novembro 21, 2011

O Maior Amor do Mundo

Incessantemente seus dedos raspavam a cobertura quase rasgada de couro sintético da poltrona do hotel. Seu filho, Alec, andava de um lado para o outro tentando resolver com a recepcionista o problema da reserva e qual quarto estaria disponível. Afinal, como Alec bradava, sua "mãe está na cadeira de rodas e depois de tantos quilômetros, precisa descansar". Sr. Edmundo de Mendonça rasgava a poltrona porque não podia ir por si só reclamar seus direitos.
Três quartos de hora, um ataque de tremedeira e duas pílulas depois, guiaram a família de Mendonça para seu quarto. Um quarto limpo, paredes brancas, com lençois novos na cama de casal, um vaso de flores e uma pequena televisão no teto. Com a ajuda de um camareiro, Alec retirara Sra. de Mendonça da cadeira e a deitara na cama. Seguindo sua bengala, Edmundo sozinho se deitou. E minutos depois, o casal já dormia.
Alec transferira as roupas da mala para o guarda roupas, abrira a janela para um pouco de brisa entrar e esperou, no saguão, que seus pais acordassem.
Enquanto dormia, Edmundo sonhara que a partir daquele dia, seria pouco o tempo que ficaria com sua esposa. Por isso, quando acordara, descera sozinho da cama, pegara uma cadeira e se sentara de frente para ela, que ainda dormia. Quando já havia decidido como a acordaria, seu filho entrara no quarto.
Ambos trocaram olhares que diziam "precisamos conversar". Depois de alguns minutos, Edmundo e Alec estavam no jardim do hotel, o pai dizendo ao filho coisas sobre o céu e a terra, a vida e a morte, e o filho segurando sua mão, limpando as lágrimas, dizendo que roupas faltavam e que teria que voltar para casa para buscar.
Uma semana depois, e Alec voltara com mais roupas. Seus pais dormiam quase o dia inteiro, e Sra. de Mendonça não tinha mais voz. Edmundo perdera completamente a noção do tempo, e pensara que desde o dia do jardim, só havia se passado algumas horas.
E assim os dias se passaram, Alec somente os visitava de domingo e nenhum de seus pais percebia que não era diariamente.
Uma noite, Edmundo acordou, aproximou-se do corpo da esposa, beijando-a até acordá-la. Dizia coisas enormes bem baixinho e a fazia rir sem voz.
Elefantes.
Planetas.
A Via-Látea.
O meu amor por você.
Pela manhã, Sra. de Mendonça não acordou. Horas depois, não acordara. Edmundo, no dia seguinte, sem entender que o tempo passara e que ela dormiria pra sempre, dizia ao filho que o amava, e agradecia pelo hotel maravilhoso. Pena que sua mãe não acorda logo para ir ao jardim.
No dia seguinte, Edmundo também se foi. Sentado no jardim, depois de decidir como acordaria sua esposa.

outubro 19, 2011

Esperança

Aquela água suja escorria pela rua, refletindo as luzes dos postes. Carregava consigo panfletos, papeis de bala e uma aliança. Quando ele, descalço, bloqueou sua passagem, a aliança parou. Ele se agachou e a pegou, limpando-a com sua camiseta que há muito tempo fora branca. Guardou-a no bolso com cuidado e se sentou na calçada: sua casa. Ouvia o som do mesmo instrumento de todas as noites que o fazia adormecer e sonhar. Um sonho que o levava além daqueles papelões no chão e os olhares de desprezo dos passantes.
Do lado de fora, na calçada, não era possível saber quem tocava o instrumento, mas ele sempre o via chegando com uma moça pequena que lutava para conseguir carregá-lo. Ela nunca olhara para o rapaz desarrumado que dorme na porta daquele lugar. Enquanto ela toca do lado de dentro, e em seus intervalos bebe um pouco do vinho mais barato da casa, ele se senta no chão, quase implorando por algumas moedas para um copo de água ali dentro. Talvez moedas suficientes para tomar um banho em algum albergue e poder se sentar em alguma daquelas mesas que podiam vê-la tocar todas as noites.
Ele, que não tinha nome, caminhava o dia todo pelas redondezas. Observava os mesmos transeuntes, olhava para o céu e pedia por uma nova chance. Dos poucos que não desviavam dele, alguns cediam algumas moedas. Contudo, o que ele mais gostava era de receber sorrisos. Um sorriso o fazia sentar-se em algum banco, encostar sua bengala improvisada e sua sacola, onde carregava documentos, uma foto, e uma latinha com suas moedas.
Ele almoçava e jantava todos os dias. E algumas vezes tentou entrar na igreja. Mas sua fé concentrava-se acima de sua cabeça.
Depois de tantas queixas para que ele, seu papelão, sua sacola e sua bengala saíssem dali, eles desistiram. Por mais que ele estivesse sujo, descalços, descabelado, nunca incomodara ninguém. Seus pedidos não espantavam clientes, pois ninguém o via. Ele se fazia invisível.
A aliança - a qual veio de muitos metros longe dele, de um homem que a arrancara dizendo palavras pesadas e a jogou a água corrente para cair no esgoto junto com as lágrimas da esposa - deveria ter vindo de um homem que ele poderia ter sido, pensava.
Naquela noite, esperou a moça chegar carregando seu pesado instrumento e alguém começar a tocar para, pela primeira vez, encostar-se no vidro e ver onde ela estava. No pequeno palco de madeira, com um microfone e o instrumento que ele não conhecia, ela tocava de olhos fechados e sorria. Ele encostou a testa no vidro e pensando "que poderia passar o resto da vida vendo-a sorrir". Sentou-se no seu papelão e sem adormecer aguardou que ela saísse. Levantou-se, passou a mão pelos cabelos acreditando fielmente que aquilo o faria mais bonito e bateu em sua roupa para tirar o pó.
Olhou para o céu e pelos cantos dos olhos, percebeu-a saindo. Foi ao seu encontro. Ela, assustada, segurou o instrumento e se afastou um passo. Ele tirou do bolso a aliança e sorriu. Entregou-lhe na mão. Ela sorrira fazendo os neurônios dele desorganizarem seus pensamentos. Entrara no carro sorrindo. Ele se deitou no papelão sorrindo. Sonhou a noite toda com a música, a segunda chance e a moça. Ela, em casa, mostrara a aliança ao noivo, que enquanto ela dormia, jogara o anel pelo ralo.
No entanto, há metros de distância, o rapaz dormia sonhando e a moça sorrindo.

setembro 30, 2011

Ad Infinitum

Aqueles pontinhos acinzentados no céu não me chamavam mais a atenção há anos, e sobre a lua eu não tinha o que dizer. Simplesmente não entendo de luas.
Meu sapato não fazia nenhum barulho ao tocar a calçada e eu caminhava me equilibrando na guia. Quando deparei-me com a iluminada placa na curva da rua, tirei o bilhetinho do bolso do meu vestido e conferi o nome. Cheguei à última estação para um fim. Ou um começo.
Quando me apresentei ao simpático moço da recepção, ele me encaminhou para o jardim, onde havia confortáveis mesas de madeira escura. Sentei-me debaixo de uma lampião e tive que tirar a jaqueta que vestia, temendo o suor que minutos depois me faria ir ao banheiro. Quando retornei - depois de retocar os contorno dos olhos e umedecer o pescoço -, vi Lion sentado olhando fixamente para alguma coisa. Ele me viu e sorriu, e cumprimentei-o com um beijo no rosto.
Enquanto jantávamos, o jardim estava repleto de pessoas. Conversávamos confortavelmente e o lampião emanava um calor agradável. Enfim estávamos ali.
Por ventura, um relâmpago cortou o céu e me assustou. A luz no interior do restaurante se apagou por alguns segundos e o brilho de infinitos vagalumes numa amoreira do jardim apareceu e desapareceu rapidamente. O que o fez lembrar das estrelas.
"Sabe, eu gosto de coisas atômicas: pequenas, mas de grandes proporções", disse Lion, olhando para o céu.
À vista disso, percebi o quanto eu gostava dele e o quanto ele percebia isso. Cocei os olhos e o enxerguei na minha frente, observando-me. Ao perguntar-lhe o que havia, ele me prometeu que dessa vez não sumiria. Pediu desculpas por tudo que passamos e que "há coisas que são necessárias explicar". Eu não queria ouvir, pois eu sempre soube que o quanto eu o amava era do mesmo tamanho do quanto ele queria me amar - mas ele nunca diria.
Nem sempre é fácil saber a verdade e não tentar escondê-la, mesmo quando todos criam bons motivos para desacreditá-la. Era um fato, e eu entendo.
Não importa o quanto eu sou apaixonada por Lion, ou o quanto ele se importa comigo. O importante é ele não mais desaparecer. Não são necessárias explicações amedrontadas ou desculpas. Nós nos conhecemos o suficiente para não nos conhecermos de verdade.
"Somente não suma", sussurrei.
Por sua vez, Lion prometeu que não.
Levantamo-nos, apertamos nossas mãos e demos um abraço tão significante quanto trinta páginas do meu romance favorito. E era assim nossa vida.
Ao nos despedirmos, ele me beijou no rosto e me abraçou rapidamente. Saiu para o outro lado do letreiro luminoso sem olhar para trás, procurando suas chaves. E eu, na frente do letreiro, sorri para uma única estrela brilhante naquele céu que já não percebia mais. Vesti minha jaqueta e segui o caminho contrário.
Eu sabia que nosso ir e vir não teria fim, que Lion logo mais sumiria. Sempre foi assim, e sempre será. Ad infinitum.

setembro 19, 2011

O(s) amor(es)

