O sol brilhava para aquela casa grande, com altas janelas e objetos de madeira. Naquele dia, Francisco poderia dizer que o grande gigante dourado tentava brilhar mais.
A janela da sala onde Francisco estava era suficientemente grande e o sol atravessava quase todo o cômodo - mas nem sequer tocava seu pé. Sentado ele ouvia enquanto Iolanda cantarolava uma música ao lavar a louça.
Seus pés doíam e sentiam que a noite não seria fácil. Talvez as cãibras voltassem e Iolanda insistisse que ele fosse ao médico. Estava cansado de médicos.
Passou a mão esquerda pelos finos cabelos, grisalhos e coçou sua barba - um pouco grande demais. Segundo seus filhos, no próximo Natal, o seu Francisco teria que se vestir de Papai Noel para os netos. No entanto, seu Francisco não gostava de enganar crianças e muito menos que o chamassem de "seu Francisco".
Iolanda, na cozinha, pensava em quanto a água estava fria ou sua pele sensível. Ela nunca se preocupou com a idade, mas sempre quando nova imaginou como seria essa transformação. Como seria ao se olhar no espelho e ver que ainda era ela, mas velha. Cantarolava enquanto os talheres tilintavam na pia.
Francisco pegou o livro na guarda da poltrona e continuou sua leitura.
Iolanda precisava lavar mais alguns copos e guardar tudo no armário.
Na sala de estar, o sol parecia chamar. Francisco olhava para o tapete, onde o sol formava grandes quadrados ao atravessar a janela e ouviu silêncio. Iolanda deveria ter ido ao quintal.
Como se jovem novamente, o senhor de setenta e nove anos se levantou, com passos silenciosos e sorrateiramente foi até o centro da sala, onde com muita dificuldade se agachou, sentou e deitou. Pôs os braços atrás da cabeça e em cima do tapete, o sol o iluminava completamente. Ele fechou os olhos e sorriu, sentindo o calor em sua face.
Ao ouvir novamente o canto de Iolanda, o sorriso aumentou. Ela desafinava algumas vezes, mas mesmo assim a música parecia perfeita para ela.
Na cozinha a mesa estava limpa, os copos guardados e aquele cheiro de cozinha aconchegante que poucas casas têm.
- Francisco, acho que vou para o quarto ler. Talvez eu pegue no sono.
Quando diz isso, Iolanda raramente ganha resposta e segue para o quarto. Mas naquele dia, aquele mesmo silêncio que há poucos Francisco ouvira, ela também podia ouvir.
- Francisco?
Ela entrou na sala e se deparou com aquele velho senhor deitado no tapete, de olhos fechados e sorrindo. Ele, tão absorto, não percebeu a presença dela.
- O que há, Francisco? Como conseguiu chegar até aí, homem? - e ela se aproximou.
Ele, sem abrir os olhos sorriu, como sempre fazia. E ela, mesmo depois de tantos anos casada, ainda sentia o coração dilacerar com aquela simples expressão.
- Venha cá, meu amor - disse ele ainda de olhos fechados.
A risada de Iolanda saiu abafada e ela disse que estava velha demais para deitar no chão. Isso era coisa de criança.
- Não, não é. Confie em mim - e ele estendeu a mão, para incentivá-la.
Ela parou ao lado dele, em pé, deu uma mão e se ajoelhou. Aos poucos, com menos dificuldade que ele, pôs-se deitada ao lado de Francisco, que virou a cabeça, abrindo os olhos - revelando-os tão azuis quanto em sua juventude - e um sorriso. Aquela pinta ao lado esquerdo da boca dele foi evidenciada com o sol.
- Agora que estamos aqui, quero ver como vamos nos levantar - disse Iolanda, ainda segurando a mão dele.
- Iolanda, eu estava aqui pensando - disse ele como sem nem houvesse prestado atenção o que ela dissera -, aconteceram tantas coisas que eu nunca contei a você e provavelmente coisas que você nunca me contou.
Iolanda estava com a cabeça deitada para o seu lado esquerdo, onde ela poderia ver seu marido de perfil. Ele de olhos fechados estava ainda sentindo o sol.
- Já estou velho demais para contar isso e você velha demais para me bater por isso. Há coisas que eu não me orgulho, meu amor, e eu acho que eu poderia compartilhar umas ou outras com você - ele se virou e olhou -, pelo menos era esse o combinado.
O sol já não era tão forte, e seu brilho foi escondido por uma grande nuvem.
- Eu já traí você, Iolanda. Mas eu nunca amei ninguém como você, porque não existe mais ninguém como você. Se existisse, eu juro que casaria com você e com ela - e então, fechou os olhos novamente, olhou para cima e sorriu. Agora, mais do que qualquer outra época de toda essa minha longa vida, eu sei que a amei todos os dias, todos os anos, todos os momentos. Poetas dizem que a gente ama até mesmo antes de conhecer.
A nuvem foi embora e o sol voltou. Iluminou os brancos fios de Iolanda, a pele branda, os cílios escassos.
- Eu não duvidaria nada - finalizou Francisco.
