outubro 21, 2010

Água fervente

Era primavera e pouco sol adentrava pela grande parede de vidro daquele andar. Antonieta usava a mesa mais próxima da janela, no andar 21, e os papéis, naquele dia, quase brilhavam quando a luz do sol os tocavam. Quando pôde ver, a bela tarde acabara, o sol deu lugar à uma lua minguante, todas as nuvens haviam desaparecido e era hora de ir embora. Não reparara que quase todos do andar já haviam ido e que ninguém havia dito "boa noite". Antonieta pegara sua bolsa e se despediu dos três estagiários do seu andar. Queria ir para casa, tomar um banho e encontrar Romeo.
Quando chegou ao seu apartamento, imediatamente tirou a camiseta que usava e jogou-a juntamente com a calça jeans no cesto de roupa suja. Deixou a bota caída no meio da sala, em cima do tapete empoierado.
Tirou o sutiã e amarrou o cabelo cacheado em um rabo de cavalo, para não molhá-lo. Olhou-se por alguns minutos no espelho, mexendo nos longos cílios, na pinta que tinha no pescoço, no novo umbigo.
Tomou um banho morno, e cantou por alguns momentos. Pensou em Romeo. Não demorara muito no banho, e quando terminou atravessou o apartamento nua até o seu quarto, onde deixara a toalha. Vestiu o pijama rapidamente e foi para a sala de estar para continuar a ler seu livro.
- Eu vi você andando por aqui sem roupa, viu. - repreendeu uma voz vinda do cômodo ao lado, uma voz que ela adorava ouvir.
Ela foi até a cozinha com o livro na mão. Encontrou-o sentado, esperando uma água na chaleira ferver.
- Romeo, nunca fui boa no esconde-esconde. - Antonieta beijou-o sem pressa.
Ficou sentada no colo dele, ora olhando em seus olhos, ora com a cabeça deitada em seu ombro.
Quando Antonieta se levantou, a água na já havia evaporado. Foi até o quarto, depositou o livro em cima de uma pilha de livros no chão e abriu a janela do quarto. As luzes da cidade invadiram o quarto, assim como Romeo quando as viu.
Ele se deitou na cama e ela sentou no chão, na frente da janela, olhando tudo. Aos poucos, seus ombros eretos começaram a se curvar, caindo. Um pequeno ruído encheu o cômodo e Romeo levantou-se confuso.
- Você está chorando? - ele perguntou.
- Sim.
Era a primeira vez que ela assumia que estava chorando, e não dava desculpas engraçadas. Isso era alarmante.
Romeu foi até ela, agachou-se e a abraçou. Lágrimas quentes começaram a cair em seu braço. E ela, Antonieta, não se mexia.
- Por que está chorando? - ele a apertava mais a cada lágrima que caia em seu braço.
- Às vezes eu acho que amo tanto você que se um dia isso acabasse, seria como uma arma nuclear. E afinal, pela primeira vez, eu sinto que quero passar o resto da minha vida com a mesma pessoa, com você, sempre. Mas você parece não notar isso.
Romeo a virou com tanta facilidade, deitou-a em seu peito e encostou a boca no alto da cabeça dela. Ele não conseguia falar nada, nem pensar em nada. Somente pôs a mão na barriga dela e a afagou suavemente. Respirou fundo e soltou as palavras como um uníssono:
- Eu amo você, amo vocês duas. Eu só não sei demonstrar a proporção desse amor. Eu nunca entendi de amor, nunca soube como isso funcionava. Achava que era fácil, que coisas aconteceriam e tudo permaneceria bem. E então você veio e me mostrou que isso de amor é difícil, cansativo, mas recompensador. E agora esse meu pedaço aí, dentro de você, só mostra que tudo foi feito para dar certo.
Ela o abraçou forte, e começou a rir.
- Desculpe, Romeo, eu sei que você me ama. É isso de gravidez que me deixa confusa.
Romeo a abraçou, pegou-a no colo e a deitou na cama. Deitaram-se de frente um para o outro, e sorrindo ela começou a dormir.
- Não durma Antonieta, preciso dizer uma coisa. - ele disse.
Ela abriu os olhos lentamente.
- Eu amo você.
Antonieta virou de costas para ele e disse:
- Romeo, chega de amor por hoje.
E ele riu, ajeitando-se nas costas dela.
- Você não me nota - ele disse, imitando uma voz que ele imaginara parecer com a de Antonieta -, você não diz que me ama!
E então os três pegaram no sono, sorrindo.

