setembro 29, 2010

Edgar

O vento está soprando lá fora e consigo ouvir até o miado dos gatos de Maria Eulália daqui de cima, tamanho é o silêncio que esta casa se deixou dominar depois que Dolores se foi. Todas as vezes que penso em Dolores meus lábios ressecados pela idade abrem pequenas fendas, pois tento sorrir. Mas só basta pegar um copo de água que Maria deixa ao meu lado antes de ir trabalhar, e pensar em Lola não me faz mais sangrar.
Passo a manhã em meu quarto, bebendo minha água, pensando em minha Lola, lembrando da minha boa vida. Quando esta mesma não me faz esquecê-la. Meu genro usa o termo "gagá" quando não estou perto para dizer qual a minha situação aos oitenta e três anos de idade. Minha filha, Maria Eulália, cuida de mim. Diz que eu preciso exercitar minhas memórias, e que eu "poderia contar minha vida para Edgar", meu neto.
Edgar é um bom nome. Se Dolores e eu tivéssemos tido um filho homem, ele se chamaria Edgar, assim como meu pai. Assim como eu.
Edgar deve ter uns quatro anos, ou pelo menos ele estava assim quando o vi pela última vez. Isto é estranho, porque ele mora comigo, em minha casa. Minha casa e de Dolores. Se eu continuar assim, minha água acabará rápido.
Casamo-nos ainda muito jovens, eu estava no auge de minha carreira e ela estudava advocacia. Lola tinha um gênio forte, era teimosa, mandona. Ela era independente.
Eu era maestro, regia a maior orquestra daqui e todos me conheciam. Foi Edgar, meu pai, quem me ensinou a tocar. Na verdade eu regi por muitos anos, até a orquestra me substituir. Afinal, eu já estava velho, precisava descansar. E Dolores assistia a todas as apresentações. Ficou grávida de Maria Eulália e decidiu não prosseguir com a carreira de advogada. Ela, de uma forma ou de outra, nascera para ser mãe.
Enquanto eu escrevia as partituras, ela cuidava de Maria Eulália e lia. Sempre adorou ler. Sempre fora sua vontade escrever um livro.
O tempo passara e Maria cresceu. Decidiu cursar Letras e escrever livros. Talvez algum dia seus livros fiquem famosos. Uma vez ela me disse que escreveria um livro sobre Edgar. Não sobre seu avô, nem sobre seu filho. Mas sim sobre seu pai maestro e sua mãe Lola.
Mas Edgar, meu neto, está um rapazote tão bonito. Está com dezoito anos, acabei de me lembrar. Ele veio aqui no quarto hoje pela manhã perguntar como estava me sentindo. Eu respondi "muito bem, obrigado". Às vezes o olho e fico confuso. Não sei mais se ele tem quatro ou dezoito anos. Ah! Maria Eulália me avisou pela manhã que tenho que me vestir bem esta noite. Ela irá apresentar seu novo livro hoje. Estou pensando em usar meu smoking de maestro. O que será que Dolores irá achar?
Oh, não! Dolores, como sou tolo. Ela só está a me ver agora. Mas eu sinto sua falta. Sinto falta de sua teimosia, coragem, independência. Edgar, meu neto, parece muito com ela. Ele está com quatro anos e é um garoto tão esperto!
Não, não será hoje a apresentação. Isso foi semana passada, se não me engano. Preciso perguntar a Edgar quando ele voltar aqui, o que devo vestir. Maria Eulália disse que o livro é sobre mim e Dolores. O nome é "Edgar".
Outro dia encontrei minhas partituras com a ajuda de Edgar. Foi como ver todo o teatro a nós assistindo novamente. Na última folha há até a marca de batom de Dolores, ela deixara ali de propósito.
Mas eu a amo. Ela sempre está por perto. Quando há um infartado em casa, todos têm que ficar por perto. Maria Eulália, Edgar, Edgar, Dolores, meu genro. Mas ela se foi, e logo eu também irei. Assim como meu copo de água, que agora está vazio.
Preciso dizer que amo Maria antes de ir. De abraçar meu neto Edgar de dezoito anos, e agradecer ao meu genro.
Estou com sede, minha água acabou. Talvez Dolores tenha um pouco de água para me dar. Vou só fechar os olhos, um pouquinho. O vento não reparará, os gatos de Maria Eulália continuarão miando.
Só fecharei os olhos por um instante. É rápido.
Talvez eu encontre Lola.