Hoje assisti o filme que tanto queria, Control.
É um filme muito bom e, se a história de Ian Curtis foi exatamente como retratada, merece lágrimas quentes. Ao menos, eu derramei lágrimas quentes.
Eu realmente me senti dentro do filme e comecei a ver Ian Curtis não como aquele rapaz de olhos azuis, mas sim Sam Riley. É uma história tão inacreditável que só caberia em um filme. Pois Ian era ótimo e sua vida tinha que ser algo esplendido.
Pensei muito sobre tudo isso. Como nós podemos perder o controle com facilidade. Como tudo pode desmoronar.
Ele começou muito cedo. Remédios, cigarros e a vida. Casou-se cedo com a mulher que amava na época e teve uma filha. Fez shows, fama, e Annik.
Bem, volto àquilo: se o filme for exatamente como a verdade, acho que ele amava Annik. Mas não sei se era um amor passageiro como foi com sua esposa. Debbie realmente o amava e ele sabia disso; em momento nenhum do filme (ou vida) quis perdê-la. Tudo tão sem controle e um fim tão trágico.
Não, ele não merecia.
Mas o fez.
Ian Curtis merece lágrimas quentes.
Perda de controle também.
Then love,
love will tear us apart,
Again.
agosto 30, 2009
agosto 17, 2009
Quando a Irracionalidade é Racional
A racionalidade gera controvérsias além de si própria. Em um pólo há o grupo de pessoas que tem a convicção, a certeza de que o Ser Racional é insensível, um não-sentimental. Eu e um outro grupo de pessoas achamos que a vida é movida pela racionalidade. Gosto de dizer que grande parte de mim ama ser racional. Um número elevado de pessoas racionais também gosta. E gostam de pensar no futuro, como eu.
Têm as pessoas que não gostam de pensar no futuro e eu as admiro. São pessoas que gostam de viver o momento. Gostam de ser irracionais.
Mas até que ponto a irracionalidade é irracional?
Antes de tudo:
racional
ra.ci.o.nal
adj m+f (lat rationale) 1 Que tem a faculdade de raciocinar. 2 Que só se concebe pela razão. 3 Conforme à razão; razoável, lógico. 4 De fácil apreensão pela inteligência. 5 Conforme ao raciocínio ou fundado sobre este (opõe-se a empírico). sm 1 O ser pensante; o homem (por oposição a irracional). 2 Aquilo que é de razão.
A razão também representa sentimentos e satisfações. Dependendo desse, ela se torna irracional para ser racional.
Um exemplo (caso hipotético que ao fim se transforma em meu próprio caso):
Uma moça racional descobre o que está acima. Descobre vendo vídeos de músicas. O primeiro vídeo despertou uma louca vontade de pular de pára-quedas; - O ato de "pular de pára-quedas" é feito de modo irracional - ao ser racional, ela perceberia as probabilidades de acidentes, os medos que se formariam e os obstáculos. Sem pensar ela pode pular. Sem medo, sem obstáculos e sem pensar. Ser racional a partir dessa primeira ação é ver que sem pensar ela pode vencer barreiras e expandir a razão sobre o assunto. Logo, é irracional ser racional. O segundo vídeo é de uma mulher de cabelos muito curtos. Ao vê-la, a moça quer também se libertar de seus cabelos já não-muito-longos. Sem pensar ela pegaria uma tesoura e o cortaria. Pensando ela descobre que seu cabelo tem dificuldade de crescer e que não tem um estilo muito apropriado para tais cortes. Mas afinal, ela teria de ser irracional e arriscar para expandir sua racionalidade.
Tento pensar em outros muitos casos, mas são poucos. A razão é sempre maior e ela se fortalece com pequeninos casos irracionais.
Não: o que eu penso é diverso.
Têm as pessoas que não gostam de pensar no futuro e eu as admiro. São pessoas que gostam de viver o momento. Gostam de ser irracionais.
Mas até que ponto a irracionalidade é irracional?
Antes de tudo:
racional
ra.ci.o.nal
adj m+f (lat rationale) 1 Que tem a faculdade de raciocinar. 2 Que só se concebe pela razão. 3 Conforme à razão; razoável, lógico. 4 De fácil apreensão pela inteligência. 5 Conforme ao raciocínio ou fundado sobre este (opõe-se a empírico). sm 1 O ser pensante; o homem (por oposição a irracional). 2 Aquilo que é de razão.
A razão também representa sentimentos e satisfações. Dependendo desse, ela se torna irracional para ser racional.
Um exemplo (caso hipotético que ao fim se transforma em meu próprio caso):
Uma moça racional descobre o que está acima. Descobre vendo vídeos de músicas. O primeiro vídeo despertou uma louca vontade de pular de pára-quedas; - O ato de "pular de pára-quedas" é feito de modo irracional - ao ser racional, ela perceberia as probabilidades de acidentes, os medos que se formariam e os obstáculos. Sem pensar ela pode pular. Sem medo, sem obstáculos e sem pensar. Ser racional a partir dessa primeira ação é ver que sem pensar ela pode vencer barreiras e expandir a razão sobre o assunto. Logo, é irracional ser racional. O segundo vídeo é de uma mulher de cabelos muito curtos. Ao vê-la, a moça quer também se libertar de seus cabelos já não-muito-longos. Sem pensar ela pegaria uma tesoura e o cortaria. Pensando ela descobre que seu cabelo tem dificuldade de crescer e que não tem um estilo muito apropriado para tais cortes. Mas afinal, ela teria de ser irracional e arriscar para expandir sua racionalidade.
