fevereiro 28, 2011

Visões pioneiras

A chuva batia incessantemente nos vidros do carro em movimento. Por alguns segundos passei o tempo torcendo por algumas gotas para que elas ultrapassassem outras, mas logo meu passatempo enjoou. As árvores corriam do lado de fora, tentando fugir de mim.
Quando estava concentrada na música que tocava, Bernardo, dirigindo o carro, pegou minha mão e deu um carinhoso beijo. Ele entrelaçou seus quentes dedos nos meus e falou que faltava pouco. Soltei o cinto de segurança, avancei para o seu banco e beijei seu pescoço. Quando voltei ao meu lugar, continuei a me concentrar na música.
Lembrei quando me apaixonei. Geralmente eu me lembrava disso na presença de Bernardo. E acredito que mesmo se um dia não estivermos mais juntos, como neste momento, irei me lembrar.
Lembro-me perfeitamente daquele rapaz não tão alto, de cabelos louros muito curtos, de olhos claros, mãos grossas e pele seca almoçando na mesa ao meu lado. Ele parecia quase bruto ao mastigar, a delicadeza que eu imaginara encontrar no homem da minha vida parecia tão distante daquele modesto restaurante. Suas mandíbulas desesperadas me hipnotizaram. Curiosa, fixei meu olhar nele. Bebia minha água e dava pequenas garfadas em meu almoço justamente por estar absorta. Meu almoço, que durava no máximo vinte minutos, demorou muito mais.
Quando ele derramou um pouco de molho em sua camiseta verde, não pude me controlar e dei risada. Ele limpara a camiseta com o dedão, lambera-o e continuara a comer. Quando ouvira minha risada, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, mas continuou a comer. E talvez para manter meu olhar, ou por ser estabanado, ele derrubou molho, novamente, mas dessa vez por todo o garfo. Eu continuei olhando, e ele, simplesmente lambeu o garfo. A coisa mais espontânea que eu já vira.
À vontade para rir novamente, repeti meu feito. Ele me olhara e sorrira, agora diretamente. E ficou sério de repente.
"Eu sou o único que tenho a sensação que já a vi?", ele perguntou.
"Não, eu já me vi algumas vezes também", respondi sorrindo.
Ele estreitara os olhos, aproximara-se de mim e perguntou se podia se sentar comigo. Assenti.
"Como eu disse, tenho a sensação que já a vi antes", ele continuou.
Disse-lhe que provavelmente, era típico eu almoçar ali.
"Não, eu conheço você de antes. Você parecia mais nova", encorajei-o a continuar. "Onde você morava? Não era aqui, certo?".
E começamos a conversar. Descobrimos que ele morava a alguns metros da minha antiga casa, que nos encontrávamos ás vezes de noite quando ele passeava com seu cachorro. De algum modo nos encontramos mais uma vez.
Conversamos ali, naquela mesa, sobre tantas coisas que raramente conversei. Descobrimos gostos em comum e muitas coisas diferentes. Ele ria de um modo sincero, descontraído. Reclamava de coisas sem sentido para mim, mas que eu quase compreendia. Deixamos o tempo passar sem perceber.
Aquela foi a primeira vez que eu vi o homem que amei pela primeira vez. E posso dizer isso com todas as palavras.
Agora no carro, olho para Bernardo, tão carinhoso, tão certo e errado, consigo vê-lo por completo. Os cabelos e olhos escuros, as mãos e atitudes tão delicadas. Completamente o oposto daquele vinho seco que encontrei no restaurante naquele dia. Bernardo nunca seria como Vicenzo. Vicenzo nunca seria como Bernardo.
Por isso ali, olhando pela janela, soube que nunca mais veria o homem da minha vida. E também ali, olhando para o olhar meigo de Bernardo, eu soube que estava bem com isso.
E agora, pela primeira vez, vi o segundo homem que amei.

