setembro 18, 2010

Todas as consequências

Do outro lado do vidro da sacada era possível enxergar a figura de longos cabelos sentada na poltrona estampada admirando o nascer do sol através do prédios. O rapaz viera de seu quarto caminhando vagarosamente, descalço, sem fazer barulho. A figura na poltrona não percebera quando ele abriu a porta de vidro e se sentou no chão encostado na parede.
- Bom dia - ele disse. Sua voz era grave, serena.
Ela o olhou espantada e arrumou o camiseta branca o suficiente para cobrir as pernas.
- Você gosta de café? Eu acabei fazendo um pouco para mim e sobrou - ele estava envergonhado, assim como ela.
- Claro - ela respondeu com um sorriso tímido. Ele não havia reparado em sua voz estridente.
Ele se levantou e foi até a cozinha. Ela não se mexeu. Quando ele voltou, entregou a ela uma caneca branca cheia de café e se encostou no muro da sacada. Ele se virou de costas para ela e ficou olhando para os prédios, perdido. Ela ficara o olhando por todos aqueles poucos minutos.
- Obrigada pelo café e por me trazer para cá, mas já tenho que ir - ela disse se levantando.
- Ah, tudo bem. Eu daria uma carona, mas você destruiu meu carro - ele tinha um modo engraçado de sorrir.
Ele enrubesceu.
Quando voltaram para dentro do apartamento, ela pôde ver o quão organizado ele era e que sua aparência era melhor do que as fotos que estavam no aparador demonstravam. Ela olhou para a camiseta branca.
- Vou arrumar um jeito de devolver-lhe a camiseta. É que, bom, eu não ficaria perambulando pelo sua casa do jeito que eu vim ao mundo. Não seria a coisa mais bonita de se ver - ela disse indo na direção da porta.
- Você é muito nova. Se fizesse isso, não seria a beleza que me preocuparia, mas a polícia na minha porta.
As bochechas dela ficaram vermelhas.
- Eu não sei como ir para casa. Destruí o meu carro, o seu carro, meu irmão não pode nem sonhar que eu estou aqui e não posso pegar um ônibus quase nua - ela finalmente falara mais a vontade.
Ele a olhou, pegou a xícara da mão dela e levou para a cozinha.
A torneira da cozinha fazia um barulho típico e ela foi até onde ele poderia vê-la para agradecer novamente e dizer que estava de saída.
- Espere - disse ele -, qual seu nome?
- Penélope.
- Bom, Penélope. Por que não fica aqui? Você não está realmente nua, a polícia não entrará aqui e depois eu converso com seu irmão.
Penélope parara e observara o que aquilo poderia acarretar: um amor não correspondido, um beijo roubado, o amor verdadeiro ou somente sofrimento. Ele era diferente, aquilo que estava acontecendo era diferente. Suas bochechas não ficaram rosadas quando ela contornou o balcão da cozinha, pegou o pano de prato pendurado em um puxador e secou a caneca de café.
- Não sei por que, mas eu acho que devo ficar. Nem que seja por enquanto.
Ele parara e observara o que aquilo poderia acarretar: filhos, viagens, flores.
- Que bom. Acho que tenho muita louça para lavar.