junho 17, 2010

Utopia

O sol ainda não tinha nascido, o quarto estava escuro. Antônio podia ouvir a respiração de sua esposa, que dormia de costas para o lado dele. Ele tirou o lençol cuidadosamente e saiu do colchão, pensando no quanto tentou convencer aquela bela moça de cabelos castanhos cacheados a comprar uma cama.
Andou pelo quarto e apagou três velas que ainda insistiam em queimar – ele ainda não se conformara de como esqueceu de pagar a conta. Foi até banheiro, escovou os dentes, deu alguns tapinhas no rosto na frente do espelho, tirou a calça que usava para dormir e vestiu uma calça jeans que usara no dia anterior. Voltou ao quarto, pegou uma camiseta e uma blusa de moletom no armário e as vestiu rapidamente. Pegou uma mochila que estava em cima de uma cadeira e voltou para o banheiro. Bagunçou o cabelo com as mãos, foi para a sala de estar. Calçou os sapatos que havia largado lá noite passada, pegou as chaves do carro que estavam jogadas no sofá e a chave da porta, que estava no porta-chaves que compraram na lua-de-mel.
Antônio passou pela porta e a trancou rapidamente. Andou alguns passos, mas deu meia volta. Voltou à porta, passou a mão para desembaçar a vidraça e olhou para o cômodo completamente bagunçado, lembrando-o da noite passada. Mesmo assim prosseguiu.
Tirou o carro da garagem, ligou-o e saiu da casa. Logo depois estava fora da rua, do bairro, quase fora da cidade. E o relógio marcava 4:32 da manhã.
Antônio dirigiu por mais alguns metros e chegou a um parque. Várias árvores cobriam o campo, as luzes da rua falhavam e depois de ultrapassar a pequena selva, ele viu quem esperava.
Uma sombra caminhava até ele, as luzes piscavam e por alguns momentos Antônio pôde ver os cachos louros. Reciprocamente se abraçaram. Beijaram-se.
"Que bom que você veio", disse ela, prendendo-se ao pescoço de Antônio.
Ele era um misto de sentimentos: felicidade, preocupação, liberdade, culpa.
"Eu disse que ficaria com você para sempre", ele respondera depois de beijá-la novamente.
"Quando disse que largaria tudo para ficar comigo, confesso que não acreditei, Antônio". Ela sorria tão sinceramente.
Ele não conseguia falar muito, afinal, não parava de pensar qual seria a reação de sua musa morena ao acordar e ver que ele não havia terminado com a outra, e sim com ela. Não era uma curiosidade má, mas uma expectativa de que ela não sofresse mais.
Antônio e sua nova mulher se dirigiram até o carro, viajaram horas a fio até chegar a uma nova cidade, onde ele trocou o celular e sacou todo o dinheiro da poupança que reservara.
No entanto, ainda não. Ainda eram 2:58, o sol não tinha nascido e Antônio ainda estava deitado ao lado de sua esposa, ouvindo-a respirar e pensando na conta de luz que não pagara.

