assistir ao seu próprio filme.
O Sergio que saía do banheiro usava a mesma camisa xadrez que o Sergio da poltrona, mas ela não estava rasgada, nem sequer no estado deplorável em que o mesmo se encontrava sentado. O Sergio que saía do banheiro era bonito, seus olhos tinham uma profundidade tentadora e seu modo de andar era singular, sedutor. A campainha tocou e bruscamente ele abriu a porta. O Sergio da poltrona assistia sem reação - até Sienna romper pela porta.
Ela usava uma saia curta, seus cabelos lisos estavam bagunçados em um rabo-de-cavalo, seu moletom cinza cheirava à cidade. Eles se beijaram ardentemente e abraçados encostaram-se no braço da poltrona em que Sergio ainda se encontrava sentado, assistindo agora pelo espelho. As pernas de Sienna se enrolaram nos quadris fortes de Sergio, que puxava seu cabelo.
- Vamos sair - ela tinha o tom de voz forte, marcante.
Sienna pegou Sergio pela mão e a velocidade dela era um pouco maior que a dele. Ele sorria. Sergio da poltrona pegou sua caixa de cigarros e saiu atrás, olhando o casal arrogante que andava pela rua escura.
Andaram até chegar a um posto de gasolina e Sienna entrou na pequena loja. Enquanto os dois Sergios esperavam do lado de fora - um impaciente, o outro desolado -, ela distraiu o vendedor e pegou uma caixa de cigarros.
Saiu exibindo sua aquisição e riu. Pegou-o pela mão na mesma sintonia de quando saíram os três de casa. Sergio de olheiras ainda assistia.
Sergio sempre fora inconstante. Saía sem rumo quando queria e fazia o que queria. Não se prendera a ninguém até conhecer Sienna. Que foi por quem ele chegou o mais perto de se apaixonar.
Passaram pelas pessoas e chamaram atenção. Por serem novos, bonitos e despertar a ira de qualquer transeunte. Beijaram-se, simularam o que faziam dentro de seus quartos no meio de lugares repletos de gente. Passaram duas noites sem andar, sem tomar banho, sem trocar de roupa, e vivendo de pegar comida escondida. O outro Sergio, que os seguia fielmente, envelhecia a cada sorriso do casal.
Durante o retiro, Sienna fumava e gritava ofensas. Juntos fingiam brigar para chamar atenção. Passaram as madrugadas acordados. Sergio da camisa rasgada assistiu a tudo, como uma terceira pessoa. Até chegar o momento em que Sienna, beijando-o, rasgou-lhe o bolso da camisa. Somente dois riram, enquanto um quase chorou. Dormiram juntos à beira de um penhasco e sobre a terra.
Quando os três voltaram para casa, Sergio sorridente se deitou na cama respirando fundo. Sienna se deitou ao seu lado na pequena cama de solteiro. Sergio voltou para sua poltrona e pegou no sono. Nenhum Sergio viu quando Sienna abriu a porta e saiu lentamente, carregando consigo tudo que já havia deixado lá.
Dias se passaram sem notícias de Sienna. Sergio se viu sentando-se na poltrona ao lado do telefone e ligando a cada momento para a casa dela. Ora deixava recados agressivos, ora apaixonados, pedindo perdão. Ela nunca atendera.
Até a noite em que Sergio resolveu atear fogo em sua camisa rasgada.
O telefone tocou enquanto Sergio estava na cozinha, tentando se concentrar em algo para comer. Sem atender, a ligação foi atendida pela secretária eletrônica.
- Sergio, eu cansei dessa vida. Eu sou uma idiota, você não sabe o quanto estou me odiando neste momento, mas eu quero você. Eu quero você de verdade, com amor - o recado havia terminado assim.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa antiga e com vários móveis, encontrava-se Sienna. Sentada em um grande sofá macio e em um ambiente desorganizado, ela olhou para o espelho a sua frente. O reflexo mostrava Sergio, um Sergio real, que usava uma camiseta branca amarelada, entrando em sua casa.
- Eu também - ele disse a única coisa que ela queria ouvir.
Uma mulher de longos cabelos caminhou pela sala bagunçada somente de roupas íntimas e uma camiseta cinza surrada. Ela tinha um copo na mão e a maquiagem era escura. Parou a frente da mesa de madeira onde o único abajur da casa se encontrava e desligou a mensagem que a secretária eletrônica acabara de gravar.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa pequena e com poucos móveis, encontrava-se Sergio, que ainda estava com a mão sobre o telefone.
À frente do espelho ele analisou a figura desconhecida. Um homem alto, com o cabelo cortado rente, os olhos com olheiras, uma camisa xadrez aberta e rasgada no bolso. Seus olhos que costumavam ser cor de mel estavam castanho escuro. A poltrona estava marcada com seu tamanho exato. Já fariam três dias em que somente se levantava dali para usar o banheiro.
