"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco", disse-me ele.
Gostaria que ele soubesse o quanto isso me irrita.
"Cale a boca, Baco, que saco. Não me apresse.", respondi.
Ele rira, parara e arrumara a roupa social. Impaciente, soltei-me do braço dele e subi as escadas. Baco foi mais rápido - como sempre, subiu os degraus de dois em dois e bloqueou minha passagem.
"Você é ridículo. Fica o tempo todo me puxando a força, quando bem entende me solta e se acha no direito de me impedir", disse inclinando-me para a frente, para ficar face à face, para ele sentir minha raiva.
Ele pegou meus braços à força e me beijou. Cedi facilmente, não é à toa que estamos juntos nessa. Quando nossos rostos se separaram olhei-o, completamente, e vi o quanto ele estava bonito com aquele sobretudo preto que eu dera semana passada.
"Baco", parei para respirar, "o combinado não é na escada".
"É mesmo!", disse ele pegando minha mão novamente, e puxando-a com desespero, "Mas agora estou mais animado".
"Ótimo, era isso que eu queria". Quando disse, minha voz pareceu sumir entre todos os andares de escada.
Corremos por mais uns dois lances até pararmos na frente de uma porta com uma placa vertical escrita "Andar 27".
Ele abriu a porta e me puxou novamente, minha peruca preta caiu no chão. Soltei-me novamente, voltei dois passos no corredor e abaixei para pegá-la, então Baco soltou um "Hummm", aproximou-se de mim e pôs as mãos em minha cintura.
"Anita," disse ele levantando meu tronco, "você quer mesmo que seja aqui? Você aí com esse vestido preto e eu aqui sem conseguir me controlar".
"Mais alguns passos, Baco, faltam poucos.", e coloquei a peruca novamente.
Andamos até o fim do corredor e nos deparamos com a porta "2222", nossa vítima. Peguei minha chave universal e entramos no apartamento.
Era pequeno, com uma cama de casal, um banheiro ao fundo, um criado mudo e um cinzeiro. Tão sem vida que parecia quarto de hotel.
"Agora se deite aí, Baco!", e ele obedeceu. Não tinha mais com o quê relutar.
Retirei minha peruca enquanto encostava na parede laranja que descascara com o tempo, passei meu batom vermelho enquanto ele desabotoava a camisa, abri o zíper do meu vestido enquanto ele estava no zíper da calça. Fui lentamente até a cama.
Quando me apoiei com os dois braços na beira da cama, Baco pegou minhas mãos e me colocou em cima do corpo dele.
"Eu quero você", disse ele, como sempre diz antes de nos invadirmos.
"Aqui e agora", eu disse, que é minha resposta habitual.
Ele abriu meu sutiã, arrancou minha meia calça, enquanto eu somente lutava para tirar a camisa dos ombros largos dele.
Além dos ombros marcantes, Baco tem o cabelo raspado, olhos castanhos e finos, mas expressão rude.
Ele puxava meus cabelos louros, marcava minha pele clara e olhava intensamente para meus olhos negros. E nos invadimos, rindo baixo.
Não deu tempo de dormirmos, nunca dá.
"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco!", repetiu ele.
Vesti-me novamente, fui até o banheiro e retoquei meu batom. Ele acendeu um cigarro.
"E aí, qual surpresa deixaremos hoje?", perguntou.
"Minha meia-calça.", respondi. Era mais incerto deixar algum pertence nosso na casa.
"Está bem. Arrumamos a cama?"
"Não, eu quero que o dono desta se surpreenda.", eu disse, escondendo meu tom maléfico.
Fomos embora, não trancamos a porta. A cama estava bagunçada e minha meia calça preta estava largada no chão. Quando saímos do prédio, Baco esbarrou com o dono do quarto "2222".
Ele nos olhou, estava de cabeça baixa. Continuamos sem olhar para trás, até chegarmos ao nosso hotel. Ficaríamos pouco tempo na minha cidade natal.
Abrimos a porta do apartamento e Baco resolvera tomar banho.
O telefone tocou.
"Sabia que ligaria...", eu disse quando atendi.
Do outro lado da linha, ele riu.
"Obrigado pela meia-calça, Anita, e pelo telefone que deixou dentro dela."
"Vamos nos encontrar, sinto saudades de você e dos velhos tempos", disse eu, conferindo se Baco não estaria ouvindo.
"Quando você quiser. Você está com alguém?", perguntou.
"O nome dele é Baco e ele está no banheiro. Vamos nos encontrar amanhã, no seu apartamento?", sugeri.
"Ótimo.", concordou.
Sorri.
"Agora vou desligar, ele pode chegar daqui a pouco."