novembro 21, 2011

O Maior Amor do Mundo

Incessantemente seus dedos raspavam a cobertura quase rasgada de couro sintético da poltrona do hotel. Seu filho, Alec, andava de um lado para o outro tentando resolver com a recepcionista o problema da reserva e qual quarto estaria disponível. Afinal, como Alec bradava, sua "mãe está na cadeira de rodas e depois de tantos quilômetros, precisa descansar". Sr. Edmundo de Mendonça rasgava a poltrona porque não podia ir por si só reclamar seus direitos.
Três quartos de hora, um ataque de tremedeira e duas pílulas depois, guiaram a família de Mendonça para seu quarto. Um quarto limpo, paredes brancas, com lençois novos na cama de casal, um vaso de flores e uma pequena televisão no teto. Com a ajuda de um camareiro, Alec retirara Sra. de Mendonça da cadeira e a deitara na cama. Seguindo sua bengala, Edmundo sozinho se deitou. E minutos depois, o casal já dormia.
Alec transferira as roupas da mala para o guarda roupas, abrira a janela para um pouco de brisa entrar e esperou, no saguão, que seus pais acordassem.
Enquanto dormia, Edmundo sonhara que a partir daquele dia, seria pouco o tempo que ficaria com sua esposa. Por isso, quando acordara, descera sozinho da cama, pegara uma cadeira e se sentara de frente para ela, que ainda dormia. Quando já havia decidido como a acordaria, seu filho entrara no quarto.
Ambos trocaram olhares que diziam "precisamos conversar". Depois de alguns minutos, Edmundo e Alec estavam no jardim do hotel, o pai dizendo ao filho coisas sobre o céu e a terra, a vida e a morte, e o filho segurando sua mão, limpando as lágrimas, dizendo que roupas faltavam e que teria que voltar para casa para buscar.
Uma semana depois, e Alec voltara com mais roupas. Seus pais dormiam quase o dia inteiro, e Sra. de Mendonça não tinha mais voz. Edmundo perdera completamente a noção do tempo, e pensara que desde o dia do jardim, só havia se passado algumas horas.
E assim os dias se passaram, Alec somente os visitava de domingo e nenhum de seus pais percebia que não era diariamente.
Uma noite, Edmundo acordou, aproximou-se do corpo da esposa, beijando-a até acordá-la. Dizia coisas enormes bem baixinho e a fazia rir sem voz.
Elefantes.
Planetas.
A Via-Látea.
O meu amor por você.
Pela manhã, Sra. de Mendonça não acordou. Horas depois, não acordara. Edmundo, no dia seguinte, sem entender que o tempo passara e que ela dormiria pra sempre, dizia ao filho que o amava, e agradecia pelo hotel maravilhoso. Pena que sua mãe não acorda logo para ir ao jardim.
No dia seguinte, Edmundo também se foi. Sentado no jardim, depois de decidir como acordaria sua esposa.