- Sr. Lionel.
Ela se levantou. Estava com a jaqueta de couro que gostava, uma camiseta branca por baixo, o jeans preto agora acinzentado e seu tênis habitual. Seus cabelos lisos e louros estavam presos em um coque improvisado. Aqueles pequenos fios de cabelo crescendo estavam arrepiados, atenuando sua expressão cansada.
- É "Senhorita", por favor.
- Oh, desculpe. - Ele inclinou os braços indicando a porta - Pode entrar.
O consultório era grande e impessoal. As cores das paredes eram brancas, a mesa estava organizada, as cadeiras eram confortáveis e a poltrona era da mesma cor e material que a jaqueta de Lionel. Nada de plantas, nada de fotos de família, somente uma longa estante para livros.
- Bom, o que traz você... Posso chamá-la de você, não é?
- Sim.
- O que traz você aqui, senhorita Lionel?
- Meu coração.
Ele coçou a cabeça e mexeu na pequena placa dourada que estava cima da mesa. Quando a luz da janela parou de refletir, Lionel viu que estava escrito "Cardiologia" e se irritou com a sutileza.
- O que há com seu coração?
- Doutor, eu posso fumar aqui?
- Não.
- Por quê?
- Porque não. Senhorita Lionel, o que a traz aqui?
- Meu coração, já disse.
Pela janela viam-se pequeninos homens trabalhando içados por cordas em outros prédios. Usavam capacetes e uma madeira que incansavelmente passavam pelos vidros. Atenta nessa imagem, Lionel puxou um cigarro e o acendeu.
- Doutor, meu coração dói.
- Por favor, pode não fumar aqui dentro?
Ela se esticou da cadeira, pôs as mãos em um pote em cima da mesa e achou um único cigarro. Entregou-o ao doutor.
- Vamos, me acompanhe.
- Senhorita...
- Vamos! - interrompeu-o.
Ele pegou o cigarro e o acendeu.
- Ótimo. Como eu ia dizendo, meu coração dói.
- Então vou encaminhar você para fazer alguns exames; - pegou uma folha e uma caneta - são três e você terá que voltar aqui daqui há uns doi...
- Mas já, doutor? Eu não lhe disse o que sinto.
Ele levantou os olhos.
- Pode me dizer, senhorita Lionel?
- Ótimo. Eu não sei.
- Faremos os exames então.
- Caramba, que coisa banal! - Ela apagou o cigarro na mesa de madeira dele. - Eu vim aqui porque meu coração está se sentindo mal. Ele guarda rancor de uma pessoa, ódio.
Ele empurrou um pouco a cadeira de couro em que sentava e pensava em como tirar aquela louca de sua sala.
- Senhorita Lionel, eu não sou psicólogo.
- Eu sei, doutor, mas escute, eu tenho dezessete anos. Fui criada pelo meu pai, mas agora moro sozinha. Saí do colégio e não pretendo fazer uma faculdade. Agora eu fumo como uma condenada.
- Senhorit...
Ela atravessou a mesa, inclinou-se para o homem grisalho na cadeira e disse baixo em seu ouvido:
- O senhor se lembra de um paciente chamado Dionísio?
- Sim - disse ele espantado com o clímax da cena.
Lionel pôs as mãos na cadeira e a girou para que estivessem face à face.
- O que houve com ele?
Silêncio.
- O que houve com ele, doutor?
- Infelizmente... Ele não sobreviveu à cirurgia de... Transplante de coração.
- Infelizmente... Ele era meu pai. - Ela bateu com os punhos cerrados na mesa. - Agora eu estou sozinha, fumando e perdida.
Ele se calou.
- Você ao menos sente muito? Bom, duvido. Olhe em volta. Você tem tudo o que precisa aqui.
Silêncio.
- Oh, não. Vejo que falta uma família. Seu coração deve doer, não é? - Ele assentiu - Acho que nós dois não somos muito diferentes um do outro. Que tal... - ela retirou uma mecha de cabelo da frente do olho - Que tal o senhor procurar um cardiologista?
Silêncio.
Lionel saiu sem olhar para trás. Seus tênis quase não faziam barulho. O doutor continuou sentado, com o rosto inanimado.
- Doutor?! - Disse a secretária batendo na porta. - Posso chamar o próximo paciente?
Ele somente assentiu com a cabeça. Parecia fraco.
- Com licença, doutor.
Ajeitando-se na cadeira, pegou a ficha do próximo paciente.
- Senhor Bernardo, - respirou fundo - o que o traz aqui hoje?
Bernardo tinha cabelos louros, usava uma jaqueta de couro e reservava um maço de cigarros no bolso.
- Meu coração. Ele dói.