Tento pensar em outros muitos casos, mas são poucos. A razão é sempre maior e ela se fortalece com pequeninos casos irracionais.
Não: o que eu penso é diverso.
agosto 07, 2009
Ismália
- Alphonsus Guimarães
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar.
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar.
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar.
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar.
Estava perto do céu,
Estava longe do mar.
E como um anjo pendeu
As asas para voar.
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par.
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar.
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar.
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar.
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar.
Estava perto do céu,
Estava longe do mar.
E como um anjo pendeu
As asas para voar.
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par.
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
agosto 06, 2009
O simples ato de complicar
Nós temos um tempo de vida, nós temos uma só vida. Isso é simples.
Nós temos pessoas importantes nessa vida. Isso é simples.
Nós não temos de pensar. Isso também é simples.
Mas o ser humano tem algo dentro dele que vai contra essa palavra. Isso é complicado.
A vida é cercada de simplicidade, o que faz o homo sapiens sapiens sempre complicá-la. Discussões sem motivo realmente significativo, separações eternas, brigas, acidentes, mortes e um entra-e-sai infinito de pessoas. Tudo porque as pessoas têm o prazer de complicar. Têm que sentir o gosto da briga, o gosto do ódio.
Não, não digo que todos deveriam sempre concordar, sempre amigos, sempre sem brigas. Isso também não existe. As simples posições sobre as brigas, acidentes e tudo citado acima, são os motivos.
Vou dar um exemplo. Desta vez não será um caso hipotético:
Ontem minha vizinha foi assaltada quando chegava em casa com sua filha. Enquanto a menina desceu para abrir o portão da garagem, um homem armado apareceu, entrou no carro e disparou em alta velocidade. A vida ultimamente é cheia de violência e esses assaltos (tanto físico-materiais quanto psicológicos). É simples roubar um carro. O que chamou atenção na rua para o roubo foram os gritos da filha. Ela gritava "Mãe, ah, mãe". Saí correndo de casa e soube que o ladrão tinha levado o carro, com a mãe dentro. Repito, é simples roubar um carro. É simples, pois o assalto psicológico não é tão grande. Mas como o ser humano adora complicar, ele tinha que levar a mulher acompanhada. Para desesperá-la, desesperar a família, para sentir o gosto da complicação. Pouco tempo depois ficamos sabendo que a mulher já tinha sido solta. Estava bem e voltou rápido para casa. Graças à Deus não fez nada com ela. Mas e agora, por que a levou? Ela ficou muito abatida e isso não era necessário. Seria melhor ter levado só o carro, afinal, bens materiais nada querem dizer. Seria melhor ter sido simples.
Os pais de um adolescente, que discutem por coisas bobas e se separam gostam de complicar. Amigos que discordam de coisas pequenas gostam de complicar. Pessoas diferentes não se aturam porque gostam de complicar.
Talvez eu saiba porque todos gostam de complicar. É mais fácil arrumar brigas do que tentar não iniciá-las.
As pessoas têm que aprender e apreender o que a vida tem de simples a oferecer.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Nós temos pessoas importantes nessa vida. Isso é simples.
Nós não temos de pensar. Isso também é simples.
Mas o ser humano tem algo dentro dele que vai contra essa palavra. Isso é complicado.
A vida é cercada de simplicidade, o que faz o homo sapiens sapiens sempre complicá-la. Discussões sem motivo realmente significativo, separações eternas, brigas, acidentes, mortes e um entra-e-sai infinito de pessoas. Tudo porque as pessoas têm o prazer de complicar. Têm que sentir o gosto da briga, o gosto do ódio.
Não, não digo que todos deveriam sempre concordar, sempre amigos, sempre sem brigas. Isso também não existe. As simples posições sobre as brigas, acidentes e tudo citado acima, são os motivos.
Vou dar um exemplo. Desta vez não será um caso hipotético:
Ontem minha vizinha foi assaltada quando chegava em casa com sua filha. Enquanto a menina desceu para abrir o portão da garagem, um homem armado apareceu, entrou no carro e disparou em alta velocidade. A vida ultimamente é cheia de violência e esses assaltos (tanto físico-materiais quanto psicológicos). É simples roubar um carro. O que chamou atenção na rua para o roubo foram os gritos da filha. Ela gritava "Mãe, ah, mãe". Saí correndo de casa e soube que o ladrão tinha levado o carro, com a mãe dentro. Repito, é simples roubar um carro. É simples, pois o assalto psicológico não é tão grande. Mas como o ser humano adora complicar, ele tinha que levar a mulher acompanhada. Para desesperá-la, desesperar a família, para sentir o gosto da complicação. Pouco tempo depois ficamos sabendo que a mulher já tinha sido solta. Estava bem e voltou rápido para casa. Graças à Deus não fez nada com ela. Mas e agora, por que a levou? Ela ficou muito abatida e isso não era necessário. Seria melhor ter levado só o carro, afinal, bens materiais nada querem dizer. Seria melhor ter sido simples.
Os pais de um adolescente, que discutem por coisas bobas e se separam gostam de complicar. Amigos que discordam de coisas pequenas gostam de complicar. Pessoas diferentes não se aturam porque gostam de complicar.
Talvez eu saiba porque todos gostam de complicar. É mais fácil arrumar brigas do que tentar não iniciá-las.
As pessoas têm que aprender e apreender o que a vida tem de simples a oferecer.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
agosto 03, 2009
Há metafísica bastante em não pensar em nada
- Fernando Pessoa
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
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