O cobertor enroscou no pé de Eloise pela manhã. Seus lábios sorriram acordar. Virou-se e esparramou-se ainda mais pela cama. Puxou um travesseiro e bateu com ele no rosto três vezes. Levantou-se arrumando o cabelo, bebeu um copo de água que estava ao lado da cama e desviou a tempo de bater o pé no criado mudo.
Olhou em volta e viu que no pequeno apartamento daquele último andar não havia mais ninguém além dela. Ela sempre achara que havia seu charme em morar em um apartamento pequeno, no último andar de um prédio, com uma varanda maior que a sala de estar; e sua cozinha pequena com uma grande janela, que por ela era possível quase tocar o céu. Mas estava naquele dia em que por mais que a estante de livros fosse a maior coisa de sua casa, aquela foto três por quatro deles teria valores muito maiores.
Andou descalça pelo carpete, esticou os braços, alongou as pernas. Dançou ballet, interpretou Shakespeare. Beijou sua imagem no espelho. Começou mais um livro.
Pensou em caminhar pelas ruas. Talvez visitá-lo no trabalho. Ultimamente ele estivera tão bonito usando camisa. Seus olhos verdes brilhavam mais nesta época. Não, deixou para lá. Ele estaria ocupado para um lanche.
Pensou em sair para comprar um jornal, mas talvez assim também o encontrasse. E Romeo estaria ocupado demais para um lanche.
Começou outro livro. Este último parecia ser bom. Ficaria na pilha da esquerda.
Em jejum, ficou sentada na varanda por horas olhando os aviões. Apoiou-se na grade cheia de ramos de flores que envolve seu andar e olhou para a rua. Eram onze andares que não pareciam ser tão altos. Dependurou-se na base da grade e viu um homem de camisa branca passando na rua e pensou que fosse ele.
Vou ligar.
Não.
Sim, vou ligar.
Não.
Não ligou. Começou a chorar.
Foi buscar a três por quatro, fitou-a por um bom tempo. Até o telefone tocar.
- Romeo?
- Eloise.
E conversaram. Ele dissera que estava ocupado, mas que quando ela quisesse poderiam marcar um lanche. Seria ótimo.
Ela disse que precisava desligar. Ele também. Muito trabalho. Despediram-se.
Eloise voltou para a varanda. Dependurou-se novamente. Viu o carteiro.
Desceu até o térreo e pegou suas correspondências.
Nenhuma de Romeo. Talvez ele estivesse ocupado demais para escrever.
Subiu para seu apartamento. Olhou sua pilha de livros não tão bons, que ficava na direita, e levou-os até a varanda. Beijava-os um a um e oferecia aos céus, mandando-os voar.
Ela ouviu gritos e reclamações, e deu risadas alto. Como era possível se ouvir gritos do décimo primeiro andar. Voltou para a sala de estar.
Pegou a três por quatro e guardou-a dentro do primeiro livro da pilha da esquerda. Pensou em dormir.
Sim.
Não, e se ele ligar?
Mas preciso descansar.
Aposto que ele vai ligar.
Apoiou-se ao lado do telefone e dormiu.
Acordou quando o telefone tocou.
- Romeo?
- Eloise! Sinto muito, teremos que marcar para outro dia, estou trancado aqui, não poderei sair tão cedo.
Ah, sim, tudo bem. Você estaria ocupado demais para um lanche.
- Tudo bem, então. Um beijo.
E desligou.
Olhou para a pilha da esquerda, a dos livros bons, e pensou que era preciso deixá-los voar também. Livres. Todos estavam ocupado demais, precisavam de liberdade.
Estava quase escuro e a brisa era leve. Não havia lua, não havia chuva.
Pegou o primeiro livro da pilha e arremessou-o à imensidão do céu.
Viu a três por quatro voando também.
Não, ela não precisava ficar livre.
Decidiu ir buscá-la no céu.
Segurou na grade, tocou os ramos de flores, dependurou-se na base e voou atrás da foto.