O rádio do carro demorou para sintonizar no programa que alerta os motoristas sobre o trânsito, e por isso, fiquei preso num congestionamento de volta pra casa. Fiquei tempo suficiente para contar as moedas que estavam guardadas no carro, separar as contas e ler um capítulo do livro que um rapaz do trabalho me emprestou.
Quando cheguei em casa, deparei-me com Rita sentada nas escadas, com fones de ouvido, lendo um livro. Ela já estava de pijamas, mas continuava linda. Seus cabelos estavam trançados e seus olhos castanhos-claros se ergueram ao me ver. Meus olhos, como resposta, quase suplicaram por um toque dela. Cheguei bem perto, e ao tirar-lhe os fones, minha barba roçou em sua pele quando meus lábios a tocaram.
"Olá", eu disse.
Ela me abraçou com força, mas continuou sentada.
No momento em que entrei, Guillermo dormia dentro do berço. Com cuidado para não acordá-lo, tirei a gravata e os sapatos, e entrei no banheiro. Tomei um longo banho esperando que a água quente dissolvesse a tensão dos meus ombros. Pensei por alguns segundos na bela mulher que me dera seu número de telefone hoje, mas voltei a pensar nas papeladas da empresa. Em algum momento, Rita entrou no banheiro sem que eu visse e desenhou no espelho embaçado um sorriso.
Quando saí, vi que Guillermo já estava em seu quarto e que Rita me chamava do lado de fora. Perguntou-me como fora o dia de trabalho e me contara tudo o que fizera durante o seu. Chamou-me para entrar e disse que guardara o jantar para mim. E eu pude ver o quanto ela é a mulher mais linda do mundo, minha esposa e mãe do meu filho.
Conversamos durante o jantar e depois, enquanto eu lavava a louça, ela secava. Como numa imagem de cinema, pude notar que além do meu corpo, éramos felizes. Contudo, olhando para dentro de mim, eu não poderia - e nunca iria - amar somente Rita. E ela sabia disso.
No banheiro, enquanto ela escovava os dentes, eu aparava a barba. Enquanto eu escovava os dentes, ela tirava do frasquinho seus três anti-depressivos.
Ao nos deitarmos, ela me beijou por mais tempo que o habitual, disse o quanto me amava e entrelaçou suas mãos uma na outra, encolhendo-se debaixo do lençol. Naquele momento, vi o quanto Rita estava solitária. Beijei sua testa e me virei de costas, pensando em outras mulheres, e me culpando por não muito prestar.
Mas eu a amo.

agosto 20, 2011

Da rua, dos outros

Ele permaneceu deitado quando despertador tocou, e ainda deitado ficou quando o despertador caiu no chão na tentativa de ser desligado. Segundo ele, era um dia que seria diferente justamente por acordar diferente. Ao menos, em alguma coisa ele acreditava.
Levantou-se, foi para o banheiro e tomou um banho. Fez a barba - mas a manteve rala - e constatou que precisava cortar os cabelos encaracolados. Mesmo sendo jovem, achava que seus cachos davam a aparência de adolescente. Tomou café com pão amanhecido só de samba canção e meias, e voltou para o seu quarto, onde pôs a camisa branca, a calça social, a gravata ônix que tanto gostava e seu sapato gasto. A janela estava fechada e as nuvens cobriam o sol. A luz que pairava no quarto era de um verde-azulado que ele só vira na sua casa de infância. Um verde-azulado que o perseguia.
Pegou todas as chaves, a maleta, os cigarros e a carteira e fechou a porta do apartamento conferindo em qual andar estava o elevador. Esqueceu de buscar o paletó e não pretendia voltar.
No térreo, o porteiro lia um livro.
- Bom dia, senhor Andres - dizia o porteiro.
- Olá! Está gostando do livro? - perguntava Andres ainda andando.
- É muito bom! Estou quase no final!
E Andres continuou. Morava perto do trabalho e ia andando. Naquele dia tropeçara tantas vezes e não cumprimentara pessoas que conhecia pois estava distraído. Seus pensamentos adiantaram-se pelas ruas da cidade, cruzaram farois e pararam na mesma mulher, que àquela hora deveria estar deitada.
Trabalhou pensando nela. Durante seu almoço, queria ligar. Voltou ao trabalho imaginando-a e seu expediente terminou uma hora mais tarde. Era uma sexta-feira.
Jantou com os amigos, como toda sexta-feira, e bebeu além da conta. Permitiu-se por alguns minutos esquecer-se dela. Mas quando rachou a conta, despediu-se dos amigos e ficou novamente sozinho, ela voltou. E ele estava cansado de ela sempre voltar para sua cabeça, fazendo-o sentir dor como se doente estivesse.
Andou cambaleante pelas ruas seguindo seus pensamentos. A noite estava escura, mas as luzes da cidade iluminavam o caminho. Seus pés cambaleavam pela bebida e pela incerteza, e ele cumprimentava a todos que encontrava - até quem não conhecia.
Quando suas pernas alcançaram seus pensamentos, Andres a viu. A mulher que o adoecia, que o embebedava. Ela estava sentada em um banco, e parecia que a lua havia parado naquele ângulo somente para iluminar sua pele. Os cabelos estavam soltos e tocavam os braços nus dela. Os sapatos a tornavam um pouco mais alta, mas ela ainda poderia se aconchegar nos braços dele, como tantas vezes fizera antes.
- Virgínia - ele chamou.
Ela o olhou delicadamente, levantou-se e se aproximou como uma pluma ao vento. Abraçou-o e o beijou no rosto.
- Seus cachinhos estão crescendo, Andres! - disse enquanto enrolava alguns no dedo.
Ele concordou passando a mão na cabeça, e a abraçou de novo. Puxou-a com toda vontade para si, como se eles pudessem se unir em um só ser e que nunca mais se separaria. Beijou o pescoço de Virgínia, sentiu o cheio de seu cabelo e sorriu. Ali ficou por alguns segundos até beijá-la. Ela parecia tímida por fazer isso ali, na frente de todos, mas não o soltou. Mesmo reparando no gosto da bebida.
- Eu vim aqui para dizer que amo você. Amo mesmo, com todas as forças que eu tenho. E eu luto para não amar. Eu nem acredito em amor, mas ele vive em mim. E eu estou o vendo aqui na minha frente, Virgínia.
Ela enrubesceu. Por mais que sempre ouvisse isso, dele era verdadeiro. Nele ela sabia que poderia acreditar. No entanto, também sabia que não poderia deixar que isso acontecesse.
- Você não pode me amar, Andres. Sinto muito, mesmo - disse enquanto se virava e voltava para o banco onde estava sentada.
Andres ainda estava de pé, chorando por esse infeliz desencontro que o amor o fez passar, quando um belo carro parou e buzinou. Virgínia levantou do banco, ajeitou a saia e caminhou como uma pluma para o carro. Inclinou-se na janela e informou seu preço. E então Andres viu que o amor existia, dentro dele e dentro da carteira do dono do carro.
Voltou para casa distraído, tropeçando e secando as lágrimas. Chegou em seu prédio disfarçando o choro e ainda amando Virgínia.
- Terminei o livro, senhor Andres! - disse o porteiro quando o viu entrar.
Andres pigarreou e trouxe sua voz normal à tona.
- E o que achou?
- Ah, senhor Andres, é muito bom. Sua esposa tinha razão! Agradeça dona Felícia por mim - respondeu.
E então, cheirando ainda à Virgínia, Andres apertou a mão do porteiro e pegou o livro. Esperou o elevador sozinho e subiu até seu andar com um homem que também voltava do trabalho. Chegou em casa, beijou sua esposa, colocou o livro na estante, tomou banho e foi dormir aconchegado em Felícia, pensando em como era difícil amar uma mulher da vida, da rua, dos outros.

