novembro 02, 2012

Periélio

Gaspar caminhava com os passos lentos, envergonhados, sem saber se fazia o correto. Estava num lugar estranho e repleto de pessoas desconhecidas, e o medo de que estas o vissem era quase maior do que o prazer de finalmente estar ali. Tantas mesas, tantas estantes, tantas pessoas, tanto silêncio!
Respirou fundo e achou uma cadeira vaga. Mesmo sendo de madeira, parecia o móvel mais confortável em que Gaspar havia sentado em anos. Pensou em toda a luta pela qual ele passara. O ano inteiro de batalhas, com conquistas e derrotas. Pensou em sua esposa, que o desencorajara tantas vezes. Isso é coisa pra gente nova, Gaspar, você já tá véio. Pensou em sua mãe, que estava já tão longe, mas que sentiria um orgulho imenso dele. Pensou em seus filhos, em seus colegas de trabalho, em seus amigos de infância. O curto espaço de tempo em que ali ficou, relembrou o que parecia ser sua vida inteira. Não iria desistir.
Levantou-se, deixou sobre a cadeira sua humilde mochila, encaminhou-se para um grande balcão onde atrás estava uma mocinha tão nova que poderia ser sua filha. Por alguns minutos, ela não o viu. Quando levantou os olhos do livro que lia, sorriu pedindo desculpas.
- Em que posso ajudá-lo? - perguntou enquanto mascava seu chiclete.
Suas mãos tremiam. Mal sabia o que dizer.
Retirou do bolso o papelzinho amassado onde escrevera o nome do autor e pôs sobre o balcão.
- A senhorita tem, assim, por um acaso, um livro desse moço?
No papel, com a letra torta e incerta, o nome de um poeta. A ortografia estava incorreta, mas era fácil saber qual era o autor. Ela informou à Gaspar que ali tinham muitos livros dele, principalmente na sessão D. 
Aquelas estantes ali, à direita. A senhorita pode pegar um pra mim? Bom, senhor, eu não posso sair do balcão. Ele abaixou os olhos e sorriu. É fácil, eu consigo.
Na sessão D, eram tantos livros que ele não sabia por onde começar. Jovens escolhiam os seus e saíam. Ele não entendia todas as letras. Confundia os autores com os títulos, os nomes, as sílabas.
- Senhor, eu saí do balcão correndo. Um rapaz devolveu.
E lá estava. Uma capa verde, velha e gasta. O nome em letras prateadas.
Agradeceu emocionado e voltou para sua cadeira. Sentou-se como um súdito, abriu o livro e leu a primeira palavra. A segunda. A terceira. Formou a primeira frase com dificuldade. A segunda, um pouco mais fácil. E chorando, releu o primeiro parágrafo tentando entender sobre o que dizia. E releu novamente. Todas as palavras do mundo estavam ali, e depois de 58 anos ele iria entendê-las. Chorou.
Da pequena mochila, retirou uma folha de papel e um lápis. As lágrimas de felicidade molharam um pouco a folha e emocionaram sua vizinha de mesa.
Com a ponta do lápis, começou devagar:
Eu não sabia como escreve essa carta, flor. Agora já sei. Eu fui pra escola aprende a ler e a escreve mesmo você não achando bom, mas agora eu aprendi. Posso erra em algumas coisa mais não tem importancia, né? Todo mundo erra pelo menos um pouco. Daqui a pouco vai fica madrugadinha e vou coloca essa carta de baixo do teu travesseiro. Era só pra você saber que minha primeira carta foi é pra você, flor. Que eu amo você demais, tá? Assim a gente pode conta pra nossos neto que eu aprendi a ler e a escreve só pra te fazer uma cartinha de amor, flor. Do teu nego, Gaspar.
Secou as lágrimas sobre a folha e a mesa, dobrou a carta, colocou em um envelope amarelado e escreveu com a letra trêmula "pra Maitê". Salvou-a em sua mochila, junto com seu lápis. Repousou o livro sobre a mesa, levantou-se como um rei de seu trono de madeira, e sorriu. Agora era como um daqueles desconhecidos. Poderia sentar em qualquer um daqueles tronos. 
Era dono daquele lugar.

