julho 03, 2010

Inorgânico

O porão era feito de madeira, com várias estantes cheias de livros e uma adega ao canto. E ela descia sempre que podia para ler um livro e beber uma taça de vinho.
Naquele dia ouviu um barulho de carro parando na frente de sua casa, subiu lentamente, caminhou em direção a porta e olhou, através do vidro, quem chegara.
Descalçou os chinelos e subiu para o quarto correndo. Abriu o armário e puxou uma camisa, enquanto habilmente desabotoava a calça jeans.
Já estava quase vestida quando ouviu os passos pela escada. No momento em que viu a sombra do motorista parando na frente da porta, ela se virou de costas.
"Fique aí, ainda não terminei de me vestir", ela gritou.
Um riso abafado atravessou a porta e a sombra parou atrás da parede.
Vestiu sua saia favorita e a arrumou com a camisa branca que gostava de usar, calçou seus tênis e saiu para o corredor, encarando frente a frente Benício. Ela sorriu envergonhada e o beijou a face.
"Desculpe, eu me distraí enquanto lia", ela disse timidamente.
Ele olhou a roupa que Marion usava e disse que ela estava realmente bela, enquanto a garota de cabelos castanhos enrubescia.
"Onde vamos hoje?", ela perguntou caminhando em direção a escada.
Rapidamente, Benício a pegou pela mão e começou a andar com ela.
"Estive pensando na praia", ele respondeu.
"É muito longe!", ela bufou.
"E você está com pressa?", ele finalizou a conversa.
Benício usava uma camiseta branca, bermuda e sapatos cáqui e os cabelos castanhos e lisos estavam em harmonia com a barba que recomeçara a nascer.
Eles desceram juntos e ele saiu pela porta dos fundos, a qual ele tinha a chave, enquanto ela saía pela porta da frente, que trancaria.
Quando Benício contornou a casa, Marion estava encostada no carro dele, usando óculos escuros e olhando para os lados.
Entraram no carro e fizeram uma longa viagem, parando somente uma vez para ela usar o banheiro. O rádio tocava sempre a mesma música. E sempre no mesmo trecho, os dois, como em coro, cantavam juntos.
"Ali está", ele disse.
Marion olhou em volta e viu a grande montanha, cheia de árvores. A praia logo embaixo e poucas pessoas caminhando pela orla. Ela havia percebido que estavam muito longe de casa, mas não imaginara o quanto até identificar o lugar.
"Você é louco!", ela disse sorrindo.
Ele estacionou o carro e os dois desceram. Marion andou até a areia e abriu os braços, sentindo o sol fraco fazer cócegas em sua pele. Até que Benício pôs as mãos em seu corpo e fez os pêlos se arrepiarem e se esquecerem do sol. Ela se virou e agarrou o pescoço dele, abraçando-o fortemente. Seus lábios se tocaram suavemente, como todas as vezes, e andaram de mãos dadas na direção do mar.
O mar estava calmo, suas ondas eram baixas e a água estava limpa. A areia estava limpa, o céu estava limpo, a alma de Marion estava limpa.
Deitaram-se na areia e Marion pôs a cabeça no tronco de Benício, fazendo um "T" humano. Ele acariciava o cabelo dela enquanto ela observava o movimento da água, que se aproximava do pé de Benício, mas não o suficiente para tocá-lo.
Conversaram sobre o sol e quando anoiteceu, sobre as estrelas. Imaginaram desenhos e histórias, ele a ouviu cantar e ela o admirou quando ele pegara no sono.
Faltando pouco tempo para o sol nascer, Benício acordou e delicadamente pegou-a no colo para não a despertar. Carregou-a até o carro e dirigiu de volta para casa.
Já era manhã quando o carro parou novamente na frente da casa. Ele a pegou no colo, mas ela acordou e decidiu não avisá-lo. Entraram pela porta dos fundos, ele carregou-a até a cama e despediu-se com um beijo na testa dela.
Marion voltou a dormir e Benício foi para sua casa, que ficava a alguns quilômetros dali.
Poucos dias se passaram e Marion já havia terminado o outro livro e começara um novo, da coleção de sua mãe. Quando se cansara, subiu com a taça de vinho para sua sala e ficou assistindo algum seriado que ela não acompanhava, mas que parecia a única coisa menos ruim na televisão.
Ouviu um barulho de carro e já sabia quem era. Descalçou os chinelos e subiu correndo, como um ritual, para o seu quarto. Trocou de roupa sem se importar com o tempo e ouviu, outra vez, os passos pela escada.
Faltava somente fechar o botão e o zíper de sua calça jeans do outro dia. Mas, sem pensar, Marion, para impedir que Benício a visse se trocando, foi de encontro a ele para mandar ele não entrar.
Quando percebeu, estavam um na frente do outro, ele ainda em um degrau da escada, com a cabeça na direção de seus ombros. Ela corou e ele sorriu. Olhando-a diretamente nos olhos, Benício pôs as mãos na calça dela, fechou o botão e subiu o zíper.
Beijou-lhe os lábios e disse um "Olá", quando ela o abraçou.
"Hoje é meu dia de decidir onde vamos?", ela perguntou.
"Não, hoje roubarei sua vez".
"Ótimo, estava sem idéia alguma. Qual sua sugestão?", disse ela aguardando resposta.
"Vamos ficar aqui", a voz dele estava tingida pela certeza.
Surpresa, ela aceitou.
Passaram o dia deitados no quarto dela, o amplo cômodo branco com detalhes vermelhos, escutando e cantando músicas.
Conversando sobre o sol e sobre as estrelas. Fazendo o jantar juntos. Bebendo vinho.
Dormindo abraçados, sem necessidade de libido algum.