Ela se apoiou pelo cotovelo e o beijou. Depois de vencer o tempo era muito mais fácil entender o amor. Lutar contra alguns desconfortos já não era nada.
- E se esse gigante dourado aqui em cima - disse ele ao abrir os olhos - caísse agora em cima de nós, seria o fim mais feliz que qualquer poeta ousou escrever.
O sol brilhava para aquela casa grande, com altas janelas e objetos de madeira. Brilhava para Iolanda e Francisco.
E o amor brilhava para o sol.
maio 03, 2011
Perfeição
O barulho característico que o velho armário fazia ao ser aberto, os sons de talheres, potes, panelas, pratos. O som que o fogo faz ao ficar em contato com uma panela, começando a esquentar. A luz da lâmpada que acabara de ser trocada. Tudo isso me passava desapercebido.
"Acho que você já mexeu demais, Sofia", eu conseguira ouvir de repente.
Deixei a colher sobre a pia, a tampa cobrindo parcialmente a pequena panela, e fui lavar a louça. Um prato e um copo que usamos hoje de manhã. Duas colheres. A minha e a de Vico.
"Estou tão distraída hoje. Conte-me algo do seu dia para eu me concentrar, por favor", com minha voz tão mecânica que quase pude pressentir a próxima frase.
"Não gosto que...", ele começou.
"Pergunte por perguntar", não resisti e completei.
Ele fez uma careta de descontente, levantou-se da mesa e veio até atrás de minha na pia. Seu braço direito envolveu minha cintura ao me dizer baixinho para que eu parasse de lavar a louça.
"Mesmo que um de nós precise lavar toda essa 'pilha' de louça", Vico e seu tom irônico não me faziam rir naquele momento.
Virei-me de frente para ele, e quando ia abraçá-lo, vi que deixara o armário aberto. Desviei-me de seu braço e fui em direção ao armário.
"Sofia, o que há?", perguntou ele pela primeira vez.
Eu o olhei e respondi que não era nada. Sentei-me em cima do balcão e pedi para que ele cuidasse da panela. E que por favor, que ele me contasse como havia sido seu dia.
"Foi ótimo...", ele começou, mas eu já deixara de prestar atenção.
Eu olhava para ele. Fixamente. Pensava como eu conseguira um homem como ele, alguém que nenhuma outra iria encontrar. Ele era rude quando queria, mas mesmo assim, nos modo de falar pequenos detalhes tinha uma coisa importante para falar. E eram nesses momentos em que eu mais o amava.
Ali no balcão eu o observava falando, falando, mexendo o jantar e admirando a lua pela janela. Seus olhos verdes que olhavam para cima ao reclamar de alguma coisa. A mania de abandonar a tarefa e encostar-se na parede como se para invocar a concentração. Vico me mostrara que todas as paixões eternas de minha adolescência se transformasse em pó. Nenhum era como ele. Nada era como ele.
E eu ali, olhando-o enquanto os ponteiros do relógio davam voltas e eu continuava sem entender como nós, tão diferentes, fomos parar na mesma cozinha, na mesma casa, na mesma cama. Na mesma vida.
"Vico, o que você viu em mim, hein?", interrompi-o sem pensar.
"Que?", ele olhou surpreso, "Eu aqui contando o que aconteceu comigo e você, Sofi..." e interrompi-o novamente.
"O que você viu em mim?".
Ele pôs a mão direita no pescoço e coçou o cabelo de sua maneira característica. Desligou o fogo, e deu três passos até mim. Quando Vico pôs a mão em meu rosto, eu queria que o mundo acabasse ali. Eu não o merecia.
"Não sei", ele finalmente respondeu.
Eu comecei a chorar.
"O que foi, Sofia?".
"Olhe pra mim, olhe pra você. Tão singular, tão amável, tão perfeito e tão simples ao mesmo tempo! Seus olhos me desmontam só quando os passa ligeiros por mim, sua boca liberta todas as palavras de forma tão natural. Seu jeito é o jeito que eu sempre quis. E eu? O que tenho eu de mais?"
Vico parou, sentou no chão e ficou a me olhar de baixo. Esperando que eu continuasse.
"Ah, Vico. Olhe para mim, olhe para o meu rosto. Que graça eu tenho? Esse meu nariz estrag..." e ele pegou minha mão. Calei-me.
Sentado ali, eu podia ver sua tatuagem, seu cabelo, seu rosto lindo.
"Sofia, meu amor, olhe para mim".
Mas eu já o estava olhando.
"Enxergue-me, por favor", ele disse. "Querida, eu não tenho meu braço esquerdo. Seu nariz é lindo".
E eu o enxerguei, todo perfeito, todo Vico, todo meu, quando ele pôs o braço direito sobre o meu nariz. E me senti sendo virada de cabeça para baixo, como o brinquedo do parque de diversões que eu ia quando pequena. Meu estômago subia, meu coração descia, meus olhos fechavam e eu até tentava sorrir.
Eu curvei meu corpo sobre o dele, abracei-o tão forte, apertando seu pescoço, sentindo seu cheiro, e percebi que éramos perfeitos.