Voando, viu à distancia um homem de camisa branca. Talvez fosse Romeo.
Pensou em dizer a ele que estava ali, voando. Mas a sensação era tão boa, que de repente se esqueceu do homem de camisa, de Romeo, e da foto três por quatro.
Somente sentiu a imensidão da liberdade.
novembro 05, 2010
Pura conveniência
"Mais um dia de trabalho. Estou cansado.
Acordar cedo, entrar em um trem lotado, tentar ler algum livro enquanto estou espremido entre as camisas sociais e as mochilas, fazer o mesmo trajeto para o mesmo estabelecimento. E então esboçar sorrisos forçados para algumas pessoas e apertar levemente a mão dos bons colegas de sempre. Sentar na cadeira atrás do caixa 19 e esperar.
Primeiro cliente de hoje: Pães e cigarros - apesar que não me lembro se era um homem ou uma mulher, afinal, nós quase não nos olhamos.
O movimento hoje pela manhã não esteve tão bem. Talvez por ser uma terça-feira.
Depois de mais alguns clientes, tive de fechar o caixa para uma pequena reunião com minha chefe. Ela sorria e pude ver que desabotoou o primeiro botão da camisa. Usava uma saia e o cabelo solto. E eu sabia o que ela estava tentando - e o que sempre tentou.
Eu dizia que não, esta noite eu estaria ocupado. Ou talvez aceitar e nunca acertar o dia. E hoje não seria diferente. Disse que iria sair, quando ficaria em casa lendo meu livro e comendo comida pronta, como fiz um pouco mais cedo.
Voltei para o mesmo caixa depois do horário de almoço, atendi clientes brutos, uma mãe grávida acompanhada de seu outro filho, e até uma adolescente que não era destituída de graça. Mas, definitivamente, ninguém foi como aquela senhora.
Era uma senhora de cabelos grisalhos, negra, simpática. Até agora não sei o que houve, mas coincidentemente não havia ninguém atrás dela, não havia fila.
Não me dissera seu nome, mas ela disse que eu parecia com o filho dela. Que eu era alto, bonito e que não deveria estar sentado naquela cadeira.
Passei sua compra - um pé de alface, cebolas, tomates e pão -, e ela me contara que faria uma sopa. Pensei "Com alface?", mas ela, como se ouvisse meus pensamentos, disse que ninguém conhece sopa com alface, mas que é uma delícia.
Acredito que eu tenha feito uma cara de desgosto e ela me descobriu.
Incrivelmente, ela me olhou por alguns segundos e disse que eu estava com a feição triste, abatido. Respondi que era só cansaço. E simplesmente, ela entendera.
Aquela senhora disse que morava perto dali e que se eu quisesse, ela poderia trazer um pouco da sopa, que poderia me animar. Eu agradeci, mas neguei. E então, ela sorrindo, começou a me contar algo.
Algo sobre como o tempo passa rápido. Como estamos na terça-feira e de repente já chegou domingo. De como as pessoas passaram rápido pela vida dela, e quantas ela quis que permanecessem e não puderam - ou como eu, negaram-se. Ela disse que ficou viúva cedo, e que sinceramente, não poderia dizer que amou de verdade o marido dela. Naquela época era convencional casar achando que com o tempo o amor chegaria. Contou que ele morrera 'de tanto fumar' e que seu filho segue o mesmo mau hábito. E então ela disse que coisas assim, como ele morrer e o filho fumar são coisas que não entendemos por que acontecem, mas que acontecem.
Como colocar uma alface em uma sopa.
Achei isso incrível.
Isso sim fez com que meu dia melhorasse de um jeito estranho. Como se o cansaço passasse. As camisas no trem, que voltavam suadas, não parecessem ter um cheiro tão desagradável. As mochilas não apertavam tanto. E talvez minha chefe só estivesse se sentindo sozinha.
Não sei."
O quarto ficou em silêncio. Eu a olhei, deitada ao meu lado. Ela me olhou.
