Ainda me surpreendo com o que ela faz comigo.
Hoje encontrei no fundo da caixa de correio um carta molhada - chovera muito noite passada. Não sei há quanto tempo ela estava ali, no cantinho, imperceptível. Inúmeras vezes eu peguei contas de telefone, de energia e anúncios de pizzarias sem nunca avistar o pequeno envelope.
Somente o encontrei quando eu realmente precisava. Às vezes a vida é assim.
Meu pai falecera no início deste ano. Passou uns tempos no hospital e eu o visitava sempre que podia. Depois decidimos que era melhor ele ficar em casa. Na verdade, foi o melhor mesmo.
Ele não sofreu muito, pelo menos não dizia. Passava o dia de mãos dadas com minha mãe, que não largou sua mão nem quando quando ele jogara o copo de água no chão, levantara-se bruscamente da cama e tentou sair andando pelos corredores do hospital gritando com a enfermeira "imbecil" que havia raspado sua barba. Agora viraria chacota no encontro de motociclistas. Ela não poupara nem o bigode.
Quando minha mãe me ligou, ela chorava baixinho, discretamente. Disse que o senhor Dante morrera abraçado a ela.
Meu pai nunca deixou que o separassem de minha mãe. Até na hora de sua morte queria estar ali, abraçado a ela, esperando o que quer que fosse lhe buscar.
Um mês após sr. Dante partir, ela, a mulher que transformou minha vida, resolveu voltar.
Encontrei Manuela casualmente. Eu estava em um restaurante esperando uma outra mulher, quando ela entrou. Seu cabelo castanho claro estava na altura do busto, penteado de lado - de um jeito que nunca a vira usando -, com as pontas mais claras do que o natural. Sua maquiagem era leve, mas todos a olhavam pelo batom estonteante que usava. A cor vermelha parecia ter sido criada justamente para ela. Não havia a visto. Mas quando se tratava de Manuela, isso era impossível.
Desde que ela se fora de minha vida, desde que eu dissera coisas estúpidas, desde que tudo aos poucos nos distanciou, eu pensava que não era apaixonado por ela como sempre pensei. Depois de uma traição, ninguém pensa. Procurei esquecê-la aos poucos. E enganei-me por muito tempo achando que havia conseguido.
Contudo, quando ela colocara sua mão em meu ombro e eu pude sentir o perfume dela, não tive dúvidas. Eu seria um bobo apaixonado por ela para sempre.
Manuela era linda. E não pude deixar de dizer isto a ela. Ela ficou ruborizada e me abraçou. Disse que sentia muito pelo meu pai.
Eu quis dizer que sentia muito a falta dela, mas não. Não quis começar tudo novamente. E assim ela se despediu, sentou a algumas mesas à minha frente e às vezes sorria na minha direção.
Não esperei a moça aquele dia. Tive de ir embora. Quem sabe eu tenha passado pelo homem de sorte que encontraria Manuela naquela noite na porta do restaurante. Quem sabe.
Em casa eu chorei. A única coisa que pude fazer. Era verdade, eu precisava tirar de dentro de mim toda a ilusão que eu não a queria, não precisava mais dela. Senti como se fosse explodir.
E então, do começo do ano até novembro, segui minha vida normalmente. Lembrava dela sempre que podia e meu coração esquentava, sentia um aconchego, quase um cafuné.
Uma vez arrisquei ligar para ela. Estava no trabalho.
Convidei-a para sair. Ela aceitou, mas não apareceu.
E aquela sensação adolescente de montanha russa voltou. Eu pensava que ela não gostava de mim, ou de repente, sim, gostava.
Até o dia em que encontrei uma carta dela na caixa de correio. Hoje.
Manuela, sete anos mais nova que eu, surpreendia-me com sua jovialidade. Mandara-me uma carta dizendo que queria se casar comigo.
"Não adianta querer esquecer você, Jorge. Pelo amor de Deus, tente entender que eu sou completamente apaixonada por você. Que eu sempre fui relapsa porque eu não entendia o que você fazia comigo. Nunca fui de entender sentimentos, você sabe".
Ela nunca me entendera. Acredito que nós nunca nos entendemos.
"Toda noite eu penso em você. Outro dia tive a esperança de ser uma mensagem sua no meu celular. E não era".
Não, não era. Mas eu queria.
"E agora você é velho demais para mim, ou eu sou nova demais, mas sei que você tem que passar o resto dos seus dias comigo. Não! Isso soou prepotente. Eu tenho que passar o resto dos meus dias com você".
Desde que a carta chegara, sem endereço, sem assinatura, toda molhada, eu já a lera umas trinta vezes. Cada vez tentando achar mais mensagens nas entrelinhas.
"E eu perdôo você. Não me importa mais que tenha me traído. Todos esses anos eu quis me vingar, mas você não saía da minha cabeça. E é assim que eu fico agora. Totalmente entregue a você".
Veio tudo de uma vez. Eu não esperava, não. Nunca me passou pela cabeça que ela diria tudo o que eu queria, tudo que desejava. Eu pensava que ela passara a me desprezar, evitar. Mas não.
"Eu não dormi essa noite. Só quero dormir se for ao seu lado".
Ao final mandou "um beijo, um abraço, outro beijo, Manuela".
Mas eu ainda me surpreendo com o que ela faz comigo.
Sua jovialidade dilacera meu coração.
Quando abri a carta pela manhã, depois de lera várias vezes, derrubei-a no chão. O lado avesso estava escrito "Vá se ferrar, Jorge".
No entanto, não a culpo de nada.
abril 25, 2011
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