Eu pensei em muitos meios de começar esta carta. Pensei em escrever "Querido Rocco", mas em voz alta soou clichê. Pensei em tentar com apenas um "Olá", ou talvez como eu gostava de chamar você, "Pequeno Grande Rocco". Se eu começasse esta carta com "Meu Rocco" pareceria que você ainda é meu - mesmo eu sentindo que sempre será -, ou se começasse com somente "Rocco" eu aumentaria o pequeno abismo que ainda insisto em tentar pular. Estamos longe de sermos meros desconhecidos ou colegas casuais, estamos longe de sermos amantes ou apaixonados. Nós só encontramos um no outro nós mesmos.
Você achará covardia de minha parte, e eu também acho covardia escrever tudo aqui e simplesmente enviar a você. Como se tudo fosse como uma folha nova de outono caída no chão, que meramente pisamos e a sujamos, mas passamos batido. No entanto, não haveria motivos para voltar, abaixar e limpar a folha. Como nós.
Eu gosto de contar e recontar como nos conhecemos. Você sempre acreditou em destino e eu em coincidências, mas não importa o que aconteceu aquele dia. Não agora.
Acredito que nunca contei a parte em que sonhara com você antes mesmo de nos encontrarmos fisicamente. Você não acreditaria. Eu gostei daquele primeiro dia em que você passou com seu cachorro na minha rua e eu ainda estava de pijama. Saí para pegar as correspondências e você me olhou. Você não olhou para minha camisola de seda, nem para meu decote. Você olhou em meus olhos. E aquilo que deve ter durado dois segundos, equivaleu a dois minutos para mim. Clichê, ponto.
Você sempre achou mais importante quando nos falamos, quando nos conhecemos de fato. Quando você estendeu a toalha para me secar. Talvez eu nunca mais me sinta protegida como aquele dia, quando chovia e aqueles dois homens me seguiram pela rua solitária. Quando você estava saindo de casa e reparou. O exato minuto em que me abraçou olhando para os homens e disse em tom audível que já estava saindo para se encontrar comigo, que sentira minha falta. Quando você me levou para dentro da sua casa, esperou que passassem e pegou uma toalha.
Você diz que se apaixonou por mim aí. Eu me apaixonei quando me abraçou.
Ficamos juntos a partir daquela chuva, ficamos juntos até eu achar que seria para sempre. Quando homens me seguirem novamente, vou esperar que você saia de alguma casa me abraçando, dizendo que sentiu minha falta.
Eu vou sentir sua falta. De quando você penteava o cabelo para trás e pedia para eu desarrumar. E sorrindo me abraçava. Dos dias em que eu inventava de sair na chuva e fingir que era uma desconhecida, para fazermos tudo novamente. Eu vou sentir falta de quando você deitava na minha barriga e se cobria até a cabeça com o cobertor para eu cuidar de você. Sentirei falta de quando você colocava minhas músicas favoritas e desenhava círculos em meu braço. Sentirei falta do dia em que nós fomos até a praça, durante a noite, para andar com um guarda-chuva quebrado - sendo que não chovia.
E eu ainda não entendi porque sinto isso, mas não posso mais. Eu sinto isso. Você uma vez me disse que ás vezes sentimos coisas que não entendemos, então espero que aceite isso bem. Não podemos mais.
Terei que lavar meus travesseiros para tirar seu cheio protetor dele, terei que queimar nossas fotos - mesmo querendo salvar aquela em que estamos no vento, você sorrindo e eu fingindo que chorava, terei que ir para casa sem passar na sua rua.
Você sabe que não sou ciumenta ou preocupada, que sou segura o suficiente. No entanto, você está estranho. Não é mais o mesmo. As pessoas sempre nos falaram que coisas assim aconteceriam, que esfriaríamos. E nós sempre dizíamos que não conosco. Agora eu me pergunto "Por que não conosco?".
Vou viajar. Decidi que tenho que ficar fora por um tempo. Para reencontrar a pessoa que eu era antes de você me salvar. Antes de acontecer a coisa mais linda da minha vida.
Eu amo você, e esse amor será para sempre, mesmo eu não o sentindo agora.
Um beijo, um abraço, um aconchego com seu cobertor, um guarda-chuva para noites quentes, o meu coração.
Boa noite.