maio 27, 2010

Duas peles de cordeiro para uma loba

"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco", disse-me ele.
Gostaria que ele soubesse o quanto isso me irrita.
"Cale a boca, Baco, que saco. Não me apresse.", respondi.
Ele rira, parara e arrumara a roupa social. Impaciente, soltei-me do braço dele e subi as escadas. Baco foi mais rápido - como sempre, subiu os degraus de dois em dois e bloqueou minha passagem.
"Você é ridículo. Fica o tempo todo me puxando a força, quando bem entende me solta e se acha no direito de me impedir", disse inclinando-me para a frente, para ficar face à face, para ele sentir minha raiva.
Ele pegou meus braços à força e me beijou. Cedi facilmente, não é à toa que estamos juntos nessa. Quando nossos rostos se separaram olhei-o, completamente, e vi o quanto ele estava bonito com aquele sobretudo preto que eu dera semana passada.
"Baco", parei para respirar, "o combinado não é na escada".
"É mesmo!", disse ele pegando minha mão novamente, e puxando-a com desespero, "Mas agora estou mais animado".
"Ótimo, era isso que eu queria". Quando disse, minha voz pareceu sumir entre todos os andares de escada.
Corremos por mais uns dois lances até pararmos na frente de uma porta com uma placa vertical escrita "Andar 27".
Ele abriu a porta e me puxou novamente, minha peruca preta caiu no chão. Soltei-me novamente, voltei dois passos no corredor e abaixei para pegá-la, então Baco soltou um "Hummm", aproximou-se de mim e pôs as mãos em minha cintura.
"Anita," disse ele levantando meu tronco, "você quer mesmo que seja aqui? Você aí com esse vestido preto e eu aqui sem conseguir me controlar".
"Mais alguns passos, Baco, faltam poucos.", e coloquei a peruca novamente.
Andamos até o fim do corredor e nos deparamos com a porta "2222", nossa vítima. Peguei minha chave universal e entramos no apartamento.
Era pequeno, com uma cama de casal, um banheiro ao fundo, um criado mudo e um cinzeiro. Tão sem vida que parecia quarto de hotel.
"Agora se deite aí, Baco!", e ele obedeceu. Não tinha mais com o quê relutar.
Retirei minha peruca enquanto encostava na parede laranja que descascara com o tempo, passei meu batom vermelho enquanto ele desabotoava a camisa, abri o zíper do meu vestido enquanto ele estava no zíper da calça. Fui lentamente até a cama.
Quando me apoiei com os dois braços na beira da cama, Baco pegou minhas mãos e me colocou em cima do corpo dele.
"Eu quero você", disse ele, como sempre diz antes de nos invadirmos.
"Aqui e agora", eu disse, que é minha resposta habitual.
Ele abriu meu sutiã, arrancou minha meia calça, enquanto eu somente lutava para tirar a camisa dos ombros largos dele.
Além dos ombros marcantes, Baco tem o cabelo raspado, olhos castanhos e finos, mas expressão rude.
Ele puxava meus cabelos louros, marcava minha pele clara e olhava intensamente para meus olhos negros. E nos invadimos, rindo baixo.
Não deu tempo de dormirmos, nunca dá.
"Vamos, Anita, ele pode chegar daqui a pouco!", repetiu ele.
Vesti-me novamente, fui até o banheiro e retoquei meu batom. Ele acendeu um cigarro.
"E aí, qual surpresa deixaremos hoje?", perguntou.
"Minha meia-calça.", respondi. Era mais incerto deixar algum pertence nosso na casa.
"Está bem. Arrumamos a cama?"
"Não, eu quero que o dono desta se surpreenda.", eu disse, escondendo meu tom maléfico.
Fomos embora, não trancamos a porta. A cama estava bagunçada e minha meia calça preta estava largada no chão. Quando saímos do prédio, Baco esbarrou com o dono do quarto "2222".
Ele nos olhou, estava de cabeça baixa. Continuamos sem olhar para trás, até chegarmos ao nosso hotel. Ficaríamos pouco tempo na minha cidade natal.
Abrimos a porta do apartamento e Baco resolvera tomar banho.
O telefone tocou.
"Sabia que ligaria...", eu disse quando atendi.
Do outro lado da linha, ele riu.
"Obrigado pela meia-calça, Anita, e pelo telefone que deixou dentro dela."
"Vamos nos encontrar, sinto saudades de você e dos velhos tempos", disse eu, conferindo se Baco não estaria ouvindo.
"Quando você quiser. Você está com alguém?", perguntou.
"O nome dele é Baco e ele está no banheiro. Vamos nos encontrar amanhã, no seu apartamento?", sugeri.
"Ótimo.", concordou.
Sorri.
"Agora vou desligar, ele pode chegar daqui a pouco."