agosto 05, 2011

Branscuridão

E afinal, quando vazia esta sala é realmente grande. Essas amplas paredes brancas dão a sensação de que tudo é ainda maior do que eu. As luzes no teto estão bem dispostas e não há janelas. A única brisa que posso sentir é a do tubo de oxigênio que chega até o meu nariz. Meu filho foi levar a esposa para conhecer o resto do museu, pois nesses últimos dias ele estava muito ocupado cuidando da organização da exposição.
Na inauguração, eu cheguei uma hora atrasado porque minha nora disse que isso agradaria a crítica. Não sei como. Esqueci-me de como devemos agir perante os críticos. Ao sair do carro com a ajuda de minha filha mais nova, todos os fotógrafos presentes puderam tirar uma foto da grotesca cena em que fui colocado na cadeira de rodas - não é mais tão fácil ter oitenta e dois anos. Olhei o grande cartaz iluminado que dizia "Edmundo Spíndola e a branscuridão". Era um belo cartaz com o meu nome. Fui beijado por diversas pessoas elegantíssimas, que fingiam tão bem interesse pelos meus quadros quanto piedade pela minha situação. Ao entrar no salão vi uma multidão de pessoas a me aplaudir, e desejei não estar sendo empurrado nesta cadeira imprestável.
A noite da inauguração foi um sucesso, disse meu filho. E eu acredito nele. Quando li a crítica no jornal, o atraso foi realmente importante. Deu um toque "branscuro" na exposição - eu juro, estava escrito no jornal. O caso é que sei que ninguém entende o que é branscuro. Acredito que neologismos foram feitos para só quem os criou compreender.
Preferi não voltar nos dias seguintes. Não gosto tanto assim de ser uma estrela. Meus quadros estão lá nas paredes brancas - os quadros que pintei seguindo um sentimento que veio do fundo do meu peito - mas nem por isso preciso ir todos os dias para lá. No entanto, hoje cedo escrevi um bilhete tremido pedindo para vir a exposição. Nem sei por quê.
Passei a tarde vendo fotos antigas e matando a saudade da época em que as mãos me ajudavam a pintar. Quando encontrei aquele pequeno colar com a foto da minha esposa, vi que não queria mais reencontrar com o passado. Esse pouco de presente que me resta está ótimo. Fui ler os jornais e me deparei com mais interpretações do meu neologismo, o que me divertiu por um quarto de hora.
Quando já noite eu estava preparado para voltar ao museu. A enfermeira particular me trocou cantando. Só por que não consigo falar, não quer dizer que não possa ouvir. Ela cantava suavemente uma música da minha época. E ela deve ter no máximo metade da minha idade.
Fui levado pelo meu filho para a exposição, acompanhado por minha nora. Não havia ninguém na entrada como antes e ao entrar pude ver que no salão não havia mais que dez pessoas. Ninguém que estava lá me reconheceu e na verdade, ninguém me viu entrar.
Empurrado pela minha cópia no passado, revi cada um de meus quadros e em alguns pude ter a mesma sensação de quando pintava. Quando demos a volta completa na sala, só restavam uma jovem loura, meu filho, minha nora e eu na sala. Minha cadeira foi estacionada ao lado de uma pedra de mármore com almofadas que parece ser muito frio, mas confortável. E agora estou aqui, acompanhado somente por essa brisa do meu tubo de oxigênio ao observar a jovem loura.
Ela tem cabelos longos e cacheados, uma franja que cobre suas sobrancelhas e olha com tanta atenção para meus quadros que me surpreendo. Está com fones de ouvindo e tamborilando os dedos nas pernas. E então, de repente, ela se vira e me vê. Veio andando calmamente e se sentou na pedra de mármore com almofadas.
"Olá", sua voz é grave e espontânea.
Não respondo. Simplesmente não posso. E ela entende isso.
"Ora, o senhor não fala! Desculpe!", e ri. "Gostaria de perguntar o que achou da exposição, mas como o senhor não fala, vou eu mesma dizer minha opinião".
Pisco para encorajá-la.
"Eu não gostei dos quadros. Eles são vazios, sabe?! Não só porque são pintados em preto e branco, mas porque eu não vejo profundidade neles", e eu arregalo os olhos.
Apoio as mãos nos joelhos e sinto calafrios.
"Li nos jornais críticas excelentes dizendo que 'o preto e branco do pintor excediam a lei do imaginário sentimental' e que 'o vazio expresso nos quadros mostram a dualidade da salvação e da destruição'. Não vejo nada disso. Primeiro que 'branscuridão' foi um péssimo neologismo".
Estou espantado, qual o problema com branscuridão?
"Apesar de que eu acredito que neologismos foram feitos para só quem os criou entenderem. O senhor não acha?" E ela me olha.
Claro, claro que eu acho. E gostaria muito de falar isso.
O telefone dela toca. Troca algumas palavras como "você nunca vai entender o que eu sinto" e "amor não funciona desse jeito" com a pessoa do outro lado e altera a voz. Aparentemente ela não o ama mais. Desliga o telefone.
E ela para. Olha fixamente para frente como se tivesse tido uma iluminação. Repete sussurrando "branscuridão" e meus olhos não saem dela.
"Branscuridão deve ser saudade. Ou aquilo que é além da saudade, a vontade de ter algo de volta que nunca mais, nunquinha poderemos ter. O brando do branco misturado com o sofrimento do preto. E a certeza do preto com a esperança do branco!", e ela simplesmente começa a chorar.
"Deve ser aquele sentimento que a gente passa tão poucas vezes na vida que quase nos mata. Aquilo que dobra nosso coração no meio, e no meio, e no meio", diz fungando.
Eu a olho admirado, e nem sei o que eu diria se conseguisse falar.
Ela se levanta, pega a bolsa e sai andando. Não sei se ela está indo resolver algum problema pendente ou se jogar na frente de um trem. O fato é que essa jovem conseguiu traduzir o que eu quis dizer.
Tenho certeza de que esta é a última exposição que farei em vida. Mas fico feliz em saber que ainda existem pessoas que conseguem ver além da simples tinta na tela.
Meu filho volta de mãos dadas com a esposa e vejo que nunca mais poderei fazer isso com a minha esposa. Não aqui, pelo menos.
E isso é tão branscuro.

julho 20, 2011

Paradoxo da Escolha

O telefone no chão tocava, tocava, tocava. Sobre o colchão no chão ela estava ouvindo o barulho repetitivos de "tri-li-li-li-lins" que aquele telefone velho fazia. Até que depois de trinta segundos ele parou (ela já havia contado, trinta segundos). E ela continuou deitada de barriga para baixo, pés cruzados no ar, escrevendo alguma memória.
Com rapidez ela escrevia sobre o que todas adolescentes adoram escrever: o primeiro amor. Ela concedia ao personagem principal características dos rapazes mais bonitos que era vira, trejeitos do seu primeiro namorado, gírias do segundo namorado e algumas situações que a fizeram sofrer para ser o clímax da história. E a moça da história era ela, a ela que só ela conhecia.
Escreveu os parágrafos e segundo sua ideia, alguma coisa a mais tinha que acontecer. Levantou-se do colchão e foi em direção à pia da cozinha para pegar de suco, mas ela acabara com todo ele na noite passada. Decidiu beber água e que algo como "o suco ter acabado" poderia entrar na história. Quando voltou para o colchão, tropeçou nos pés do abajur que tem quase o seu tamanho e o maldisse até a última geração de abajures de sua família. Deitou-se no colchão e o telefone voltou a tocar.
"Não, suco talvez não faça tanta diferença. Vou colocar esse abajur infeliz na história", pensou ela enquanto os "tri-li-li-li-lins" a chamavam. Olhou para o abajur e o descreveu como "esguio e deformado, azulado como meus olhos poderiam ser ao iluminar os seus". E o telefone parou novamente.
Ela olhou no relógio e imaginou quem estaria insistindo em ligar para ela na madrugada. Pensou em colocar que o rapaz ligava-lhe de madrugada, mas não teve tempo de escrever. O telefone voltou a tri-li-li-lintar.
- Alô?
- Alô, desculpe ligar a essa hora. Quem está falando? - perguntou a voz do outro lado da linha.
- Fiorella. Está desculpado - pelo timbre da voz era um homem.
Ela pôde ouvir um risinho embaraçoso.
- Pois não? - disse ela com sua voz de interrogatório.
- Não sei se você se lembra de mim, sou o cara do bar de outro dia. O que você chamou de estranho.
Fiorella arqueou as sobrancelhas e começou logo a falar.
- Oi, estranho! Bem, não leve a mal que eu te chamei de estranho. Você não é estranho; é que nós éramos estranhos um para o outro, sabe, não nos conhecía... - e de arrependida, sua voz foi para uma nota mais alta - Está bem, como você conseguiu meu número?
- Um pouco antes de você sair cambaleando do bar e um pouco depois de me chamar de estranho, você me entregou seu número em um guardanapo - sua voz era um pouco rouca e o sotaque do interior era pouco evidente - Estou ligando para saber se você não gostaria de sair comigo.
Ela riu e ficou apoiada pelo cotovelo. Ficou um tempo em silêncio porque notara um erro na história.
- Ah, eu sabia que você me ligaria. Você não sabe para onde eu gosto de ir. E se for um lugar muito diferente dos que você gosta? - disse ela como técnica para fazê-lo desligar.
- Não acredito nisso. Nós estávamos no mesmo lugar quando nos conhecemos, Fiorella.
Quando ele disse o nome dela, F-i-o-r-e-l-l-a completo, ela se contraiu. Ela gosta que a chamem pelo nome, sem apelidos, sem abreviações. E gosta quando usam seu nome no meio das frases. Sem "você" ou outros pronomes.
- Claro, então podemos sair sim - disse ela, deitando-se de costas, olhando para o teto cheio de pôsteres e desenhos.
- Mas eu quero conversar um pouco com você sobre coisas aleatórias agora, você pode? Quem sabe, Fiorella, falar sobre os dilemas do universo, sobre nossas experiências em comum ou sobre o clima.
Ele disse F-i-o-r-e-l-l-a de novo.
E durante o resto da conversa, ele disse milhões de vezes Fiorella. Enquanto contava seus gostos, perguntava os gostos dela, enquanto discutiam sobre o calor ser melhor que o frio (visão dele) ou o frio ser melhor que o calor (visão dela). Durante a primeira hora, a conversa era basicamente a mesma: um contrariar o outro. Não tinham os mesmos gostos para várias coisas e tentavam de modo assíduo mostrar um para o outro o que era melhor.
Na segunda hora de conversa, Fiorella o fez se descrever fisicamente, já que ela não se lembrava dele. Ele disse que não se media há muito tempo, mas que era maior do que ela. Disse que tinha cabelos castanhos claros que não estavam lavados no momento. Que ao falar sua boca fazia movimentos engraçados que eram motivo de chacota. Tentou descrever de maneiras inimagináveis como era a cor "verde-avelã-castanho-azulado" de seus olhos e que sua barba era rala.
Na terceira hora falaram sobre seus passados e na quarta hora, falaram sobre como a vida funcionava - e foi nesse momento que eles mais concordaram um com o outro.
Pararam de conversar quando ele teve "que tomar banho, Fiorella".
Ele perguntou quando poderiam sair e ela estaria no mesmo bar, na mesma hora, no dia seguinte. E combinaram que lá seria um bom lugar.
Ele mandou um beijo e disse para ela se cuidar. Fiorella mandou dois beijos e disse para ele ter um bom dia.
Desligaram os telefones ambos ao mesmo tempo e ela ficou parada ora olhando para o teto, ora olhando para sua folha de histórias. Ele era do jeito que ela queria, mas não era o que ela queria agora. Ela gostava mais do irreal.
Por enquanto estava bem com sua folha de papel recheada de palavras que ela queria ouvir e na companhia de quem ela criou. Voltou a escrever, só parando para pensar um novo bar para frequentar.