outubro 15, 2010

O mesmo vento de sempre

A cortina ao lado da cama estava balançando e comecei a brincar com ela. Cada vez que o vento a empurrava em minha direção, e eu o provocava empurrando a cortina violentamente. Não era um dia de sol, tudo indicava que choveria. Assim como aquele dia, há muito tempo atrás, quando o vento fez a mesma brincadeira. Agora vejo que a vida é assim, vive de repetições, mas como constantemente mudamos, elas não são tão visíveis.
O vento e eu ficamos nessa disputa até ela entrar pelo quarto, enrolada em minha toalha preta, com os cabelos molhados. Sua pequena estatura ficara em contraste com o tamanho da toalha, que arrastava no chão.
Ela parara na porta do meu quarto e encostara na base da porta, olhando-me seriamente. Zoé era uma criança engraçada, madura. Ela parecia saber de coisas que nunca viveu ou que nunca ouviu falar.
"Pai," ela me disse aquele dia "acho que o chuveiro quebrou".
"Por quê?"
"Ele está frio, e está machucando a minha pele porque as gotinhas estão muito geladas", ela estava convicta de sua teoria.
"Talvez você o tenha aberto demais".
"Ah, mas teve um clarão também", ela imitou a proporção do curto circuito exagerando um pouco.
"Então quebrou, Zoé"
"É, pai, eu disse isso". Às vezes suas frases adolescentes não se encaixavam com seus 6 anos.
Ela veio devagar e se sentou encostada na minha barriga, olhando para o meu rosto. Seu cabelo louro chegou às minhas costas, molhando minha camisa. Ela se aninhou em mim enquanto eu fazia carinho eu seu cabelo.
"Pai?", ela levantou a cabeça para perguntar.
Eu a olhei.
"Pode contar de novo?"; e era quase sempre assim. Quase todos os dias. Às vezes eu só queria contar uma história de sapinhos ou astronautas, mas ela insistia nessa longa história.
Respirei fundo e comecei a contar tudo. Zoé, por mais que parecesse adormecida, estava prestando muita atenção. Tentei contar de um modo diferente, como faço todos os dias.
Contei como sua mãe é inteligente, e que me conquistara justamente assim. De todas as longas viagens que fizemos. De coisas genéricas.
"Pai, e quando o senhor foi mais feliz?", ela perguntou quando terminei.
Imediatamente lembrei-me do dia em que ela, sua mãe, saiu do banho com o cabelo molhado, penteando-o para os lados, e me olhou deitado na cama. Que então ela se aproximou e deitou a cabeça em minha barriga, molhando minhas costas. E sua toalha marcava exatamente a barriga protuberante, a pequena Zoé se desenvolvendo. E ela me perguntou que nome eu gostaria de dar. Eu disse que ela escolheria. E foi então que ela comentou que "Zoé" era o nome que ela queria ter.
Minha ex-mulher, prezava diversas coisas, e confesso que ser mãe nunca foi uma delas. Por isso agora estou aqui, somente Zoé e eu. Lembrei daquele sorriso quando ela disse "Zoé". Talvez aquele tenha sido o momento mais romântico, sincero e feliz do nosso casamento.
Pensei antes de responder.
"Zoé, não sei, sua mãe e eu vivemos tantas coisas felizes, não sei escolher uma", menti, enfim.
"Nem uminha?", não.
"No dia em que ela descobriu que estava grávida de você, talvez", menti.
"Legal!", ela se sentou, empolgada. "Como foi?"
Lembrei de como ela ficou assustada, sem saber o que fazer. E gritava o tempo todo que era minha culpa. Não foi um dia bom.
"Foi incrível, mas é uma história longa, amanhã eu conto", tentei sorrir.
Zoé arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
"Promete?"
"Claro, Zoé", e afaguei seu cabelo.
E quando eu menos esperava, ela pegou no sono. Nos meus braços.
Peguei-a no colo e levei até seu quarto, devagar. Zoé era leve como uma pluma, o que facilitava muita coisa. Coloquei o pijama nela e coloquei o cobertor por cima de seu corpo. Parecia mesmo que ia chover.
Antes de apagar a luz, a foto em cima do criado mudo me chamou atenção, como faz todas as noites. Uma foto da mãe dela, há muito tempo atrás, ao meu lado, em uma de nossas viagens.
E por um momento ela pareceu perto, como o vento, resistindo. Mesmo estando a milhas daqui.