maio 14, 2010

Jaquetas de couro e cigarros

- Sr. Lionel.
Ela se levantou. Estava com a jaqueta de couro que gostava, uma camiseta branca por baixo, o jeans preto agora acinzentado e seu tênis habitual. Seus cabelos lisos e louros estavam presos em um coque improvisado. Aqueles pequenos fios de cabelo crescendo estavam arrepiados, atenuando sua expressão cansada.
- É "Senhorita", por favor.
- Oh, desculpe. - Ele inclinou os braços indicando a porta - Pode entrar.
O consultório era grande e impessoal. As cores das paredes eram brancas, a mesa estava organizada, as cadeiras eram confortáveis e a poltrona era da mesma cor e material que a jaqueta de Lionel. Nada de plantas, nada de fotos de família, somente uma longa estante para livros.
- Bom, o que traz você... Posso chamá-la de você, não é?
- Sim.
- O que traz você aqui, senhorita Lionel?
- Meu coração.
Ele coçou a cabeça e mexeu na pequena placa dourada que estava cima da mesa. Quando a luz da janela parou de refletir, Lionel viu que estava escrito "Cardiologia" e se irritou com a sutileza.
- O que há com seu coração?
- Doutor, eu posso fumar aqui?
- Não.
- Por quê?
- Porque não. Senhorita Lionel, o que a traz aqui?
- Meu coração, já disse.
Pela janela viam-se pequeninos homens trabalhando içados por cordas em outros prédios. Usavam capacetes e uma madeira que incansavelmente passavam pelos vidros. Atenta nessa imagem, Lionel puxou um cigarro e o acendeu.
- Doutor, meu coração dói.
- Por favor, pode não fumar aqui dentro?
Ela se esticou da cadeira, pôs as mãos em um pote em cima da mesa e achou um único cigarro. Entregou-o ao doutor.
- Vamos, me acompanhe.
- Senhorita...
- Vamos! - interrompeu-o.
Ele pegou o cigarro e o acendeu.
- Ótimo. Como eu ia dizendo, meu coração dói.
- Então vou encaminhar você para fazer alguns exames; - pegou uma folha e uma caneta - são três e você terá que voltar aqui daqui há uns doi...
- Mas já, doutor? Eu não lhe disse o que sinto.
Ele levantou os olhos.
- Pode me dizer, senhorita Lionel?
- Ótimo. Eu não sei.
- Faremos os exames então.
- Caramba, que coisa banal! - Ela apagou o cigarro na mesa de madeira dele. - Eu vim aqui porque meu coração está se sentindo mal. Ele guarda rancor de uma pessoa, ódio.
Ele empurrou um pouco a cadeira de couro em que sentava e pensava em como tirar aquela louca de sua sala.
- Senhorita Lionel, eu não sou psicólogo.
- Eu sei, doutor, mas escute, eu tenho dezessete anos. Fui criada pelo meu pai, mas agora moro sozinha. Saí do colégio e não pretendo fazer uma faculdade. Agora eu fumo como uma condenada.
- Senhorit...
Ela atravessou a mesa, inclinou-se para o homem grisalho na cadeira e disse baixo em seu ouvido:
- O senhor se lembra de um paciente chamado Dionísio?
- Sim - disse ele espantado com o clímax da cena.
Lionel pôs as mãos na cadeira e a girou para que estivessem face à face.
- O que houve com ele?
Silêncio.
- O que houve com ele, doutor?
- Infelizmente... Ele não sobreviveu à cirurgia de... Transplante de coração.
- Infelizmente... Ele era meu pai. - Ela bateu com os punhos cerrados na mesa. - Agora eu estou sozinha, fumando e perdida.
Ele se calou.
- Você ao menos sente muito? Bom, duvido. Olhe em volta. Você tem tudo o que precisa aqui.
Silêncio.
- Oh, não. Vejo que falta uma família. Seu coração deve doer, não é? - Ele assentiu - Acho que nós dois não somos muito diferentes um do outro. Que tal... - ela retirou uma mecha de cabelo da frente do olho - Que tal o senhor procurar um cardiologista?
Silêncio.
Lionel saiu sem olhar para trás. Seus tênis quase não faziam barulho. O doutor continuou sentado, com o rosto inanimado.
- Doutor?! - Disse a secretária batendo na porta. - Posso chamar o próximo paciente?
Ele somente assentiu com a cabeça. Parecia fraco.
- Com licença, doutor.
Ajeitando-se na cadeira, pegou a ficha do próximo paciente.
- Senhor Bernardo, - respirou fundo - o que o traz aqui hoje?
Bernardo tinha cabelos louros, usava uma jaqueta de couro e reservava um maço de cigarros no bolso.
- Meu coração. Ele dói.