maio 12, 2012

Amotinado

- Tó, se você não vier logo, aposto que seu pai comerá seu pão.
E eu o vi, com aquele macacão azul estrelado, descer do peitoril da janela e se juntar a nós. Chico lia o jornal esquerdista como fazia todas as manhãs: sem camisa, uma xícara de café à frente e um cigarro entre os dedos.
"Mãe, passa geleia no meu pão?" Isso é maionese, Chico. "Pai, passa maiasene no meu pão?".
Tó abaixou o jornal e as sardas que dominavam seus braços e peito ficaram mais em destaque ainda. Ele sorriu dizendo "é maionese, Tó. Como o mês em que você nasceu" e voltou a ler o jornal. Eu bebericava meu café quente olhando de soslaio Tó todo lambuzado e Chico sorrir com alguma frase do jornal, e que ao me ver, também sorriu.
"Já vou terminar de ler e te mostro, esta reportagem ficou incrível", e continuou a ler sorrindo.
Chico e eu não dividimos nada, compartilhamos tudo - desde contas bancárias a lembranças e opiniões. Tó, Chico e eu formamos o quebra cabeças da casa, cada um tinha sua característica estranha quando separados, mas juntos formamos uma imagem completa (e complexa como Chico costuma dizer).
- Tó, o que você tanto olha pela janela?
Com minha pergunta, Chico passou o jornal para mim e foi até a janela. "De novo esse casal, Tó?", exclamou o pai. "Mas pelo o que será que ele tanto se interessa?", perguntou o marido parando ao meu lado e fazendo carinho no meu pescoço.
"Pai, como você e minha mãe se conheceram?"
- De novo, Tó!
Chico riu, me beijou no topo da cabeça e contou novamente o que ele quase contava todas as manhãs. Eu comecei a ler a reportagem tão interessada, mas à medida que a história de Chico fluía, eu prestava atenção nos dois sentados no peitoril da janela. Desisti da leitura e fui me trocar.
Ao tempo de troca de duas roupas, Chico entrou no quarto também para se trocar.
"Não fique chateada".
Não tem como não ficar chateada. Todas as manhãs é preciso contar a mesma história da sua outra mulher e eu viro segundo plano. Eu também sou mãe.
- Mas eu estou chateada - eu disse chorando.
"Desculpe".
- Não tem como você dizer pra ele que já contou tudo que ele precisava saber? Pior do que ter que ouvir sobre a outra e saber que ele prefere a outra, a que foi embora, a que abandonou você. Não, - solucei - na verdade o pior é ouvir como a sua história com ela é mais interessante que a minha com você!
"Você não precisa ser a mais interessante, você é a minha".
- Mas eu quero ser a mais interessante pra ele e pra você - e desabei na cama a chorar.
"Olhe, desse jeito ele vai te ouvir e ele é muito pequeno pra entender que isso te afeta. Eu prometo que não falarei mais nela. Mas eu gosto é de você, eu amo é você, eu quero ficar velho e de mãos dadas como o casal da rua com você. Eu quero é você!".
De meu peito saiu todo aquele zinco e dei um beijo longo em Chico. Eu também o quero para sempre. E Tó também.
- Fique tranquilo, hoje eu o levo para o colégio - disse secando as lágrimas.
Deixei Chico no quarto, fui lavar o rosto e pegar uma maçã.
- Vamos, Tó! Você já está pronto?
E tão pequenino como sempre, ele já estava vestido, de dentes escovados e com o tênis que mais gostava. Ele se despediu do pai, deu-me a mão e entramos no elevador.
"Mãe", disse ele com o olhar rígido, "o certo era meu pai estar casado com minha verdadeira mãe. Não com você. Ele não gosta de você e muito menos eu".
Ainda atordoada, a porta do elevador abriu, ele me deu a mão e saiu a puxar, sorrindo para o porteiro. Eu olhava para Tó e não enxergava mais nada. Meus olhos estavam embaçados de lágrimas.
Chico não poderia ter tido um filho assim.