fevereiro 24, 2011

A gaucha

Amada,

Acabo de receber a notícia de seu casamento. Não irei mentir, então digo que não gostei - e disto você sabe muito bem. Sempre lhe disse que eu fui feito para casar com você, mesmo quando dizia que não acreditava. E eu sei que você acreditava, e é isto que me abala mais. Talvez daqui a alguns anos você olhe para o seu marido e se lembre de mim. Não, por Deus, não quero seu mal e muito menos o do seu marido. Mas espero eu estar errado e ver que nossa felicidade seria melhor separada. E quando esse dia chegar, eu pegarei aquele livro que você me deu só para ler que "Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara" e que "Sem uso, ela nos espia do aparador".
E não é mesmo verdade? Quando você me deu o livro, com toda a certeza não lera essa frase. Quem sabe ela mesma não teria mudado todo o nosso futuro?
Mas deixemos de falar sobre o futuro.
Você sabe muito bem que passara muito tempo desde que nos conhecemos, e você sempre fora a garota do contra. Hoje eu apostaria meu dinheiro em que esse seu tão delicioso defeito é o que de mau grado fez nos apaixonarmos.
Agora pergunto-me, esse sentimento foi só meu? Pois agora você vai se casar com outro. Amei sozinho. Se não, também não adianta mais querer saber a resposta. Agora você ama outro.
Você dizia que - acredite que não esqueci - se enquanto pudesse ir para o lado oposto de todos, faria-o. E você sempre o fez. As pessoas lhe davam nomes e você não se importava, julgava a si própria sem nunca julgar o outro. E é isso que me permite escrever isso aqui, neste papel: você não irá me julgar.
Abençoado ou maldito seja o dia em que nos encontramos. Você, tão linda, com seus olhos de poetisa, com suas mãos de árdua leitora, sentada sozinha lendo um livro. Sua roupa, seus sapatos, seu cabelo inigualável e sua voz de mulher adulta me conquistaram. Sua inocente resposta "Meu nome é Valentina".
Olhando agora, diria que tenho raiva de você. Tenho mais raiva do que aquele dia em que saímos e perdi meus sapatos. Lembra-se que tive que voltar a pé até sua casa? O primeiro dia em que fui a sua casa.
A mulher independente, fumante, torta e de cabelo e voz inigualáveis que morava sozinha.
A você toda inigualável.
E por isso posso concluir que você, tão gaucha, tão sábia, tão do contra, só pode ter escolhido um bom homem para se casar.
Enquanto isso, eu ficarei aqui, na mesma casa, no mesmo quarto, com o mesmo livro, pensando "E que mais, vida eterna, me planejas?".

De seu antigo amado,
de seu quase
Drummond.