julho 08, 2011

Nós e terceiros

"O pior de tudo era a chuva, e não o frio", Ofelia dizia sempre. Essa chuva incessante que ao bater nas janelas atrapalhava suas anotações.
O único lugar onde ela conseguia se concentrar em dias chuvosos era no pequeno escritório onde havia muitos livros nunca lidos e muitas outras coisas espalhadas - o que ela prometeu arrumar desde que largou o emprego.
Quando Ofelia chegou em casa naquele dia com um sorriso de orelha a orelha, dançando e cantando, com a bolsa caída pela mão e as chaves da casa, do carro, do escritório e do armário - escondido atrás de um quadro que um amigo dera - abarrotadas sobre o busto, seu marido vira que algo havia acontecido. Seu marido nunca imaginara que tamanha felicidade no rosto de Ofelia era por causa de sua demissão. E Ofelia nunca imaginara que isso poderia ser motivo para tantas discussões. Ela se defendia sempre com o mesmo argumento: era infeliz no trabalho - o que ele não compreendia.
"Um bom salário, um bom cargo e uma casa e família para cuidar", ele dizia sempre.
Alguns meses após a demissão, Ofelia descobriu que estava grávida. Os enjoos foram piores nessa gravidez e sua pressão era irregular. Ela não conseguia mais escrever com a mesma facilidade de antes, e mesmo grávida, as discussões não amenizaram.
Ele criara o hábito de cumprir horas extras no trabalho para tentar cobrir um pouco o que Ofelia deixara para trás, enquanto ela passava o dia cuidando da caçula que estava na barriga e dos outros dois filhos, que antes ficavam com a avó.
À medida que os meses foram passando, os problemas com a gravidez aumentavam. Não seria mais possível o parto normal, e os médicos teriam que apelar para a cesariana. A primeira menina da família nasceu prematura, interrompendo o novo artigo que Ofelia tentava escrever.
Seu marido chegara atrasado e a pequena já havia nascido. Muito frágil, muito pequena, lutando para sobreviver - assim como o relacionamento dos pais. Ele correra para onde Ofelia estava e a beijara depois de muito tempo sem o fazer.
"Desculpe, meu amor! Ela é linda, você foi ótima, está tudo bem agora", ele disse. E ela realmente acreditou que estava tudo bem agora. Ele até dissera que a amava.
Os dias transcorreram bem, depois de um tempo a neném pôde ir para casa. Ofelia poderia voltar a escrever e conciliar tudo, segundo seu plano. Não se importava de passar as noites em claro, e esperava o marido chegar acordada, para contar sobre seu dia, perguntar sobre o dele e dividir os planos. Ele sorria, eles riam, concordavam, discordavam, discutiam e dormiam de costas um para o outro. No dia seguinte, ou Ofelia ou ele acordava mais cedo e fazia o café, levava na cama e pedia desculpas. Ele saía para trabalhar, ela cuidava dos filhos, da casa, escrevia um artigo e tentava mandá-lo para algum jornal. Atendia os telefonemas e falava com mulheres que procuravam seu marido. Sempre as mesmas.
"Não, ele não está. Está no trabalho agora. Sim, eu mando um beijo para ele. Claro, eu aviso. Bom dia pra você também". A parte mais difícil do dia não era cuidar dos filhos, ou procurar forças para escrever um artigo, ou conciliar tudo isso. A parte difícil era fingir ser secretária, e não esposa. Ele não sabia que ela fazia isso, e Ofelia não sabia por que ele não parava com tudo isso.
A chuva incessante ainda atrapalhava as anotações de Ofelia, e cada parte do escritório tinha um pedaço de suas discussões. Hoje só duas mulheres ligaram procurando seu marido e ela não se concentrava por causa da chuva. O pior é a chuva, e não o frio. Com o frio ela já acostumara, era constante. Mas a chuva não. A chuva vinha de repente e tentava mostrar que estava ali, molhando, correndo, atrapalhando. O pior era a chuva, segundo ela.
O telefone tocou e era ele. Iria se atrasar, pois hoje tinha reunião depois da hora extra, e que ela não precisava esperá-lo acordada. Se ela não tivesse largado o emprego, ele estaria cedo em casa e não precisariam passar por tudo isso. Ela pediu desculpas por isso chamando-o de amor, disse que ele era um doce por fazer tudo isso e que tudo ficaria bem. Essa foi a resposta de Ofelia por telefone naquela tarde chuvosa.
Quando ele chegou, a casa estava a mesma de todos os dias. Mas os filhos não estavam, o carro não estava na garagem e Ofelia não estava no sofá. Somente um bilhete em cima da mesa, que ao lê-lo, ele poderia até ouvir a voz de Ofelia.
"Duas moças ligaram para você hoje, mas desculpe, não anotei os nomes. Quando elas ligaram eu já havia me demitido desse casamento.
Agora você pode discutir com as paredes sobre o que aconteceu, talvez elas digam a você o que você queira ouvir.
Eu estava infeliz. Você estava infeliz e as crianças também. Estou levando as chaves de casa, do escritório, do carro e do armário atrás do quadro. Agora sim, meu amor, estamos bem.
Vamos sentir falta do que você era."
Ele se sentou no sofá e viu, de onde estava, que o armário atrás do quadro estava vazio. Suas "horas extras" foram embora com ela. Mas tudo bem.
Agora estava tudo bem.

junho 16, 2011

Entre bonecas e aviões

Um avião, dois aviões, três aviões e ele ainda não chegou. Há horas estou sentada aqui esperando-o. Minha esperança é tão grande que tenho medo de ler algum livro ou escutar música e me distrair. Assim eu não poderia vê-lo passar.
A cada um que entra, meus olhos se estreitam um pouco e tento reconhecê-lo. Na verdade, não sei como ele está. Louro, moreno, cabelos longos ou não, olhos escuros ou não. Espero que ele esteja de barba, com alguma roupa social, os cabelos arrumados e a mochila na mão. Poderia ser uma mala também. Contudo, eu só espero que ele venha logo.
Quando cheguei aqui hoje, um homem muito parecido com ele apareceu. Pelo que pude ver, o homem viera de outro país. Levantei-me estreitando os olhos e deparei-me com uma figura sorridente muito parecida com quem eu espero. Mas não era. Aquele não era o sorriso resoluto pelo qual eu esperara. Sentei-me novamente.
Virei-me diversas vezes na cadeira querendo ir ao banheiro, mas não podia. Senti sede, sono, cansaço, mas ali fiquei e fico.
De repente, avistei ao longe aquele cabelo, aqueles ombros e a barba que gosto. Desta vez eu sorria e fui de encontro. Ao aproximar-me, fingi que esbarrara e prossegui. Não, não era ele. As ruguinhas em volta dos olhos dele não reagiram ao dizer "desculpe". Então voltei à minha cadeira.
Homens passavam e comigo falavam. Como eu queria que finalmente algum deles fosse ele! Pensei em desistir e ir para casa. Não, ele não merece isso.
As grandes janelas anunciavam a chegada de mais um avião, e dentro dele toda a minha esperança, de novo. Famílias se abraçam, amigos choram, pessoas chegam e vão para casa sozinhas. Novamente, não o vi.
Outro avião, mais um, e então uma voz de mulher anunciou em três idiomas que o avião atrasara. O último avião que eu esperarei hoje. Mais duas horas e ele, finalmente estará aqui.
Sempre atenta ao tique-taque do relógio, fui ao banheiro, bebi um suco e voltei ao meu lugar. Comecei a pensar em como fui parar ali.
Espero-o há tanto tempo que perdi a conta. Tento ouvir sua voz quando o vento chega ao meu ouvido, ou então, vê-lo por reflexos em lojas de espelhos. Eu não o conheço, nunca o vi, mas espero encontrá-lo.
Não é uma busca pelo amor perdido, só tento encontrar a pessoa por quem vou me apaixonar a primeira vista. Sei que quando olhá-lo, saberei que ele é o homem feito para mim. Louro, moreno, barbudo, bagunçado, que seja. Eu saberei quem é. E por isso venho aqui. Esperar que ele venha de algum outro lugar, que ele desça de algum desses aviões e que eu sinta que é ele. E então ele sentirá que sou eu. Nós sentimos, nós sabemos, nós queremos. Não é fácil.
E não é difícil.
Quando avião atrasado chegou, ele também não estava lá. Nenhum dos homens despertara nada em mim. Nada aconteceu. Nenhum sorriso, nenhuma ruga em volta dos olhos. Nada.
Vencida pelo sono, desisti. Comprei outro suco, peguei minha mochila e fui caminhando para saída do aeroporto. Era bom pisar novamente o chão, sentada meus pés não conseguem.
Saí pela grande porta giratória e deparei-me com um movimento de carros, barulho de buzinas, o som de malas de rodinha e olhei para frente.
Ele vinha atravessando a rua, sorrindo um sorriso resoluto, com suas rugas em volta dos olhos e um cabelo lindo. Alto como só ele poderia ser, parou em minha frente e se curvou, olhando-me nos olhos.
"Olá", disse ele.
Com minha voz fraca, respondi "Oi".
"Quantos anos você tem? Está perdida?", e um fio de cabelo caiu sobre seu olho.
"Tenho seis anos. Não, não estou perdida".

