Minha mãe olhava para mim de trás do arranjo de flores sobre a mesa com o olhar vazio. Sua taça de champanhe estava intocada, porque num lugar público ela bebia como uma freira. Eu estava me sentindo apertado e não sabia se era meu excesso de barriga, de preocupações ou de líquidos. Levantei-me para ir ao banheiro e minha mãe segurou meu pulso. "Adélia, me solta", sussurrei.
Já no banheiro pude perceber o quanto detestava o branco. Branco nas paredes, na cerâmica, nas minhas roupas, nas dela. Lavei as mãos pensando se deveria e sequei na calça social sem medo. Afinal, quem está na chuva não está porque quer ficar seco.
Saí ajustando os pés no sapato - pisar torto faz com que minha confiança perca a credibilidade - e intensifiquei o máximo que podia o meu olhar. Meu sorriso sairia falso, então eu teria que fingir uma boa verdade por algum lugar. Ela conhecia minhas palavras melhor que Adélia e saberia que eu estava mentindo.
Aproximando-me do casal a frente, pisquei para o novo noivo dela ou atual esposo, ou ex amante. Como eu queria ser a mão dele ao tocá-la no braço esquerdo, alertando-a da chegada do perigo, como ele fez. Embora o sorriso dela não fosse novidade, o decote dela não fosse novidade e muito menos a criança em sua barriga não fosse novidade, meus pés se atrapalharam naquele sapato estúpido, meu falso sorriso apareceu e nunca senti tanta necessidade de ter herdado aquele olhar vazio de Adélia.
"Fico feliz que tenha vindo", ela disse.
Pensei ter ficado feliz com o convite.
"Você está muito bem, sabia? Seu cabelo também fica muito bem assim raspado, mesmo eu preferindo ele grande e atrapalhado", ela não parecia estar falando com seu ex-marido traído. "E você, como está? Precisamos marcar um dia pra eu ir na sua casa ver meu cachorro, já que ele não pode ficar comigo durante a gravidez. Foi o médico quem disse. Aliás, o neném já está com seis meses, se alimentando bem, crescendo bem e mal vejo a hora do nascimenblá, blá, blá, blá, blá e foi tudo que continuei ouvindo. Eu não me apaixonara por aquela coisa vestida de branco, com aquela barriga que ela dizia ser dele e que deveria ser minha. Como eu odeio branco!
"Oh, meu Deus", foi o que consegui distinguir dos blás e ao focalizar o olhar nela, vi que algo acontecia no centro do salão.
Adélia estava no centro do salão, segurando a barra do longo vestido lilás, dançando. Todos a olhavam, pois além de não haver música, ela dançava solitariamente uma dança de casal. Minha boca secou como se eu tivesse falado a noite toda, e todos os palavrões que eu reuní na hora não saíam.
Pensei em puxá-la imediatamente dali e mudar de país. Pensei em entrar com o carro dentro do salão para que parassem de olhá-la. Pensei em sentar na mesa e fingir ser outra pessoa. Mas Adelia não pensara nada disso. Gritara meu nome e todos me viram.
"Branco, venha dançar comigo".
Queria puxá-la dali e mudar de país. Queria entrar com o carro dentro do salão. Queria ser eu o noivo. Queria que aquela fosse a festa dançante do meu casamento e que minha mãe estivesse dançando junto com os demais sem parecer uma louca.
Fui até o centro, deliberando sobre o que seria melhor, e me vi de repente, abraçado a minha mãe, dançando algo que não podia ouvir. Todos falavam entre si com as mãos à frente das bocas, a noiva chorava de vergonha, o noivo falava com os seguranças.
Adélia, por que você tem que fazer isso?
"Branco", e seus olhos, pela primeira vez, brilhavam "me chame de mãe".
Sua voz estava seca como se tivesse falado por horas, ela derramara champanhe no vestido e desarrumara todo o cabelo. Um homem pediu que nos retirássemos e antes de sair, eu a vi chorando no ombro do noivo.
Adélia estava no carro, chamando pelo meu pai, quando a mulher de branco veio correndo na direção do carro como se estivéssemos alguns meses antes.
"Me perdoe".
No silêncio da estrada, minha mãe acordou de um breve cochilo e um fio de sanidade pareceu passar por ela.
"Eu queria lhe falar isso na festa, mas você não deixou. É preciso que você siga a sua vida. Nada é para sempre", minha mãe disse.
"Eu sei, mãe".
O branco também se suja.
abril 02, 2012
Nós
Chovia enquanto Olga fazia nós na corda que encontrara. O tempo assim parecia passar mais rápido. Ela ria ao tentar desatá-los, como as relações que já tivera. Não era fácil se embolar com alguém e de repente tentar desamarrar tudo o que já aconteceu. Depois de várias tentativas, ela desistiu. Durante os minutos que brincara de nós, ela mal reparara no único rapaz que dividia a plataforma com ela. Ele, com um livro que ela já lera na mão, fingia não vê-la. Uma voz que indicava ser a última da escala, anunciava que o último trem estava atrasado.
Cansado de ficar onde o vento trazia o molhado e o frio da chuva, ele escolheu sentar-se ao lado dela. Reparara que Olga olhava para uma corda sobre sua meia calça sorrindo. Um sorriso tão sincero que o fez sorrir também, com o canto do olho.
