Eu pensei em muitos meios de começar esta carta. Pensei em escrever "Querido Rocco", mas em voz alta soou clichê. Pensei em tentar com apenas um "Olá", ou talvez como eu gostava de chamar você, "Pequeno Grande Rocco". Se eu começasse esta carta com "Meu Rocco" pareceria que você ainda é meu - mesmo eu sentindo que sempre será -, ou se começasse com somente "Rocco" eu aumentaria o pequeno abismo que ainda insisto em tentar pular. Estamos longe de sermos meros desconhecidos ou colegas casuais, estamos longe de sermos amantes ou apaixonados. Nós só encontramos um no outro nós mesmos.
Você achará covardia de minha parte, e eu também acho covardia escrever tudo aqui e simplesmente enviar a você. Como se tudo fosse como uma folha nova de outono caída no chão, que meramente pisamos e a sujamos, mas passamos batido. No entanto, não haveria motivos para voltar, abaixar e limpar a folha. Como nós.
Eu gosto de contar e recontar como nos conhecemos. Você sempre acreditou em destino e eu em coincidências, mas não importa o que aconteceu aquele dia. Não agora.
Acredito que nunca contei a parte em que sonhara com você antes mesmo de nos encontrarmos fisicamente. Você não acreditaria. Eu gostei daquele primeiro dia em que você passou com seu cachorro na minha rua e eu ainda estava de pijama. Saí para pegar as correspondências e você me olhou. Você não olhou para minha camisola de seda, nem para meu decote. Você olhou em meus olhos. E aquilo que deve ter durado dois segundos, equivaleu a dois minutos para mim. Clichê, ponto.
Você sempre achou mais importante quando nos falamos, quando nos conhecemos de fato. Quando você estendeu a toalha para me secar. Talvez eu nunca mais me sinta protegida como aquele dia, quando chovia e aqueles dois homens me seguiram pela rua solitária. Quando você estava saindo de casa e reparou. O exato minuto em que me abraçou olhando para os homens e disse em tom audível que já estava saindo para se encontrar comigo, que sentira minha falta. Quando você me levou para dentro da sua casa, esperou que passassem e pegou uma toalha.
Você diz que se apaixonou por mim aí. Eu me apaixonei quando me abraçou.
Ficamos juntos a partir daquela chuva, ficamos juntos até eu achar que seria para sempre. Quando homens me seguirem novamente, vou esperar que você saia de alguma casa me abraçando, dizendo que sentiu minha falta.
Eu vou sentir sua falta. De quando você penteava o cabelo para trás e pedia para eu desarrumar. E sorrindo me abraçava. Dos dias em que eu inventava de sair na chuva e fingir que era uma desconhecida, para fazermos tudo novamente. Eu vou sentir falta de quando você deitava na minha barriga e se cobria até a cabeça com o cobertor para eu cuidar de você. Sentirei falta de quando você colocava minhas músicas favoritas e desenhava círculos em meu braço. Sentirei falta do dia em que nós fomos até a praça, durante a noite, para andar com um guarda-chuva quebrado - sendo que não chovia.
E eu ainda não entendi porque sinto isso, mas não posso mais. Eu sinto isso. Você uma vez me disse que ás vezes sentimos coisas que não entendemos, então espero que aceite isso bem. Não podemos mais.
Terei que lavar meus travesseiros para tirar seu cheio protetor dele, terei que queimar nossas fotos - mesmo querendo salvar aquela em que estamos no vento, você sorrindo e eu fingindo que chorava, terei que ir para casa sem passar na sua rua.
Você sabe que não sou ciumenta ou preocupada, que sou segura o suficiente. No entanto, você está estranho. Não é mais o mesmo. As pessoas sempre nos falaram que coisas assim aconteceriam, que esfriaríamos. E nós sempre dizíamos que não conosco. Agora eu me pergunto "Por que não conosco?".
Vou viajar. Decidi que tenho que ficar fora por um tempo. Para reencontrar a pessoa que eu era antes de você me salvar. Antes de acontecer a coisa mais linda da minha vida.
Eu amo você, e esse amor será para sempre, mesmo eu não o sentindo agora.
Um beijo, um abraço, um aconchego com seu cobertor, um guarda-chuva para noites quentes, o meu coração.
Boa noite.
julho 29, 2010
julho 23, 2010
Um telefonema
Meu quarto estava desarrumado, a colcha que deveria estar na cama já estava jogada no chão e minha jaqueta caíra da poltrona. O sol iluminava metade da minha cama e alcançava o tronco de Levi, que usava a camiseta branca que eu fizera.
Nós estávamos sentados um de frente para o outro. Minhas pernas estavam esticadas de modo que meus pés ficavam no colo dele. Aproveitando-se de nossa posição, Levi passava a mão por minha panturrilha, e quando se inclinava um pouco, brincava com meus joelhos.
Eu prendi meu cabelo em um coque desgrenhado que teimava em se soltar cada vez que eu cedia à brincadeira e jogava minha cabeça para trás. Era fácil ceder a qualquer coisa quando estava com Levi. Nós quase não discutíamos, sempre gostamos um do outro mesmo discordando da maioria das coisas. Nunca tivemos ciúmes um do outro - nenhum ciúme pronunciado, pelo menos -, porque sabemos que estamos juntos, mas que não somos donos um do outro.
Levi sempre despertou algo em mim. Afinal, eu sempre tive preferência por homens, não por garotos. E eu gosto do jeito como ele deixa o cabelo castanho claro para trás, da barba rala que faz cócegas quando toca meu rosto, de toda a altura incomparável dele e do mais incrível, o sorriso - mesmo ele não o exibindo muito.
Para nós não precisarmos sair da cama, eu deixei o telefone ao meu lado. Eva disse que ligaria para mim logo depois do almoço. Levi aparecera de surpresa e ele mesmo preparara algo para comermos.
O telefonema daquele dia talvez tenha sido o grande causador de tudo o que aconteceu.
Estávamos brincando com a luz do sol na minha perna quando o telefone tocou. Coloquei no viva voz. Conversamos um pouco até chegar ao principal motivo da ligação.
"Aurora", a voz dela era envergonhada, "o Levi não está aí, não é?".
"Não, Eva, pode falar", Levi sorriu quando eu menti.
"Vocês já dormiram juntos?". Ela fora rápida e direta.
"Já. Quando ele dorme aqui, sim".
"Não estou falando disso", e continuou como uma repreensão "Você sabe do que eu estou falando...".