maio 26, 2011

O sol

O sol brilhava para aquela casa grande, com altas janelas e objetos de madeira. Naquele dia, Francisco poderia dizer que o grande gigante dourado tentava brilhar mais.
A janela da sala onde Francisco estava era suficientemente grande e o sol atravessava quase todo o cômodo - mas nem sequer tocava seu pé. Sentado ele ouvia enquanto Iolanda cantarolava uma música ao lavar a louça.
Seus pés doíam e sentiam que a noite não seria fácil. Talvez as cãibras voltassem e Iolanda insistisse que ele fosse ao médico. Estava cansado de médicos.
Passou a mão esquerda pelos finos cabelos, grisalhos e coçou sua barba - um pouco grande demais. Segundo seus filhos, no próximo Natal, o seu Francisco teria que se vestir de Papai Noel para os netos. No entanto, seu Francisco não gostava de enganar crianças e muito menos que o chamassem de "seu Francisco".
Iolanda, na cozinha, pensava em quanto a água estava fria ou sua pele sensível. Ela nunca se preocupou com a idade, mas sempre quando nova imaginou como seria essa transformação. Como seria ao se olhar no espelho e ver que ainda era ela, mas velha. Cantarolava enquanto os talheres tilintavam na pia.
Francisco pegou o livro na guarda da poltrona e continuou sua leitura.
Iolanda precisava lavar mais alguns copos e guardar tudo no armário.
Na sala de estar, o sol parecia chamar. Francisco olhava para o tapete, onde o sol formava grandes quadrados ao atravessar a janela e ouviu silêncio. Iolanda deveria ter ido ao quintal.
Como se jovem novamente, o senhor de setenta e nove anos se levantou, com passos silenciosos e sorrateiramente foi até o centro da sala, onde com muita dificuldade se agachou, sentou e deitou. Pôs os braços atrás da cabeça e em cima do tapete, o sol o iluminava completamente. Ele fechou os olhos e sorriu, sentindo o calor em sua face.
Ao ouvir novamente o canto de Iolanda, o sorriso aumentou. Ela desafinava algumas vezes, mas mesmo assim a música parecia perfeita para ela.
Na cozinha a mesa estava limpa, os copos guardados e aquele cheiro de cozinha aconchegante que poucas casas têm.
- Francisco, acho que vou para o quarto ler. Talvez eu pegue no sono.
Quando diz isso, Iolanda raramente ganha resposta e segue para o quarto. Mas naquele dia, aquele mesmo silêncio que há poucos Francisco ouvira, ela também podia ouvir.
- Francisco?
Ela entrou na sala e se deparou com aquele velho senhor deitado no tapete, de olhos fechados e sorrindo. Ele, tão absorto, não percebeu a presença dela.
- O que há, Francisco? Como conseguiu chegar até aí, homem? - e ela se aproximou.
Ele, sem abrir os olhos sorriu, como sempre fazia. E ela, mesmo depois de tantos anos casada, ainda sentia o coração dilacerar com aquela simples expressão.
- Venha cá, meu amor - disse ele ainda de olhos fechados.
A risada de Iolanda saiu abafada e ela disse que estava velha demais para deitar no chão. Isso era coisa de criança.
- Não, não é. Confie em mim - e ele estendeu a mão, para incentivá-la.
Ela parou ao lado dele, em pé, deu uma mão e se ajoelhou. Aos poucos, com menos dificuldade que ele, pôs-se deitada ao lado de Francisco, que virou a cabeça, abrindo os olhos - revelando-os tão azuis quanto em sua juventude - e um sorriso. Aquela pinta ao lado esquerdo da boca dele foi evidenciada com o sol.
- Agora que estamos aqui, quero ver como vamos nos levantar - disse Iolanda, ainda segurando a mão dele.
- Iolanda, eu estava aqui pensando - disse ele como sem nem houvesse prestado atenção o que ela dissera -, aconteceram tantas coisas que eu nunca contei a você e provavelmente coisas que você nunca me contou.
Iolanda estava com a cabeça deitada para o seu lado esquerdo, onde ela poderia ver seu marido de perfil. Ele de olhos fechados estava ainda sentindo o sol.
- Já estou velho demais para contar isso e você velha demais para me bater por isso. Há coisas que eu não me orgulho, meu amor, e eu acho que eu poderia compartilhar umas ou outras com você - ele se virou e olhou -, pelo menos era esse o combinado.
O sol já não era tão forte, e seu brilho foi escondido por uma grande nuvem.
- Eu já traí você, Iolanda. Mas eu nunca amei ninguém como você, porque não existe mais ninguém como você. Se existisse, eu juro que casaria com você e com ela - e então, fechou os olhos novamente, olhou para cima e sorriu. Agora, mais do que qualquer outra época de toda essa minha longa vida, eu sei que a amei todos os dias, todos os anos, todos os momentos. Poetas dizem que a gente ama até mesmo antes de conhecer.
A nuvem foi embora e o sol voltou. Iluminou os brancos fios de Iolanda, a pele branda, os cílios escassos.
- Eu não duvidaria nada - finalizou Francisco.
Ela se apoiou pelo cotovelo e o beijou. Depois de vencer o tempo era muito mais fácil entender o amor. Lutar contra alguns desconfortos já não era nada.
- E se esse gigante dourado aqui em cima - disse ele ao abrir os olhos - caísse agora em cima de nós, seria o fim mais feliz que qualquer poeta ousou escrever.
O sol brilhava para aquela casa grande, com altas janelas e objetos de madeira. Brilhava para Iolanda e Francisco.
E o amor brilhava para o sol.

maio 03, 2011

Perfeição

O barulho característico que o velho armário fazia ao ser aberto, os sons de talheres, potes, panelas, pratos. O som que o fogo faz ao ficar em contato com uma panela, começando a esquentar. A luz da lâmpada que acabara de ser trocada. Tudo isso me passava desapercebido.
"Acho que você já mexeu demais, Sofia", eu conseguira ouvir de repente.
Deixei a colher sobre a pia, a tampa cobrindo parcialmente a pequena panela, e fui lavar a louça. Um prato e um copo que usamos hoje de manhã. Duas colheres. A minha e a de Vico.
"Estou tão distraída hoje. Conte-me algo do seu dia para eu me concentrar, por favor", com minha voz tão mecânica que quase pude pressentir a próxima frase.
"Não gosto que...", ele começou.
"Pergunte por perguntar", não resisti e completei.
Ele fez uma careta de descontente, levantou-se da mesa e veio até atrás de minha na pia. Seu braço direito envolveu minha cintura ao me dizer baixinho para que eu parasse de lavar a louça.
"Mesmo que um de nós precise lavar toda essa 'pilha' de louça", Vico e seu tom irônico não me faziam rir naquele momento.
Virei-me de frente para ele, e quando ia abraçá-lo, vi que deixara o armário aberto. Desviei-me de seu braço e fui em direção ao armário.
"Sofia, o que há?", perguntou ele pela primeira vez.
Eu o olhei e respondi que não era nada. Sentei-me em cima do balcão e pedi para que ele cuidasse da panela. E que por favor, que ele me contasse como havia sido seu dia.
"Foi ótimo...", ele começou, mas eu já deixara de prestar atenção.
Eu olhava para ele. Fixamente. Pensava como eu conseguira um homem como ele, alguém que nenhuma outra iria encontrar. Ele era rude quando queria, mas mesmo assim, nos modo de falar pequenos detalhes tinha uma coisa importante para falar. E eram nesses momentos em que eu mais o amava.
Ali no balcão eu o observava falando, falando, mexendo o jantar e admirando a lua pela janela. Seus olhos verdes que olhavam para cima ao reclamar de alguma coisa. A mania de abandonar a tarefa e encostar-se na parede como se para invocar a concentração. Vico me mostrara que todas as paixões eternas de minha adolescência se transformasse em pó. Nenhum era como ele. Nada era como ele.
E eu ali, olhando-o enquanto os ponteiros do relógio davam voltas e eu continuava sem entender como nós, tão diferentes, fomos parar na mesma cozinha, na mesma casa, na mesma cama. Na mesma vida.
"Vico, o que você viu em mim, hein?", interrompi-o sem pensar.
"Que?", ele olhou surpreso, "Eu aqui contando o que aconteceu comigo e você, Sofi..." e interrompi-o novamente.
"O que você viu em mim?".
Ele pôs a mão direita no pescoço e coçou o cabelo de sua maneira característica. Desligou o fogo, e deu três passos até mim. Quando Vico pôs a mão em meu rosto, eu queria que o mundo acabasse ali. Eu não o merecia.
"Não sei", ele finalmente respondeu.
Eu comecei a chorar.
"O que foi, Sofia?".
"Olhe pra mim, olhe pra você. Tão singular, tão amável, tão perfeito e tão simples ao mesmo tempo! Seus olhos me desmontam só quando os passa ligeiros por mim, sua boca liberta todas as palavras de forma tão natural. Seu jeito é o jeito que eu sempre quis. E eu? O que tenho eu de mais?"
Vico parou, sentou no chão e ficou a me olhar de baixo. Esperando que eu continuasse.
"Ah, Vico. Olhe para mim, olhe para o meu rosto. Que graça eu tenho? Esse meu nariz estrag..." e ele pegou minha mão. Calei-me.
Sentado ali, eu podia ver sua tatuagem, seu cabelo, seu rosto lindo.
"Sofia, meu amor, olhe para mim".
Mas eu já o estava olhando.
"Enxergue-me, por favor", ele disse. "Querida, eu não tenho meu braço esquerdo. Seu nariz é lindo".
E eu o enxerguei, todo perfeito, todo Vico, todo meu, quando ele pôs o braço direito sobre o meu nariz. E me senti sendo virada de cabeça para baixo, como o brinquedo do parque de diversões que eu ia quando pequena. Meu estômago subia, meu coração descia, meus olhos fechavam e eu até tentava sorrir.
Eu curvei meu corpo sobre o dele, abracei-o tão forte, apertando seu pescoço, sentindo seu cheiro, e percebi que éramos perfeitos.
"Somos perfeitos", sussurrei.
Vico segurou meu queixo, beijou-me com todos os seus cem braços e começou a rir.
"Pensando bem, Sofia, seu nariz não é tão bom. Não está sentindo o cheiro de queimado?".
Ele tentou se levantar, mas eu o impedi.
Ficamos ali abraçados, envoltos em seu cheiro, meu cheiro, na fumaça e na perfeição.

