julho 15, 2010

Tempo para sonhar

Chovia muito e o barulho da água caindo nas telhas era alto. Era noite e era impossível ver um pouco mais que nuvens cobrindo a lua e as estrelas. Cansada de esperar tanto, Adele deitou-se na cama de casal, segurando o travesseiro de seu marido que se atrasara mais uma vez, e pedia em silêncio "Oh, Deus, que ele não beba essa noite!".
Estando deitada, poucos minutos foram necessários para ela adormecer.
Abriu os olhos aos poucos e sentiu braços envolvendo seu corpo. Não pôde deixar de sorrir.
O homem que a segurava pôs a boca em sua orelha e sussurrou "Feliz aniversário, minha amada". Adele, ainda de costas, segurou firme a mão dele em resposta.
- Obrigada! E que bom que você está assim.. Bem - disse ela se virando e deparando com um homem completamente diferente daquele que ela esperara que fosse.
Ela se afastou com rapidez do homem e levantou-se carregando o lençol cobrindo seu corpo. Ele continuou deitado, usava somente uma calça de pijama, era alto, um pouco grisalho e seus olhos eram azuis. Seu sorriso era hipnotizante.
- Você pode me dizer quem é? - Adele gritava.
- Isso de novo, Adele?!
- Ah, é claro que você sabe meu nome! Seu pervertido, quem é você? - ela estava ficando agressiva.
Ele se levantou calmamente, ajustou a calça na altura dos quadris e contornou a cama para encontrar Adele.
- Meu nome é Sebastian, Adele, pela milionésima vez! - ele respondeu se aproximando.
Adele pensou em pegar o abajur e se virou na direção do criado mudo. Pegando-o na mão, o abajur esbarrou no porta-retratos que caiu no chão e quebrou.
- Que droga! Viu o que você fez? - ela disse enquanto abaixava e ao mesmo tempo encarava o intruso.
O abajur estalou no chão quando ela olhou quem estava na foto. Era ela e Marcus, seu marido, em sua lua-de-mel.
- Onde está o meu marido? - ela se sentou na cama, seu corpo entrando em inércia.
- Eu sou seu marido - ele respondeu.
Sebastian sentou ao lado de Adele, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - Sebastian disse beijando-a.
A música favorita de Adele começou a tocar em sua cabeça, e aquele beijo era diferente de todos. Não parecia nada com o beijo com gosto de cerveja do Marcus. Adele se entregou, pôs as mãos na nuca de Sebastian e esqueceu de fazer mais perguntas.
- Você está linda hoje. Envelhecer faz tão bem a você. - Sebastian dizia isso enquanto deitava Adele novamente, para envolvê-la novamente.
Minutos passaram até que Adele rompesse o silêncio.
- Espero que você seja meu presente de aniversário, Sebastian. Espero que você seja real. Eu amo o Marcus, mas...
- Eu sei - Sebastian interrompeu -, mas ele faz você sofrer demais. Eu mesmo, que não tenho nenhum contato direto com ele, não suporto o que ele faz quando bebe. Você não sabe o quanto meu coração se parte ao vê-la padecer na mão dele.
Ela se voltou na direção de Sebastian e o olhou nos olhos.
- Você tem olhos tão bonitos.. - ela disse passando a mão sobre as pálpebras de Sebastian. - Mas como você me conhece? - seu tom de voz era delicado.
- Esqueça isso, Adele. Só pense que sou seu presente de aniversário.
Sebastian colocou suavemente a mão esquerda na coxa de Adele e a puxou sobre o seu corpo. Ela sorriu. Ele era tranqüilo, delicado, concentrado. Tudo o que Marcus era antes de aquilo acontecer.
- Não quero que você pense na sua filha essa noite - ele disse retirando a alça da camisola do ombro dela.
Ela encaixou seu rosto na omoplata dele e fechou os olhos. Ficou de olhos fechados o tempo todo. O máximo que Adele fazia era acariciar o cabelo de Sebastian.
- Sebastian - ela chamou depois que o silêncio dominou o quarto -, você dormiu? Não me deixe acordada e sozinha hoje.
- Estou acordado, mon chéri. Estava pensando em você e no Marcus... - virou-se para a direção dela e se apoiou pelo braço - Adele, você já disse que o acidente não foi culpa dele?
- Já, Sebastian! - ela ficou vermelha.
- Adele, diga-me a verdade, você realmente acredita que a culpa foi dele?
Ela respirou fundo e os olhos encheram-se de lágrimas.
- Não.
Sebastian a abraçou novamente.
- Você acha que ele bebeu naquela noite? - ele sussurrou.
- Sim. - as primeiras lágrimas de Adele começavam a cair.
- Mas não bebeu. Não foi culpa dele. Acredite em mim. - Sebastian dizia e passava o dedo para reter o choro dela. - Você precisa acreditar para libertá-lo disso. Libertar vocês dois.
Gotas de chuva começaram a cair no rosto de Adele. E ela acordou quando a porta da sala abriu e um barulho estrondoso atravessou os cômodos. Ela olhou pela janela, seus olhos rodearam o quarto e não via nenhum vestígio da passagem de Sebastian. Não havia nem cacos de vidro no carpete.
O barulho foi se aproximando, e ele gritava injúrias.
A porta do quarto abrira e Marcus adentrava o cômodo cantando parabéns. Seu tom era rude e ele substituiu o nome de sua esposa por ofensas.
Adele levantou e andou até ele, ainda vestia sua camisola. Em sua cabeça ecoava as últimas palavras de Sebastian.
- Marcus... - ela tentou.
Adele foi interrompida quando Marcus levantou a mão para ela e um tapa cortou o ar e os lábios da pequena sonhadora, que fora parar no chão.
Ela batera as costas no criado mudo e o porta-retratos caiu, deixando cacos de vidro espalhados pelo chão.
- Marcus! Marcus! - ela chorava - Não foi sua culpa, meu amor! Não foi sua culpa!
As palavras pareciam tê-lo irrompido.
Marcus sentou na cama e começou a chorar.
Longos minutos se passaram, até que ele deu a mão para Adele e a colocou na cama ao seu lado, passou a mão pela cintura dela e acariciou sua face.
- Feliz aniversário! - ele disse beijando-a.
O pouco de sangue se misturou no beijo, mas isso não mais importava.