Eu soltei um riso abafado.
"Ah, é claro. Não, isso ainda não", disse olhando para ele. "Logo, logo", acrescentei sorrindo.
Levi gesticulou e eu entendi quando ele proferiu "Que ótima notícia" sorrindo.
Não deu tempo de me despedir de Eva, pois ele mesmo puxara o fio do telefone e o deixara mudo.
Surpreendentemente fiquei agradecida, não queria falar com mais ninguém, nem pensar em mais nada, e muito menos fazer outra coisa a não ser aquilo que estávamos fazendo.
Com a cabeça pendurada como antes, tentei puxar algum assunto.
"Qual seu tipo de mulher, Levi?", perguntei.
Ouvi quando ele riu baixinho. Inclinei-me para ver seu rosto e ele, olhando para minhas pernas, tirou-as de seu colo e ajeitou a calça jeans.
"Eu gosto de mulheres mais novas, que têm cabelos castanhos compridos e que os usa em um coque bagunçado", ele fez uma pausa e piscara para mim.
Não estava mais sentado, estava ajoelhado sobre a cama.
"O meu tipo de mulher," disse continuando, "tem que ter olhos castanhos", seus joelhos o traziam aos poucos para os meus, "tem que ser mediana, ter pernas macias o suficiente para eu brincar com elas, mentir para as amigas sobre o meu paradeiro".
Ele parou de falar quando estava com o corpo esguio sobre o meu, que já estava deitado.
"Os cabelos dela têm que se soltar do coque toda vez que ela se deitar", disse passando a mão por meus cabelos livres e completou "e tem que ser a pessoa mais incrível que eu já tenha visto".
"E não se esqueça que ela não gosta de ficar por baixo, mon amour", eu disse enquanto contornava os longos braços dele e me apossava de seu tronco, que agora repousava sobre a cama.
Lentamente, eu desabotoei minha camisa e a joguei onde estava minha jaqueta. Ele pôs as mãos nos olhos sorrindo.
"E qual é o seu tipo de homem, Aurora?", ele perguntou colocando as mãos nas minhas costas e me abaixando para um beijo.
"Aquele tipo que gosta de me descrever fingindo que não sou eu", respondi.
Levi sorriu.
Eu não dormi depois de ficarmos juntos. Levantei-me quando ele adormecera e fui para o banheiro. Passei pelo espelho e meu cabelo estava todo ensebado de suor. Decidi tomar um banho.
A água gelada caía e eu me ensaboava pouco. Distraída, pensava em Levi quando ele mesmo abriu a porta.
"Não precisa fechar a porta, já vi o que tinha que ver, pequena", ele disse.
"É a força do hábito", respondi de dentro da banheira. Estava de olhos fechados.
Quando virei o rosto para a direção de sua voz, vi que ele estava enrolado no meu lençol.
"Não precisa usar um lençol, já vi o que tinha que ver", disse rindo por poder repetir sua fala.
"Eu achei que para o que vou fazer agora precisasse", ele respondeu, mas eu não havia entendido.
Ele se ajoelhou ao meu lado, pôs a mão dentro da banheira para procurar minha mão, e quando a achou, roçou seus dedos por meus quadris. Segurando-a firme, mas suavemente, ele sorriu.
"O que você responderia se eu pedisse nesse exato momento para você casar comigo?"
Surpresa, fechei os olhos e respirei fundo.
"Diria que sempre foi meu sonho ser pedida em casamento dentro do meu banheiro, pelada", eu sorri. "E aceitaria, é claro!", completei.
Ele soltou minha mão, levantou-se, retirou o lençol dos quadris e entrou na banheira, na minha frente. Pegou minhas pernas e começou a brincar com elas. Levi jogou a cabeça para trás e disse que me amava.
"Eu sei", respondi.
Nós estávamos sentados um de frente para o outro. Minhas pernas estavam esticadas de modo que meus pés ficavam no colo dele. Aproveitando-se de nossa posição, Levi passava a mão por minha panturrilha, e quando se inclinava um pouco, brincava com meus joelhos.
Eu prendi meu cabelo em um coque desgrenhado que teimava em se soltar cada vez que eu cedia à brincadeira e jogava minha cabeça para trás. Era fácil ceder a qualquer coisa quando estava com Levi. Nós quase não discutíamos, sempre gostamos um do outro mesmo discordando da maioria das coisas. Nunca tivemos ciúmes um do outro - nenhum ciúme pronunciado, pelo menos -, porque sabemos que estamos juntos, mas que não somos donos um do outro.
Levi sempre despertou algo em mim. Afinal, eu sempre tive preferência por homens, não por garotos. E eu gosto do jeito como ele deixa o cabelo castanho claro para trás, da barba rala que faz cócegas quando toca meu rosto, de toda a altura incomparável dele e do mais incrível, o sorriso - mesmo ele não o exibindo muito.
Para nós não precisarmos sair da cama, eu deixei o telefone ao meu lado. Eva disse que ligaria para mim logo depois do almoço. Levi aparecera de surpresa e ele mesmo preparara algo para comermos.
O telefonema daquele dia talvez tenha sido o grande causador de tudo o que aconteceu.
Estávamos brincando com a luz do sol na minha perna quando o telefone tocou. Coloquei no viva voz. Conversamos um pouco até chegar ao principal motivo da ligação.
"Aurora", a voz dela era envergonhada, "o Levi não está aí, não é?".
"Não, Eva, pode falar", Levi sorriu quando eu menti.
"Vocês já dormiram juntos?". Ela fora rápida e direta.
"Já. Quando ele dorme aqui, sim".
"Não estou falando disso", e continuou como uma repreensão "Você sabe do que eu estou falando...".
Eu soltei um riso abafado.
"Ah, é claro. Não, isso ainda não", disse olhando para ele. "Logo, logo", acrescentei sorrindo.
Levi gesticulou e eu entendi quando ele proferiu "Que ótima notícia" sorrindo.
Não deu tempo de me despedir de Eva, pois ele mesmo puxara o fio do telefone e o deixara mudo.
Surpreendentemente fiquei agradecida, não queria falar com mais ninguém, nem pensar em mais nada, e muito menos fazer outra coisa a não ser aquilo que estávamos fazendo.
Com a cabeça pendurada como antes, tentei puxar algum assunto.
"Qual seu tipo de mulher, Levi?", perguntei.
Ouvi quando ele riu baixinho. Inclinei-me para ver seu rosto e ele, olhando para minhas pernas, tirou-as de seu colo e ajeitou a calça jeans.