abril 25, 2011

O amor vai nos dilacerar

Ainda me surpreendo com o que ela faz comigo.
Hoje encontrei no fundo da caixa de correio um carta molhada - chovera muito noite passada. Não sei há quanto tempo ela estava ali, no cantinho, imperceptível. Inúmeras vezes eu peguei contas de telefone, de energia e anúncios de pizzarias sem nunca avistar o pequeno envelope.
Somente o encontrei quando eu realmente precisava. Às vezes a vida é assim.
Meu pai falecera no início deste ano. Passou uns tempos no hospital e eu o visitava sempre que podia. Depois decidimos que era melhor ele ficar em casa. Na verdade, foi o melhor mesmo.
Ele não sofreu muito, pelo menos não dizia. Passava o dia de mãos dadas com minha mãe, que não largou sua mão nem quando quando ele jogara o copo de água no chão, levantara-se bruscamente da cama e tentou sair andando pelos corredores do hospital gritando com a enfermeira "imbecil" que havia raspado sua barba. Agora viraria chacota no encontro de motociclistas. Ela não poupara nem o bigode.
Quando minha mãe me ligou, ela chorava baixinho, discretamente. Disse que o senhor Dante morrera abraçado a ela.
Meu pai nunca deixou que o separassem de minha mãe. Até na hora de sua morte queria estar ali, abraçado a ela, esperando o que quer que fosse lhe buscar.
Um mês após sr. Dante partir, ela, a mulher que transformou minha vida, resolveu voltar.
Encontrei Manuela casualmente. Eu estava em um restaurante esperando uma outra mulher, quando ela entrou. Seu cabelo castanho claro estava na altura do busto, penteado de lado - de um jeito que nunca a vira usando -, com as pontas mais claras do que o natural. Sua maquiagem era leve, mas todos a olhavam pelo batom estonteante que usava. A cor vermelha parecia ter sido criada justamente para ela. Não havia a visto. Mas quando se tratava de Manuela, isso era impossível.
Desde que ela se fora de minha vida, desde que eu dissera coisas estúpidas, desde que tudo aos poucos nos distanciou, eu pensava que não era apaixonado por ela como sempre pensei. Depois de uma traição, ninguém pensa. Procurei esquecê-la aos poucos. E enganei-me por muito tempo achando que havia conseguido.
Contudo, quando ela colocara sua mão em meu ombro e eu pude sentir o perfume dela, não tive dúvidas. Eu seria um bobo apaixonado por ela para sempre.
Manuela era linda. E não pude deixar de dizer isto a ela. Ela ficou ruborizada e me abraçou. Disse que sentia muito pelo meu pai.
Eu quis dizer que sentia muito a falta dela, mas não. Não quis começar tudo novamente. E assim ela se despediu, sentou a algumas mesas à minha frente e às vezes sorria na minha direção.
Não esperei a moça aquele dia. Tive de ir embora. Quem sabe eu tenha passado pelo homem de sorte que encontraria Manuela naquela noite na porta do restaurante. Quem sabe.
Em casa eu chorei. A única coisa que pude fazer. Era verdade, eu precisava tirar de dentro de mim toda a ilusão que eu não a queria, não precisava mais dela. Senti como se fosse explodir.
E então, do começo do ano até novembro, segui minha vida normalmente. Lembrava dela sempre que podia e meu coração esquentava, sentia um aconchego, quase um cafuné.
Uma vez arrisquei ligar para ela. Estava no trabalho.
Convidei-a para sair. Ela aceitou, mas não apareceu.
E aquela sensação adolescente de montanha russa voltou. Eu pensava que ela não gostava de mim, ou de repente, sim, gostava.
Até o dia em que encontrei uma carta dela na caixa de correio. Hoje.
Manuela, sete anos mais nova que eu, surpreendia-me com sua jovialidade. Mandara-me uma carta dizendo que queria se casar comigo.
"Não adianta querer esquecer você, Jorge. Pelo amor de Deus, tente entender que eu sou completamente apaixonada por você. Que eu sempre fui relapsa porque eu não entendia o que você fazia comigo. Nunca fui de entender sentimentos, você sabe".
Ela nunca me entendera. Acredito que nós nunca nos entendemos.
"Toda noite eu penso em você. Outro dia tive a esperança de ser uma mensagem sua no meu celular. E não era".
Não, não era. Mas eu queria.
"E agora você é velho demais para mim, ou eu sou nova demais, mas sei que você tem que passar o resto dos seus dias comigo. Não! Isso soou prepotente. Eu tenho que passar o resto dos meus dias com você".
Desde que a carta chegara, sem endereço, sem assinatura, toda molhada, eu já a lera umas trinta vezes. Cada vez tentando achar mais mensagens nas entrelinhas.
"E eu perdôo você. Não me importa mais que tenha me traído. Todos esses anos eu quis me vingar, mas você não saía da minha cabeça. E é assim que eu fico agora. Totalmente entregue a você".
Veio tudo de uma vez. Eu não esperava, não. Nunca me passou pela cabeça que ela diria tudo o que eu queria, tudo que desejava. Eu pensava que ela passara a me desprezar, evitar. Mas não.
"Eu não dormi essa noite. Só quero dormir se for ao seu lado".
Ao final mandou "um beijo, um abraço, outro beijo, Manuela".
Mas eu ainda me surpreendo com o que ela faz comigo.
Sua jovialidade dilacera meu coração.
Quando abri a carta pela manhã, depois de lera várias vezes, derrubei-a no chão. O lado avesso estava escrito "Vá se ferrar, Jorge".
No entanto, não a culpo de nada.

março 21, 2011

Epifania

Ela andava devagar, seus olhos estavam perdidos na imagem das copas das árvores dançando com o vento. O vento frio que quase a esquentava. Olhou pelo lugar, viu alguns pássaros, algumas pessoas como ela, várias outras como ele e finalmente o avistou.
Seus passos então se tornaram mais lentos e ao mesmo tempo mais desesperados. Saudade, dizem alguns. As nuvens pareciam também sentir saudade. Para aquele encontro, elas até haviam diminuído suas velocidades.
Quando frente a frente, ela quase chorou. Seus olhos castanhos ficaram embaçados com aquelas lágrimas de amor que poucos têm o prazer de conhecer. Contudo, como prometera ainda no carro, não deixou que nenhuma escorresse.
"Parece que finalmente tive coragem de falar com você, Irineu", e sorriu. Esticou a mão para fazer um carinho, mas desistiu. Com a mesma mão arrumou uma mecha do cabelo que lhe atrapalhava.
"Não sei se consegue ver, mas estou me controlando para não chorar", e riu. "Quando estava no carro, tive certeza de que só eu falaria, então saiba que não vim preparada para respostas", continuou ela.
À medida que ela dizia algumas palavras, ela gaguejava. Teve que respirar antes de engasgar novamente na palavra certeza.
"Eu não sei o que vim falar para você, sabe?", ela gaguejou, pensou e prosseguiu. "Afinal, você me conhece tão bem que sabe que eu nunca sei o que falar a você".
Ao lembrar o quanto se conheciam, o quanto faziam parte um do outro, o quanto ela poderia passar mil anos sem saber o que dizer a Irineu que ele entenderia, ficou mais segura. Desabotoou o sobretudo vermelho que vestia e o tirou calmamente. Sempre olhando para Irineu. Com seu olhar de saudade, receoso e desesperado.
"Ontem enquanto eu bebia algo para vencer o frio, lembrei de algumas coisas. É tão comum lembrar de coisas na hora da separação, não é? Estou me sentindo previsível por isso", ela passou a mão pelo pescoço e sorriu tímida. "Eu me lembrei de quando nós discutíamos por causa de nossos filmes favoritos. Afinal, sempre brigávamos por coisas tão estúpidas".
Olhou-o, mas sabia que dele não viria uma palavra.
"Não quero que tenha pena de mim, porque agora não estamos mais juntos e que claro, para você será fácil e você sabe que para mim não. Principalmente depois de nós compartilharmos os mesmos sonhos. Os mesmos momentos especiais", e fez um pausa para respirar.
"Olhei nossas fotos ontem e eu fiquei pensando o quanto você é lindo. Eu sou boba mesmo e sempre faço tempestade em copo d'agua. Quantas vezes não achei que estava transformando nós em algo maior do que o próprio amor? Porque, quem sou eu para julgar o que é o amor? Quem somos nós para garantir que isso foi mesmo amor? Talvez porque quando eu pensava em alguma coisa, você parecia ser metade de mim como um ser pensante também", as palavras fluíam. A segurança dela perante Irineu aos poucos aumentava.
"Ou talvez porque você sempre fez parte de mim. E porque você nunca fez parte de mim. Não sei se você alguma vez foi eu, mas eu sempre fui você." E então riu, com o tom de voz sincero, "Irineu, eu devo ser mesmo maluca. Qualquer um que me vê falando assim, não deve entender. Mas honestamente, não garanto nem que você entenda".
Ela virou de costas e pensou em ir embora. As lágrimas retidas davam choque em suas pálpebras. Não se virou mais. No entanto, também não foi embora.
"Eu amo tanto você, mesmo sem nem saber se isso é amor. Eu vou sentir sua falta tanto, tanto, tanto, que eu poderia explodir. Mas é como você disse, nós temos que continuar. Você não vai falar nada, nem precisa", ela rompeu as lágrimas que arderiam sua pele e seu peito. "Eu quero você aqui comigo", sussurrou.
Ele, imóvel, nada dizia.
Ao longe, ela ouvia vozes de homens que gritavam "Por aqui, por aqui".
A bela mulher, de cabelos cacheados, olhos escuros, pele macia, pisava torto na grama. E quase perdeu o equilíbrio ao voltar-se de frente pra ele.
"Por que eu ainda espero que você fale algo?", gritou. "Por que por mais que eu tenha medo de ouvir, ainda quero que o faça?", ajoelhou-se no chão e tapou o rosto.
Depois de alguns longos minutos, ela respirou fundo, olhou para Irineu e o tocou pela primeira vez.
"Obrigada", ela disse sorrindo, lembrando de tudo pelo que passaram.
Vestiu o casaco novamente, deixou o bouquet de girassóis aos pés da lápide ao dizer "Adeus" e seguiu para o grande portão negro de ferro.
O vento frio a esquentou novamente. Ela sabia que era ele, Irineu, quem a esquentava. Afinal, Irineu era ela e ela era Irineu.

