O telefone no chão tocava, tocava, tocava. Sobre o colchão no chão ela estava ouvindo o barulho repetitivos de "tri-li-li-li-lins" que aquele telefone velho fazia. Até que depois de trinta segundos ele parou (ela já havia contado, trinta segundos). E ela continuou deitada de barriga para baixo, pés cruzados no ar, escrevendo alguma memória.
Com rapidez ela escrevia sobre o que todas adolescentes adoram escrever: o primeiro amor. Ela concedia ao personagem principal características dos rapazes mais bonitos que era vira, trejeitos do seu primeiro namorado, gírias do segundo namorado e algumas situações que a fizeram sofrer para ser o clímax da história. E a moça da história era ela, a ela que só ela conhecia.
Escreveu os parágrafos e segundo sua ideia, alguma coisa a mais tinha que acontecer. Levantou-se do colchão e foi em direção à pia da cozinha para pegar de suco, mas ela acabara com todo ele na noite passada. Decidiu beber água e que algo como "o suco ter acabado" poderia entrar na história. Quando voltou para o colchão, tropeçou nos pés do abajur que tem quase o seu tamanho e o maldisse até a última geração de abajures de sua família. Deitou-se no colchão e o telefone voltou a tocar.
"Não, suco talvez não faça tanta diferença. Vou colocar esse abajur infeliz na história", pensou ela enquanto os "tri-li-li-li-lins" a chamavam. Olhou para o abajur e o descreveu como "esguio e deformado, azulado como meus olhos poderiam ser ao iluminar os seus". E o telefone parou novamente.
Ela olhou no relógio e imaginou quem estaria insistindo em ligar para ela na madrugada. Pensou em colocar que o rapaz ligava-lhe de madrugada, mas não teve tempo de escrever. O telefone voltou a tri-li-li-lintar.
- Alô?
- Alô, desculpe ligar a essa hora. Quem está falando? - perguntou a voz do outro lado da linha.
- Fiorella. Está desculpado - pelo timbre da voz era um homem.
Ela pôde ouvir um risinho embaraçoso.
- Pois não? - disse ela com sua voz de interrogatório.
- Não sei se você se lembra de mim, sou o cara do bar de outro dia. O que você chamou de estranho.
Fiorella arqueou as sobrancelhas e começou logo a falar.
- Oi, estranho! Bem, não leve a mal que eu te chamei de estranho. Você não é estranho; é que nós éramos estranhos um para o outro, sabe, não nos conhecía... - e de arrependida, sua voz foi para uma nota mais alta - Está bem, como você conseguiu meu número?
- Um pouco antes de você sair cambaleando do bar e um pouco depois de me chamar de estranho, você me entregou seu número em um guardanapo - sua voz era um pouco rouca e o sotaque do interior era pouco evidente - Estou ligando para saber se você não gostaria de sair comigo.
Ela riu e ficou apoiada pelo cotovelo. Ficou um tempo em silêncio porque notara um erro na história.
- Ah, eu sabia que você me ligaria. Você não sabe para onde eu gosto de ir. E se for um lugar muito diferente dos que você gosta? - disse ela como técnica para fazê-lo desligar.
- Não acredito nisso. Nós estávamos no mesmo lugar quando nos conhecemos, Fiorella.
Quando ele disse o nome dela, F-i-o-r-e-l-l-a completo, ela se contraiu. Ela gosta que a chamem pelo nome, sem apelidos, sem abreviações. E gosta quando usam seu nome no meio das frases. Sem "você" ou outros pronomes.
- Claro, então podemos sair sim - disse ela, deitando-se de costas, olhando para o teto cheio de pôsteres e desenhos.
- Mas eu quero conversar um pouco com você sobre coisas aleatórias agora, você pode? Quem sabe, Fiorella, falar sobre os dilemas do universo, sobre nossas experiências em comum ou sobre o clima.
Ele disse F-i-o-r-e-l-l-a de novo.
