O salão de ballet era grande, com um espelho gigantesco que ocupava duas paredes enquanto as outras duas eram brancas. O assoalho era de madeira escura e com aparência de novo. A janela ficava na parede adjacente ao espelho e era feita da mesma escura da madeira que o piso. Logo abaixo da janela, do lado de fora, há uma placa com os dizeres "Desde 1953".
Emma tinha vinte e sete anos e estuda no Instituto França desde os nove. Seu cabelo é curto e ruivo ao natural, no nariz um pouco bruto para o rosto delicado há sardas. Terminara a faculdade de cinema e treinava ballet somente às sextas.
Era a terceira sexta-feira de janeiro, Emma acordou cedo e foi para o instituto. A professora chegou pouco tempo depois e abriu o salão para ela treinar sozinha, o momento que Emma mais gostava. Quando a aula começou, a professora baixinha de cabelos grisalhos apresentou o novo aluno: Fabrizzio.
Fabrizzio tinha dezenove anos e aquela seria sua primeira aula. Estava na faculdade de Astronomia há um ano e não planejava sua semana. Ele costumava chamar atenção por seus cabelos castanhos grandes e bagunçados, os olhos com um tom de verde discreto e os lábios, o superior um pouco maior que o inferior. Quando chegou ao instituto usava um lenço verde na cabeça, a cor favorita de Emma.
A primeira vez que o viu, Emma não percebeu que ele era tão novo. Justamente ela, a veterana, foi escolhida para mostrar-lhe as posições principais.
Emma fazia enquanto a professora repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque". Fabrizzio não tirava os olhos dos pés de Emma, curioso para entender. Emma, que sempre fora concentrada, estava com um pouco de dificuldade por ele estar a olhando tão atentamente. Ela pensava que ele estava observando-a como um todo, o rosto, os braços, os quadris, enquanto Fabrizzio somente olhava os pés.
A professora agradeceu e pediu para que Fabrizzio tentasse as mesmas posições. Fabrizzio olhou para o chão e sorriu - um sorriso que aparentava vergonha, mas que vinha dos lábios de um rapaz seguro. "Charmoso", pensou Emma, e também sorriu. Todas as outras sete meninas perceberam que ela sorrira por causa dele, pois todas as outras sete também sorriram. Entretanto, Emma fora a única que sorriu com os olhos fechados e que soltara um pequeno ruído.
Ele não a olhou, não olhara para as outras e não poderia dizer a cor da roupa da professora. Somente repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque".
Ao final da aula, as duas alunas mais corajosas foram falar com ele. Aproximaram-se e enquanto uma enrolava o cabelo com os dedos, a outra disse "Parabéns, você foi muito bem", inclinando os ombros na direção de Fabrizzio, que virando-se de costas disse um "Valeu" indiferente e pegou um fone de ouvido que vinha do bolso da blusa que acabara de vestir.
Naquela sexta-feira, Fabrizzio e Emma demoraram quase o mesmo tempo para sair do Instituto. Quando passaram pela porta, esbarraram-se e ela sorriu, da mesma forma que antes. Ele respondeu com o mesmo sorriso de antes e indicou que ela fosse à frente.
Saíram do prédio juntos e caminharam separados o mesmo trecho. Emma caminhava um pouco mais à frente e parou na frente de uma motocicleta. Tirou do bolso da jaqueta uma chave e colocou o capacete. Fabrizzio pensou em passar reto, mas voltou.
"É Emma, não é?", Fabrizzio disse aproximando-se da moto.
"Sim", ela respondeu colocando o pé no acelerador.
"Você dança muito bem", ele disse. "Você se importaria de me auxiliar fora do instituto também?"
Ele sorriu e olhou para baixo. Emma não controlou o riso e aceitou a proposta.
Passaram-se alguns meses de sextas-feiras de aula no Instituto França e algumas aulas particulares. Emma estava apaixonada, Fabrizzio era ágil e interessado, aprendia rápido. Com o tempo, o belo rapaz demonstrou não somente interesse pelo ballet quanto pela bailarina.
O primeiro beijo foi ardente e na quarta aula particular. Na aula seguinte, Fabrizzio sugeriu que ela dançasse para ele o máximo que sabia. Quando Emma caiu exausta no chão, ele a pegou no colo, subiu as escadas da pequena casa dela e levou-a para o quarto. A ardência se espalhou pelo corpo todo e foi de um jeito que surpreendeu os dois. Nem Kubrick conseguiria retratar tanta ousadia e sintonia, nem Sirius brilharia mais. Dançavam ballet, amavam-se, violavam-se.
Formaram arabescos na cama e um no outro.