fevereiro 28, 2011

Visões pioneiras

A chuva batia incessantemente nos vidros do carro em movimento. Por alguns segundos passei o tempo torcendo por algumas gotas para que elas ultrapassassem outras, mas logo meu passatempo enjoou. As árvores corriam do lado de fora, tentando fugir de mim.
Quando estava concentrada na música que tocava, Bernardo, dirigindo o carro, pegou minha mão e deu um carinhoso beijo. Ele entrelaçou seus quentes dedos nos meus e falou que faltava pouco. Soltei o cinto de segurança, avancei para o seu banco e beijei seu pescoço. Quando voltei ao meu lugar, continuei a me concentrar na música.
Lembrei quando me apaixonei. Geralmente eu me lembrava disso na presença de Bernardo. E acredito que mesmo se um dia não estivermos mais juntos, como neste momento, irei me lembrar.
Lembro-me perfeitamente daquele rapaz não tão alto, de cabelos louros muito curtos, de olhos claros, mãos grossas e pele seca almoçando na mesa ao meu lado. Ele parecia quase bruto ao mastigar, a delicadeza que eu imaginara encontrar no homem da minha vida parecia tão distante daquele modesto restaurante. Suas mandíbulas desesperadas me hipnotizaram. Curiosa, fixei meu olhar nele. Bebia minha água e dava pequenas garfadas em meu almoço justamente por estar absorta. Meu almoço, que durava no máximo vinte minutos, demorou muito mais.
Quando ele derramou um pouco de molho em sua camiseta verde, não pude me controlar e dei risada. Ele limpara a camiseta com o dedão, lambera-o e continuara a comer. Quando ouvira minha risada, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, mas continuou a comer. E talvez para manter meu olhar, ou por ser estabanado, ele derrubou molho, novamente, mas dessa vez por todo o garfo. Eu continuei olhando, e ele, simplesmente lambeu o garfo. A coisa mais espontânea que eu já vira.
À vontade para rir novamente, repeti meu feito. Ele me olhara e sorrira, agora diretamente. E ficou sério de repente.
"Eu sou o único que tenho a sensação que já a vi?", ele perguntou.
"Não, eu já me vi algumas vezes também", respondi sorrindo.
Ele estreitara os olhos, aproximara-se de mim e perguntou se podia se sentar comigo. Assenti.
"Como eu disse, tenho a sensação que já a vi antes", ele continuou.
Disse-lhe que provavelmente, era típico eu almoçar ali.
"Não, eu conheço você de antes. Você parecia mais nova", encorajei-o a continuar. "Onde você morava? Não era aqui, certo?".
E começamos a conversar. Descobrimos que ele morava a alguns metros da minha antiga casa, que nos encontrávamos ás vezes de noite quando ele passeava com seu cachorro. De algum modo nos encontramos mais uma vez.
Conversamos ali, naquela mesa, sobre tantas coisas que raramente conversei. Descobrimos gostos em comum e muitas coisas diferentes. Ele ria de um modo sincero, descontraído. Reclamava de coisas sem sentido para mim, mas que eu quase compreendia. Deixamos o tempo passar sem perceber.
Aquela foi a primeira vez que eu vi o homem que amei pela primeira vez. E posso dizer isso com todas as palavras.
Agora no carro, olho para Bernardo, tão carinhoso, tão certo e errado, consigo vê-lo por completo. Os cabelos e olhos escuros, as mãos e atitudes tão delicadas. Completamente o oposto daquele vinho seco que encontrei no restaurante naquele dia. Bernardo nunca seria como Vicenzo. Vicenzo nunca seria como Bernardo.
Por isso ali, olhando pela janela, soube que nunca mais veria o homem da minha vida. E também ali, olhando para o olhar meigo de Bernardo, eu soube que estava bem com isso.
E agora, pela primeira vez, vi o segundo homem que amei.

fevereiro 24, 2011

A gaucha

Amada,

Acabo de receber a notícia de seu casamento. Não irei mentir, então digo que não gostei - e disto você sabe muito bem. Sempre lhe disse que eu fui feito para casar com você, mesmo quando dizia que não acreditava. E eu sei que você acreditava, e é isto que me abala mais. Talvez daqui a alguns anos você olhe para o seu marido e se lembre de mim. Não, por Deus, não quero seu mal e muito menos o do seu marido. Mas espero eu estar errado e ver que nossa felicidade seria melhor separada. E quando esse dia chegar, eu pegarei aquele livro que você me deu só para ler que "Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara" e que "Sem uso, ela nos espia do aparador".
E não é mesmo verdade? Quando você me deu o livro, com toda a certeza não lera essa frase. Quem sabe ela mesma não teria mudado todo o nosso futuro?
Mas deixemos de falar sobre o futuro.
Você sabe muito bem que passara muito tempo desde que nos conhecemos, e você sempre fora a garota do contra. Hoje eu apostaria meu dinheiro em que esse seu tão delicioso defeito é o que de mau grado fez nos apaixonarmos.
Agora pergunto-me, esse sentimento foi só meu? Pois agora você vai se casar com outro. Amei sozinho. Se não, também não adianta mais querer saber a resposta. Agora você ama outro.
Você dizia que - acredite que não esqueci - se enquanto pudesse ir para o lado oposto de todos, faria-o. E você sempre o fez. As pessoas lhe davam nomes e você não se importava, julgava a si própria sem nunca julgar o outro. E é isso que me permite escrever isso aqui, neste papel: você não irá me julgar.
Abençoado ou maldito seja o dia em que nos encontramos. Você, tão linda, com seus olhos de poetisa, com suas mãos de árdua leitora, sentada sozinha lendo um livro. Sua roupa, seus sapatos, seu cabelo inigualável e sua voz de mulher adulta me conquistaram. Sua inocente resposta "Meu nome é Valentina".
Olhando agora, diria que tenho raiva de você. Tenho mais raiva do que aquele dia em que saímos e perdi meus sapatos. Lembra-se que tive que voltar a pé até sua casa? O primeiro dia em que fui a sua casa.
A mulher independente, fumante, torta e de cabelo e voz inigualáveis que morava sozinha.
A você toda inigualável.
E por isso posso concluir que você, tão gaucha, tão sábia, tão do contra, só pode ter escolhido um bom homem para se casar.
Enquanto isso, eu ficarei aqui, na mesma casa, no mesmo quarto, com o mesmo livro, pensando "E que mais, vida eterna, me planejas?".

De seu antigo amado,
de seu quase
Drummond.

fevereiro 07, 2011

Aqui ou lá

Sebastian tocou a campainha tantas vezes que era idiotice tentar contar. Parou somente depois que a luz externa foi acesa. Ele sabia que uma hora ou outra, alguém atenderia. Um barulho de sapatos de salto caminhando inundou seus ouvidos, e ele percebeu que não estava sozinho mais na rua deserta. Virando a esquina, uma mulher que voltava do trabalho entrava na rua. Somente quando a mulher passou por Sebastian que alguém surgiu pela porta da frente da casa.
- Oi, Francis.
A mulher que atendera a porta usava um roupão e chinelos.
- Desculpe, quem é?
Sebastian apareceu onde ela poderia vê-lo completamente, inundado pela luz que iluminava o portão.
- Sebastian? Que bigode é esse?
Ele riu, e perguntou envergonhado se poderia entrar.
- Claro, pode sim - a voz de Francis era de surpresa -, mas vai ter que esperar um pouco. Vou trocar de roupa.
Depois de quase cinco minutos, Francis apareceu com as chaves e os mesmos chinelos. Deixou que ele entrasse e cumprimentou-o com um singelo aperto de mão. Caminharam pelo minúsculo jardim até chegarem a porta de onde ela saíra. Sentaram-se no sofá da sala - onde ele nunca havia estado - e ela ofereceu algo para beber, o que ele recusou.
- Então a que devo esta visita a essa hora? - ela perguntou. - A não ser esse bigode. Bigode, Sebastian? Quem diria.
Sebastian sorria engraçado. Suas covinhas o deixavam com um rosto de criança.
- É, Francis, um bigode. Eu ainda estou me acostumando... - e ficou em silêncio, talvez esperando alguma reação dela ou a coragem de lhe falar.
- Não quero parecer uma péssima anfitriã, mas você sabe, Sebastian, é tarde, amanhã logo cedo eu trabalho, e sua visita me deixou intrigada.
Ele sorriu novamente, pôs as mãos sobre os joelhos e respirou fundo.
- Eu acho que é quase óbvio que eu tenha vindo aqui por causa da Branca, Francis. Eu vim aqui para visitá-la, mas pelo silêncio, ela não está.
Então ele girou os olhos pela sala e viu que cada objeto ali parecia ter o toque dela. Os fones de ouvido ao da televisão, um chapéu, que poucas vezes ele a vira usando, em cima na estante de livros.
- Ah, sim. Não está. Ela vai passar a noite fora.
- Mesmo? Que pena. Foi dormir na casa do pai? - ele perguntou, esperando que a resposta fosse sim.
Sebastian ficou em silêncio por alguns instantes e o peso da resposta contaminava o ar.
- Não. Pelo visto você não ficou sabendo. Ela encontrou um rapaz - ela respondeu.
Sem ação, Sebastian sentiu sua saliva virar grãos de areia e arranhar sua garganta. Abaixou a cabeça e entrelaçou os dedos no cabelo.
- Ela está namorando?
- Sim, há algum tempo já. Não sei como não ficou sabendo. Ela fez o favor de contar a todo mundo - e ela sorriu.
Sebastian coçou a nuca, a palma da mão e olhou derrotado para Francis.
- Francis, eu me apaixonei por ela.
Surpresa, como em nenhum outro momento da noite, ela exclamou:
- Por isso essa visita a essa hora? Esse bigode? - e não pôde conter o riso. - Eu sempre achei a ideia de bigode dela fogo de palha. Tanto é que o rapaz não tem bigode ou nada do resto que ela procura. Ele nem ao menos parece você.
Ele afundou o rosto nas mãos e sua respiração ficou pesada.
- Sebastian, ela precisava de uma nova chance. Ela sempre sofreu por você, e eu entendo que você não tenha a correspondido, porque o amor às vezes prega peças, mas, Sebastian, ela agora está bem. Feliz, sabe? Aliás, prefiro nem contar que você esteve aqui.
Ele se sentiu derrotado. Talvez exatamente como ela se sentira na época em que ainda insistia nele. O coração parecia uma centrífuga. Os braços e as pernas estava inanimados. Sebastian sabia que aquilo era o cérebro que causava, mas a dor era como a mostrada em livros: vem bem do fundo do peito.
- Ela pelo menos pergunta ou fala de mim? - o resto de esperança foi-se com a resposta.
- Não.
Conversaram mais alguns minutos até que o relógio cuco da sala anunciou que já era tarde demais. Ele decidiu ir e Francis sugeriu uma carona. Que ele recusou.
- Boa noite, Francis. Eu mandaria um beijo para ela, mas o outro já deve suprir tudo o que ela precisa - e sorriu aquele sorriso envergonhado de criança.
- Ah, Sebastian! Olhe só, se algo tiver que acontecer entre vocês dois, vai acontecer. Seja aqui ou do outro lado do mundo.
Francis sorriu, apertou a mão de Sebastian e pediu para ele se cuidar. Trancou o portão, esperou que ele virasse a esquina e voltou para a sala de estar. Respirou fundo, apagou as luzes externas, bebeu um copo de água e enquanto ia para seu quarto, parou na frente da porta entreaberta do quarto da filha. Viu que o abajour ficara aceso. Entrou no quarto sem os chinelos, apagou a luz e se inclinou na direção da cama.
Deu um suave beijo na testa da filha que dormia enrolada no cobertor e sussurrou boa noite.
Porque se tiver que acontecer, vai acontecer. Seja aqui ou do outro lado do mundo.