abril 09, 2012

Branco

Minha mãe olhava para mim de trás do arranjo de flores sobre a mesa com o olhar vazio. Sua taça de champanhe estava intocada, porque num lugar público ela bebia como uma freira. Eu estava me sentindo apertado e não sabia se era meu excesso de barriga, de preocupações ou de líquidos. Levantei-me para ir ao banheiro e minha mãe segurou meu pulso. "Adélia, me solta", sussurrei.
Já no banheiro pude perceber o quanto detestava o branco. Branco nas paredes, na cerâmica, nas minhas roupas, nas dela. Lavei as mãos pensando se deveria e sequei na calça social sem medo. Afinal, quem está na chuva não está porque quer ficar seco.
Saí ajustando os pés no sapato - pisar torto faz com que minha confiança perca a credibilidade - e intensifiquei o máximo que podia o meu olhar. Meu sorriso sairia falso, então eu teria que fingir uma boa verdade por algum lugar. Ela conhecia minhas palavras melhor que Adélia e saberia que eu estava mentindo.
Aproximando-me do casal a frente, pisquei para o novo noivo dela ou atual esposo, ou ex amante. Como eu queria ser a mão dele ao tocá-la no braço esquerdo, alertando-a da chegada do perigo, como ele fez. Embora o sorriso dela não fosse novidade, o decote dela não fosse novidade e muito menos a criança em sua barriga não fosse novidade, meus pés se atrapalharam naquele sapato estúpido, meu falso sorriso apareceu e nunca senti tanta necessidade de ter herdado aquele olhar vazio de Adélia.
"Fico feliz que tenha vindo", ela disse.
Pensei ter ficado feliz com o convite.
"Você está muito bem, sabia? Seu cabelo também fica muito bem assim raspado, mesmo eu preferindo ele grande e atrapalhado", ela não parecia estar falando com seu ex-marido traído. "E você, como está? Precisamos marcar um dia pra eu ir na sua casa ver meu cachorro, já que ele não pode ficar comigo durante a gravidez. Foi o médico quem disse. Aliás, o neném já está com seis meses, se alimentando bem, crescendo bem e mal vejo a hora do nascimenblá, blá, blá, blá, blá e foi tudo que continuei ouvindo. Eu não me apaixonara por aquela coisa vestida de branco, com aquela barriga que ela dizia ser dele e que deveria ser minha. Como eu odeio branco!
"Oh, meu Deus", foi o que consegui distinguir dos blás e ao focalizar o olhar nela, vi que algo acontecia no centro do salão.
Adélia estava no centro do salão, segurando a barra do longo vestido lilás, dançando. Todos a olhavam, pois além de não haver música, ela dançava solitariamente uma dança de casal. Minha boca secou como se eu tivesse falado a noite toda, e todos os palavrões que eu reuní na hora não saíam.
Pensei em puxá-la imediatamente dali e mudar de país. Pensei em entrar com o carro dentro do salão para que parassem de olhá-la. Pensei em sentar na mesa e fingir ser outra pessoa. Mas Adelia não pensara nada disso. Gritara meu nome e todos me viram.
"Branco, venha dançar comigo".
Queria puxá-la dali e mudar de país. Queria entrar com o carro dentro do salão. Queria ser eu o noivo. Queria que aquela fosse a festa dançante do meu casamento e que minha mãe estivesse dançando junto com os demais sem parecer uma louca.
Fui até o centro, deliberando sobre o que seria melhor, e me vi de repente, abraçado a minha mãe, dançando algo que não podia ouvir. Todos falavam entre si com as mãos à frente das bocas, a noiva chorava de vergonha, o noivo falava com os seguranças.
Adélia, por que você tem que fazer isso?
"Branco", e seus olhos, pela primeira vez, brilhavam "me chame de mãe".
Sua voz estava seca como se tivesse falado por horas, ela derramara champanhe no vestido e desarrumara todo o cabelo. Um homem pediu que nos retirássemos e antes de sair, eu a vi chorando no ombro do noivo.
Adélia estava no carro, chamando pelo meu pai, quando a mulher de branco veio correndo na direção do carro como se estivéssemos alguns meses antes.
"Me perdoe".
No silêncio da estrada, minha mãe acordou de um breve cochilo e um fio de sanidade pareceu passar por ela.
"Eu queria lhe falar isso na festa, mas você não deixou. É preciso que você siga a sua vida. Nada é para sempre", minha mãe disse.
"Eu sei, mãe".
O branco também se suja.

