setembro 30, 2011

Ad Infinitum

Aqueles pontinhos acinzentados no céu não me chamavam mais a atenção há anos, e sobre a lua eu não tinha o que dizer. Simplesmente não entendo de luas.
Meu sapato não fazia nenhum barulho ao tocar a calçada e eu caminhava me equilibrando na guia. Quando deparei-me com a iluminada placa na curva da rua, tirei o bilhetinho do bolso do meu vestido e conferi o nome. Cheguei à última estação para um fim. Ou um começo.
Quando me apresentei ao simpático moço da recepção, ele me encaminhou para o jardim, onde havia confortáveis mesas de madeira escura. Sentei-me debaixo de uma lampião e tive que tirar a jaqueta que vestia, temendo o suor que minutos depois me faria ir ao banheiro. Quando retornei - depois de retocar os contorno dos olhos e umedecer o pescoço -, vi Lion sentado olhando fixamente para alguma coisa. Ele me viu e sorriu, e cumprimentei-o com um beijo no rosto.
Enquanto jantávamos, o jardim estava repleto de pessoas. Conversávamos confortavelmente e o lampião emanava um calor agradável. Enfim estávamos ali.
Por ventura, um relâmpago cortou o céu e me assustou. A luz no interior do restaurante se apagou por alguns segundos e o brilho de infinitos vagalumes numa amoreira do jardim apareceu e desapareceu rapidamente. O que o fez lembrar das estrelas.
"Sabe, eu gosto de coisas atômicas: pequenas, mas de grandes proporções", disse Lion, olhando para o céu.
À vista disso, percebi o quanto eu gostava dele e o quanto ele percebia isso. Cocei os olhos e o enxerguei na minha frente, observando-me. Ao perguntar-lhe o que havia, ele me prometeu que dessa vez não sumiria. Pediu desculpas por tudo que passamos e que "há coisas que são necessárias explicar". Eu não queria ouvir, pois eu sempre soube que o quanto eu o amava era do mesmo tamanho do quanto ele queria me amar - mas ele nunca diria.
Nem sempre é fácil saber a verdade e não tentar escondê-la, mesmo quando todos criam bons motivos para desacreditá-la. Era um fato, e eu entendo.
Não importa o quanto eu sou apaixonada por Lion, ou o quanto ele se importa comigo. O importante é ele não mais desaparecer. Não são necessárias explicações amedrontadas ou desculpas. Nós nos conhecemos o suficiente para não nos conhecermos de verdade.
"Somente não suma", sussurrei.
Por sua vez, Lion prometeu que não.
Levantamo-nos, apertamos nossas mãos e demos um abraço tão significante quanto trinta páginas do meu romance favorito. E era assim nossa vida.
Ao nos despedirmos, ele me beijou no rosto e me abraçou rapidamente. Saiu para o outro lado do letreiro luminoso sem olhar para trás, procurando suas chaves. E eu, na frente do letreiro, sorri para uma única estrela brilhante naquele céu que já não percebia mais. Vesti minha jaqueta e segui o caminho contrário.
Eu sabia que nosso ir e vir não teria fim, que Lion logo mais sumiria. Sempre foi assim, e sempre será. Ad infinitum.

setembro 19, 2011

O(s) amor(es)

O rádio do carro demorou para sintonizar no programa que alerta os motoristas sobre o trânsito, e por isso, fiquei preso num congestionamento de volta pra casa. Fiquei tempo suficiente para contar as moedas que estavam guardadas no carro, separar as contas e ler um capítulo do livro que um rapaz do trabalho me emprestou.
Quando cheguei em casa, deparei-me com Rita sentada nas escadas, com fones de ouvido, lendo um livro. Ela já estava de pijamas, mas continuava linda. Seus cabelos estavam trançados e seus olhos castanhos-claros se ergueram ao me ver. Meus olhos, como resposta, quase suplicaram por um toque dela. Cheguei bem perto, e ao tirar-lhe os fones, minha barba roçou em sua pele quando meus lábios a tocaram.
"Olá", eu disse.
Ela me abraçou com força, mas continuou sentada.
No momento em que entrei, Guillermo dormia dentro do berço. Com cuidado para não acordá-lo, tirei a gravata e os sapatos, e entrei no banheiro. Tomei um longo banho esperando que a água quente dissolvesse a tensão dos meus ombros. Pensei por alguns segundos na bela mulher que me dera seu número de telefone hoje, mas voltei a pensar nas papeladas da empresa. Em algum momento, Rita entrou no banheiro sem que eu visse e desenhou no espelho embaçado um sorriso.
Quando saí, vi que Guillermo já estava em seu quarto e que Rita me chamava do lado de fora. Perguntou-me como fora o dia de trabalho e me contara tudo o que fizera durante o seu. Chamou-me para entrar e disse que guardara o jantar para mim. E eu pude ver o quanto ela é a mulher mais linda do mundo, minha esposa e mãe do meu filho.
Conversamos durante o jantar e depois, enquanto eu lavava a louça, ela secava. Como numa imagem de cinema, pude notar que além do meu corpo, éramos felizes. Contudo, olhando para dentro de mim, eu não poderia - e nunca iria - amar somente Rita. E ela sabia disso.
No banheiro, enquanto ela escovava os dentes, eu aparava a barba. Enquanto eu escovava os dentes, ela tirava do frasquinho seus três anti-depressivos.
Ao nos deitarmos, ela me beijou por mais tempo que o habitual, disse o quanto me amava e entrelaçou suas mãos uma na outra, encolhendo-se debaixo do lençol. Naquele momento, vi o quanto Rita estava solitária. Beijei sua testa e me virei de costas, pensando em outras mulheres, e me culpando por não muito prestar.
Mas eu a amo.