"Meu nome é Benjamin e eu odeio esse nome. Apesar de seu significado compelir exatamente a mim. Imagino que se minha mãe tivesse escolhido Leon - como no filme do assassino -, a vida seria mais fácil.
São poucas pessoas no mundo que realmente acreditam que o nome altera a personalidade e eu estou fora dessa lista, sou descrente em qualquer matéria. Contudo, odeio meu nome, parece que Leon seria um nome muito mais tragável.
A palavra "tragável" desperta em mim uma vontade louca de fumar. Mas não sou fumante. É como quando os adolescentes sentem vontade de beber a latinha de cerveja na geladeira ou o conhaque no alto do armário escondido, mas não o fazem por medo do papai ou da mamãe descobrirem e proibirem-los de sair para a festinha do amigo mais velho. A diferença é que minha mãe morreu há anos e meu pai se casou novamente, sem me explicar que fumar não fazia bem. Então não fumo por quê?
Minha vida é tão inerte que por um acaso, esse deva ser o motivo. É indiferente se eu fumar, ter câncer no pulmão e morrer por consequência disso ou de um atropelamento. No entanto, se eu levantar dessa poltrona agora para comprar cigarros, há a possibilidade de eu ser morto atropelado. Mas isso também não é lá grande coisa.
Não gosto de pensar em cigarros. Eu gosto de pensar. Adoro divagar sobre o amor. Às vezes penso que ele é mágico, imutável, eterno quando verdadeiro. De resto, não é amor. Aquilo que agora chamam de amor é inerte, intragável, hipócrita. O amor é complexo, sincero, difícil, puro. Não encontrei ninguém para viver meu amor porque li tantos livros sobre Platão que ele me convenceu que para o amor ser verdadeiro, tem que ser inalcançável.
Qualquer um que ler isto entenderá que sou um pessimista sem esperanças. Não sou. Somente odeio meu nome, não fumo, e amo Serena. Adoro falar esse nome. Serena é um nome que se encaixa perfeitamente com Leon. Mas minha mãe me deu o nome de Benjamin.
Serena uma vez disse que me amava. Eu disse que também a amava. Ela disse que achava meu nome lindo. Mas nunca ficamos juntos. Platão.
Pois bem, o amor é realmente estranho.
Gosto de pensar também sobre tudo. Menos cigarros.
A vida é assim, inerte, inalcançável, mágica, hipócrita, eterna, platônica. Eu sou assim. Benjamin é assim."
- Querido, pode vir aqui um instante? - Serena o chamou.
- Claro, só estou terminando de escrever.
Ela subiu os degraus da escada os contando, criando uma melodia.
- Não precisa mais, Benjamin - aproximou-se dele. Está escrevendo sobre o quê?
- Sobre inércia, dificuldades, amor, mágica, hipocrisia. Várias coisas - ele respondeu se virando.
Ela o olhou intrigada.
- É sobre você? Ou nós?
- Não. É sobre um homem que inventei com um nome feio.
Ela sorriu e passou a mão pelos cabelos dele.
- Eu amo você, Benjamin.
Benjamin não respondeu. Somente deu uma longa tragada no pequeno cigarro que queimava no cinzeiro.