janeiro 16, 2012

Flor na Lapela

Mal dormi esta noite, virando de um lado para o outro e bebericando o máximo de água possível para não esvaziar o copo antes do amanhecer. Pierre respirava tão tranquilamente ao meu lado como se fosse um outro final de semana qualquer. Mas não era.
Quando acordei, percebi que dormira por apenas três quartos de hora e que ele não estava mais no quarto. Segui um barulho que vinha do banheiro e o encontrei lá, vestido para correr e olhando-se no espelho. Ele me beijou com pressa, e saiu dizendo que já deveria ter deixado o quarto todo para mim.
Sozinha, tomei banho e escovei meus dentes. Coloquei o vestido no carro e fui direto para um pequeno - mas muito aconchegante - salão. Passei quase o dia todo com o pescoço reclinado, recebendo elogios e sorrisos amarelos. O vestido veio até minhas mãos por alguém que eu nunca vira e simplesmente pegara a chave do meu carro. Quando saí de lá, o céu estava azul escuro e eu já não tinha noção se faltava pouco a chover ou para o casamento começar. Os grampos que seguravam a grinalda em meu cabelo estavam quase gritando, deixando-me ensandecida. E eu via pelo retrovisor que o batom vermelho fora tristemente substituído por um batom rosa claro.
Meu padrasto me levara de volta até em casa cobrindo-me de elogios. Mas eu mal ouvia. Eu estava nervosa, sentindo o meu coração do tamanho de uma mão fechada, martelar como se esmurrasse uma parede. Estava ofegante e pensava que logo tudo isso acabaria. Acabaria assim que eu o visse ali, na minha frente, com uma flor na lapela e sorrindo pra mim. Não teria mais nervosismo, nem problemas, nem dúvidas. Ele, meu primeiro namorado, meu primeiro amante, meu destino.
Uma espécie de transe tomou conta de mim no caminho de casa até a igreja. Não ouvia e não falava. O céu agora indicava que choveria, sim, e que estava na hora do casamento também. Relâmpagos e trovões diziam que a tempestade logo chegaria - para ir logo embora da minha vida.
Quando o carro parou a frente da igreja, meu padrasto desistira há tempos dos elogios e o silêncio dominava o carro. Assim que a porta foi aberta, senti que era possível um coração subir até a boca e sorri amarelo para os fotógrafos.
Falta pouco, Morena, logo mais isso tudo irá passar.
Subi as escadas pensando que estava prestes a acabar. Eu iria olhá-lo e uma paz iria me inundar, fazendo esquecer o salto, os grampos e todas aquelas pessoas. E ele sorriria pra mim, tranquilizando-me. Afinal, não era fácil pra ele também.
Finalmente, a grande porta de madeira foi aberta e eu vi todos os bancos, repletos de pessoas que sorriam. Mas eu não as via. Somente procurava no final do corredor, parado sorrindo, Pierre.
E assim, eu o vi, com seu lindo terno sem flor na lapela. A música começou e ele sorriu.
Meu nervosismo aumentou. Meu coração incomodava minhas costelas, e os grampos em meu cabelo começaram a gritar. O medo me dominou de vez.
E então pensei rapidamente em todos os livros que me prometeram que esse medo acabaria ao vê-lo. Sim, fui enganada.
Ali, da ponta do tapete, vi que não deveria estar sentindo medo.
Ou não deveria estar me casando.