E durante o resto da conversa, ele disse milhões de vezes Fiorella. Enquanto contava seus gostos, perguntava os gostos dela, enquanto discutiam sobre o calor ser melhor que o frio (visão dele) ou o frio ser melhor que o calor (visão dela). Durante a primeira hora, a conversa era basicamente a mesma: um contrariar o outro. Não tinham os mesmos gostos para várias coisas e tentavam de modo assíduo mostrar um para o outro o que era melhor.
Na segunda hora de conversa, Fiorella o fez se descrever fisicamente, já que ela não se lembrava dele. Ele disse que não se media há muito tempo, mas que era maior do que ela. Disse que tinha cabelos castanhos claros que não estavam lavados no momento. Que ao falar sua boca fazia movimentos engraçados que eram motivo de chacota. Tentou descrever de maneiras inimagináveis como era a cor "verde-avelã-castanho-azulado" de seus olhos e que sua barba era rala.
Na terceira hora falaram sobre seus passados e na quarta hora, falaram sobre como a vida funcionava - e foi nesse momento que eles mais concordaram um com o outro.
Pararam de conversar quando ele teve "que tomar banho, Fiorella".
Ele perguntou quando poderiam sair e ela estaria no mesmo bar, na mesma hora, no dia seguinte. E combinaram que lá seria um bom lugar.
Ele mandou um beijo e disse para ela se cuidar. Fiorella mandou dois beijos e disse para ele ter um bom dia.
Desligaram os telefones ambos ao mesmo tempo e ela ficou parada ora olhando para o teto, ora olhando para sua folha de histórias. Ele era do jeito que ela queria, mas não era o que ela queria agora. Ela gostava mais do irreal.
Por enquanto estava bem com sua folha de papel recheada de palavras que ela queria ouvir e na companhia de quem ela criou. Voltou a escrever, só parando para pensar um novo bar para frequentar.
julho 20, 2011
julho 08, 2011
Nós e terceiros
"O pior de tudo era a chuva, e não o frio", Ofelia dizia sempre. Essa chuva incessante que ao bater nas janelas atrapalhava suas anotações.
O único lugar onde ela conseguia se concentrar em dias chuvosos era no pequeno escritório onde havia muitos livros nunca lidos e muitas outras coisas espalhadas - o que ela prometeu arrumar desde que largou o emprego.
Quando Ofelia chegou em casa naquele dia com um sorriso de orelha a orelha, dançando e cantando, com a bolsa caída pela mão e as chaves da casa, do carro, do escritório e do armário - escondido atrás de um quadro que um amigo dera - abarrotadas sobre o busto, seu marido vira que algo havia acontecido. Seu marido nunca imaginara que tamanha felicidade no rosto de Ofelia era por causa de sua demissão. E Ofelia nunca imaginara que isso poderia ser motivo para tantas discussões. Ela se defendia sempre com o mesmo argumento: era infeliz no trabalho - o que ele não compreendia.
"Um bom salário, um bom cargo e uma casa e família para cuidar", ele dizia sempre.
Alguns meses após a demissão, Ofelia descobriu que estava grávida. Os enjoos foram piores nessa gravidez e sua pressão era irregular. Ela não conseguia mais escrever com a mesma facilidade de antes, e mesmo grávida, as discussões não amenizaram.
Ele criara o hábito de cumprir horas extras no trabalho para tentar cobrir um pouco o que Ofelia deixara para trás, enquanto ela passava o dia cuidando da caçula que estava na barriga e dos outros dois filhos, que antes ficavam com a avó.
À medida que os meses foram passando, os problemas com a gravidez aumentavam. Não seria mais possível o parto normal, e os médicos teriam que apelar para a cesariana. A primeira menina da família nasceu prematura, interrompendo o novo artigo que Ofelia tentava escrever.
Seu marido chegara atrasado e a pequena já havia nascido. Muito frágil, muito pequena, lutando para sobreviver - assim como o relacionamento dos pais. Ele correra para onde Ofelia estava e a beijara depois de muito tempo sem o fazer.
"Desculpe, meu amor! Ela é linda, você foi ótima, está tudo bem agora", ele disse. E ela realmente acreditou que estava tudo bem agora. Ele até dissera que a amava.
