"Mais um dia de trabalho. Estou cansado.
Acordar cedo, entrar em um trem lotado, tentar ler algum livro enquanto estou espremido entre as camisas sociais e as mochilas, fazer o mesmo trajeto para o mesmo estabelecimento. E então esboçar sorrisos forçados para algumas pessoas e apertar levemente a mão dos bons colegas de sempre. Sentar na cadeira atrás do caixa 19 e esperar.
Primeiro cliente de hoje: Pães e cigarros - apesar que não me lembro se era um homem ou uma mulher, afinal, nós quase não nos olhamos.
O movimento hoje pela manhã não esteve tão bem. Talvez por ser uma terça-feira.
Depois de mais alguns clientes, tive de fechar o caixa para uma pequena reunião com minha chefe. Ela sorria e pude ver que desabotoou o primeiro botão da camisa. Usava uma saia e o cabelo solto. E eu sabia o que ela estava tentando - e o que sempre tentou.
Eu dizia que não, esta noite eu estaria ocupado. Ou talvez aceitar e nunca acertar o dia. E hoje não seria diferente. Disse que iria sair, quando ficaria em casa lendo meu livro e comendo comida pronta, como fiz um pouco mais cedo.
Voltei para o mesmo caixa depois do horário de almoço, atendi clientes brutos, uma mãe grávida acompanhada de seu outro filho, e até uma adolescente que não era destituída de graça. Mas, definitivamente, ninguém foi como aquela senhora.
Era uma senhora de cabelos grisalhos, negra, simpática. Até agora não sei o que houve, mas coincidentemente não havia ninguém atrás dela, não havia fila.
Não me dissera seu nome, mas ela disse que eu parecia com o filho dela. Que eu era alto, bonito e que não deveria estar sentado naquela cadeira.
Passei sua compra - um pé de alface, cebolas, tomates e pão -, e ela me contara que faria uma sopa. Pensei "Com alface?", mas ela, como se ouvisse meus pensamentos, disse que ninguém conhece sopa com alface, mas que é uma delícia.
Acredito que eu tenha feito uma cara de desgosto e ela me descobriu.
Incrivelmente, ela me olhou por alguns segundos e disse que eu estava com a feição triste, abatido. Respondi que era só cansaço. E simplesmente, ela entendera.
Aquela senhora disse que morava perto dali e que se eu quisesse, ela poderia trazer um pouco da sopa, que poderia me animar. Eu agradeci, mas neguei. E então, ela sorrindo, começou a me contar algo.
Algo sobre como o tempo passa rápido. Como estamos na terça-feira e de repente já chegou domingo. De como as pessoas passaram rápido pela vida dela, e quantas ela quis que permanecessem e não puderam - ou como eu, negaram-se. Ela disse que ficou viúva cedo, e que sinceramente, não poderia dizer que amou de verdade o marido dela. Naquela época era convencional casar achando que com o tempo o amor chegaria. Contou que ele morrera 'de tanto fumar' e que seu filho segue o mesmo mau hábito. E então ela disse que coisas assim, como ele morrer e o filho fumar são coisas que não entendemos por que acontecem, mas que acontecem.
Como colocar uma alface em uma sopa.
Achei isso incrível.
Isso sim fez com que meu dia melhorasse de um jeito estranho. Como se o cansaço passasse. As camisas no trem, que voltavam suadas, não parecessem ter um cheiro tão desagradável. As mochilas não apertavam tanto. E talvez minha chefe só estivesse se sentindo sozinha.
Não sei."
O quarto ficou em silêncio. Eu a olhei, deitada ao meu lado. Ela me olhou.
"E o seu dia, como foi?", perguntei.
"Ah, foi bom", ela respondeu.
Então, voltei a ler meu livro e comer minha comida pronta, assim como ela.