"Eu gosto de mulheres mais novas, que têm cabelos castanhos compridos e que os usa em um coque bagunçado", ele fez uma pausa e piscara para mim.
Não estava mais sentado, estava ajoelhado sobre a cama.
"O meu tipo de mulher," disse continuando, "tem que ter olhos castanhos", seus joelhos o traziam aos poucos para os meus, "tem que ser mediana, ter pernas macias o suficiente para eu brincar com elas, mentir para as amigas sobre o meu paradeiro".
Ele parou de falar quando estava com o corpo esguio sobre o meu, que já estava deitado.
"Os cabelos dela têm que se soltar do coque toda vez que ela se deitar", disse passando a mão por meus cabelos livres e completou "e tem que ser a pessoa mais incrível que eu já tenha visto".
"E não se esqueça que ela não gosta de ficar por baixo, mon amour", eu disse enquanto contornava os longos braços dele e me apossava de seu tronco, que agora repousava sobre a cama.
Lentamente, eu desabotoei minha camisa e a joguei onde estava minha jaqueta. Ele pôs as mãos nos olhos sorrindo.
"E qual é o seu tipo de homem, Aurora?", ele perguntou colocando as mãos nas minhas costas e me abaixando para um beijo.
"Aquele tipo que gosta de me descrever fingindo que não sou eu", respondi.
Levi sorriu.
Eu não dormi depois de ficarmos juntos. Levantei-me quando ele adormecera e fui para o banheiro. Passei pelo espelho e meu cabelo estava todo ensebado de suor. Decidi tomar um banho.
A água gelada caía e eu me ensaboava pouco. Distraída, pensava em Levi quando ele mesmo abriu a porta.
"Não precisa fechar a porta, já vi o que tinha que ver, pequena", ele disse.
"É a força do hábito", respondi de dentro da banheira. Estava de olhos fechados.
Quando virei o rosto para a direção de sua voz, vi que ele estava enrolado no meu lençol.
"Não precisa usar um lençol, já vi o que tinha que ver", disse rindo por poder repetir sua fala.
"Eu achei que para o que vou fazer agora precisasse", ele respondeu, mas eu não havia entendido.
Ele se ajoelhou ao meu lado, pôs a mão dentro da banheira para procurar minha mão, e quando a achou, roçou seus dedos por meus quadris. Segurando-a firme, mas suavemente, ele sorriu.
"O que você responderia se eu pedisse nesse exato momento para você casar comigo?"
Surpresa, fechei os olhos e respirei fundo.
"Diria que sempre foi meu sonho ser pedida em casamento dentro do meu banheiro, pelada", eu sorri. "E aceitaria, é claro!", completei.
Ele soltou minha mão, levantou-se, retirou o lençol dos quadris e entrou na banheira, na minha frente. Pegou minhas pernas e começou a brincar com elas. Levi jogou a cabeça para trás e disse que me amava.
"Eu sei", respondi.
julho 15, 2010
Tempo para sonhar
Chovia muito e o barulho da água caindo nas telhas era alto. Era noite e era impossível ver um pouco mais que nuvens cobrindo a lua e as estrelas. Cansada de esperar tanto, Adele deitou-se na cama de casal, segurando o travesseiro de seu marido que se atrasara mais uma vez, e pedia em silêncio "Oh, Deus, que ele não beba essa noite!".
Estando deitada, poucos minutos foram necessários para ela adormecer.
Abriu os olhos aos poucos e sentiu braços envolvendo seu corpo. Não pôde deixar de sorrir.
O homem que a segurava pôs a boca em sua orelha e sussurrou "Feliz aniversário, minha amada". Adele, ainda de costas, segurou firme a mão dele em resposta.
- Obrigada! E que bom que você está assim.. Bem - disse ela se virando e deparando com um homem completamente diferente daquele que ela esperara que fosse.
Ela se afastou com rapidez do homem e levantou-se carregando o lençol cobrindo seu corpo. Ele continuou deitado, usava somente uma calça de pijama, era alto, um pouco grisalho e seus olhos eram azuis. Seu sorriso era hipnotizante.
- Você pode me dizer quem é? - Adele gritava.
- Isso de novo, Adele?!
- Ah, é claro que você sabe meu nome! Seu pervertido, quem é você? - ela estava ficando agressiva.
Ele se levantou calmamente, ajustou a calça na altura dos quadris e contornou a cama para encontrar Adele.
- Meu nome é Sebastian, Adele, pela milionésima vez! - ele respondeu se aproximando.
Adele pensou em pegar o abajur e se virou na direção do criado mudo. Pegando-o na mão, o abajur esbarrou no porta-retratos que caiu no chão e quebrou.
- Que droga! Viu o que você fez? - ela disse enquanto abaixava e ao mesmo tempo encarava o intruso.
O abajur estalou no chão quando ela olhou quem estava na foto. Era ela e Marcus, seu marido, em sua lua-de-mel.
- Onde está o meu marido? - ela se sentou na cama, seu corpo entrando em inércia.
- Eu sou seu marido - ele respondeu.
Sebastian sentou ao lado de Adele, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - Sebastian disse beijando-a.
A música favorita de Adele começou a tocar em sua cabeça, e aquele beijo era diferente de todos. Não parecia nada com o beijo com gosto de cerveja do Marcus. Adele se entregou, pôs as mãos na nuca de Sebastian e esqueceu de fazer mais perguntas.
- Você está linda hoje. Envelhecer faz tão bem a você. - Sebastian dizia isso enquanto deitava Adele novamente, para envolvê-la novamente.
Minutos passaram até que Adele rompesse o silêncio.
- Espero que você seja meu presente de aniversário, Sebastian. Espero que você seja real. Eu amo o Marcus, mas...
- Eu sei - Sebastian interrompeu -, mas ele faz você sofrer demais. Eu mesmo, que não tenho nenhum contato direto com ele, não suporto o que ele faz quando bebe. Você não sabe o quanto meu coração se parte ao vê-la padecer na mão dele.
Ela se voltou na direção de Sebastian e o olhou nos olhos.
- Você tem olhos tão bonitos.. - ela disse passando a mão sobre as pálpebras de Sebastian. - Mas como você me conhece? - seu tom de voz era delicado.
- Esqueça isso, Adele. Só pense que sou seu presente de aniversário.