"Eu adoro esse livro", disse ela. "O que você está achando?".
Surpreso e ainda sorrindo respondeu que não sabia, que talvez o mundo fosse além disso, que o amor fosse tão explosivo que não caberia em folhas tão velhas, que os olhos dela eram lindos...
Levantando-se, por um segundo ele achou que Olga fosse embora, mas ela se sentou novamente, em outra posição, de frente para ele. Olga elogiou as ruguinhas em volta dos olhos dele que dançavam ao sorrir.
Ele tentou resumir quais foram os momentos mais legais que ele já viveu, depois de ela perguntar. Quando perguntada sobre a mesma coisa, ela não quis responder. E poucos minutos se passaram, como se fossem horas num planeta desconhecido.
Ouviram passos na escada. Uma mulher diferente do que ambos costumam encontrar subia com seu filho recém nascido no colo. Sentou-se ao lado deles e começou a amamentar o neném.
Olga disse à mulher o quanto achava lindo crianças amamentando. É uma coisa além do corpo, da relação mãe e filho. É uma troca de vivências, um carinho inexplicável. E ele sorria para Olga. Contudo, a mulher sem parecer entender uma palavra, levantou-se e se sentou ao fim da plataforma.
Sozinhos, Olga colocou a mão próxima da dele, e ele a pegou. Beijaram-se e ele se sentiu como uma bomba atômica. Ela, colocava as pernas no colo dele e dizia que adorava tê-lo conhecido. Aliás, você pode me ajudar a desatar esse nó que eu fiz?
Ele, sorrindo, suas ruguinhas dançando, tirou a mão dos cachos dela e desfez o nó como se fosse o homem mais forte do mundo, ou como se o nó não fosse nada.
Olga pensou que aquele nó não era nada, e que queria amarrar um nó com ele ali, para sempre.
E então o trem chegou.
Sentaram-se em lugares diferentes e Olga segurava a corda amarrada na mão. O rapaz que deveria ter rugas que dançam ainda fingia não vê-la. Conversaram, beijaram-se e desamarraram um nó na cabeça dela - na dele também, mas ela ainda não sabia.
Depois de três estações e Olga com medo de ele descer sem se falarem, ela se levantou, caminhou sem precisar se equilibrar no apoio e pediu licença para a leitura dele.
"Tentei, mas não consegui. Você consegue desatar nós?", disse Olga sorrindo ao sorriso dele.
Cansado de ficar onde o vento trazia o molhado e o frio da chuva, ele escolheu sentar-se ao lado dela. Reparara que Olga olhava para uma corda sobre sua meia calça sorrindo. Um sorriso tão sincero que o fez sorrir também, com o canto do olho.
"Eu adoro esse livro", disse ela. "O que você está achando?".
Surpreso e ainda sorrindo respondeu que não sabia, que talvez o mundo fosse além disso, que o amor fosse tão explosivo que não caberia em folhas tão velhas, que os olhos dela eram lindos...
Levantando-se, por um segundo ele achou que Olga fosse embora, mas ela se sentou novamente, em outra posição, de frente para ele. Olga elogiou as ruguinhas em volta dos olhos dele que dançavam ao sorrir.
Ele tentou resumir quais foram os momentos mais legais que ele já viveu, depois de ela perguntar. Quando perguntada sobre a mesma coisa, ela não quis responder. E poucos minutos se passaram, como se fossem horas num planeta desconhecido.
Ouviram passos na escada. Uma mulher diferente do que ambos costumam encontrar subia com seu filho recém nascido no colo. Sentou-se ao lado deles e começou a amamentar o neném.
Olga disse à mulher o quanto achava lindo crianças amamentando. É uma coisa além do corpo, da relação mãe e filho. É uma troca de vivências, um carinho inexplicável. E ele sorria para Olga. Contudo, a mulher sem parecer entender uma palavra, levantou-se e se sentou ao fim da plataforma.
Sozinhos, Olga colocou a mão próxima da dele, e ele a pegou. Beijaram-se e ele se sentiu como uma bomba atômica. Ela, colocava as pernas no colo dele e dizia que adorava tê-lo conhecido. Aliás, você pode me ajudar a desatar esse nó que eu fiz?
Ele, sorrindo, suas ruguinhas dançando, tirou a mão dos cachos dela e desfez o nó como se fosse o homem mais forte do mundo, ou como se o nó não fosse nada.
Olga pensou que aquele nó não era nada, e que queria amarrar um nó com ele ali, para sempre.
E então o trem chegou.
Sentaram-se em lugares diferentes e Olga segurava a corda amarrada na mão. O rapaz que deveria ter rugas que dançam ainda fingia não vê-la. Conversaram, beijaram-se e desamarraram um nó na cabeça dela - na dele também, mas ela ainda não sabia.
Depois de três estações e Olga com medo de ele descer sem se falarem, ela se levantou, caminhou sem precisar se equilibrar no apoio e pediu licença para a leitura dele.
"Tentei, mas não consegui. Você consegue desatar nós?", disse Olga sorrindo ao sorriso dele.
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