abril 02, 2012

Nós

Chovia enquanto Olga fazia nós na corda que encontrara. O tempo assim parecia passar mais rápido. Ela ria ao tentar desatá-los, como as relações que já tivera. Não era fácil se embolar com alguém e de repente tentar desamarrar tudo o que já aconteceu. Depois de várias tentativas, ela desistiu. Durante os minutos que brincara de nós, ela mal reparara no único rapaz que dividia a plataforma com ela. Ele, com um livro que ela já lera na mão, fingia não vê-la. Uma voz que indicava ser a última da escala, anunciava que o último trem estava atrasado.
Cansado de ficar onde o vento trazia o molhado e o frio da chuva, ele escolheu sentar-se ao lado dela. Reparara que Olga olhava para uma corda sobre sua meia calça sorrindo. Um sorriso tão sincero que o fez sorrir também, com o canto do olho.
"Eu adoro esse livro", disse ela. "O que você está achando?".
Surpreso e ainda sorrindo respondeu que não sabia, que talvez o mundo fosse além disso, que o amor fosse tão explosivo que não caberia em folhas tão velhas, que os olhos dela eram lindos...
Levantando-se, por um segundo ele achou que Olga fosse embora, mas ela se sentou novamente, em outra posição, de frente para ele. Olga elogiou as ruguinhas em volta dos olhos dele que dançavam ao sorrir.
Ele tentou resumir quais foram os momentos mais legais que ele já viveu, depois de ela perguntar. Quando perguntada sobre a mesma coisa, ela não quis responder. E poucos minutos se passaram, como se fossem horas num planeta desconhecido.
Ouviram passos na escada. Uma mulher diferente do que ambos costumam encontrar subia com seu filho recém nascido no colo. Sentou-se ao lado deles e começou a amamentar o neném.
Olga disse à mulher o quanto achava lindo crianças amamentando. É uma coisa além do corpo, da relação mãe e filho. É uma troca de vivências, um carinho inexplicável. E ele sorria para Olga. Contudo, a mulher sem parecer entender uma palavra, levantou-se e se sentou ao fim da plataforma.
Sozinhos, Olga colocou a mão próxima da dele, e ele a pegou. Beijaram-se e ele se sentiu como uma bomba atômica. Ela, colocava as pernas no colo dele e dizia que adorava tê-lo conhecido. Aliás, você pode me ajudar a desatar esse nó que eu fiz?
Ele, sorrindo, suas ruguinhas dançando, tirou a mão dos cachos dela e desfez o nó como se fosse o homem mais forte do mundo, ou como se o nó não fosse nada.
Olga pensou que aquele nó não era nada, e que queria amarrar um nó com ele ali, para sempre.
E então o trem chegou.

Sentaram-se em lugares diferentes e Olga segurava a corda amarrada na mão. O rapaz que deveria ter rugas que dançam ainda fingia não vê-la. Conversaram, beijaram-se e desamarraram um nó na cabeça dela - na dele também, mas ela ainda não sabia.
Depois de três estações e Olga com medo de ele descer sem se falarem, ela se levantou, caminhou sem precisar se equilibrar no apoio e pediu licença para a leitura dele.
"Tentei, mas não consegui. Você consegue desatar nós?", disse Olga sorrindo ao sorriso dele.