janeiro 26, 2011

Hierarquia

Meu pai entrou no quarto com um de meus livros na mão.
"Então o senhor estava com ele? E eu havia lhe perguntado!", e fui em sua direção. Quando saí da cama, o livro que lia caiu.
"Nem me atentei para o título. E eu esperava um pouco mais, sabia?", ele disse para meu desgosto.
"Ah, pai. Eu gostei tanto! E nem venha falar que eu pareço a minha mãe!", peguei o livro de sua mão e o que estava no chão para devolvê-los à prateleira.
"Você não parece sua mãe, sabe disso. Parece comigo. Isso de falar que parece com a mãe que foi embora é puro clichê!"
Nada disse. Deitei-me no chão, onde o sol ainda deixava suas marcas, rodeadas pelas grades da janela branca.
"Venha cá, levante", disse ele, estendendo sua mão de cinquenta e seis anos para a minha de dezenove.
"Vamos dançar", e ele me puxou.
Comecei a rir. No início foi tudo de brincadeira. Eu nunca soube dançar uma valsa, não dignamente como meu pai fazia. O ex-capitão de navio, acostumado com belas moças e boas músicas. Agora eu estava ali, como um espelho seu, mostrando os mesmos olhos escuros, cabelos escuros, teimosia e relutância. E então, a Miranda de dezenove anos surgia e pisava no pé dele.
"Eu sei que você é uma mulher grande, inteligente, orgulhosa, teimosa e linda, mas ainda sou seu pai, e preciso contar-lhe o que é a vida", ele disse e eu novamente pisei em seu pé. Quando vi que ele não se importava, encostei minha cabeça eu seu ombro, junto a seu cabelo curto que um dia fora tão escuro quanto o meu, esperando para aprender sobre como se dança e sobre a vida.
"Eu fui o príncipe encantado da sua mãe, mas antes que me corte no meio do assunto, dizendo que isso não existe, digo que sim. Miranda, o príncipe encantado não é aquele de filme, sem dúvida. Mas ele existe. Quando nós amamos mesmo uma pessoa, como amei sua mãe, aprendemos a amar até os defeitos irritantes - como o péssimo hábito de se achar superior a algumas pessoas. Enfim, ela também me amava - pelo menos naquela época - e eu fui o príncipe encantado dela. Fazia o que ela queria, mas a surpreendia, e ela a mesma coisa. O amor virou uma coisa idiota ultimamente, algo que todos dizem sem mesmo nem saber o significado, mas ainda é puro, importante.", ele respirou "E pare de pisar no meu pé."
Nada pude dizer, não entendi direito o que estava acontecendo.
"Por isso, se você realmente ama aquele rapaz..."
"Francisco", falei baixinho.
"Sim, bom, saiba que ele é o príncipe encantado que você esperou. O que você precisava.", ele parou de dançar e eu o abracei.
Não sei se ele sabia de minha longa história com Francisco, já que nunca citei seu nome, mas acredito que ele sentiu. Às vezes, os reis encantados descobrem quem são os príncipes secretos de suas princesas.
"Espero que ele saiba que você gosta tanto assim dele," disse meu pai quando me ouviu soluçar.
"Também espero", eu disse ao me separar dele.
Ele olhou pra minha lágrima e riu.
"Vocês princesas! Às vezes tão previsíveis!", ele virou as costas e se dirigiu ao seu quarto.
Parou a porta e se virou para mim, que já estava secando as lágrimas.
"Espero que ele saiba dançar tão bem quanto o rei", ele sorriu.
"Quanto o rei, Majestade? Isso eu não acredito", e isso eu defendi, com tudo o que meu pai me deixou.
Orgulho, teimosia e um belo castelo.

janeiro 05, 2011

O maquinista

Michèle tomou o trem aquela manhã com uma sensação diferente. Às vezes ela sentia um aperto em seu peito e acreditava que era uma espécie de mau pressentimento. Sua mãe quando jovem sentia o mesmo e repetia "algo vai acontecer, acredite", até descobrir que sofria de pressão alta.
O vagão vazio, a voz simpática do novo moço que diz "este trem tem como destino..." fazia com que Michèle imaginasse quais seriam suas feições. Talvez um homem alto, de camisa azul clara, cabelos penteados e barba mal feita - não, este seria o homem de seus sonhos.
Sentada com sua meia calça, sua camiseta-vestido preta e um batom magenta que chama a atenção de todos, Michèle tira um livro da bolsa para ler. Inquieta, seus olhos variam das linhas do romance de ficção e as luzes que atraíam sua atenção do lado de fora.
Quando abaixou os olhos pela terceira vez e releu o primeiro parágrafo da página 12, sentiu alguém sentar ao seu lado.
- Você sempre lendo, Michèle! - e mesmo sem olhar ela poderia ter certeza que Tomás sorria.
- Sempre lendo, sempre lendo - disse ela dando-lhe um beijo na face.
Fechou o livro e o guardou. A voz do maquinista disse algo sobre a estação a qual o trem parara, e que ficariam ali aguardando liberação.
Enquanto ouvia a voz do maquinista alto, de cabelos penteados para trás e uma camisa azul clara, Michèle viu que o homem por quem estava apaixonada, o homem sentado ao seu lado fazendo comentários sobre seus hábitos de leitura, não tinha nada a ver com o maquinista de bela voz.
- Poderíamos sair qualquer dia, não é? - ele disse ao sair do trem, levantando-se e a olhando nos olhos. - Eu te ligo, pode ser?
Ela o olhou enquanto Tomás tentava se equilibrar.
- Acho que você não tem meu número, mas eu ligo pra você, então. Seria ótimo se saíssemos - o sorriso foi acentuado pela cor do batom e ele, Tomás, o grande homem da vida de Michèle, viu que ela era diferente do que ele pensava.
Michèle o viu virando as costas quando o belo maquinista disse a sua estação, e o sorriso de tchau que ele dera ao sair.
Quando o trem voltara a andar, ela tapara o rosto com a mão e se segurou para não gritar. Sempre que pensava nele, segurava-se para não gritar enquanto tremia de insanidade, ou sanidade.
O alívio no peito veio junto com sua estação. Desceu para o trabalho, e depois quase esquecer o encontro, foi almoçar. Olhava para o telefone como se ele fosse ligar. Discava o número dele como se ela fosse ligar. Até que seu horário acabou e ela voltou para seu cargo, esquecendo-o novamente.
Na volta para casa, desceu uma estação antes para comprar algo para comer e pegou um táxi para casa. Tomou um banho, pensando no que teria amanhã no trabalho, comeu sentindo saudade da comida da mãe e se sentou no sofá para ler. Seus olhos variavam entre o segundo parágrafo da página 12 e o telefone. Resolveu ligar.
- Alô, Tomás?
Sua saudação foi longa e ele parecia feliz. Michèle passou seu número de telefone e ele dissera que agora sim poderia ligar.
- Posso ligar quando quiser? - perguntou ele.
- Só quando quiser.
Não conversaram sobre mais nada. Desligaram logo.
Michèle pensou que deveriam contratar o maquinista de bela voz para trabalhar com telefonemas. Voltou a ler, e conseguiu ler 43 páginas sem a intromissão do nome Tomás em sua cabeça. Até ir dormir.
Encostou a cabeça no travesseiro e lembrou do trem, do sorriso, das costas, do telefone e a imagem incólume de Tomás. Fechou ambas as mãos no rosto e começou a tremer, ali, deitada. Bloqueando um grito do nome dele.
Suas artérias explodiriam com tanta pressão, seu cérebro implodiria por tantos pensamentos insistentes e cairia desfalecida de amor se o telefone não tocasse.
- Alô?
- O seu saldo está abaixo de dois reais. Recarregue nos próximos dois dias e poderá participar de uma nova promoção. Disque *2883.
Michèle virou de lado e pensou que deveriam contratar o maquinista alto, de cabelo penteado para trás, barba por fazer e a camisa azul clara para trabalhar com telefones.