"Somos perfeitos", sussurrei.
Vico segurou meu queixo, beijou-me com todos os seus cem braços e começou a rir.
"Pensando bem, Sofia, seu nariz não é tão bom. Não está sentindo o cheiro de queimado?".
Ele tentou se levantar, mas eu o impedi.
Ficamos ali abraçados, envoltos em seu cheiro, meu cheiro, na fumaça e na perfeição.
"Acho que você já mexeu demais, Sofia", eu conseguira ouvir de repente.
Deixei a colher sobre a pia, a tampa cobrindo parcialmente a pequena panela, e fui lavar a louça. Um prato e um copo que usamos hoje de manhã. Duas colheres. A minha e a de Vico.
"Estou tão distraída hoje. Conte-me algo do seu dia para eu me concentrar, por favor", com minha voz tão mecânica que quase pude pressentir a próxima frase.
"Não gosto que...", ele começou.
"Pergunte por perguntar", não resisti e completei.
Ele fez uma careta de descontente, levantou-se da mesa e veio até atrás de minha na pia. Seu braço direito envolveu minha cintura ao me dizer baixinho para que eu parasse de lavar a louça.
"Mesmo que um de nós precise lavar toda essa 'pilha' de louça", Vico e seu tom irônico não me faziam rir naquele momento.
Virei-me de frente para ele, e quando ia abraçá-lo, vi que deixara o armário aberto. Desviei-me de seu braço e fui em direção ao armário.
"Sofia, o que há?", perguntou ele pela primeira vez.
Eu o olhei e respondi que não era nada. Sentei-me em cima do balcão e pedi para que ele cuidasse da panela. E que por favor, que ele me contasse como havia sido seu dia.
"Foi ótimo...", ele começou, mas eu já deixara de prestar atenção.
Eu olhava para ele. Fixamente. Pensava como eu conseguira um homem como ele, alguém que nenhuma outra iria encontrar. Ele era rude quando queria, mas mesmo assim, nos modo de falar pequenos detalhes tinha uma coisa importante para falar. E eram nesses momentos em que eu mais o amava.
Ali no balcão eu o observava falando, falando, mexendo o jantar e admirando a lua pela janela. Seus olhos verdes que olhavam para cima ao reclamar de alguma coisa. A mania de abandonar a tarefa e encostar-se na parede como se para invocar a concentração. Vico me mostrara que todas as paixões eternas de minha adolescência se transformasse em pó. Nenhum era como ele. Nada era como ele.
E eu ali, olhando-o enquanto os ponteiros do relógio davam voltas e eu continuava sem entender como nós, tão diferentes, fomos parar na mesma cozinha, na mesma casa, na mesma cama. Na mesma vida.
"Vico, o que você viu em mim, hein?", interrompi-o sem pensar.
"Que?", ele olhou surpreso, "Eu aqui contando o que aconteceu comigo e você, Sofi..." e interrompi-o novamente.
"O que você viu em mim?".
Ele pôs a mão direita no pescoço e coçou o cabelo de sua maneira característica. Desligou o fogo, e deu três passos até mim. Quando Vico pôs a mão em meu rosto, eu queria que o mundo acabasse ali. Eu não o merecia.
"Não sei", ele finalmente respondeu.
Eu comecei a chorar.
"O que foi, Sofia?".
"Olhe pra mim, olhe pra você. Tão singular, tão amável, tão perfeito e tão simples ao mesmo tempo! Seus olhos me desmontam só quando os passa ligeiros por mim, sua boca liberta todas as palavras de forma tão natural. Seu jeito é o jeito que eu sempre quis. E eu? O que tenho eu de mais?"
Vico parou, sentou no chão e ficou a me olhar de baixo. Esperando que eu continuasse.
"Ah, Vico. Olhe para mim, olhe para o meu rosto. Que graça eu tenho? Esse meu nariz estrag..." e ele pegou minha mão. Calei-me.
Sentado ali, eu podia ver sua tatuagem, seu cabelo, seu rosto lindo.
"Sofia, meu amor, olhe para mim".
Mas eu já o estava olhando.
"Enxergue-me, por favor", ele disse. "Querida, eu não tenho meu braço esquerdo. Seu nariz é lindo".
E eu o enxerguei, todo perfeito, todo Vico, todo meu, quando ele pôs o braço direito sobre o meu nariz. E me senti sendo virada de cabeça para baixo, como o brinquedo do parque de diversões que eu ia quando pequena. Meu estômago subia, meu coração descia, meus olhos fechavam e eu até tentava sorrir.
Eu curvei meu corpo sobre o dele, abracei-o tão forte, apertando seu pescoço, sentindo seu cheiro, e percebi que éramos perfeitos.
"Somos perfeitos", sussurrei.
Vico segurou meu queixo, beijou-me com todos os seus cem braços e começou a rir.
"Pensando bem, Sofia, seu nariz não é tão bom. Não está sentindo o cheiro de queimado?".
Ele tentou se levantar, mas eu o impedi.
Ficamos ali abraçados, envoltos em seu cheiro, meu cheiro, na fumaça e na perfeição.
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