Sebastian colocou suavemente a mão esquerda na coxa de Adele e a puxou sobre o seu corpo. Ela sorriu. Ele era tranqüilo, delicado, concentrado. Tudo o que Marcus era antes de aquilo acontecer.
- Não quero que você pense na sua filha essa noite - ele disse retirando a alça da camisola do ombro dela.
Ela encaixou seu rosto na omoplata dele e fechou os olhos. Ficou de olhos fechados o tempo todo. O máximo que Adele fazia era acariciar o cabelo de Sebastian.
- Sebastian - ela chamou depois que o silêncio dominou o quarto -, você dormiu? Não me deixe acordada e sozinha hoje.
- Estou acordado, mon chéri. Estava pensando em você e no Marcus... - virou-se para a direção dela e se apoiou pelo braço - Adele, você já disse que o acidente não foi culpa dele?
- Já, Sebastian! - ela ficou vermelha.
- Adele, diga-me a verdade, você realmente acredita que a culpa foi dele?
Ela respirou fundo e os olhos encheram-se de lágrimas.
- Não.
Sebastian a abraçou novamente.
- Você acha que ele bebeu naquela noite? - ele sussurrou.
- Sim. - as primeiras lágrimas de Adele começavam a cair.
- Mas não bebeu. Não foi culpa dele. Acredite em mim. - Sebastian dizia e passava o dedo para reter o choro dela. - Você precisa acreditar para libertá-lo disso. Libertar vocês dois.
Gotas de chuva começaram a cair no rosto de Adele. E ela acordou quando a porta da sala abriu e um barulho estrondoso atravessou os cômodos. Ela olhou pela janela, seus olhos rodearam o quarto e não via nenhum vestígio da passagem de Sebastian. Não havia nem cacos de vidro no carpete.
O barulho foi se aproximando, e ele gritava injúrias.
A porta do quarto abrira e Marcus adentrava o cômodo cantando parabéns. Seu tom era rude e ele substituiu o nome de sua esposa por ofensas.
Adele levantou e andou até ele, ainda vestia sua camisola. Em sua cabeça ecoava as últimas palavras de Sebastian.
- Marcus... - ela tentou.
Adele foi interrompida quando Marcus levantou a mão para ela e um tapa cortou o ar e os lábios da pequena sonhadora, que fora parar no chão.
Ela batera as costas no criado mudo e o porta-retratos caiu, deixando cacos de vidro espalhados pelo chão.
- Marcus! Marcus! - ela chorava - Não foi sua culpa, meu amor! Não foi sua culpa!
As palavras pareciam tê-lo irrompido.
Marcus sentou na cama e começou a chorar.
Longos minutos se passaram, até que ele deu a mão para Adele e a colocou na cama ao seu lado, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - ele disse beijando-a.
O pouco de sangue se misturou no beijo, mas isso não mais importava.
Estando deitada, poucos minutos foram necessários para ela adormecer.
Abriu os olhos aos poucos e sentiu braços envolvendo seu corpo. Não pôde deixar de sorrir.
O homem que a segurava pôs a boca em sua orelha e sussurrou "Feliz aniversário, minha amada". Adele, ainda de costas, segurou firme a mão dele em resposta.
- Obrigada! E que bom que você está assim.. Bem - disse ela se virando e deparando com um homem completamente diferente daquele que ela esperara que fosse.
Ela se afastou com rapidez do homem e levantou-se carregando o lençol cobrindo seu corpo. Ele continuou deitado, usava somente uma calça de pijama, era alto, um pouco grisalho e seus olhos eram azuis. Seu sorriso era hipnotizante.
- Você pode me dizer quem é? - Adele gritava.
- Isso de novo, Adele?!
- Ah, é claro que você sabe meu nome! Seu pervertido, quem é você? - ela estava ficando agressiva.
Ele se levantou calmamente, ajustou a calça na altura dos quadris e contornou a cama para encontrar Adele.
- Meu nome é Sebastian, Adele, pela milionésima vez! - ele respondeu se aproximando.
Adele pensou em pegar o abajur e se virou na direção do criado mudo. Pegando-o na mão, o abajur esbarrou no porta-retratos que caiu no chão e quebrou.
- Que droga! Viu o que você fez? - ela disse enquanto abaixava e ao mesmo tempo encarava o intruso.
O abajur estalou no chão quando ela olhou quem estava na foto. Era ela e Marcus, seu marido, em sua lua-de-mel.
- Onde está o meu marido? - ela se sentou na cama, seu corpo entrando em inércia.
- Eu sou seu marido - ele respondeu.
Sebastian sentou ao lado de Adele, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - Sebastian disse beijando-a.
A música favorita de Adele começou a tocar em sua cabeça, e aquele beijo era diferente de todos. Não parecia nada com o beijo com gosto de cerveja do Marcus. Adele se entregou, pôs as mãos na nuca de Sebastian e esqueceu de fazer mais perguntas.
- Você está linda hoje. Envelhecer faz tão bem a você. - Sebastian dizia isso enquanto deitava Adele novamente, para envolvê-la novamente.
Minutos passaram até que Adele rompesse o silêncio.
- Espero que você seja meu presente de aniversário, Sebastian. Espero que você seja real. Eu amo o Marcus, mas...
- Eu sei - Sebastian interrompeu -, mas ele faz você sofrer demais. Eu mesmo, que não tenho nenhum contato direto com ele, não suporto o que ele faz quando bebe. Você não sabe o quanto meu coração se parte ao vê-la padecer na mão dele.
Ela se voltou na direção de Sebastian e o olhou nos olhos.
- Você tem olhos tão bonitos.. - ela disse passando a mão sobre as pálpebras de Sebastian. - Mas como você me conhece? - seu tom de voz era delicado.
- Esqueça isso, Adele. Só pense que sou seu presente de aniversário.
Sebastian colocou suavemente a mão esquerda na coxa de Adele e a puxou sobre o seu corpo. Ela sorriu. Ele era tranqüilo, delicado, concentrado. Tudo o que Marcus era antes de aquilo acontecer.
- Não quero que você pense na sua filha essa noite - ele disse retirando a alça da camisola do ombro dela.
Ela encaixou seu rosto na omoplata dele e fechou os olhos. Ficou de olhos fechados o tempo todo. O máximo que Adele fazia era acariciar o cabelo de Sebastian.
- Sebastian - ela chamou depois que o silêncio dominou o quarto -, você dormiu? Não me deixe acordada e sozinha hoje.
- Estou acordado, mon chéri. Estava pensando em você e no Marcus... - virou-se para a direção dela e se apoiou pelo braço - Adele, você já disse que o acidente não foi culpa dele?
