- Tó, se você não vier logo, aposto que seu pai comerá seu pão.
E eu o vi, com aquele macacão azul estrelado, descer do peitoril da janela e se juntar a nós. Chico lia o jornal esquerdista como fazia todas as manhãs: sem camisa, uma xícara de café à frente e um cigarro entre os dedos.
"Mãe, passa geleia no meu pão?" Isso é maionese, Chico. "Pai, passa maiasene no meu pão?".
Tó abaixou o jornal e as sardas que dominavam seus braços e peito ficaram mais em destaque ainda. Ele sorriu dizendo "é maionese, Tó. Como o mês em que você nasceu" e voltou a ler o jornal. Eu bebericava meu café quente olhando de soslaio Tó todo lambuzado e Chico sorrir com alguma frase do jornal, e que ao me ver, também sorriu.
"Já vou terminar de ler e te mostro, esta reportagem ficou incrível", e continuou a ler sorrindo.
Chico e eu não dividimos nada, compartilhamos tudo - desde contas bancárias a lembranças e opiniões. Tó, Chico e eu formamos o quebra cabeças da casa, cada um tinha sua característica estranha quando separados, mas juntos formamos uma imagem completa (e complexa como Chico costuma dizer).
- Tó, o que você tanto olha pela janela?
Com minha pergunta, Chico passou o jornal para mim e foi até a janela. "De novo esse casal, Tó?", exclamou o pai. "Mas pelo o que será que ele tanto se interessa?", perguntou o marido parando ao meu lado e fazendo carinho no meu pescoço.
"Pai, como você e minha mãe se conheceram?"
- De novo, Tó!
Chico riu, me beijou no topo da cabeça e contou novamente o que ele quase contava todas as manhãs. Eu comecei a ler a reportagem tão interessada, mas à medida que a história de Chico fluía, eu prestava atenção nos dois sentados no peitoril da janela. Desisti da leitura e fui me trocar.
Ao tempo de troca de duas roupas, Chico entrou no quarto também para se trocar.
"Não fique chateada".
Não tem como não ficar chateada. Todas as manhãs é preciso contar a mesma história da sua outra mulher e eu viro segundo plano. Eu também sou mãe.
- Mas eu estou chateada - eu disse chorando.
"Desculpe".
- Não tem como você dizer pra ele que já contou tudo que ele precisava saber? Pior do que ter que ouvir sobre a outra e saber que ele prefere a outra, a que foi embora, a que abandonou você. Não, - solucei - na verdade o pior é ouvir como a sua história com ela é mais interessante que a minha com você!
"Você não precisa ser a mais interessante, você é a minha".
- Mas eu quero ser a mais interessante pra ele e pra você - e desabei na cama a chorar.
"Olhe, desse jeito ele vai te ouvir e ele é muito pequeno pra entender que isso te afeta. Eu prometo que não falarei mais nela. Mas eu gosto é de você, eu amo é você, eu quero ficar velho e de mãos dadas como o casal da rua com você. Eu quero é você!".
De meu peito saiu todo aquele zinco e dei um beijo longo em Chico. Eu também o quero para sempre. E Tó também.
- Fique tranquilo, hoje eu o levo para o colégio - disse secando as lágrimas.
Deixei Chico no quarto, fui lavar o rosto e pegar uma maçã.
- Vamos, Tó! Você já está pronto?
E tão pequenino como sempre, ele já estava vestido, de dentes escovados e com o tênis que mais gostava. Ele se despediu do pai, deu-me a mão e entramos no elevador.
"Mãe", disse ele com o olhar rígido, "o certo era meu pai estar casado com minha verdadeira mãe. Não com você. Ele não gosta de você e muito menos eu".
Ainda atordoada, a porta do elevador abriu, ele me deu a mão e saiu a puxar, sorrindo para o porteiro. Eu olhava para Tó e não enxergava mais nada. Meus olhos estavam embaçados de lágrimas.
Chico não poderia ter tido um filho assim.
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