junho 07, 2010

Arabesque

O salão de ballet era grande, com um espelho gigantesco que ocupava duas paredes enquanto as outras duas eram brancas. O assoalho era de madeira escura e com aparência de novo. A janela ficava na parede adjacente ao espelho e era feita da mesma escura da madeira que o piso. Logo abaixo da janela, do lado de fora, há uma placa com os dizeres "Desde 1953".
Emma tinha vinte e sete anos e estuda no Instituto França desde os nove. Seu cabelo é curto e ruivo ao natural, no nariz um pouco bruto para o rosto delicado há sardas. Terminara a faculdade de cinema e treinava ballet somente às sextas.
Era a terceira sexta-feira de janeiro, Emma acordou cedo e foi para o instituto. A professora chegou pouco tempo depois e abriu o salão para ela treinar sozinha, o momento que Emma mais gostava. Quando a aula começou, a professora baixinha de cabelos grisalhos apresentou o novo aluno: Fabrizzio.
Fabrizzio tinha dezenove anos e aquela seria sua primeira aula. Estava na faculdade de Astronomia há um ano e não planejava sua semana. Ele costumava chamar atenção por seus cabelos castanhos grandes e bagunçados, os olhos com um tom de verde discreto e os lábios, o superior um pouco maior que o inferior. Quando chegou ao instituto usava um lenço verde na cabeça, a cor favorita de Emma.
A primeira vez que o viu, Emma não percebeu que ele era tão novo. Justamente ela, a veterana, foi escolhida para mostrar-lhe as posições principais.
Emma fazia enquanto a professora repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque". Fabrizzio não tirava os olhos dos pés de Emma, curioso para entender. Emma, que sempre fora concentrada, estava com um pouco de dificuldade por ele estar a olhando tão atentamente. Ela pensava que ele estava observando-a como um todo, o rosto, os braços, os quadris, enquanto Fabrizzio somente olhava os pés.
A professora agradeceu e pediu para que Fabrizzio tentasse as mesmas posições. Fabrizzio olhou para o chão e sorriu - um sorriso que aparentava vergonha, mas que vinha dos lábios de um rapaz seguro. "Charmoso", pensou Emma, e também sorriu. Todas as outras sete meninas perceberam que ela sorrira por causa dele, pois todas as outras sete também sorriram. Entretanto, Emma fora a única que sorriu com os olhos fechados e que soltara um pequeno ruído.
Ele não a olhou, não olhara para as outras e não poderia dizer a cor da roupa da professora. Somente repetia "Plié, Demi-plié, Tandu, Arabesque".
Ao final da aula, as duas alunas mais corajosas foram falar com ele. Aproximaram-se e enquanto uma enrolava o cabelo com os dedos, a outra disse "Parabéns, você foi muito bem", inclinando os ombros na direção de Fabrizzio, que virando-se de costas disse um "Valeu" indiferente e pegou um fone de ouvido que vinha do bolso da blusa que acabara de vestir.
Naquela sexta-feira, Fabrizzio e Emma demoraram quase o mesmo tempo para sair do Instituto. Quando passaram pela porta, esbarraram-se e ela sorriu, da mesma forma que antes. Ele respondeu com o mesmo sorriso de antes e indicou que ela fosse à frente.
Saíram do prédio juntos e caminharam separados o mesmo trecho. Emma caminhava um pouco mais à frente e parou na frente de uma motocicleta. Tirou do bolso da jaqueta uma chave e colocou o capacete. Fabrizzio pensou em passar reto, mas voltou.
"É Emma, não é?", Fabrizzio disse aproximando-se da moto.
"Sim", ela respondeu colocando o pé no acelerador.
"Você dança muito bem", ele disse. "Você se importaria de me auxiliar fora do instituto também?"
Ele sorriu e olhou para baixo. Emma não controlou o riso e aceitou a proposta.
Passaram-se alguns meses de sextas-feiras de aula no Instituto França e algumas aulas particulares. Emma estava apaixonada, Fabrizzio era ágil e interessado, aprendia rápido. Com o tempo, o belo rapaz demonstrou não somente interesse pelo ballet quanto pela bailarina.
O primeiro beijo foi ardente e na quarta aula particular. Na aula seguinte, Fabrizzio sugeriu que ela dançasse para ele o máximo que sabia. Quando Emma caiu exausta no chão, ele a pegou no colo, subiu as escadas da pequena casa dela e levou-a para o quarto. A ardência se espalhou pelo corpo todo e foi de um jeito que surpreendeu os dois. Nem Kubrick conseguiria retratar tanta ousadia e sintonia, nem Sirius brilharia mais. Dançavam ballet, amavam-se, violavam-se.
Formaram arabescos na cama e um no outro.