Os dias transcorreram bem, depois de um tempo a neném pôde ir para casa. Ofelia poderia voltar a escrever e conciliar tudo, segundo seu plano. Não se importava de passar as noites em claro, e esperava o marido chegar acordada, para contar sobre seu dia, perguntar sobre o dele e dividir os planos. Ele sorria, eles riam, concordavam, discordavam, discutiam e dormiam de costas um para o outro. No dia seguinte, ou Ofelia ou ele acordava mais cedo e fazia o café, levava na cama e pedia desculpas. Ele saía para trabalhar, ela cuidava dos filhos, da casa, escrevia um artigo e tentava mandá-lo para algum jornal. Atendia os telefonemas e falava com mulheres que procuravam seu marido. Sempre as mesmas.
"Não, ele não está. Está no trabalho agora. Sim, eu mando um beijo para ele. Claro, eu aviso. Bom dia pra você também". A parte mais difícil do dia não era cuidar dos filhos, ou procurar forças para escrever um artigo, ou conciliar tudo isso. A parte difícil era fingir ser secretária, e não esposa. Ele não sabia que ela fazia isso, e Ofelia não sabia por que ele não parava com tudo isso.
A chuva incessante ainda atrapalhava as anotações de Ofelia, e cada parte do escritório tinha um pedaço de suas discussões. Hoje só duas mulheres ligaram procurando seu marido e ela não se concentrava por causa da chuva. O pior é a chuva, e não o frio. Com o frio ela já acostumara, era constante. Mas a chuva não. A chuva vinha de repente e tentava mostrar que estava ali, molhando, correndo, atrapalhando. O pior era a chuva, segundo ela.
O telefone tocou e era ele. Iria se atrasar, pois hoje tinha reunião depois da hora extra, e que ela não precisava esperá-lo acordada. Se ela não tivesse largado o emprego, ele estaria cedo em casa e não precisariam passar por tudo isso. Ela pediu desculpas por isso chamando-o de amor, disse que ele era um doce por fazer tudo isso e que tudo ficaria bem. Essa foi a resposta de Ofelia por telefone naquela tarde chuvosa.
Quando ele chegou, a casa estava a mesma de todos os dias. Mas os filhos não estavam, o carro não estava na garagem e Ofelia não estava no sofá. Somente um bilhete em cima da mesa, que ao lê-lo, ele poderia até ouvir a voz de Ofelia.
"Duas moças ligaram para você hoje, mas desculpe, não anotei os nomes. Quando elas ligaram eu já havia me demitido desse casamento.
Agora você pode discutir com as paredes sobre o que aconteceu, talvez elas digam a você o que você queira ouvir.
Eu estava infeliz. Você estava infeliz e as crianças também. Estou levando as chaves de casa, do escritório, do carro e do armário atrás do quadro. Agora sim, meu amor, estamos bem.
Vamos sentir falta do que você era."
Ele se sentou no sofá e viu, de onde estava, que o armário atrás do quadro estava vazio. Suas "horas extras" foram embora com ela. Mas tudo bem.
Agora estava tudo bem.
O único lugar onde ela conseguia se concentrar em dias chuvosos era no pequeno escritório onde havia muitos livros nunca lidos e muitas outras coisas espalhadas - o que ela prometeu arrumar desde que largou o emprego.
Quando Ofelia chegou em casa naquele dia com um sorriso de orelha a orelha, dançando e cantando, com a bolsa caída pela mão e as chaves da casa, do carro, do escritório e do armário - escondido atrás de um quadro que um amigo dera - abarrotadas sobre o busto, seu marido vira que algo havia acontecido. Seu marido nunca imaginara que tamanha felicidade no rosto de Ofelia era por causa de sua demissão. E Ofelia nunca imaginara que isso poderia ser motivo para tantas discussões. Ela se defendia sempre com o mesmo argumento: era infeliz no trabalho - o que ele não compreendia.
"Um bom salário, um bom cargo e uma casa e família para cuidar", ele dizia sempre.
Alguns meses após a demissão, Ofelia descobriu que estava grávida. Os enjoos foram piores nessa gravidez e sua pressão era irregular. Ela não conseguia mais escrever com a mesma facilidade de antes, e mesmo grávida, as discussões não amenizaram.