outubro 09, 2010

Antagônico

"Meu nome é Benjamin e eu odeio esse nome. Apesar de seu significado compelir exatamente a mim. Imagino que se minha mãe tivesse escolhido Leon - como no filme do assassino -, a vida seria mais fácil.
São poucas pessoas no mundo que realmente acreditam que o nome altera a personalidade e eu estou fora dessa lista, sou descrente em qualquer matéria. Contudo, odeio meu nome, parece que Leon seria um nome muito mais tragável.
A palavra "tragável" desperta em mim uma vontade louca de fumar. Mas não sou fumante. É como quando os adolescentes sentem vontade de beber a latinha de cerveja na geladeira ou o conhaque no alto do armário escondido, mas não o fazem por medo do papai ou da mamãe descobrirem e proibirem-los de sair para a festinha do amigo mais velho. A diferença é que minha mãe morreu há anos e meu pai se casou novamente, sem me explicar que fumar não fazia bem. Então não fumo por quê?
Minha vida é tão inerte que por um acaso, esse deva ser o motivo. É indiferente se eu fumar, ter câncer no pulmão e morrer por consequência disso ou de um atropelamento. No entanto, se eu levantar dessa poltrona agora para comprar cigarros, há a possibilidade de eu ser morto atropelado. Mas isso também não é lá grande coisa.
Não gosto de pensar em cigarros. Eu gosto de pensar. Adoro divagar sobre o amor. Às vezes penso que ele é mágico, imutável, eterno quando verdadeiro. De resto, não é amor. Aquilo que agora chamam de amor é inerte, intragável, hipócrita. O amor é complexo, sincero, difícil, puro. Não encontrei ninguém para viver meu amor porque li tantos livros sobre Platão que ele me convenceu que para o amor ser verdadeiro, tem que ser inalcançável.
Qualquer um que ler isto entenderá que sou um pessimista sem esperanças. Não sou. Somente odeio meu nome, não fumo, e amo Serena. Adoro falar esse nome. Serena é um nome que se encaixa perfeitamente com Leon. Mas minha mãe me deu o nome de Benjamin.
Serena uma vez disse que me amava. Eu disse que também a amava. Ela disse que achava meu nome lindo. Mas nunca ficamos juntos. Platão.
Pois bem, o amor é realmente estranho.
Gosto de pensar também sobre tudo. Menos cigarros.
A vida é assim, inerte, inalcançável, mágica, hipócrita, eterna, platônica. Eu sou assim. Benjamin é assim."

- Querido, pode vir aqui um instante? - Serena o chamou.
- Claro, só estou terminando de escrever.
Ela subiu os degraus da escada os contando, criando uma melodia.
- Não precisa mais, Benjamin - aproximou-se dele. Está escrevendo sobre o quê?
- Sobre inércia, dificuldades, amor, mágica, hipocrisia. Várias coisas - ele respondeu se virando.
Ela o olhou intrigada.
- É sobre você? Ou nós?
- Não. É sobre um homem que inventei com um nome feio.
Ela sorriu e passou a mão pelos cabelos dele.
- Eu amo você, Benjamin.
Benjamin não respondeu. Somente deu uma longa tragada no pequeno cigarro que queimava no cinzeiro.