janeiro 16, 2012

Flor na Lapela

Mal dormi esta noite, virando de um lado para o outro e bebericando o máximo de água possível para não esvaziar o copo antes do amanhecer. Pierre respirava tão tranquilamente ao meu lado como se fosse um outro final de semana qualquer. Mas não era.
Quando acordei, percebi que dormira por apenas três quartos de hora e que ele não estava mais no quarto. Segui um barulho que vinha do banheiro e o encontrei lá, vestido para correr e olhando-se no espelho. Ele me beijou com pressa, e saiu dizendo que já deveria ter deixado o quarto todo para mim.
Sozinha, tomei banho e escovei meus dentes. Coloquei o vestido no carro e fui direto para um pequeno - mas muito aconchegante - salão. Passei quase o dia todo com o pescoço reclinado, recebendo elogios e sorrisos amarelos. O vestido veio até minhas mãos por alguém que eu nunca vira e simplesmente pegara a chave do meu carro. Quando saí de lá, o céu estava azul escuro e eu já não tinha noção se faltava pouco a chover ou para o casamento começar. Os grampos que seguravam a grinalda em meu cabelo estavam quase gritando, deixando-me ensandecida. E eu via pelo retrovisor que o batom vermelho fora tristemente substituído por um batom rosa claro.
Meu padrasto me levara de volta até em casa cobrindo-me de elogios. Mas eu mal ouvia. Eu estava nervosa, sentindo o meu coração do tamanho de uma mão fechada, martelar como se esmurrasse uma parede. Estava ofegante e pensava que logo tudo isso acabaria. Acabaria assim que eu o visse ali, na minha frente, com uma flor na lapela e sorrindo pra mim. Não teria mais nervosismo, nem problemas, nem dúvidas. Ele, meu primeiro namorado, meu primeiro amante, meu destino.
Uma espécie de transe tomou conta de mim no caminho de casa até a igreja. Não ouvia e não falava. O céu agora indicava que choveria, sim, e que estava na hora do casamento também. Relâmpagos e trovões diziam que a tempestade logo chegaria - para ir logo embora da minha vida.
Quando o carro parou a frente da igreja, meu padrasto desistira há tempos dos elogios e o silêncio dominava o carro. Assim que a porta foi aberta, senti que era possível um coração subir até a boca e sorri amarelo para os fotógrafos.
Falta pouco, Morena, logo mais isso tudo irá passar.
Subi as escadas pensando que estava prestes a acabar. Eu iria olhá-lo e uma paz iria me inundar, fazendo esquecer o salto, os grampos e todas aquelas pessoas. E ele sorriria pra mim, tranquilizando-me. Afinal, não era fácil pra ele também.
Finalmente, a grande porta de madeira foi aberta e eu vi todos os bancos, repletos de pessoas que sorriam. Mas eu não as via. Somente procurava no final do corredor, parado sorrindo, Pierre.
E assim, eu o vi, com seu lindo terno sem flor na lapela. A música começou e ele sorriu.
Meu nervosismo aumentou. Meu coração incomodava minhas costelas, e os grampos em meu cabelo começaram a gritar. O medo me dominou de vez.
E então pensei rapidamente em todos os livros que me prometeram que esse medo acabaria ao vê-lo. Sim, fui enganada.
Ali, da ponta do tapete, vi que não deveria estar sentindo medo.
Ou não deveria estar me casando.

novembro 21, 2011

O Maior Amor do Mundo

Incessantemente seus dedos raspavam a cobertura quase rasgada de couro sintético da poltrona do hotel. Seu filho, Alec, andava de um lado para o outro tentando resolver com a recepcionista o problema da reserva e qual quarto estaria disponível. Afinal, como Alec bradava, sua "mãe está na cadeira de rodas e depois de tantos quilômetros, precisa descansar". Sr. Edmundo de Mendonça rasgava a poltrona porque não podia ir por si só reclamar seus direitos.
Três quartos de hora, um ataque de tremedeira e duas pílulas depois, guiaram a família de Mendonça para seu quarto. Um quarto limpo, paredes brancas, com lençois novos na cama de casal, um vaso de flores e uma pequena televisão no teto. Com a ajuda de um camareiro, Alec retirara Sra. de Mendonça da cadeira e a deitara na cama. Seguindo sua bengala, Edmundo sozinho se deitou. E minutos depois, o casal já dormia.
Alec transferira as roupas da mala para o guarda roupas, abrira a janela para um pouco de brisa entrar e esperou, no saguão, que seus pais acordassem.
Enquanto dormia, Edmundo sonhara que a partir daquele dia, seria pouco o tempo que ficaria com sua esposa. Por isso, quando acordara, descera sozinho da cama, pegara uma cadeira e se sentara de frente para ela, que ainda dormia. Quando já havia decidido como a acordaria, seu filho entrara no quarto.
Ambos trocaram olhares que diziam "precisamos conversar". Depois de alguns minutos, Edmundo e Alec estavam no jardim do hotel, o pai dizendo ao filho coisas sobre o céu e a terra, a vida e a morte, e o filho segurando sua mão, limpando as lágrimas, dizendo que roupas faltavam e que teria que voltar para casa para buscar.
Uma semana depois, e Alec voltara com mais roupas. Seus pais dormiam quase o dia inteiro, e Sra. de Mendonça não tinha mais voz. Edmundo perdera completamente a noção do tempo, e pensara que desde o dia do jardim, só havia se passado algumas horas.
E assim os dias se passaram, Alec somente os visitava de domingo e nenhum de seus pais percebia que não era diariamente.
Uma noite, Edmundo acordou, aproximou-se do corpo da esposa, beijando-a até acordá-la. Dizia coisas enormes bem baixinho e a fazia rir sem voz.
Elefantes.
Planetas.
A Via-Látea.
O meu amor por você.
Pela manhã, Sra. de Mendonça não acordou. Horas depois, não acordara. Edmundo, no dia seguinte, sem entender que o tempo passara e que ela dormiria pra sempre, dizia ao filho que o amava, e agradecia pelo hotel maravilhoso. Pena que sua mãe não acorda logo para ir ao jardim.
No dia seguinte, Edmundo também se foi. Sentado no jardim, depois de decidir como acordaria sua esposa.

