setembro 08, 2010

Transição

A rua estava silenciosa e o barulho do carro não tão antigo contornando a esquina se destacou. Ela ainda estava em seu apartamento, mas ao contrário da imagem que tentara passar, já vestia a roupa escolhida e usava a mínima maquiagem de sempre. Ouviu o barulho da inconfundível buzina três andares abaixo e se debruçou na janela. Acenou em direção ao carro de Alonzo. Olhou-se uma última vez no espelho e bagunçou novamente os cabelos louros compridos.
Desceu de elevador assoviando, de costas para o espelho. Não era mais necessário. Chegou ao térreo, sorriu para o porteiro e abriu o portão preto.
- Você! - disse Alonzo de dentro do carro, iluminando seu rosto com o tão único sorriso.
- Você! - ela repetiu, sorrindo também. Entrou no carro e cumprimentou-o com um habitual encontro de bochechas, que alguns chamam de beijo.
Alonzo deu a partida e alguns minutos depois entraram no trânsito da noite.
- Sabe o que eu estava me lembrando? - ele perguntou se virando para ela.
- Não faço ideia - ela estava com o braço encostado na janela aberta, e virou a cabeça para olhá-lo.
- Quando nos falamos eu lembrei do dia em que teve aquela reunião na sua casa - ele comentou -, em que eu cheguei atrasado, estava de carro. E então você veio abrir o portão da sua casa.
Ela o olhou, atônita.
- Você gostava de mim? Não que isso mude algo hoje, mas eu sempre quis saber - a voz dela não estava tão nervosa quanto imaginara.
Ele pensou por alguns segundos e o carro se encheu de sons da cidade.
- Não sei - Alonzo disse com a sinceridade estampada na voz -, mas talvez minha história faça você me ajudar a identificar se gostava ou não. Como eu ia dizendo - ele sorrira o mesmo sorriso que ela tanto gostava -, eu entrei e você me deu um beijo no rosto, toda envergonhada.
"Nós entramos, a reunião foi rápida e você mostrou o papai noel que dançava que sua mãe tinha comprado. Nós falamos um pouco sobre bandas, se não me engano. Bom, e eu disse que ia embora, já que todos estavam comendo o bolo que estava na cozinha e nós dois não estávamos fazendo nada - ele piscou. E você foi abrir o portão, mas eu pedi para ir no carro comigo. Você entrou e - Alonzo começou a rir.
Ela o olhou, e desde que ele começara a história ela não queria nem piscar, não queria perder sequer um segundo daquele momento.
- Eu entrei no carro, e você me perguntou que estação rádio eu gostava de escutar. Eu disse a primeira que me veio à cabeça e você disse que aquela era ruim. Eu lembro que você colocou na que achava melhor. Mas saiba que eu nunca fui muito fã de rádio, sem contar que eu estava nervosa por estar dentro do carro com você - ela quase o completou. As bochechas de Alonzo enrubesceram e ele sorriu.
- Isso mesmo. E então você foi se despedir, porque estava frio ou algo assim e se debruçou para me dar um beijo no rosto. E eu virei o rosto para a janela dizendo que não - ele repetiu o movimento -, e por incrível que pareça, você concordou, brava, e bateu a porta do carro. Eu abaixei o vidro e pedi para você se despedir direito.
"Você brava virou as costas, mas não se negou. Invadiu o carro pela janela e quase caiu em mim para somente um beijo. Na hora em que olhei você voltando para o portão, pensei em como era difícil, você com doze anos, eu com dezessete. Tudo era difícil.
Ela se calou e ele também. Alonzo ligou o rádio do carro na rádio que ele julgara ruim e ambos riram.
Chegaram ao lugar combinado e resolveram sentar no bar. O salão estava repleto de gente, mas era possível escutar um ao outro facilmente. Pediram suas bebidas e voltaram a conversar. Ele tomou partido, como antes.
- Então, antes havia essa grande diferença - ele gesticulava -, mas agora eu tenho vinte e cinco, você tem vinte. Eu acho você incrível e talvez eu até tenha esperado você crescer. E agora, nós temos uma nova chance. É como se você tivesse com doze anos novamente, mas não houvesse problemas em ficarmos juntos.
Ela o olhou, sorriu e deixou seu copo no balcão. Pousou sua delicada mão no rosto de Alonzo e foi aproximando-se lentamente de sua face. Ele fechou os olhos. Aquele era o momento pelo qual a menina de doze anos tanto esperara e o homem de vinte e cinco também ansiava.
- Alonzo - ela desviou da boca dele e seguiu para cochichar em seu ouvido -, eu não tenho doze anos.
Ela sorriu e bebeu mais um gole do copo que estava no balcão. Virou-se e saiu.
Ela deixara de ser uma garota de doze anos, agora era uma mulher de vinte.