Ele criara o hábito de cumprir horas extras no trabalho para tentar cobrir um pouco o que Ofelia deixara para trás, enquanto ela passava o dia cuidando da caçula que estava na barriga e dos outros dois filhos, que antes ficavam com a avó.
À medida que os meses foram passando, os problemas com a gravidez aumentavam. Não seria mais possível o parto normal, e os médicos teriam que apelar para a cesariana. A primeira menina da família nasceu prematura, interrompendo o novo artigo que Ofelia tentava escrever.
Seu marido chegara atrasado e a pequena já havia nascido. Muito frágil, muito pequena, lutando para sobreviver - assim como o relacionamento dos pais. Ele correra para onde Ofelia estava e a beijara depois de muito tempo sem o fazer.
"Desculpe, meu amor! Ela é linda, você foi ótima, está tudo bem agora", ele disse. E ela realmente acreditou que estava tudo bem agora. Ele até dissera que a amava.
Os dias transcorreram bem, depois de um tempo a neném pôde ir para casa. Ofelia poderia voltar a escrever e conciliar tudo, segundo seu plano. Não se importava de passar as noites em claro, e esperava o marido chegar acordada, para contar sobre seu dia, perguntar sobre o dele e dividir os planos. Ele sorria, eles riam, concordavam, discordavam, discutiam e dormiam de costas um para o outro. No dia seguinte, ou Ofelia ou ele acordava mais cedo e fazia o café, levava na cama e pedia desculpas. Ele saía para trabalhar, ela cuidava dos filhos, da casa, escrevia um artigo e tentava mandá-lo para algum jornal. Atendia os telefonemas e falava com mulheres que procuravam seu marido. Sempre as mesmas.
"Não, ele não está. Está no trabalho agora. Sim, eu mando um beijo para ele. Claro, eu aviso. Bom dia pra você também". A parte mais difícil do dia não era cuidar dos filhos, ou procurar forças para escrever um artigo, ou conciliar tudo isso. A parte difícil era fingir ser secretária, e não esposa. Ele não sabia que ela fazia isso, e Ofelia não sabia por que ele não parava com tudo isso.
A chuva incessante ainda atrapalhava as anotações de Ofelia, e cada parte do escritório tinha um pedaço de suas discussões. Hoje só duas mulheres ligaram procurando seu marido e ela não se concentrava por causa da chuva. O pior é a chuva, e não o frio. Com o frio ela já acostumara, era constante. Mas a chuva não. A chuva vinha de repente e tentava mostrar que estava ali, molhando, correndo, atrapalhando. O pior era a chuva, segundo ela.
O telefone tocou e era ele. Iria se atrasar, pois hoje tinha reunião depois da hora extra, e que ela não precisava esperá-lo acordada. Se ela não tivesse largado o emprego, ele estaria cedo em casa e não precisariam passar por tudo isso. Ela pediu desculpas por isso chamando-o de amor, disse que ele era um doce por fazer tudo isso e que tudo ficaria bem. Essa foi a resposta de Ofelia por telefone naquela tarde chuvosa.
Quando ele chegou, a casa estava a mesma de todos os dias. Mas os filhos não estavam, o carro não estava na garagem e Ofelia não estava no sofá. Somente um bilhete em cima da mesa, que ao lê-lo, ele poderia até ouvir a voz de Ofelia.
"Duas moças ligaram para você hoje, mas desculpe, não anotei os nomes. Quando elas ligaram eu já havia me demitido desse casamento.
Agora você pode discutir com as paredes sobre o que aconteceu, talvez elas digam a você o que você queira ouvir.
Eu estava infeliz. Você estava infeliz e as crianças também. Estou levando as chaves de casa, do escritório, do carro e do armário atrás do quadro. Agora sim, meu amor, estamos bem.
Vamos sentir falta do que você era."
Ele se sentou no sofá e viu, de onde estava, que o armário atrás do quadro estava vazio. Suas "horas extras" foram embora com ela. Mas tudo bem.
Agora estava tudo bem.
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