abril 19, 2010

Vinho

O vinho estava delicioso esta noite. Aliás, o jantar estava ótimo. Foi uma daquelas noites que tanto gosto e que sei como irá acabar.
Quantas taças tomamos afinal? Bom, isso realmente não importa. Temos muito o que fazer e muito com o que nos divertir.
Otávio se levantou da mesa e caminhou até mim. Curvou-se e cheirou meu pescoço.
"Você consegue me deixar mais excitado que qualquer vinho nesse mundo, Alícia."
Eu o segurei pelo pescoço e aproveitei para passar a mão pelos fios macios do cabelo castanho dele. Nós nos beijamos; pude até sentir o gosto do vinho seco que tomamos.
"Vamos." Eu o chamei. "Quero ver o quão longe iremos hoje."
"Humm." Seu ar de sugestão ficou no ar. "Iremos muito longe."
"Hummm." E me agarrei no seu pescoço enquanto ele me içava.
Subimos a escada. Enquanto ele fingia que eu era leve como uma pluma, eu carregava a garrafa de vinho tinto. Chegamos ao quarto e ele me pôs no chão. Foi até as velas e acendeu uma a uma. Caminhei até a bancada, enchi dois copos de vinho e me virei para servi-lo..
"Alícia, agora eu só quero me embebedar com o seu corpo." Disse Otávio, mexendo na alça do meu vestido.
"Não precisa repetir." Eu disse empurrando Otávio em direção a cama. Um pouco de vinho caiu nos travesseiros, mas isso só nos animou mais.
Tirei meu vestido aos poucos e Otávio tentava se controlar para só assistir. Como eu adoro o sorriso que ele abre quando estamos nesse momento.
Por fim, ele não se controlou. Levantou-se da cama e me puxou com desespero e delicadeza - que só ele sabe como fazer.
Eu subi em cima do tronco dele e apoiei minhas pernas ao lado de sua cabeça. Ele começou a acariciá-las com o mesmo desespero com que me puxou.
"Você quer ficar por cima?" Otávio me perguntou com o tom que usa para perguntar a marca de azeite que vou preferir.
"Quero brincar."
"Humm, não precisa repetir." E puxou meus cabelos até que meu rosto ficasse encostado no dele.
Enquanto eu passava meu rosto pelo rosto dele em um movimento carinhoso, Otávio pôs as mãos dentro do meu sutiã.
"Adoro quando você escolhe esse conjunto preto." E o abriu de vez.
"Eu sei." Sussurrei.
Otávio arrancou os lençóis da cama e jogou os travesseiros longe. Nosso momento foi tão intenso que sinto a mesma coisa só quando penso.
Nós nos unimos perfeitamente. O corpo dele foi feito para encaixar no meu, enfim.
Depois que amanheceu, minha lingerie preta estava jogada no chão ao nosso lado. Como viemos parar no chão? Bom, isso realmente não importa.
Curvei-me sobre Otávio enquanto ele dormia e sussurrei "Eu amo você, querido."
Levantei-me e fui até a bancada tomar um pouco de vinho.
Otávio levantou a cabeça e encostou na mão.
"Pode me trazer um pouco de vinho? Aliás, também amo você."
O vinho estava delicioso esta manhã.

abril 14, 2010

Ainda bem que conversamos

"Desculpe, desculpe". Eu disse. "Eu não sei o que aconteceu. Desculpe, não deveria ter feito você..." Respirei. "...você ouvir tudo isso. Desculpe."
Você me olhou e sorriu. Se soubesse o quanto eu gosto desse sorriso.
"Desculpe." Fiquei repetindo como uma idiota.
Você se sentou no banco e me puxou pelo braço. Até para movimentos simples como esse eu percebia a delicadeza do seu toque. Engraçado que você mexeu nos bolsos - confesso que tive pequenas esperanças - e tirou um lenço.
"Você tem um lenço?" Tive que rir. "Isso até parece cena de filme."
Você estava sério. Não riu.
"Bom. Eu não sei o que dizer."
Eu queria sair correndo daquele banco. Queria acabar com essa idiotice.
"Eu sei, não tem. Acho que nunca tive esperanças que dissesse algo, mas eu queria tentar." Meus olhos coçavam. Acho que eram as lágrimas.
Você era alto, tinha cabelos lisos e castanhos, olhos verdes, o físico normal para alguém da sua idade. E enquanto o olhava, imaginei como seriam nossos filhos.
"Vamos conversar, Alice. E por favor, não chore, assim você vai acabar comigo. Eu queria gostar de você. Queria gostar mais de você do que você gosta de mim."
Você pegou minha mão, apertou-a firme - pude sentir que a sua suava - e beijou o lado inferior na minha palma.
"Is.. Isso é uma completa idiotice." Puxei com tanta violência minha mão que acho que o assustei. "Não sei porque estou chorando. E daí que você não gosta de mim?!" Esfreguei meus olhos com força, de raiva. "Não é porque você não gosta que vou ficar aqui chorando como uma idiota. Aliás, sorte sua que não gosta. Teria que levar uma chorona para casa."
Você riu. E eu acho que nem tive a intenção. Na verdade, enquanto eu falava tudo aquilo, quase não percebi sua presença. Estava falando para mim. Para colocar na minha cabeça.
"Mas eu vou te levar para casa, Alice." Você colocou as mãos nos meus ombros. "Viemos no meu carro."
"Eu quero ir de ônibus." Disse.
"Pra quê? Vamos para casa juntos, a gente vai conversando. Você se distrai."
"Não." Meu tom de voz nunca tinha sido tão certo com você. "Eu quero me distrair sozinha."
"Tudo bem, então." Você passou as mãos nas têmporas. "E você está chateada comigo?"
"Por que haveria de estar?" Dei um sorriso sem um pingo de vontade de sorrir.
Você se calou. Eu não estava brava com você, Tarcísio. Estava brava comigo.
"Tarcísio, eu gosto muito de você." E o abracei.
"Eu também, Alice." Disse acariciando meus cabelos.
Tomei coragem e disse "Mas estou indo."
"Já? Vai, deixe eu te dar uma carona."
Levantei-me, peguei minha bolsa, bati nas suas pernas. Você riu de novo. E pela primeira e última vez, curvei-me e o dei um beijo. Foi tão rápido e nem pensei. Ah, Tarcísio, agradeço pelo que fez. Obrigada por pôr seus dedos embaixo dos meus cabelos e por me puxar para você.
Acabei me soltando de você uma hora ou outra e saí andando.
"Adeus, Tarcísio!" E fiz um aceno com a mão.
"Adeus? Nós ainda iremos nos ver." Engraçado o que você disse. É engraçado o que falamos sem saber se é verdade.
"Adeus."
Desci a rua, peguei um ônibus para o aeroporto. Fui-me embora, para nunca mais voltar.

