março 21, 2011

Epifania

Ela andava devagar, seus olhos estavam perdidos na imagem das copas das árvores dançando com o vento. O vento frio que quase a esquentava. Olhou pelo lugar, viu alguns pássaros, algumas pessoas como ela, várias outras como ele e finalmente o avistou.
Seus passos então se tornaram mais lentos e ao mesmo tempo mais desesperados. Saudade, dizem alguns. As nuvens pareciam também sentir saudade. Para aquele encontro, elas até haviam diminuído suas velocidades.
Quando frente a frente, ela quase chorou. Seus olhos castanhos ficaram embaçados com aquelas lágrimas de amor que poucos têm o prazer de conhecer. Contudo, como prometera ainda no carro, não deixou que nenhuma escorresse.
"Parece que finalmente tive coragem de falar com você, Irineu", e sorriu. Esticou a mão para fazer um carinho, mas desistiu. Com a mesma mão arrumou uma mecha do cabelo que lhe atrapalhava.
"Não sei se consegue ver, mas estou me controlando para não chorar", e riu. "Quando estava no carro, tive certeza de que só eu falaria, então saiba que não vim preparada para respostas", continuou ela.
À medida que ela dizia algumas palavras, ela gaguejava. Teve que respirar antes de engasgar novamente na palavra certeza.
"Eu não sei o que vim falar para você, sabe?", ela gaguejou, pensou e prosseguiu. "Afinal, você me conhece tão bem que sabe que eu nunca sei o que falar a você".
Ao lembrar o quanto se conheciam, o quanto faziam parte um do outro, o quanto ela poderia passar mil anos sem saber o que dizer a Irineu que ele entenderia, ficou mais segura. Desabotoou o sobretudo vermelho que vestia e o tirou calmamente. Sempre olhando para Irineu. Com seu olhar de saudade, receoso e desesperado.
"Ontem enquanto eu bebia algo para vencer o frio, lembrei de algumas coisas. É tão comum lembrar de coisas na hora da separação, não é? Estou me sentindo previsível por isso", ela passou a mão pelo pescoço e sorriu tímida. "Eu me lembrei de quando nós discutíamos por causa de nossos filmes favoritos. Afinal, sempre brigávamos por coisas tão estúpidas".
Olhou-o, mas sabia que dele não viria uma palavra.
"Não quero que tenha pena de mim, porque agora não estamos mais juntos e que claro, para você será fácil e você sabe que para mim não. Principalmente depois de nós compartilharmos os mesmos sonhos. Os mesmos momentos especiais", e fez um pausa para respirar.
"Olhei nossas fotos ontem e eu fiquei pensando o quanto você é lindo. Eu sou boba mesmo e sempre faço tempestade em copo d'agua. Quantas vezes não achei que estava transformando nós em algo maior do que o próprio amor? Porque, quem sou eu para julgar o que é o amor? Quem somos nós para garantir que isso foi mesmo amor? Talvez porque quando eu pensava em alguma coisa, você parecia ser metade de mim como um ser pensante também", as palavras fluíam. A segurança dela perante Irineu aos poucos aumentava.
"Ou talvez porque você sempre fez parte de mim. E porque você nunca fez parte de mim. Não sei se você alguma vez foi eu, mas eu sempre fui você." E então riu, com o tom de voz sincero, "Irineu, eu devo ser mesmo maluca. Qualquer um que me vê falando assim, não deve entender. Mas honestamente, não garanto nem que você entenda".
Ela virou de costas e pensou em ir embora. As lágrimas retidas davam choque em suas pálpebras. Não se virou mais. No entanto, também não foi embora.
"Eu amo tanto você, mesmo sem nem saber se isso é amor. Eu vou sentir sua falta tanto, tanto, tanto, que eu poderia explodir. Mas é como você disse, nós temos que continuar. Você não vai falar nada, nem precisa", ela rompeu as lágrimas que arderiam sua pele e seu peito. "Eu quero você aqui comigo", sussurrou.
Ele, imóvel, nada dizia.
Ao longe, ela ouvia vozes de homens que gritavam "Por aqui, por aqui".
A bela mulher, de cabelos cacheados, olhos escuros, pele macia, pisava torto na grama. E quase perdeu o equilíbrio ao voltar-se de frente pra ele.
"Por que eu ainda espero que você fale algo?", gritou. "Por que por mais que eu tenha medo de ouvir, ainda quero que o faça?", ajoelhou-se no chão e tapou o rosto.
Depois de alguns longos minutos, ela respirou fundo, olhou para Irineu e o tocou pela primeira vez.
"Obrigada", ela disse sorrindo, lembrando de tudo pelo que passaram.
Vestiu o casaco novamente, deixou o bouquet de girassóis aos pés da lápide ao dizer "Adeus" e seguiu para o grande portão negro de ferro.
O vento frio a esquentou novamente. Ela sabia que era ele, Irineu, quem a esquentava. Afinal, Irineu era ela e ela era Irineu.