Acabei de sair do banho, estava me vestindo quando de repente estava na sala, somente de calças jeans, tênis sujos e cabelos molhados, lutando com o tapete para não escorregar e chegar ao telefone a tempo. Sentei-me no braço do sofá individual e peguei, com as mãos falseando, o telefone.
- Alô?
Desequilibrei-me e o telefone caiu.
- Alô? - repeti, pegando-o desesperadamente.
- Oi - respondeu-me ela, com a voz entrecortada.
Ela, Beni, nunca fez-me esquecê-la. Nunca.
Desde o início em que ela gostava de mim, em que insistia em uma amizade na qual ela sofria. Eu nunca saberia o quão duro foi para ela se eu mesmo não tivesse passado por isso.
É difícil acreditar que aquela garotinha, seis anos mais nova que eu, com cabelos castanhos bagunçados, olhos azuis desesperados e rosto de criança se tornaria a mulher que está do outro lado da linha, a mulher que eu amo.
No início não me dava conta de que aquilo que ela sentia por mim era sério. Não imaginava que garotas de onze anos poderiam se apaixonar por homens mais velhos. E além de tudo, não conseguia vê-la como uma mulher; não tenho um Humbert Humbert retraído dentro de mim.
Talvez ela tenha passado por aqueles estágios do amor por minha culpa. O estágio do amor cego deve ter sido no início, quando eu era sorridente, bonito e minhas ações eram completamente coniventes. O estágio do ciúmes, quando ela começou a notar que eu não era dela. O estágio da raiva, onde eu era culpado por tudo que dava errado na vida dela. E o último estágio, o do amor limpo, que ela me amaria de qualquer jeito, sem ilusão e sem raiva.
Nós conversávamos muito, mas nos encontrávamos somente uma ou duas vezes por semana, no máximo. Alguns rapazes da minha idade aproveitariam-se da situação quando soubessem que o que ela sentia era verdadeiro.
Nunca saímos juntos. Mesmo quando ela cresceu mais um pouco. Não me lembro muito bem, mas nos vimos com frequência até os treze anos dela. Não sei o que houve depois, mas aos poucos ela se afastou, eu me afastei. Cheguei à ir a casa dela algumas vezes, para não ficar no ar uma posição ausente de minha parte. Às vezes eu penso que a visitava porque estava começando a sentir algo por aquela menina-moça de rosto de criança. Até aquele dia.
Eu estava com vinte e dois anos e ela com dezesseis. O cabelo dela estava longo, os olhos azuis discretos e o rosto que nunca mudara. Usava um vestido vermelho, simples, mas com uma jaqueta por cima, um tênis desamarrado, vários anéis na mão e óculos escuros. Fazia dois anos ou mais que não a visitava. Cheguei a vê-la poucas vezes de longe, com o mesmo aceno de sempre.
No entanto, aquele dia foi diferente. Quando ela abaixou os óculos e caminhou até mim, calmamente, fiquei em estado de choque. O cabelo continuava bagunçado, os olhos - de um azul nervoso, passaram para um azul claro, brando. Paramos frente à frente, ela sorriu e disse um "oi" suave com a voz que eu nunca mais esqueceria. Enfim ela se tornara uma mulher.
Naquele mesmo dia saímos. Ela não me olhava com o olhar suplicante de garota apaixonada, mas como se ela realmente tivesse crescido e descoberto que ela era uma criança. No entanto, eu nunca fora um observador nato; sempre errara minhas suposições.
Não me lembro qual filme assistimos, mas o sorvete que Beni pediu foi o de iogurte com limão e ela não parava de rir. Nós estávamos crescidos, finalmente poderíamos pensar sobre coisas parecidas sem ela se passar por Dolores Haze.
Hoje, quando me lembro daquele dia vejo que foi aí que troquei de papel com ela.
Pela personalidade que ela sempre teve, deve ter sido tremendamente recompensador se vingar. Não que ela queria isso, mas foi o que aconteceu.
Afinal, saímos novamente. Eu disse que tinha algo para contar, e Beni disse o mesmo. Preferi que ela falasse primeiro. Foi quando ouvi "Estou doente, Enzo".
Minha cabeça girou.
Quando eu disse o que ela sempre quis ouvir, Beni começou a chorar. Só disse que essa era a parte boa, saber que nunca foi em vão. Abraçamo-nos e ficamos na companhia um do outro. Falamos poucas vezes sobre isso, além da nossa promessa.
Beni me prometeu que ligaria e diria "Sentirei sua falta" para se despedir. E eu prometi que nunca a visitaria no hospital.
E toda vez que ela vai para o hospital, eu fico desesperado sempre que o telefone toca. Essa semana ela foi internada. Toda nossa história que nunca aconteceu passou pela minha cabeça enquanto esperava ela dizer alguma coisa pelo telefone.
Sentei-me no sofá e encostei a cabeça, pesando, segurando as lágrimas. O silêncio doía. Sua respiração não estava boa, o silêncio me fez entender que ela diria "Sentirei sua falta".
- Enzo, - ela disse baixinho.
Eu repetia o mesmo "não, não, não" sem parar.
- Enzo, ainda não foi dessa vez. - ela completou.
Meu choro triplicou. Pude sentir que ela ria enquanto eu chorava.
- Sairei hoje do hospital. Enquanto você chora eu estou esperando um convite para sair. Esperei muito tempo por um primeiro beijo. - ela disse.
- Amanhã - eu respondi aliviado - passo na sua casa. Meu Deus, Beni, eu amo tanto você!
O silêncio voltou. Minhas últimas palavras foram rindo.
- Eu também, Enzo, você não sabe o quanto. - ela respondeu chorando.
Afinal, acho que vou parar de fazer suposições.