abril 04, 2010

Au revoir

- Eu assumo o controle a partir daqui - disse Olívia, tirando o casaco.
- Você me deixa louco, menina.
- Fique quieto, Valentin - e o empurrou para a cama -, eu estou no controle, só eu falo.
Amaram-se loucamente, intensamente. Era sempre bom.
Por fim, Olívia se deitou com a cabeça nos pés da cama e apoiou sua perna no tronco forte de Valentin, que acariciava as coxas dela.
- Você não parece ter a idade que tem - disse por entre risos.
- E você adora falar sobre nossas idades - levantou-se, virou de posição e deitou a cabeça nas pernas dele.
- Mas você não acha que nove anos de diferença não é... - começou a brincar com os longos cachos ruivos dela - muito? Bem, não que seja os nove anos, mas você tem dezesseis e eu tenho vinte e cinco... Sabe, é um pouco...
- Cale a boca, isso não importa.
Olívia se levantou, deu um beijo nos ombros de Valentin e foi para o banheiro. Enquanto ela se trocava, Valentin parou na porta do banheiro e ficou observando-a, admirando seu corpo.
- Preciso ir... - completamente vestida.
- Mesmo? - fazendo uma expressão de piedade.
- Amanhã tem mais, mon amour.
Puxou-o pelo cabelo e o beijou. Loucamente, intensamente.
- Se você continuar assim eu me apaixono - disse com um ar de sugestão.
- Não - colocou o dedo na boca dele -, amor não. Está bom do jeito que estamos.
- Se você prefere... - disse sabendo que era uma batalha perdida.
- Venha, me dê outro beijo que já preciso ir.
Beijaram-se, loucamente, intensamente.
Olívia ajeitou sua calça jeans e amarrou o cadarço do tênis. Passou pela porta e soprou um beijinho.
- Au revoir, mon cher.
Valentin se jogou na cama e esperou que a cabeça parasse de girar.
- Au revoir! - soprou baixinho por entre os lábios.

abril 03, 2010

Ida

- Saiba que ficar longe de mim vai te deixar deprimida - alegou Oliver, convicto.
- É justamente por isso que não te aguento mais. E eu te prometo que não vou ficar deprimida - sorriu um sorriso cheio de sarcasmo, virou as costas e começou a andar.
- Eileen! Eileen, espere. Vamos conversar! - correu alguns passos.
Eileen parou, pôs as mãos na cintura e bufou. Enquanto Oliver se aproximava, ela se virou e o encarou. Ele, sem jeito, colocou a mão no rosto dela.
- Desculpe - ele piscou, completamente perdido -, vou ficar atordoado sem você. Já estou atordoado.
- O amor sempre deixa alguém deprimido. Aliás, ficar longe de mim vai te deixar deprimido - ela tirou a mão dele de seu rosto.
Oliver parou e tentou esconder as lágrimas.
- Mas eu realmente gosto de você - disse coçando os olhos -, eu tinha planos.
Eileen riu.
- Oliver, não sou mulher de planos. E afinal, se você gostava tanto de planejar o futuro, deveria ter planejado me tratar melhor, ser mais carinhoso. Mas saiba que ainda está em tempo - pôs as mãos no ombro dele -, você pode deixar de ser tão prepotente e perfeccionista. Dê chance aos outros de errarem, dê uma chance a você mesmo.
O silêncio bastou. O portão já estava aberto e as malas prontas. Eileen estava de tênis, jeans e camiseta branca. Oliver estava impecável, de sapato, cabelo arrumado para trás com gel e muito perfumado.
- Eu não te esqueci - assumiu Eileen -, só quero dar uma chance a mim. Quero te dar uma chance de arrumar uma pessoa certa o suficiente.
- Você é a pessoa certa para mim, Leen - pegou a mão dela.
- Não, não sou - apertou a mão dele carinhosamente e a soltou -. Até algum dia, tenho certeza de que ainda nos esbarraremos.
Eileen saiu, atravessou a rua no escuro e parecia aliviada. Se alguém a visse diria que ela voava. Oliver, no entanto, sentou no chão e se pôs a chorar.