maio 08, 2010

Como se você voltasse

A louça está lavada em cima da pia, o chão cheira a desinfetante cítrico e a televisão eu já desliguei.
Sentei-me no sofá com o cigarro na mão e esperei-a chegar.
Uma hora, duas horas, três horas. Eram 16:00 horas quando minha campainha tocou. Já fumara tantos cigarros e esperara por tanto tempo que nem meu pulmão nem minha cabeça sentiam nada.
Levantei-me, parei na frente do espelho manchado e tentei arrumar meu cabelo, que a almofada amassara, e a camisa que estava com a gola levantada. Cheguei ao ponto de arriscar abrir os dois primeiros botões. Sentia-me um adolescente novamente, tentando mostrar o máximo de pele possível.
Desde que ela se fora a casa não é a mesma. Quando nos casamos era a maior e mais bonita casa da vizinhança, tinha a fachada verde limão, a cor favorita dela. Hoje não passa de uma grande casa abandonada, com a grama alta e as árvores precisando de uma poda. Não durmo mais no nosso quarto, aquele com paredes vermelhas. Só durmo no quarto em que ela planejara ser o das crianças. Queríamos três filhos. Quando soubemos que nosso primogênito seria um garoto, compramos o berço branco, a poltrona azul escura, o papel de parede com desenhos de astronautas segurando gatinhos de pelúcia.
Ainda me lembro do dia em que colamos cada astronauta nas paredes azuis e verdes. Ela estava com cinco meses e estragamos a gigante lua que tínhamos comprado para colar no teto porque não entramos num acordo de qual lado ela estaria colada. Agora durmo no quarto que um dia tivera na porta uma pequena placa escrita "Lorenzo".
Hoje o berço está nos fundos da garagem ao lado da poltrona, e os pequenos astronautas estão começando a descolar das paredes do quarto. Quando os olho lembro dos bons momentos e dos planos malucos que construímos juntos para ele. Ela costumava sentar na poltrona para folhear revistas de enxovais para bebês enquanto eu montava o berço.
Estávamos no meio de maio, faltavam três meses para o nosso pequeno dormir naquele quarto ao fim do nosso corredor. Mas, durante uma noite, acordei incomodado por uma umidade na cama.
O desespero fez com que eu agisse sem controle. Pegara minha esposa no colo com urgência e fomos para o hospital. Na semana seguinte voltamos para casa, tive que retirar a pequena placa da porta do quarto que ficava ao fim do corredor. A casa toda entristeceu. Eu tinha que me mostrar forte, mas tinham noites que não suportava e chorava escondido no quarto que um dia fora do nosso pequeno.
Ela nunca mais foi a mesma, não entrava no quarto dos astronautas. E tudo começou a acontecer depois da perda de Lorenzo.
Dois anos se passaram, ela optou por trabalhar em casa e nunca mais falou em filhos. Eu saía mais tarde de casa e voltava mais cedo. Na hora de dormir ela se posicionava em meus braços para que eles a defendessem de qualquer coisa. Mesmo assim ela não falava com tanta frequência que me amava.
Até o dia em que ela se foi. Quando fecho os olhos ainda vejo o momento em que ela pôs a mão no meu rosto, disse "eu amo você" e partiu.
O espelho em que agora olho está faltando um pedaço. Quebrei-o no momento em que ela saiu daquela casa para não mais voltar.
A campainha tocou novamente. Arrumei o vaso de flores com margaridas que comprara do dia anterior, sentindo que ela viria. Destranquei a porta e sorri quando a abri.
Senti um abraço forte e fechando os olhos comecei a chorar.
Os braços me afastaram e disseram com voz firme "Humberto, você precisa ficar bem".
Eu chorava como uma criança.
"Humberto, sou eu, Estevan. Humberto, ela morreu há muito tempo. Você precisa ficar bem".
Chorei, chorei, chorei.
Só pude dizer "Eu sei, amigo, eu sei".