fevereiro 07, 2011

Aqui ou lá

Sebastian tocou a campainha tantas vezes que era idiotice tentar contar. Parou somente depois que a luz externa foi acesa. Ele sabia que uma hora ou outra, alguém atenderia. Um barulho de sapatos de salto caminhando inundou seus ouvidos, e ele percebeu que não estava sozinho mais na rua deserta. Virando a esquina, uma mulher que voltava do trabalho entrava na rua. Somente quando a mulher passou por Sebastian que alguém surgiu pela porta da frente da casa.
- Oi, Francis.
A mulher que atendera a porta usava um roupão e chinelos.
- Desculpe, quem é?
Sebastian apareceu onde ela poderia vê-lo completamente, inundado pela luz que iluminava o portão.
- Sebastian? Que bigode é esse?
Ele riu, e perguntou envergonhado se poderia entrar.
- Claro, pode sim - a voz de Francis era de surpresa -, mas vai ter que esperar um pouco. Vou trocar de roupa.
Depois de quase cinco minutos, Francis apareceu com as chaves e os mesmos chinelos. Deixou que ele entrasse e cumprimentou-o com um singelo aperto de mão. Caminharam pelo minúsculo jardim até chegarem a porta de onde ela saíra. Sentaram-se no sofá da sala - onde ele nunca havia estado - e ela ofereceu algo para beber, o que ele recusou.
- Então a que devo esta visita a essa hora? - ela perguntou. - A não ser esse bigode. Bigode, Sebastian? Quem diria.
Sebastian sorria engraçado. Suas covinhas o deixavam com um rosto de criança.
- É, Francis, um bigode. Eu ainda estou me acostumando... - e ficou em silêncio, talvez esperando alguma reação dela ou a coragem de lhe falar.
- Não quero parecer uma péssima anfitriã, mas você sabe, Sebastian, é tarde, amanhã logo cedo eu trabalho, e sua visita me deixou intrigada.
Ele sorriu novamente, pôs as mãos sobre os joelhos e respirou fundo.
- Eu acho que é quase óbvio que eu tenha vindo aqui por causa da Branca, Francis. Eu vim aqui para visitá-la, mas pelo silêncio, ela não está.
Então ele girou os olhos pela sala e viu que cada objeto ali parecia ter o toque dela. Os fones de ouvido ao da televisão, um chapéu, que poucas vezes ele a vira usando, em cima na estante de livros.
- Ah, sim. Não está. Ela vai passar a noite fora.
- Mesmo? Que pena. Foi dormir na casa do pai? - ele perguntou, esperando que a resposta fosse sim.
Sebastian ficou em silêncio por alguns instantes e o peso da resposta contaminava o ar.
- Não. Pelo visto você não ficou sabendo. Ela encontrou um rapaz - ela respondeu.
Sem ação, Sebastian sentiu sua saliva virar grãos de areia e arranhar sua garganta. Abaixou a cabeça e entrelaçou os dedos no cabelo.
- Ela está namorando?
- Sim, há algum tempo já. Não sei como não ficou sabendo. Ela fez o favor de contar a todo mundo - e ela sorriu.
Sebastian coçou a nuca, a palma da mão e olhou derrotado para Francis.
- Francis, eu me apaixonei por ela.
Surpresa, como em nenhum outro momento da noite, ela exclamou:
- Por isso essa visita a essa hora? Esse bigode? - e não pôde conter o riso. - Eu sempre achei a ideia de bigode dela fogo de palha. Tanto é que o rapaz não tem bigode ou nada do resto que ela procura. Ele nem ao menos parece você.
Ele afundou o rosto nas mãos e sua respiração ficou pesada.
- Sebastian, ela precisava de uma nova chance. Ela sempre sofreu por você, e eu entendo que você não tenha a correspondido, porque o amor às vezes prega peças, mas, Sebastian, ela agora está bem. Feliz, sabe? Aliás, prefiro nem contar que você esteve aqui.
Ele se sentiu derrotado. Talvez exatamente como ela se sentira na época em que ainda insistia nele. O coração parecia uma centrífuga. Os braços e as pernas estava inanimados. Sebastian sabia que aquilo era o cérebro que causava, mas a dor era como a mostrada em livros: vem bem do fundo do peito.
- Ela pelo menos pergunta ou fala de mim? - o resto de esperança foi-se com a resposta.
- Não.
Conversaram mais alguns minutos até que o relógio cuco da sala anunciou que já era tarde demais. Ele decidiu ir e Francis sugeriu uma carona. Que ele recusou.
- Boa noite, Francis. Eu mandaria um beijo para ela, mas o outro já deve suprir tudo o que ela precisa - e sorriu aquele sorriso envergonhado de criança.
- Ah, Sebastian! Olhe só, se algo tiver que acontecer entre vocês dois, vai acontecer. Seja aqui ou do outro lado do mundo.
Francis sorriu, apertou a mão de Sebastian e pediu para ele se cuidar. Trancou o portão, esperou que ele virasse a esquina e voltou para a sala de estar. Respirou fundo, apagou as luzes externas, bebeu um copo de água e enquanto ia para seu quarto, parou na frente da porta entreaberta do quarto da filha. Viu que o abajour ficara aceso. Entrou no quarto sem os chinelos, apagou a luz e se inclinou na direção da cama.
Deu um suave beijo na testa da filha que dormia enrolada no cobertor e sussurrou boa noite.
Porque se tiver que acontecer, vai acontecer. Seja aqui ou do outro lado do mundo.