"E o seu dia, como foi?", perguntei.
"Ah, foi bom", ela respondeu.
Então, voltei a ler meu livro e comer minha comida pronta, assim como ela.
Acordar cedo, entrar em um trem lotado, tentar ler algum livro enquanto estou espremido entre as camisas sociais e as mochilas, fazer o mesmo trajeto para o mesmo estabelecimento. E então esboçar sorrisos forçados para algumas pessoas e apertar levemente a mão dos bons colegas de sempre. Sentar na cadeira atrás do caixa 19 e esperar.
Primeiro cliente de hoje: Pães e cigarros - apesar que não me lembro se era um homem ou uma mulher, afinal, nós quase não nos olhamos.
O movimento hoje pela manhã não esteve tão bem. Talvez por ser uma terça-feira.
Depois de mais alguns clientes, tive de fechar o caixa para uma pequena reunião com minha chefe. Ela sorria e pude ver que desabotoou o primeiro botão da camisa. Usava uma saia e o cabelo solto. E eu sabia o que ela estava tentando - e o que sempre tentou.
Eu dizia que não, esta noite eu estaria ocupado. Ou talvez aceitar e nunca acertar o dia. E hoje não seria diferente. Disse que iria sair, quando ficaria em casa lendo meu livro e comendo comida pronta, como fiz um pouco mais cedo.
Voltei para o mesmo caixa depois do horário de almoço, atendi clientes brutos, uma mãe grávida acompanhada de seu outro filho, e até uma adolescente que não era destituída de graça. Mas, definitivamente, ninguém foi como aquela senhora.
Era uma senhora de cabelos grisalhos, negra, simpática. Até agora não sei o que houve, mas coincidentemente não havia ninguém atrás dela, não havia fila.
Não me dissera seu nome, mas ela disse que eu parecia com o filho dela. Que eu era alto, bonito e que não deveria estar sentado naquela cadeira.
Passei sua compra - um pé de alface, cebolas, tomates e pão -, e ela me contara que faria uma sopa. Pensei "Com alface?", mas ela, como se ouvisse meus pensamentos, disse que ninguém conhece sopa com alface, mas que é uma delícia.
Acredito que eu tenha feito uma cara de desgosto e ela me descobriu.
Incrivelmente, ela me olhou por alguns segundos e disse que eu estava com a feição triste, abatido. Respondi que era só cansaço. E simplesmente, ela entendera.
Aquela senhora disse que morava perto dali e que se eu quisesse, ela poderia trazer um pouco da sopa, que poderia me animar. Eu agradeci, mas neguei. E então, ela sorrindo, começou a me contar algo.
Algo sobre como o tempo passa rápido. Como estamos na terça-feira e de repente já chegou domingo. De como as pessoas passaram rápido pela vida dela, e quantas ela quis que permanecessem e não puderam - ou como eu, negaram-se. Ela disse que ficou viúva cedo, e que sinceramente, não poderia dizer que amou de verdade o marido dela. Naquela época era convencional casar achando que com o tempo o amor chegaria. Contou que ele morrera 'de tanto fumar' e que seu filho segue o mesmo mau hábito. E então ela disse que coisas assim, como ele morrer e o filho fumar são coisas que não entendemos por que acontecem, mas que acontecem.
Como colocar uma alface em uma sopa.
Achei isso incrível.
Isso sim fez com que meu dia melhorasse de um jeito estranho. Como se o cansaço passasse. As camisas no trem, que voltavam suadas, não parecessem ter um cheiro tão desagradável. As mochilas não apertavam tanto. E talvez minha chefe só estivesse se sentindo sozinha.
Não sei."
O quarto ficou em silêncio. Eu a olhei, deitada ao meu lado. Ela me olhou.
"E o seu dia, como foi?", perguntei.
"Ah, foi bom", ela respondeu.
Então, voltei a ler meu livro e comer minha comida pronta, assim como ela.
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