- Já, Sebastian! - ela ficou vermelha.
- Adele, diga-me a verdade, você realmente acredita que a culpa foi dele?
Ela respirou fundo e os olhos encheram-se de lágrimas.
- Não.
Sebastian a abraçou novamente.
- Você acha que ele bebeu naquela noite? - ele sussurrou.
- Sim. - as primeiras lágrimas de Adele começavam a cair.
- Mas não bebeu. Não foi culpa dele. Acredite em mim. - Sebastian dizia e passava o dedo para reter o choro dela. - Você precisa acreditar para libertá-lo disso. Libertar vocês dois.
Gotas de chuva começaram a cair no rosto de Adele. E ela acordou quando a porta da sala abriu e um barulho estrondoso atravessou os cômodos. Ela olhou pela janela, seus olhos rodearam o quarto e não via nenhum vestígio da passagem de Sebastian. Não havia nem cacos de vidro no carpete.
O barulho foi se aproximando, e ele gritava injúrias.
A porta do quarto abrira e Marcus adentrava o cômodo cantando parabéns. Seu tom era rude e ele substituiu o nome de sua esposa por ofensas.
Adele levantou e andou até ele, ainda vestia sua camisola. Em sua cabeça ecoava as últimas palavras de Sebastian.
- Marcus... - ela tentou.
Adele foi interrompida quando Marcus levantou a mão para ela e um tapa cortou o ar e os lábios da pequena sonhadora, que fora parar no chão.
Ela batera as costas no criado mudo e o porta-retratos caiu, deixando cacos de vidro espalhados pelo chão.
- Marcus! Marcus! - ela chorava - Não foi sua culpa, meu amor! Não foi sua culpa!
As palavras pareciam tê-lo irrompido.
Marcus sentou na cama e começou a chorar.
Longos minutos se passaram, até que ele deu a mão para Adele e a colocou na cama ao seu lado, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - ele disse beijando-a.
O pouco de sangue se misturou no beijo, mas isso não mais importava.
julho 12, 2010
julho 05, 2010
A vida é curta demais para vivê-la em vão
Quando acordei o céu estava cheio de nuvens de chuva e a neblina embaçava a visão dos trabalhadores que saíam cedo, e a minha. Era quinta feira, e eu não estava saindo para trabalhar.
Levantei-me com o máximo de cuidado possível, troquei-me de roupa e fui até o banheiro, onde vira minha cara amassada e escovara os dentes. Fui silenciosamente até a cozinha e preparei um café, peguei meu maço de cigarros na sala e saí de casa, sem fazer barulho algum.
Assim minha mãe não acordaria.
Acordei com um barulho vindo da cozinha. Primeiramente pensei que Matteu estivesse com sede, não me importei.
Olhei pela janela e vi que o céu estava escuro e nublado, mas já havia amanhecido.
Sempre que vejo o céu nublado, lembro dos dias felizes que passamos nessa casa antes "dele" ir embora. Sinto tanta falta do meu marido, do meu amante, do pai do meu filho, que às vezes tenho vontade de acabar com tudo. Mas então Matteu me vem à cabeça, e decido continuar com tudo.
Quando liguei o carro, torci para que ela não notasse que barulho do motor vinha da nossa garagem. Acho ridículo ter que sair escondido, mas o que estou indo fazer ela nunca permitiria. Minha mãe diz ter aversão a "tatuagens".
Dirigi fumando um cigarro, esqueci minha mãe ou qualquer preocupação. O som do carro tocara minha música favorita e minha jaqueta vibrava a cada batida mais forte.
Ouvi um barulho de carro saindo da garagem. Quando meus pensamentos entraram em sintonia, levantei-me correndo e fui para o quarto de Matteu. A cama estava somente com o pijama largado em cima.
Corri para a sala com esperança de encontrá-lo e vi que a chave do carro não estava ao lado do cinzeiro e que o maço de cigarros não estava na mesa de centro. Naquele momento entendi onde Matteu fora.
Minha cabeça girou e lembrei que saí da cama muito rápido. Desmaiei.
Não teria muito sentido eu ir para o estúdio às sete da manhã. Dirigi horas sem rumo enquanto minha mãe tentava falar comigo pelo celular. Antes de desligá-lo vi o aviso de treze ligações perdidas.
No entanto, meu coração bateu forte e lembrei do meu pai.
Entrei onde a placa indicava "Retorno".
Quando despertei, minha cabeça doía e tive que deitar no sofá branco, mesmo sujando-o, para me acalmar.
Peguei o telefone e liguei diversas vezes para meu filho, até o celular indicar que estava desligado. Desisti.
Inclinei minha cabeça e me deparei com o porta-retratos em cima da mesinha, onde tinha uma foto de nós três. Eu abraçada à ele, ele abraçado ao Matteu.
Matteu, desde que cortou o cabelo castanho bem rente, está mais parecido com o pai. Os olhos cor de mel eram como os meus, mas a boca, o nariz e o sorriso eram "dele".
Comecei a chorar.
Parei o carro na frente do cemitério e exitei ao entrar. Cemitérios me deixavam atordoado, e imaginar que meu pai estava ali acabava comigo.
Antes de adentrar, comprei flores para pôr em sua lápide.
Quando criei coragem suficiente para entrar, caminhei olhando para os lados e avistei meu pai. Depositei as flores e lembrei de tudo. Comecei a chorar, saí correndo.
Voltei para o carro e me dirigi ao estúdio.
Peguei no sono abraçada ao porta-retratos e com o telefone na mão.
Não havia ninguém aguardando na minha frente, mas quando o tatuador saiu, uma moça linda o acompanhava. Não duvido que aquela fosse a mais bela mulher que já vira. Ela sorriu para mim e se despediu do tatuador. Seu sorriso pareceu quebrar tudo o que eu tinha por dentro.
E então ela saiu pela porta que entrei e o grandalhão careca me chamou. Era finalmente a minha vez.
Expliquei-lhe e ele entendeu tudo com facilidade. Fui de regata para ajudar no processo e quando terminou, ele fechou com um papel branco.
Minha nuca estava então desenhada.
Eu acordei quando o carro parou na frente de casa. Matteu vinha sorrindo e assobiando. Quando me viu sua cara fechou e se transformou numa máscara carrancuda.
"Matteu, diga que você não fez!", eu gritei.