maio 06, 2010

Ambivalência

A casa em que Ian e Annabel moravam era pequena e aconchegante, sem paredes para dividir os cômodos. A idéia foi de Annabel, de que nem paredes os separassem um do outro. Nenhum dos dois se preocupava com contas, com visitas ou viagens. Desde que alugaram aquele lugar, só precisavam um do outro.
Era noite, Ian estava deitado na cama fumando enquanto Annabel pintava as unhas do pé ao seu lado.
- Pode colocar uma música? - disse ele colocando a mão desocupada na nuca de Annabel.
Ela sentiu o calor no corpo dele e estremeceu.
- Ian, eu estou pintando as unhas, pare de fazer isso senão eu vou borrar todo meu pé de preto.
Ian se sentou, jogou o cigarro dentro de um copo de vinho e se virou na direção das costas de Annabel.
- Gostaria de uma massagem, meine liebe? - e colocou as mãos por baixo da camiseta larga dela quando viu que o sutiã vermelho estava pendurado na guarda do sofá.
Ela acompanhou o olhar dele e disse:
- Bom, você sugeriu uma massagem hoje cedo, se lembra?! Por isso ele está lá.
Ian, que já estava com a cabeça encostada nos ombros de Annabel, riu perto do ouvido dela. O ar quente dele estava acabando com a resistência dela. Quando Annabel encostou o vidro de esmalte no chão, Ian pôs as mãos nas coxas dela.
- Ian!
- Que foi? - e soltou um riso baixo quando ela não o impediu de levantar suas pernas. - Fazer ballet foi a melhor decisão da sua vida...
Annabel derrubou a caixa de esmaltes quando se virou para olhar nos olhos de Ian.
- Você está incontrolável hoje! - ela tentava deixar a voz firme, mas Ian estava com o olhar penetrante, convidativo.
Ele pegou nas pernas de Annabel e encaixou na sua cintura. Pôs uma das mãos por debaixo dos longos cabelos castanhos dela e a outra dentro da camiseta dela.
- Ian, Ian... - ela ofegava - Ian, eu preciso..
- Calar a boca - ele completou.
Derrotada, Annabel se enrolou no pescoço de Ian e o beijou. Ela podia sentir o calor do corpo dele entrando no corpo frio dela.
Suado, Ian se levantou cambaleando e pegou um cigarro. Annabel ainda dormia. Acendeu o cigarro, olhou para seu reflexo no vidro da janela e se virou para Annabel. Encostado na parede, deslizou até o chão e se sentou. Pensou por um tempo suficiente para Annabel acordar.
- Você não me deixa pintar as unhas.
- E você não me deixa fazer massagem em você... - ele se levantou do chão, foi até a cama e ajoelhou-se em cima dela.
Annabel levantou o tronco e beijou-o.
- Vou terminar de pintar as unhas...
- Ah, não vai não! - e a empurrou novamente para o travesseiro.
- Ian, você não se cansa? - ela bateu nos ombros dele.
- Não posso querer me deitar juntinho a você? Você tem uma cabeça também, eu não disse nada sobre sexo, só quero ficar do seu lado.
Ele se deitou ao lado de Annabel, puxou-a para encostar no peito dele. Pouco tempo depois ela voltou a dormir.
- Se você soubesse o quanto eu amo você.. - ele disse, beijando-a na testa.
Num impulso involuntário, ela cravou as unhas no peito dele.
Com um sorriso no lábio, ele esticou o braço e pegou outro cigarro. Não tinha sono.