A cortina suja não escondeu que de repente o dia se tornara noite e Sergio, sentado na poltrona que sempre serviu de sofá para um homem sozinho, viu-se saindo do banheiro imundo que ficava ao lado do espelho. No entanto, aquele não era mais o Sergio. Ou o homem da poltrona que deixara de ser o forte e estúpido Sergio de sempre. O vencedor finalmente perdera. Ele começara assistir ao seu próprio filme.
O Sergio que saía do banheiro usava a mesma camisa xadrez que o Sergio da poltrona, mas ela não estava rasgada, nem sequer no estado deplorável em que o mesmo se encontrava sentado. O Sergio que saía do banheiro era bonito, seus olhos tinham uma profundidade tentadora e seu modo de andar era singular, sedutor. A campainha tocou e bruscamente ele abriu a porta. O Sergio da poltrona assistia sem reação - até Sienna romper pela porta.
Ela usava uma saia curta, seus cabelos lisos estavam bagunçados em um rabo-de-cavalo, seu moletom cinza cheirava à cidade. Eles se beijaram ardentemente e abraçados encostaram-se no braço da poltrona em que Sergio ainda se encontrava sentado, assistindo agora pelo espelho. As pernas de Sienna se enrolaram nos quadris fortes de Sergio, que puxava seu cabelo.
- Vamos sair - ela tinha o tom de voz forte, marcante.
Sienna pegou Sergio pela mão e a velocidade dela era um pouco maior que a dele. Ele sorria. Sergio da poltrona pegou sua caixa de cigarros e saiu atrás, olhando o casal arrogante que andava pela rua escura.
Andaram até chegar a um posto de gasolina e Sienna entrou na pequena loja. Enquanto os dois Sergios esperavam do lado de fora - um impaciente, o outro desolado -, ela distraiu o vendedor e pegou uma caixa de cigarros.
Saiu exibindo sua aquisição e riu. Pegou-o pela mão na mesma sintonia de quando saíram os três de casa. Sergio de olheiras ainda assistia.
Sergio sempre fora inconstante. Saía sem rumo quando queria e fazia o que queria. Não se prendera a ninguém até conhecer Sienna. Que foi por quem ele chegou o mais perto de se apaixonar.
Passaram pelas pessoas e chamaram atenção. Por serem novos, bonitos e despertar a ira de qualquer transeunte. Beijaram-se, simularam o que faziam dentro de seus quartos no meio de lugares repletos de gente. Passaram duas noites sem andar, sem tomar banho, sem trocar de roupa, e vivendo de pegar comida escondida. O outro Sergio, que os seguia fielmente, envelhecia a cada sorriso do casal.
Durante o retiro, Sienna fumava e gritava ofensas. Juntos fingiam brigar para chamar atenção. Passaram as madrugadas acordados. Sergio da camisa rasgada assistiu a tudo, como uma terceira pessoa. Até chegar o momento em que Sienna, beijando-o, rasgou-lhe o bolso da camisa. Somente dois riram, enquanto um quase chorou. Dormiram juntos à beira de um penhasco e sobre a terra.
Quando os três voltaram para casa, Sergio sorridente se deitou na cama respirando fundo. Sienna se deitou ao seu lado na pequena cama de solteiro. Sergio voltou para sua poltrona e pegou no sono. Nenhum Sergio viu quando Sienna abriu a porta e saiu lentamente, carregando consigo tudo que já havia deixado lá.
Dias se passaram sem notícias de Sienna. Sergio se viu sentando-se na poltrona ao lado do telefone e ligando a cada momento para a casa dela. Ora deixava recados agressivos, ora apaixonados, pedindo perdão. Ela nunca atendera.
Até a noite em que Sergio resolveu atear fogo em sua camisa rasgada.
O telefone tocou enquanto Sergio estava na cozinha, tentando se concentrar em algo para comer. Sem atender, a ligação foi atendida pela secretária eletrônica.
- Sergio, eu cansei dessa vida. Eu sou uma idiota, você não sabe o quanto estou me odiando neste momento, mas eu quero você. Eu quero você de verdade, com amor - o recado havia terminado assim.
Seguindo o fio, os postes, as ligações, atravessando a cidade, chegando a uma casa antiga e com vários móveis, encontrava-se Sienna. Sentada em um grande sofá macio e em um ambiente desorganizado, ela olhou para o espelho a sua frente. O reflexo mostrava Sergio, um Sergio real, que usava uma camiseta branca amarelada, entrando em sua casa.
- Eu também - ele disse a única coisa que ela queria ouvir.
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