Ele passou por mim sem dizer uma palavra. Segurei-o pelo braço, que apesar de forte, ainda era do meu filho.
"Matteu!", gritei ainda mais alto.
"O que foi?", ele disse com a voz abafada.
"Você fez uma tatuagem?", perguntei.
"Sim, senhora", e pôs a mão na testa, como em continência.
"Quem você pensa que é? Eu nunca autorizei isso, Matteu!", disse chacoalhando-o.
Ele retirou os braços da minha mão com força.
"Sinto muito, já está feita. Ah, aliás, o corpo é meu!", ele disse essa última parte gritando.
Bati-lhe a face.
"Enquanto morar na minha casa, você tem que obedecer o que eu digo", meu tom diminuiu.
"Ótimo, então vou embora!", ele abaixou o tom também.
Ele caminhou até o carro e ligou-o novamente.
"Adieu, mamãe", ele disse saindo com o carro.
Meu coração disparou quando ouvi.
Liguei o carro e saí olhando para o lado errado. Senti uma pressão em meu peito e um estrondo atravessou meus tímpanos.
Não vi mais nada, fechei os olhos.
Não sei o que senti quando vi aquele caminhão quebrando o carro do meu filho em dois. Nunca algo ardera tanto dentro de mim.
Corri na direção do carro quando vi Matteu de bruços no chão, ensangüentado.
Eu não o sentia respirar. Gritei socorro a todos, mas as pessoas só se aproximaram quando o carro começou a pegar fogo.
Tentei acordá-lo, mas ele não reagia. Pessoas tentavam me tirar de perto dele e do fogo. Mas não queria soltá-lo.
Pus a mão sobre a fita branca e a retirei da nuca.
Estava escrito "A vida muito curta para vivê-la em vão".
Gritei o máximo que pude, até sentir vários braços em minha volta e tudo ficar preto novamente. Desmaiei.
Matteu foi cremado e suas cinzas foram jogadas ao mar. Sinto falta dele, e às vezes penso em acabar com tudo. Mas não o faço porque ele não iria querer isso.
Ele me ensinou que a vida é curta demais para vivê-la em vão.
Levantei-me com o máximo de cuidado possível, troquei-me de roupa e fui até o banheiro, onde vira minha cara amassada e escovara os dentes. Fui silenciosamente até a cozinha e preparei um café, peguei meu maço de cigarros na sala e saí de casa, sem fazer barulho algum.
Assim minha mãe não acordaria.
Acordei com um barulho vindo da cozinha. Primeiramente pensei que Matteu estivesse com sede, não me importei.
Olhei pela janela e vi que o céu estava escuro e nublado, mas já havia amanhecido.
Sempre que vejo o céu nublado, lembro dos dias felizes que passamos nessa casa antes "dele" ir embora. Sinto tanta falta do meu marido, do meu amante, do pai do meu filho, que às vezes tenho vontade de acabar com tudo. Mas então Matteu me vem à cabeça, e decido continuar com tudo.
Quando liguei o carro, torci para que ela não notasse que barulho do motor vinha da nossa garagem. Acho ridículo ter que sair escondido, mas o que estou indo fazer ela nunca permitiria. Minha mãe diz ter aversão a "tatuagens".
Dirigi fumando um cigarro, esqueci minha mãe ou qualquer preocupação. O som do carro tocara minha música favorita e minha jaqueta vibrava a cada batida mais forte.
Ouvi um barulho de carro saindo da garagem. Quando meus pensamentos entraram em sintonia, levantei-me correndo e fui para o quarto de Matteu. A cama estava somente com o pijama largado em cima.
Corri para a sala com esperança de encontrá-lo e vi que a chave do carro não estava ao lado do cinzeiro e que o maço de cigarros não estava na mesa de centro. Naquele momento entendi onde Matteu fora.
Minha cabeça girou e lembrei que saí da cama muito rápido. Desmaiei.
Não teria muito sentido eu ir para o estúdio às sete da manhã. Dirigi horas sem rumo enquanto minha mãe tentava falar comigo pelo celular. Antes de desligá-lo vi o aviso de treze ligações perdidas.
No entanto, meu coração bateu forte e lembrei do meu pai.
Entrei onde a placa indicava "Retorno".
Quando despertei, minha cabeça doía e tive que deitar no sofá branco, mesmo sujando-o, para me acalmar.
Peguei o telefone e liguei diversas vezes para meu filho, até o celular indicar que estava desligado. Desisti.
Inclinei minha cabeça e me deparei com o porta-retratos em cima da mesinha, onde tinha uma foto de nós três. Eu abraçada à ele, ele abraçado ao Matteu.
Matteu, desde que cortou o cabelo castanho bem rente, está mais parecido com o pai. Os olhos cor de mel eram como os meus, mas a boca, o nariz e o sorriso eram "dele".
Comecei a chorar.
Parei o carro na frente do cemitério e exitei ao entrar. Cemitérios me deixavam atordoado, e imaginar que meu pai estava ali acabava comigo.
Antes de adentrar, comprei flores para pôr em sua lápide.
Quando criei coragem suficiente para entrar, caminhei olhando para os lados e avistei meu pai. Depositei as flores e lembrei de tudo. Comecei a chorar, saí correndo.
Voltei para o carro e me dirigi ao estúdio.
Peguei no sono abraçada ao porta-retratos e com o telefone na mão.
Não havia ninguém aguardando na minha frente, mas quando o tatuador saiu, uma moça linda o acompanhava. Não duvido que aquela fosse a mais bela mulher que já vira. Ela sorriu para mim e se despediu do tatuador. Seu sorriso pareceu quebrar tudo o que eu tinha por dentro.
E então ela saiu pela porta que entrei e o grandalhão careca me chamou. Era finalmente a minha vez.
Expliquei-lhe e ele entendeu tudo com facilidade. Fui de regata para ajudar no processo e quando terminou, ele fechou com um papel branco.
Minha nuca estava então desenhada.
Eu acordei quando o carro parou na frente de casa. Matteu vinha sorrindo e assobiando. Quando me viu sua cara fechou e se transformou numa máscara carrancuda.
"Matteu, diga que você não fez!", eu gritei.
Ele passou por mim sem dizer uma palavra. Segurei-o pelo braço, que apesar de forte, ainda era do meu filho.
"Matteu!", gritei ainda mais alto.
"O que foi?", ele disse com a voz abafada.
"Você fez uma tatuagem?", perguntei.
"Sim, senhora", e pôs a mão na testa, como em continência.
