setembro 03, 2010

O peixe apático

O molho de chave tilintava na fechadura, cumprindo todas as três voltas. Pela porta entrava Iwana tirando os cabelos cacheados da face. Estava frio e ventava do lado de fora. Se houvesse alguém sentado no sofá, esse repararia que os olhos castanhos dela estavam com olheiras e que não usava seu batom habitual.
Iwana jogou sua bolsa em cima desse mesmo sofá, andou até a mesa de centro e pegou um elástico de cabelo. Usou-o para prender seus longos cachos em um coque desajeitado no alto da cabeça. Escolheu um filme de sua coleção e o deixou rodando, para somente escutar o áudio. Adorava a trilha sonora.
Sentou-se no tapete velho, apoiou-se pelas mãos e olhou para o teto, pensando no que faria. Lembrou-se de seu pequeno peixe: precisava trocar a água do aquário.
Levantou-se sem problemas, ela tinha o equilíbrio de uma bailarina e a vivacidade de uma viajante. Não era nenhuma das duas coisas. Dirigiu-se até antigo aparador de madeira que ficava entre uma escada e uma porta e inclinou-se para colocar o dedo indicador na água. Seu peixe era apático, toda vez que ela fazia ondas com os dedos ele parecia não se importar. Na verdade, ele nem parecia perceber. Ele não tinha nome, Iwana o tratava como uma coisa aleatória que se mexia, do mesmo jeito que ele a tratava. Mesmo assim, sempre que podia, inclinava-se e desenhava símbolos do infinito na água, formando ondas. Olhando para o peixe arriscou até contar uma história.
Naquela sexta-feira pegou o aquário e o levou até a grande pia da cozinha. Sempre que cumpria aquele ritual pensava em jogar o peixe apático pelo ralo, não para matá-lo, mas para libertá-lo. Naquele dia não fora diferente. Pegou-o na mão e destampou o ralo da pia, mas desistiu. Ele não teria mais ninguém. Ela não teria mais ninguém.
Devolveu-o ao aquário e pegou no armário de produtos de limpeza o pote onde colocava a água onde o peixe ficaria esperando. Encheu-o e pegou o peixe novamente na mão.
Ela ouviu a porta da sala abrindo e voltou a sala para espiar quem era. Contudo, Iwana sabia quem era a única pessoa que fazia isso às sextas-feiras.
Vestindo uma calça jeans, um casaco preto e uma touca cinza folgada entrava o rapaz das sextas-feiras. Ele entrara com as sobrancelhas franzidas e balbuciando algo contra o frio.
- A única coisa que gosto no frio, querida - ele disse quando a viu -, é que seu nariz fica vermelhinho.
Ela sorrira e o abraçara. Foi quando ele a apertava a cintura e ela dançava seus braços pelo pescoço dele, que ela sentiu a pequena coisa gelada mexendo em sua mão. Soltou-se rapidamente e voltou correndo para a cozinha.
- Eu me esqueci do peixe! - disse ela.
- E desde quando você cozinha? - ele perguntou depois de perceber o acontecido.
O rapaz das sextas-feiras olhara o cômodo rapidamente e voltara para a sala. Sentara-se no sofá, ao lado da bolsa dela, e identificou o filme.
- Eu gosto muito da trilha sonora desse filme - ele disse para que Iwana o ouvisse.
O filme estava aos quarenta e nove minutos quando ela voltou para sala com um edredon escuro e cabelos soltos, tirou sua bolsa do sofá e ocupou seu lugar.
- Para que assistir ao filme se podemos conversar? - ele perguntou.
Ela desligou a televisão e deitou a cabeça na coxa dele, e completou que haviam também outras coisas para fazer além de conversar.
O rapaz das sextas-feiras pegou um longo cacho do cabelo dela e começou a enrolá-lo no dedo. Ela tirava aos poucos os fiapos de idade que juntavam no edredon.
- Eu nunca disse que amo você, não é? - ela perguntou.
Ele a olhou.
- Os filmes fazem parecer que é muito simples falar a uma pessoa que a ama. As atitudes valem mais do que qualquer coisa - ele respondeu.
- Sim, mas então como alguém mostra a outra pessoa que a ama? - ela insistiu.
O rapaz bagunçou o cabelo de Iwana e disse "Mais ou menos assim".
Ela sorriu.
- Eu estava olhando para o aquário do peixe apático e percebi que você é como meu dedo. Você faz ondas na minha vida, faz eu me mexer, eu sentir coisas diferentes, mas eu sempre ajo como alguém inativo. A única vez que fiz algo foi naquele dia, quando estávamos na sua casa. Quando eu disse que precisava de você - ela disse. - Talvez tenha sido aquilo que tenha feito você estar aqui agora.
- Iwana, sabe por que eu amo você?
Ela chacoalhou a cabeça negativamente.
- Eu amo você porque você me esquenta quando eu estou com frio, mesmo estando com as mãos frias. Porque quando você sorri eu me sinto uma pessoa útil. Porque você filosofa maluquices olhando para um aquário. Eu amo você porque você sempre agiu como você mesma ao meu lado. Eu amo você porque você sempre diz coisas sem pensar ao meu lado. Eu amo você porque você disse que precisava de mim, que nós ficássemos juntos. Eu amo você porque você me ama do mesmo jeito que ama o seu peixe. Do jeito seguro.
Ela sorriu.
- E eu não sei por que amo você, só sei que amo - Iwana disse puxando a cabeça dele para baixo e beijando-o levemente os lábios. - Eu só amo você.
Ela dormiu no colo dele e ele dormiu com as mãos enroladas no cabelo dela.

- O que você acha, peixe apático? - perguntou Iwana. - Daria uma boa história de amor, não é? Pena que isso só acontece em histórias de mentirinha criadas por adolescentes patéticos.
Iwana destampou o ralo e deu adeus ao peixe apático.