Aquela água suja escorria pela rua, refletindo as luzes dos postes. Carregava consigo panfletos, papeis de bala e uma aliança. Quando ele, descalço, bloqueou sua passagem, a aliança parou. Ele se agachou e a pegou, limpando-a com sua camiseta que há muito tempo fora branca. Guardou-a no bolso com cuidado e se sentou na calçada: sua casa. Ouvia o som do mesmo instrumento de todas as noites que o fazia adormecer e sonhar. Um sonho que o levava além daqueles papelões no chão e os olhares de desprezo dos passantes.
Do lado de fora, na calçada, não era possível saber quem tocava o instrumento, mas ele sempre o via chegando com uma moça pequena que lutava para conseguir carregá-lo. Ela nunca olhara para o rapaz desarrumado que dorme na porta daquele lugar. Enquanto ela toca do lado de dentro, e em seus intervalos bebe um pouco do vinho mais barato da casa, ele se senta no chão, quase implorando por algumas moedas para um copo de água ali dentro. Talvez moedas suficientes para tomar um banho em algum albergue e poder se sentar em alguma daquelas mesas que podiam vê-la tocar todas as noites.
Ele, que não tinha nome, caminhava o dia todo pelas redondezas. Observava os mesmos transeuntes, olhava para o céu e pedia por uma nova chance. Dos poucos que não desviavam dele, alguns cediam algumas moedas. Contudo, o que ele mais gostava era de receber sorrisos. Um sorriso o fazia sentar-se em algum banco, encostar sua bengala improvisada e sua sacola, onde carregava documentos, uma foto, e uma latinha com suas moedas.
Ele almoçava e jantava todos os dias. E algumas vezes tentou entrar na igreja. Mas sua fé concentrava-se acima de sua cabeça.
Depois de tantas queixas para que ele, seu papelão, sua sacola e sua bengala saíssem dali, eles desistiram. Por mais que ele estivesse sujo, descalços, descabelado, nunca incomodara ninguém. Seus pedidos não espantavam clientes, pois ninguém o via. Ele se fazia invisível.
A aliança - a qual veio de muitos metros longe dele, de um homem que a arrancara dizendo palavras pesadas e a jogou a água corrente para cair no esgoto junto com as lágrimas da esposa - deveria ter vindo de um homem que ele poderia ter sido, pensava.
Naquela noite, esperou a moça chegar carregando seu pesado instrumento e alguém começar a tocar para, pela primeira vez, encostar-se no vidro e ver onde ela estava. No pequeno palco de madeira, com um microfone e o instrumento que ele não conhecia, ela tocava de olhos fechados e sorria. Ele encostou a testa no vidro e pensando "que poderia passar o resto da vida vendo-a sorrir". Sentou-se no seu papelão e sem adormecer aguardou que ela saísse. Levantou-se, passou a mão pelos cabelos acreditando fielmente que aquilo o faria mais bonito e bateu em sua roupa para tirar o pó.
Olhou para o céu e pelos cantos dos olhos, percebeu-a saindo. Foi ao seu encontro. Ela, assustada, segurou o instrumento e se afastou um passo. Ele tirou do bolso a aliança e sorriu. Entregou-lhe na mão. Ela sorrira fazendo os neurônios dele desorganizarem seus pensamentos. Entrara no carro sorrindo. Ele se deitou no papelão sorrindo. Sonhou a noite toda com a música, a segunda chance e a moça. Ela, em casa, mostrara a aliança ao noivo, que enquanto ela dormia, jogara o anel pelo ralo.
No entanto, há metros de distância, o rapaz dormia sonhando e a moça sorrindo.
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