"Quem você pensa que é? Eu nunca autorizei isso, Matteu!", disse chacoalhando-o.
Ele retirou os braços da minha mão com força.
"Sinto muito, já está feita. Ah, aliás, o corpo é meu!", ele disse essa última parte gritando.
Bati-lhe a face.
"Enquanto morar na minha casa, você tem que obedecer o que eu digo", meu tom diminuiu.
"Ótimo, então vou embora!", ele abaixou o tom também.
Ele caminhou até o carro e ligou-o novamente.
"Adieu, mamãe", ele disse saindo com o carro.
Meu coração disparou quando ouvi.
Liguei o carro e saí olhando para o lado errado. Senti uma pressão em meu peito e um estrondo atravessou meus tímpanos.
Não vi mais nada, fechei os olhos.
Não sei o que senti quando vi aquele caminhão quebrando o carro do meu filho em dois. Nunca algo ardera tanto dentro de mim.
Corri na direção do carro quando vi Matteu de bruços no chão, ensangüentado.
Eu não o sentia respirar. Gritei socorro a todos, mas as pessoas só se aproximaram quando o carro começou a pegar fogo.
Tentei acordá-lo, mas ele não reagia. Pessoas tentavam me tirar de perto dele e do fogo. Mas não queria soltá-lo.
Pus a mão sobre a fita branca e a retirei da nuca.
Estava escrito "A vida muito curta para vivê-la em vão".
Gritei o máximo que pude, até sentir vários braços em minha volta e tudo ficar preto novamente. Desmaiei.
Matteu foi cremado e suas cinzas foram jogadas ao mar. Sinto falta dele, e às vezes penso em acabar com tudo. Mas não o faço porque ele não iria querer isso.
Ele me ensinou que a vida é curta demais para vivê-la em vão.
julho 03, 2010
Inorgânico
O porão era feito de madeira, com várias estantes cheias de livros e uma adega ao canto. E ela descia sempre que podia para ler um livro e beber uma taça de vinho.
Naquele dia ouviu um barulho de carro parando na frente de sua casa, subiu lentamente, caminhou em direção a porta e olhou, através do vidro, quem chegara.
Descalçou os chinelos e subiu para o quarto correndo. Abriu o armário e puxou uma camisa, enquanto habilmente desabotoava a calça jeans.
Já estava quase vestida quando ouviu os passos pela escada. No momento em que viu a sombra do motorista parando na frente da porta, ela se virou de costas.
"Fique aí, ainda não terminei de me vestir", ela gritou.
Um riso abafado atravessou a porta e a sombra parou atrás da parede.
Vestiu sua saia favorita e a arrumou com a camisa branca que gostava de usar, calçou seus tênis e saiu para o corredor, encarando frente a frente Benício. Ela sorriu envergonhada e o beijou a face.
"Desculpe, eu me distraí enquanto lia", ela disse timidamente.
Ele olhou a roupa que Marion usava e disse que ela estava realmente bela, enquanto a garota de cabelos castanhos enrubescia.
"Onde vamos hoje?", ela perguntou caminhando em direção a escada.
Rapidamente, Benício a pegou pela mão e começou a andar com ela.
"Estive pensando na praia", ele respondeu.
"É muito longe!", ela bufou.
"E você está com pressa?", ele finalizou a conversa.
Benício usava uma camiseta branca, bermuda e sapatos cáqui e os cabelos castanhos e lisos estavam em harmonia com a barba que recomeçara a nascer.
Eles desceram juntos e ele saiu pela porta dos fundos, a qual ele tinha a chave, enquanto ela saía pela porta da frente, que trancaria.
Quando Benício contornou a casa, Marion estava encostada no carro dele, usando óculos escuros e olhando para os lados.
Entraram no carro e fizeram uma longa viagem, parando somente uma vez para ela usar o banheiro. O rádio tocava sempre a mesma música. E sempre no mesmo trecho, os dois, como em coro, cantavam juntos.
"Ali está", ele disse.
Marion olhou em volta e viu a grande montanha, cheia de árvores. A praia logo embaixo e poucas pessoas caminhando pela orla. Ela havia percebido que estavam muito longe de casa, mas não imaginara o quanto até identificar o lugar.
"Você é louco!", ela disse sorrindo.
Ele estacionou o carro e os dois desceram. Marion andou até a areia e abriu os braços, sentindo o sol fraco fazer cócegas em sua pele. Até que Benício pôs as mãos em seu corpo e fez os pêlos se arrepiarem e se esquecerem do sol. Ela se virou e agarrou o pescoço dele, abraçando-o fortemente. Seus lábios se tocaram suavemente, como todas as vezes, e andaram de mãos dadas na direção do mar.
O mar estava calmo, suas ondas eram baixas e a água estava limpa. A areia estava limpa, o céu estava limpo, a alma de Marion estava limpa.
Deitaram-se na areia e Marion pôs a cabeça no tronco de Benício, fazendo um "T" humano. Ele acariciava o cabelo dela enquanto ela observava o movimento da água, que se aproximava do pé de Benício, mas não o suficiente para tocá-lo.
Conversaram sobre o sol e quando anoiteceu, sobre as estrelas. Imaginaram desenhos e histórias, ele a ouviu cantar e ela o admirou quando ele pegara no sono.
Faltando pouco tempo para o sol nascer, Benício acordou e delicadamente pegou-a no colo para não a despertar. Carregou-a até o carro e dirigiu de volta para casa.
Já era manhã quando o carro parou novamente na frente da casa. Ele a pegou no colo, mas ela acordou e decidiu não avisá-lo. Entraram pela porta dos fundos, ele carregou-a até a cama e despediu-se com um beijo na testa dela.
Marion voltou a dormir e Benício foi para sua casa, que ficava a alguns quilômetros dali.
Poucos dias se passaram e Marion já havia terminado o outro livro e começara um novo, da coleção de sua mãe. Quando se cansara, subiu com a taça de vinho para sua sala e ficou assistindo algum seriado que ela não acompanhava, mas que parecia a única coisa menos ruim na televisão.
Ouviu um barulho de carro e já sabia quem era. Descalçou os chinelos e subiu correndo, como um ritual, para o seu quarto. Trocou de roupa sem se importar com o tempo e ouviu, outra vez, os passos pela escada.
Faltava somente fechar o botão e o zíper de sua calça jeans do outro dia. Mas, sem pensar, Marion, para impedir que Benício a visse se trocando, foi de encontro a ele para mandar ele não entrar.