junho 05, 2010

Sem suposições

Acabei de sair do banho, estava me vestindo quando de repente estava na sala, somente de calças jeans, tênis sujos e cabelos molhados, lutando com o tapete para não escorregar e chegar ao telefone a tempo. Sentei-me no braço do sofá individual e peguei, com as mãos falseando, o telefone.
- Alô?
Desequilibrei-me e o telefone caiu.
- Alô? - repeti, pegando-o desesperadamente.
- Oi - respondeu-me ela, com a voz entrecortada.
Ela, Beni, nunca fez-me esquecê-la. Nunca.
Desde o início em que ela gostava de mim, em que insistia em uma amizade na qual ela sofria. Eu nunca saberia o quão duro foi para ela se eu mesmo não tivesse passado por isso.
É difícil acreditar que aquela garotinha, seis anos mais nova que eu, com cabelos castanhos bagunçados, olhos azuis desesperados e rosto de criança se tornaria a mulher que está do outro lado da linha, a mulher que eu amo.
No início não me dava conta de que aquilo que ela sentia por mim era sério. Não imaginava que garotas de onze anos poderiam se apaixonar por homens mais velhos. E além de tudo, não conseguia vê-la como uma mulher; não tenho um Humbert Humbert retraído dentro de mim.
Talvez ela tenha passado por aqueles estágios do amor por minha culpa. O estágio do amor cego deve ter sido no início, quando eu era sorridente, bonito e minhas ações eram completamente coniventes. O estágio do ciúmes, quando ela começou a notar que eu não era dela. O estágio da raiva, onde eu era culpado por tudo que dava errado na vida dela. E o último estágio, o do amor limpo, que ela me amaria de qualquer jeito, sem ilusão e sem raiva.
Nós conversávamos muito, mas nos encontrávamos somente uma ou duas vezes por semana, no máximo. Alguns rapazes da minha idade aproveitariam-se da situação quando soubessem que o que ela sentia era verdadeiro.
Nunca saímos juntos. Mesmo quando ela cresceu mais um pouco. Não me lembro muito bem, mas nos vimos com frequência até os treze anos dela. Não sei o que houve depois, mas aos poucos ela se afastou, eu me afastei. Cheguei à ir a casa dela algumas vezes, para não ficar no ar uma posição ausente de minha parte. Às vezes eu penso que a visitava porque estava começando a sentir algo por aquela menina-moça de rosto de criança. Até aquele dia.
Eu estava com vinte e dois anos e ela com dezesseis. O cabelo dela estava longo, os olhos azuis discretos e o rosto que nunca mudara. Usava um vestido vermelho, simples, mas com uma jaqueta por cima, um tênis desamarrado, vários anéis na mão e óculos escuros. Fazia dois anos ou mais que não a visitava. Cheguei a vê-la poucas vezes de longe, com o mesmo aceno de sempre.
No entanto, aquele dia foi diferente. Quando ela abaixou os óculos e caminhou até mim, calmamente, fiquei em estado de choque. O cabelo continuava bagunçado, os olhos - de um azul nervoso, passaram para um azul claro, brando. Paramos frente à frente, ela sorriu e disse um "oi" suave com a voz que eu nunca mais esqueceria. Enfim ela se tornara uma mulher.
Naquele mesmo dia saímos. Ela não me olhava com o olhar suplicante de garota apaixonada, mas como se ela realmente tivesse crescido e descoberto que ela era uma criança. No entanto, eu nunca fora um observador nato; sempre errara minhas suposições.
Não me lembro qual filme assistimos, mas o sorvete que Beni pediu foi o de iogurte com limão e ela não parava de rir. Nós estávamos crescidos, finalmente poderíamos pensar sobre coisas parecidas sem ela se passar por Dolores Haze.
Hoje, quando me lembro daquele dia vejo que foi aí que troquei de papel com ela.
Pela personalidade que ela sempre teve, deve ter sido tremendamente recompensador se vingar. Não que ela queria isso, mas foi o que aconteceu.
Afinal, saímos novamente. Eu disse que tinha algo para contar, e Beni disse o mesmo. Preferi que ela falasse primeiro. Foi quando ouvi "Estou doente, Enzo".
Minha cabeça girou.
Quando eu disse o que ela sempre quis ouvir, Beni começou a chorar. Só disse que essa era a parte boa, saber que nunca foi em vão. Abraçamo-nos e ficamos na companhia um do outro. Falamos poucas vezes sobre isso, além da nossa promessa.
Beni me prometeu que ligaria e diria "Sentirei sua falta" para se despedir. E eu prometi que nunca a visitaria no hospital.
E toda vez que ela vai para o hospital, eu fico desesperado sempre que o telefone toca. Essa semana ela foi internada. Toda nossa história que nunca aconteceu passou pela minha cabeça enquanto esperava ela dizer alguma coisa pelo telefone.
Sentei-me no sofá e encostei a cabeça, pesando, segurando as lágrimas. O silêncio doía. Sua respiração não estava boa, o silêncio me fez entender que ela diria "Sentirei sua falta".
- Enzo, - ela disse baixinho.
Eu repetia o mesmo "não, não, não" sem parar.
- Enzo, ainda não foi dessa vez. - ela completou.
Meu choro triplicou. Pude sentir que ela ria enquanto eu chorava.
- Sairei hoje do hospital. Enquanto você chora eu estou esperando um convite para sair. Esperei muito tempo por um primeiro beijo. - ela disse.
- Amanhã - eu respondi aliviado - passo na sua casa. Meu Deus, Beni, eu amo tanto você!
O silêncio voltou. Minhas últimas palavras foram rindo.
- Eu também, Enzo, você não sabe o quanto. - ela respondeu chorando.
Afinal, acho que vou parar de fazer suposições.