julho 05, 2010

A vida é curta demais para vivê-la em vão

Quando acordei o céu estava cheio de nuvens de chuva e a neblina embaçava a visão dos trabalhadores que saíam cedo, e a minha. Era quinta feira, e eu não estava saindo para trabalhar.
Levantei-me com o máximo de cuidado possível, troquei-me de roupa e fui até o banheiro, onde vira minha cara amassada e escovara os dentes. Fui silenciosamente até a cozinha e preparei um café, peguei meu maço de cigarros na sala e saí de casa, sem fazer barulho algum.
Assim minha mãe não acordaria.

Acordei com um barulho vindo da cozinha. Primeiramente pensei que Matteu estivesse com sede, não me importei.
Olhei pela janela e vi que o céu estava escuro e nublado, mas já havia amanhecido.
Sempre que vejo o céu nublado, lembro dos dias felizes que passamos nessa casa antes "dele" ir embora. Sinto tanta falta do meu marido, do meu amante, do pai do meu filho, que às vezes tenho vontade de acabar com tudo. Mas então Matteu me vem à cabeça, e decido continuar com tudo.

Quando liguei o carro, torci para que ela não notasse que barulho do motor vinha da nossa garagem. Acho ridículo ter que sair escondido, mas o que estou indo fazer ela nunca permitiria. Minha mãe diz ter aversão a "tatuagens".
Dirigi fumando um cigarro, esqueci minha mãe ou qualquer preocupação. O som do carro tocara minha música favorita e minha jaqueta vibrava a cada batida mais forte.

Ouvi um barulho de carro saindo da garagem. Quando meus pensamentos entraram em sintonia, levantei-me correndo e fui para o quarto de Matteu. A cama estava somente com o pijama largado em cima.
Corri para a sala com esperança de encontrá-lo e vi que a chave do carro não estava ao lado do cinzeiro e que o maço de cigarros não estava na mesa de centro. Naquele momento entendi onde Matteu fora.
Minha cabeça girou e lembrei que saí da cama muito rápido. Desmaiei.

Não teria muito sentido eu ir para o estúdio às sete da manhã. Dirigi horas sem rumo enquanto minha mãe tentava falar comigo pelo celular. Antes de desligá-lo vi o aviso de treze ligações perdidas.
No entanto, meu coração bateu forte e lembrei do meu pai.
Entrei onde a placa indicava "Retorno".

Quando despertei, minha cabeça doía e tive que deitar no sofá branco, mesmo sujando-o, para me acalmar.
Peguei o telefone e liguei diversas vezes para meu filho, até o celular indicar que estava desligado. Desisti.
Inclinei minha cabeça e me deparei com o porta-retratos em cima da mesinha, onde tinha uma foto de nós três. Eu abraçada à ele, ele abraçado ao Matteu.
Matteu, desde que cortou o cabelo castanho bem rente, está mais parecido com o pai. Os olhos cor de mel eram como os meus, mas a boca, o nariz e o sorriso eram "dele".
Comecei a chorar.

Parei o carro na frente do cemitério e exitei ao entrar. Cemitérios me deixavam atordoado, e imaginar que meu pai estava ali acabava comigo.
Antes de adentrar, comprei flores para pôr em sua lápide.
Quando criei coragem suficiente para entrar, caminhei olhando para os lados e avistei meu pai. Depositei as flores e lembrei de tudo. Comecei a chorar, saí correndo.
Voltei para o carro e me dirigi ao estúdio.

Peguei no sono abraçada ao porta-retratos e com o telefone na mão.

Não havia ninguém aguardando na minha frente, mas quando o tatuador saiu, uma moça linda o acompanhava. Não duvido que aquela fosse a mais bela mulher que já vira. Ela sorriu para mim e se despediu do tatuador. Seu sorriso pareceu quebrar tudo o que eu tinha por dentro.
E então ela saiu pela porta que entrei e o grandalhão careca me chamou. Era finalmente a minha vez.
Expliquei-lhe e ele entendeu tudo com facilidade. Fui de regata para ajudar no processo e quando terminou, ele fechou com um papel branco.
Minha nuca estava então desenhada.

Eu acordei quando o carro parou na frente de casa. Matteu vinha sorrindo e assobiando. Quando me viu sua cara fechou e se transformou numa máscara carrancuda.
"Matteu, diga que você não fez!", eu gritei.
Ele passou por mim sem dizer uma palavra. Segurei-o pelo braço, que apesar de forte, ainda era do meu filho.
"Matteu!", gritei ainda mais alto.
"O que foi?", ele disse com a voz abafada.
"Você fez uma tatuagem?", perguntei.
"Sim, senhora", e pôs a mão na testa, como em continência.
"Quem você pensa que é? Eu nunca autorizei isso, Matteu!", disse chacoalhando-o.
Ele retirou os braços da minha mão com força.
"Sinto muito, já está feita. Ah, aliás, o corpo é meu!", ele disse essa última parte gritando.
Bati-lhe a face.
"Enquanto morar na minha casa, você tem que obedecer o que eu digo", meu tom diminuiu.
"Ótimo, então vou embora!", ele abaixou o tom também.
Ele caminhou até o carro e ligou-o novamente.
"Adieu, mamãe", ele disse saindo com o carro.
Meu coração disparou quando ouvi.

Liguei o carro e saí olhando para o lado errado. Senti uma pressão em meu peito e um estrondo atravessou meus tímpanos.
Não vi mais nada, fechei os olhos.

Não sei o que senti quando vi aquele caminhão quebrando o carro do meu filho em dois. Nunca algo ardera tanto dentro de mim.
Corri na direção do carro quando vi Matteu de bruços no chão, ensangüentado.
Eu não o sentia respirar. Gritei socorro a todos, mas as pessoas só se aproximaram quando o carro começou a pegar fogo.
Tentei acordá-lo, mas ele não reagia. Pessoas tentavam me tirar de perto dele e do fogo. Mas não queria soltá-lo.
Pus a mão sobre a fita branca e a retirei da nuca.
Estava escrito "A vida muito curta para vivê-la em vão".
Gritei o máximo que pude, até sentir vários braços em minha volta e tudo ficar preto novamente. Desmaiei.

Matteu foi cremado e suas cinzas foram jogadas ao mar. Sinto falta dele, e às vezes penso em acabar com tudo. Mas não o faço porque ele não iria querer isso.
Ele me ensinou que a vida é curta demais para vivê-la em vão.