Quando percebeu, estavam um na frente do outro, ele ainda em um degrau da escada, com a cabeça na direção de seus ombros. Ela corou e ele sorriu. Olhando-a diretamente nos olhos, Benício pôs as mãos na calça dela, fechou o botão e subiu o zíper.
Beijou-lhe os lábios e disse um "Olá", quando ela o abraçou.
"Hoje é meu dia de decidir onde vamos?", ela perguntou.
"Não, hoje roubarei sua vez".
"Ótimo, estava sem idéia alguma. Qual sua sugestão?", disse ela aguardando resposta.
"Vamos ficar aqui", a voz dele estava tingida pela certeza.
Surpresa, ela aceitou.
Passaram o dia deitados no quarto dela, o amplo cômodo branco com detalhes vermelhos, escutando e cantando músicas.
Conversando sobre o sol e sobre as estrelas. Fazendo o jantar juntos. Bebendo vinho.
Dormindo abraçados, sem necessidade de libido algum.
Naquele dia ouviu um barulho de carro parando na frente de sua casa, subiu lentamente, caminhou em direção a porta e olhou, através do vidro, quem chegara.
Descalçou os chinelos e subiu para o quarto correndo. Abriu o armário e puxou uma camisa, enquanto habilmente desabotoava a calça jeans.
Já estava quase vestida quando ouviu os passos pela escada. No momento em que viu a sombra do motorista parando na frente da porta, ela se virou de costas.
"Fique aí, ainda não terminei de me vestir", ela gritou.
Um riso abafado atravessou a porta e a sombra parou atrás da parede.
Vestiu sua saia favorita e a arrumou com a camisa branca que gostava de usar, calçou seus tênis e saiu para o corredor, encarando frente a frente Benício. Ela sorriu envergonhada e o beijou a face.
"Desculpe, eu me distraí enquanto lia", ela disse timidamente.
Ele olhou a roupa que Marion usava e disse que ela estava realmente bela, enquanto a garota de cabelos castanhos enrubescia.
"Onde vamos hoje?", ela perguntou caminhando em direção a escada.
Rapidamente, Benício a pegou pela mão e começou a andar com ela.
"Estive pensando na praia", ele respondeu.
"É muito longe!", ela bufou.
"E você está com pressa?", ele finalizou a conversa.
Benício usava uma camiseta branca, bermuda e sapatos cáqui e os cabelos castanhos e lisos estavam em harmonia com a barba que recomeçara a nascer.
Eles desceram juntos e ele saiu pela porta dos fundos, a qual ele tinha a chave, enquanto ela saía pela porta da frente, que trancaria.
Quando Benício contornou a casa, Marion estava encostada no carro dele, usando óculos escuros e olhando para os lados.
Entraram no carro e fizeram uma longa viagem, parando somente uma vez para ela usar o banheiro. O rádio tocava sempre a mesma música. E sempre no mesmo trecho, os dois, como em coro, cantavam juntos.
"Ali está", ele disse.
Marion olhou em volta e viu a grande montanha, cheia de árvores. A praia logo embaixo e poucas pessoas caminhando pela orla. Ela havia percebido que estavam muito longe de casa, mas não imaginara o quanto até identificar o lugar.
"Você é louco!", ela disse sorrindo.
Ele estacionou o carro e os dois desceram. Marion andou até a areia e abriu os braços, sentindo o sol fraco fazer cócegas em sua pele. Até que Benício pôs as mãos em seu corpo e fez os pêlos se arrepiarem e se esquecerem do sol. Ela se virou e agarrou o pescoço dele, abraçando-o fortemente. Seus lábios se tocaram suavemente, como todas as vezes, e andaram de mãos dadas na direção do mar.
O mar estava calmo, suas ondas eram baixas e a água estava limpa. A areia estava limpa, o céu estava limpo, a alma de Marion estava limpa.
Deitaram-se na areia e Marion pôs a cabeça no tronco de Benício, fazendo um "T" humano. Ele acariciava o cabelo dela enquanto ela observava o movimento da água, que se aproximava do pé de Benício, mas não o suficiente para tocá-lo.
Conversaram sobre o sol e quando anoiteceu, sobre as estrelas. Imaginaram desenhos e histórias, ele a ouviu cantar e ela o admirou quando ele pegara no sono.
Faltando pouco tempo para o sol nascer, Benício acordou e delicadamente pegou-a no colo para não a despertar. Carregou-a até o carro e dirigiu de volta para casa.
Já era manhã quando o carro parou novamente na frente da casa. Ele a pegou no colo, mas ela acordou e decidiu não avisá-lo. Entraram pela porta dos fundos, ele carregou-a até a cama e despediu-se com um beijo na testa dela.
Marion voltou a dormir e Benício foi para sua casa, que ficava a alguns quilômetros dali.
Poucos dias se passaram e Marion já havia terminado o outro livro e começara um novo, da coleção de sua mãe. Quando se cansara, subiu com a taça de vinho para sua sala e ficou assistindo algum seriado que ela não acompanhava, mas que parecia a única coisa menos ruim na televisão.
Ouviu um barulho de carro e já sabia quem era. Descalçou os chinelos e subiu correndo, como um ritual, para o seu quarto. Trocou de roupa sem se importar com o tempo e ouviu, outra vez, os passos pela escada.
Faltava somente fechar o botão e o zíper de sua calça jeans do outro dia. Mas, sem pensar, Marion, para impedir que Benício a visse se trocando, foi de encontro a ele para mandar ele não entrar.
Quando percebeu, estavam um na frente do outro, ele ainda em um degrau da escada, com a cabeça na direção de seus ombros. Ela corou e ele sorriu. Olhando-a diretamente nos olhos, Benício pôs as mãos na calça dela, fechou o botão e subiu o zíper.
Beijou-lhe os lábios e disse um "Olá", quando ela o abraçou.
"Hoje é meu dia de decidir onde vamos?", ela perguntou.
"Não, hoje roubarei sua vez".
"Ótimo, estava sem idéia alguma. Qual sua sugestão?", disse ela aguardando resposta.
"Vamos ficar aqui", a voz dele estava tingida pela certeza.
Surpresa, ela aceitou.
Passaram o dia deitados no quarto dela, o amplo cômodo branco com detalhes vermelhos, escutando e cantando músicas.
Conversando sobre o sol e sobre as estrelas. Fazendo o jantar juntos. Bebendo vinho.
Dormindo abraçados, sem necessidade de libido algum.
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