outubro 19, 2011

Esperança

Aquela água suja escorria pela rua, refletindo as luzes dos postes. Carregava consigo panfletos, papeis de bala e uma aliança. Quando ele, descalço, bloqueou sua passagem, a aliança parou. Ele se agachou e a pegou, limpando-a com sua camiseta que há muito tempo fora branca. Guardou-a no bolso com cuidado e se sentou na calçada: sua casa. Ouvia o som do mesmo instrumento de todas as noites que o fazia adormecer e sonhar. Um sonho que o levava além daqueles papelões no chão e os olhares de desprezo dos passantes.
Do lado de fora, na calçada, não era possível saber quem tocava o instrumento, mas ele sempre o via chegando com uma moça pequena que lutava para conseguir carregá-lo. Ela nunca olhara para o rapaz desarrumado que dorme na porta daquele lugar. Enquanto ela toca do lado de dentro, e em seus intervalos bebe um pouco do vinho mais barato da casa, ele se senta no chão, quase implorando por algumas moedas para um copo de água ali dentro. Talvez moedas suficientes para tomar um banho em algum albergue e poder se sentar em alguma daquelas mesas que podiam vê-la tocar todas as noites.
Ele, que não tinha nome, caminhava o dia todo pelas redondezas. Observava os mesmos transeuntes, olhava para o céu e pedia por uma nova chance. Dos poucos que não desviavam dele, alguns cediam algumas moedas. Contudo, o que ele mais gostava era de receber sorrisos. Um sorriso o fazia sentar-se em algum banco, encostar sua bengala improvisada e sua sacola, onde carregava documentos, uma foto, e uma latinha com suas moedas.
Ele almoçava e jantava todos os dias. E algumas vezes tentou entrar na igreja. Mas sua fé concentrava-se acima de sua cabeça.
Depois de tantas queixas para que ele, seu papelão, sua sacola e sua bengala saíssem dali, eles desistiram. Por mais que ele estivesse sujo, descalços, descabelado, nunca incomodara ninguém. Seus pedidos não espantavam clientes, pois ninguém o via. Ele se fazia invisível.
A aliança - a qual veio de muitos metros longe dele, de um homem que a arrancara dizendo palavras pesadas e a jogou a água corrente para cair no esgoto junto com as lágrimas da esposa - deveria ter vindo de um homem que ele poderia ter sido, pensava.
Naquela noite, esperou a moça chegar carregando seu pesado instrumento e alguém começar a tocar para, pela primeira vez, encostar-se no vidro e ver onde ela estava. No pequeno palco de madeira, com um microfone e o instrumento que ele não conhecia, ela tocava de olhos fechados e sorria. Ele encostou a testa no vidro e pensando "que poderia passar o resto da vida vendo-a sorrir". Sentou-se no seu papelão e sem adormecer aguardou que ela saísse. Levantou-se, passou a mão pelos cabelos acreditando fielmente que aquilo o faria mais bonito e bateu em sua roupa para tirar o pó.
Olhou para o céu e pelos cantos dos olhos, percebeu-a saindo. Foi ao seu encontro. Ela, assustada, segurou o instrumento e se afastou um passo. Ele tirou do bolso a aliança e sorriu. Entregou-lhe na mão. Ela sorrira fazendo os neurônios dele desorganizarem seus pensamentos. Entrara no carro sorrindo. Ele se deitou no papelão sorrindo. Sonhou a noite toda com a música, a segunda chance e a moça. Ela, em casa, mostrara a aliança ao noivo, que enquanto ela dormia, jogara o anel pelo ralo.
No entanto, há metros de distância, o rapaz dormia sonhando e a moça sorrindo.