A cortina ao lado da cama estava balançando e comecei a brincar com ela. Cada vez que o vento a empurrava em minha direção, e eu o provocava empurrando a cortina violentamente. Não era um dia de sol, tudo indicava que choveria. Assim como aquele dia, há muito tempo atrás, quando o vento fez a mesma brincadeira. Agora vejo que a vida é assim, vive de repetições, mas como constantemente mudamos, elas não são tão visíveis.
O vento e eu ficamos nessa disputa até ela entrar pelo quarto, enrolada em minha toalha preta, com os cabelos molhados. Sua pequena estatura ficara em contraste com o tamanho da toalha, que arrastava no chão.
Ela parara na porta do meu quarto e encostara na base da porta, olhando-me seriamente. Zoé era uma criança engraçada, madura. Ela parecia saber de coisas que nunca viveu ou que nunca ouviu falar.
"Pai," ela me disse aquele dia "acho que o chuveiro quebrou".
"Por quê?"
"Ele está frio, e está machucando a minha pele porque as gotinhas estão muito geladas", ela estava convicta de sua teoria.
"Talvez você o tenha aberto demais".
"Ah, mas teve um clarão também", ela imitou a proporção do curto circuito exagerando um pouco.
"Então quebrou, Zoé"
"É, pai, eu disse isso". Às vezes suas frases adolescentes não se encaixavam com seus 6 anos.
Ela veio devagar e se sentou encostada na minha barriga, olhando para o meu rosto. Seu cabelo louro chegou às minhas costas, molhando minha camisa. Ela se aninhou em mim enquanto eu fazia carinho eu seu cabelo.
"Pai?", ela levantou a cabeça para perguntar.
Eu a olhei.
"Pode contar de novo?"; e era quase sempre assim. Quase todos os dias. Às vezes eu só queria contar uma história de sapinhos ou astronautas, mas ela insistia nessa longa história.
Respirei fundo e comecei a contar tudo. Zoé, por mais que parecesse adormecida, estava prestando muita atenção. Tentei contar de um modo diferente, como faço todos os dias.
Contei como sua mãe é inteligente, e que me conquistara justamente assim. De todas as longas viagens que fizemos. De coisas genéricas.
"Pai, e quando o senhor foi mais feliz?", ela perguntou quando terminei.
Imediatamente lembrei-me do dia em que ela, sua mãe, saiu do banho com o cabelo molhado, penteando-o para os lados, e me olhou deitado na cama. Que então ela se aproximou e deitou a cabeça em minha barriga, molhando minhas costas. E sua toalha marcava exatamente a barriga protuberante, a pequena Zoé se desenvolvendo. E ela me perguntou que nome eu gostaria de dar. Eu disse que ela escolheria. E foi então que ela comentou que "Zoé" era o nome que ela queria ter.
Minha ex-mulher, prezava diversas coisas, e confesso que ser mãe nunca foi uma delas. Por isso agora estou aqui, somente Zoé e eu. Lembrei daquele sorriso quando ela disse "Zoé". Talvez aquele tenha sido o momento mais romântico, sincero e feliz do nosso casamento.
Pensei antes de responder.
"Zoé, não sei, sua mãe e eu vivemos tantas coisas felizes, não sei escolher uma", menti, enfim.
"Nem uminha?", não.
"No dia em que ela descobriu que estava grávida de você, talvez", menti.
"Legal!", ela se sentou, empolgada. "Como foi?"
Lembrei de como ela ficou assustada, sem saber o que fazer. E gritava o tempo todo que era minha culpa. Não foi um dia bom.
"Foi incrível, mas é uma história longa, amanhã eu conto", tentei sorrir.
Zoé arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
"Promete?"
"Claro, Zoé", e afaguei seu cabelo.
E quando eu menos esperava, ela pegou no sono. Nos meus braços.
Peguei-a no colo e levei até seu quarto, devagar. Zoé era leve como uma pluma, o que facilitava muita coisa. Coloquei o pijama nela e coloquei o cobertor por cima de seu corpo. Parecia mesmo que ia chover.
Antes de apagar a luz, a foto em cima do criado mudo me chamou atenção, como faz todas as noites. Uma foto da mãe dela, há muito tempo atrás, ao meu lado, em uma de nossas viagens.
E por um momento ela pareceu perto, como o vento, resistindo. Mesmo estando a milhas daqui.