E afinal, quando vazia esta sala é realmente grande. Essas amplas paredes brancas dão a sensação de que tudo é ainda maior do que eu. As luzes no teto estão bem dispostas e não há janelas. A única brisa que posso sentir é a do tubo de oxigênio que chega até o meu nariz. Meu filho foi levar a esposa para conhecer o resto do museu, pois nesses últimos dias ele estava muito ocupado cuidando da organização da exposição.
Na inauguração, eu cheguei uma hora atrasado porque minha nora disse que isso agradaria a crítica. Não sei como. Esqueci-me de como devemos agir perante os críticos. Ao sair do carro com a ajuda de minha filha mais nova, todos os fotógrafos presentes puderam tirar uma foto da grotesca cena em que fui colocado na cadeira de rodas - não é mais tão fácil ter oitenta e dois anos. Olhei o grande cartaz iluminado que dizia "Edmundo Spíndola e a branscuridão". Era um belo cartaz com o meu nome. Fui beijado por diversas pessoas elegantíssimas, que fingiam tão bem interesse pelos meus quadros quanto piedade pela minha situação. Ao entrar no salão vi uma multidão de pessoas a me aplaudir, e desejei não estar sendo empurrado nesta cadeira imprestável.
A noite da inauguração foi um sucesso, disse meu filho. E eu acredito nele. Quando li a crítica no jornal, o atraso foi realmente importante. Deu um toque "branscuro" na exposição - eu juro, estava escrito no jornal. O caso é que sei que ninguém entende o que é branscuro. Acredito que neologismos foram feitos para só quem os criou compreender.
Preferi não voltar nos dias seguintes. Não gosto tanto assim de ser uma estrela. Meus quadros estão lá nas paredes brancas - os quadros que pintei seguindo um sentimento que veio do fundo do meu peito - mas nem por isso preciso ir todos os dias para lá. No entanto, hoje cedo escrevi um bilhete tremido pedindo para vir a exposição. Nem sei por quê.
Passei a tarde vendo fotos antigas e matando a saudade da época em que as mãos me ajudavam a pintar. Quando encontrei aquele pequeno colar com a foto da minha esposa, vi que não queria mais reencontrar com o passado. Esse pouco de presente que me resta está ótimo. Fui ler os jornais e me deparei com mais interpretações do meu neologismo, o que me divertiu por um quarto de hora.
Quando já noite eu estava preparado para voltar ao museu. A enfermeira particular me trocou cantando. Só por que não consigo falar, não quer dizer que não possa ouvir. Ela cantava suavemente uma música da minha época. E ela deve ter no máximo metade da minha idade.
Fui levado pelo meu filho para a exposição, acompanhado por minha nora. Não havia ninguém na entrada como antes e ao entrar pude ver que no salão não havia mais que dez pessoas. Ninguém que estava lá me reconheceu e na verdade, ninguém me viu entrar.
Empurrado pela minha cópia no passado, revi cada um de meus quadros e em alguns pude ter a mesma sensação de quando pintava. Quando demos a volta completa na sala, só restavam uma jovem loura, meu filho, minha nora e eu na sala. Minha cadeira foi estacionada ao lado de uma pedra de mármore com almofadas que parece ser muito frio, mas confortável. E agora estou aqui, acompanhado somente por essa brisa do meu tubo de oxigênio ao observar a jovem loura.
Ela tem cabelos longos e cacheados, uma franja que cobre suas sobrancelhas e olha com tanta atenção para meus quadros que me surpreendo. Está com fones de ouvindo e tamborilando os dedos nas pernas. E então, de repente, ela se vira e me vê. Veio andando calmamente e se sentou na pedra de mármore com almofadas.
"Olá", sua voz é grave e espontânea.
Não respondo. Simplesmente não posso. E ela entende isso.
"Ora, o senhor não fala! Desculpe!", e ri. "Gostaria de perguntar o que achou da exposição, mas como o senhor não fala, vou eu mesma dizer minha opinião".
Pisco para encorajá-la.
"Eu não gostei dos quadros. Eles são vazios, sabe?! Não só porque são pintados em preto e branco, mas porque eu não vejo profundidade neles", e eu arregalo os olhos.
Apoio as mãos nos joelhos e sinto calafrios.
"Li nos jornais críticas excelentes dizendo que 'o preto e branco do pintor excediam a lei do imaginário sentimental' e que 'o vazio expresso nos quadros mostram a dualidade da salvação e da destruição'. Não vejo nada disso. Primeiro que 'branscuridão' foi um péssimo neologismo".
Estou espantado, qual o problema com branscuridão?
"Apesar de que eu acredito que neologismos foram feitos para só quem os criou entenderem. O senhor não acha?" E ela me olha.
Claro, claro que eu acho. E gostaria muito de falar isso.
O telefone dela toca. Troca algumas palavras como "você nunca vai entender o que eu sinto" e "amor não funciona desse jeito" com a pessoa do outro lado e altera a voz. Aparentemente ela não o ama mais. Desliga o telefone.
E ela para. Olha fixamente para frente como se tivesse tido uma iluminação. Repete sussurrando "branscuridão" e meus olhos não saem dela.
"Branscuridão deve ser saudade. Ou aquilo que é além da saudade, a vontade de ter algo de volta que nunca mais, nunquinha poderemos ter. O brando do branco misturado com o sofrimento do preto. E a certeza do preto com a esperança do branco!", e ela simplesmente começa a chorar.
"Deve ser aquele sentimento que a gente passa tão poucas vezes na vida que quase nos mata. Aquilo que dobra nosso coração no meio, e no meio, e no meio", diz fungando.
Eu a olho admirado, e nem sei o que eu diria se conseguisse falar.
Ela se levanta, pega a bolsa e sai andando. Não sei se ela está indo resolver algum problema pendente ou se jogar na frente de um trem. O fato é que essa jovem conseguiu traduzir o que eu quis dizer.
Tenho certeza de que esta é a última exposição que farei em vida. Mas fico feliz em saber que ainda existem pessoas que conseguem ver além da simples tinta na tela.
Meu filho volta de mãos dadas com a esposa e vejo que nunca mais poderei fazer isso com a minha esposa. Não aqui, pelo menos.
E isso é tão branscuro.