dezembro 08, 2010

Sinestesia

Quando acordei meus olhos custaram a abrir. Tentei levar as mãos no rosto, mas elas pareciam adormecidas. Eu sentia todo o calor do sol invadindo a cama. Virei-me de lado e senti a pele dela, Lorena. E de repente ela não estava mais ali.
Quando pude ergui meu corpo em um movimento único e lento, saí ainda de olhos fechados para fora da cama. E então toquei o chão. Esperei até meus pés estarem seguros e me levantei por completo.
O chão desapareceu.
A queda foi devagar. O vento estava carregando folhas, que vinham de um bosque ao leste. Uma dessas folhas passou pelo meu olho. Ele coçava, e eu vi tudo embaçado. Contudo, quando pude abrir meus olhos por completo, a única coisa que eu conseguia ver era o imenso lago em que eu estava prestes a cair. E eu não sei nadar.
Pássaros começaram a atravessar minha visão. Ora andorinhas, ora urubus. E o lago ficava cada vez mais próximo. E então ouvi um nome.
Lorena me chamava. A voz dela me lembrava o sino da capela em que eu ia quando pequeno. Uma voz metálica, forte e delicada como seda. Uma voz que não existe em mais ninguém.
Nesse exato momento, minha pele tocou o lago. A água estava quente, quase queimava minha pele. Eu pedia para Lorena me ajudar, mas minha voz e a voz dela foram sumindo a medida que eu afundava. Em um segundo estava completamente submergido, lutando para respirar.
Peixes rondaram meu corpo. Ora peixes pequenos, ora peixes enormes. Uma alga gigante prendeu meu pé e me puxou muito rápido para uma espécie de penhasco.
Lorena voltou a chamar. Meu medo agora se concentrou no que ela estaria passando. O que estariam fazendo com ela.
Arrisquei abrir a boca para chamá-la, perguntar onde ela estava, mas a água queimou minha língua. Meus olhos se fecharam e não pude ver mais nada.
Minutos se passaram e senti que estava fora da água. Lorena estava mais próxima. Recuperei a visão e deparei-me com o bosque. Árvores enormes que cortavam meu corpo, folhas que me prendiam, amarravam-me, machucavam-me.
Lorena agora gritava. Aventurei-me no meio do bosque, machucado, correndo atrás da voz dela. O bosque escuro, a medida que eu corria, ia clareando. Imaginava estar chegando perto do sol.
Faltavam apenas dois pinheiros para a luz tomar conta do meu ser, então corri. Empurrei os galhos com toda a força, e fui cegado por uma luz amarela radiante. Estava em uma clareira.
A voz dela indicava que Lorena estava ali, no centro da clareira, e eu não podia vê-la. A folha realmente machucara meus olhos. Segui sua voz e encontrei-a deitada, suando. Ela segurou minha mão e beijou meus olhos. Ela dizia sinto muito.
O que mais me incomodava era não poder vê-la, ajudá-la, entender o que estava acontecendo. Uma criança chorava.
Comecei a chorar. Não estava compreendendo. Eu queria ajudá-la.
E então ela desapareceu. O choro também. Minhas roupas molhadas, a luz radiante, tudo sumiu. Voltei a escuridão.

Quando acordei meus olhos custaram a abrir. Tentei levar as mãos no rosto, mas elas pareciam adormecidas. Eu sentia todo o calor do sol invadindo a cama. Virei-me de lado e senti a pele dela, Lorena. Ouvi sua voz metálica sedando minha alma.
"Gregório?", sua voz estava diferente.
"Lô, você não tem noção de que sonho eu tive, querida!", tentei me levantar, "Lô? O que está acontecendo?"
Ouvi Lorena chorando, balbuciando palavras que eu não entendia.
"Querido, você não lembra de nada?", ela perguntou por meios soluços.
"Não! O que aconteceu, Lorena?", sua voz sumiu aos poucos.
Ela beijou a testa minha testa, e respirou fundo.
"Gregório," ela tentou não chorar ao dizer meu nome, "seu avião caiu, não se lembra?"
Avião? Que avião?
À vista disso, tudo voltou a minha mente. Sim, avião. Eu peguei um avião ontem. Dormira durante a viagem, mas não lembrava de ter chegado em casa.
"O avião caiu, Gregório. Caiu em um lago. O médico disse que você estava desacordado o tempo todo, não viu nada", eu quase podia ouvir os batimentos cardíacos dela, mas acredito que eram os meus.
O avião caiu? Nossa.
"Sobreviveram você e mais três pessoas, graças a Deus", ela começou a me beijar.
Afastei-a de mim aos poucos, queria vê-la.
"Lorena, por que não consigo ver você?".
O choro de Lorena, minha Lorena da voz metálica, a voz que parecia o sino da capela de quando eu ia quando pequeno, a voz de seda, foi sufocada pelo choro.
"Lorena?", e comecei a chorar.
Nossos batimentos cardíacos juntos, nossas lágrimas juntas, naquele quarto de hospital.
Eu não precisava ver nada para sentir tudo.