"O pior de tudo era a chuva, e não o frio", Ofelia dizia sempre. Essa chuva incessante que ao bater nas janelas atrapalhava suas anotações.
O único lugar onde ela conseguia se concentrar em dias chuvosos era no pequeno escritório onde havia muitos livros nunca lidos e muitas outras coisas espalhadas - o que ela prometeu arrumar desde que largou o emprego.
Quando Ofelia chegou em casa naquele dia com um sorriso de orelha a orelha, dançando e cantando, com a bolsa caída pela mão e as chaves da casa, do carro, do escritório e do armário - escondido atrás de um quadro que um amigo dera - abarrotadas sobre o busto, seu marido vira que algo havia acontecido. Seu marido nunca imaginara que tamanha felicidade no rosto de Ofelia era por causa de sua demissão. E Ofelia nunca imaginara que isso poderia ser motivo para tantas discussões. Ela se defendia sempre com o mesmo argumento: era infeliz no trabalho - o que ele não compreendia.
"Um bom salário, um bom cargo e uma casa e família para cuidar", ele dizia sempre.
Alguns meses após a demissão, Ofelia descobriu que estava grávida. Os enjoos foram piores nessa gravidez e sua pressão era irregular. Ela não conseguia mais escrever com a mesma facilidade de antes, e mesmo grávida, as discussões não amenizaram.
Ele criara o hábito de cumprir horas extras no trabalho para tentar cobrir um pouco o que Ofelia deixara para trás, enquanto ela passava o dia cuidando da caçula que estava na barriga e dos outros dois filhos, que antes ficavam com a avó.
À medida que os meses foram passando, os problemas com a gravidez aumentavam. Não seria mais possível o parto normal, e os médicos teriam que apelar para a cesariana. A primeira menina da família nasceu prematura, interrompendo o novo artigo que Ofelia tentava escrever.
Seu marido chegara atrasado e a pequena já havia nascido. Muito frágil, muito pequena, lutando para sobreviver - assim como o relacionamento dos pais. Ele correra para onde Ofelia estava e a beijara depois de muito tempo sem o fazer.
"Desculpe, meu amor! Ela é linda, você foi ótima, está tudo bem agora", ele disse. E ela realmente acreditou que estava tudo bem agora. Ele até dissera que a amava.
Os dias transcorreram bem, depois de um tempo a neném pôde ir para casa. Ofelia poderia voltar a escrever e conciliar tudo, segundo seu plano. Não se importava de passar as noites em claro, e esperava o marido chegar acordada, para contar sobre seu dia, perguntar sobre o dele e dividir os planos. Ele sorria, eles riam, concordavam, discordavam, discutiam e dormiam de costas um para o outro. No dia seguinte, ou Ofelia ou ele acordava mais cedo e fazia o café, levava na cama e pedia desculpas. Ele saía para trabalhar, ela cuidava dos filhos, da casa, escrevia um artigo e tentava mandá-lo para algum jornal. Atendia os telefonemas e falava com mulheres que procuravam seu marido. Sempre as mesmas.
"Não, ele não está. Está no trabalho agora. Sim, eu mando um beijo para ele. Claro, eu aviso. Bom dia pra você também". A parte mais difícil do dia não era cuidar dos filhos, ou procurar forças para escrever um artigo, ou conciliar tudo isso. A parte difícil era fingir ser secretária, e não esposa. Ele não sabia que ela fazia isso, e Ofelia não sabia por que ele não parava com tudo isso.
A chuva incessante ainda atrapalhava as anotações de Ofelia, e cada parte do escritório tinha um pedaço de suas discussões. Hoje só duas mulheres ligaram procurando seu marido e ela não se concentrava por causa da chuva. O pior é a chuva, e não o frio. Com o frio ela já acostumara, era constante. Mas a chuva não. A chuva vinha de repente e tentava mostrar que estava ali, molhando, correndo, atrapalhando. O pior era a chuva, segundo ela.
O telefone tocou e era ele. Iria se atrasar, pois hoje tinha reunião depois da hora extra, e que ela não precisava esperá-lo acordada. Se ela não tivesse largado o emprego, ele estaria cedo em casa e não precisariam passar por tudo isso. Ela pediu desculpas por isso chamando-o de amor, disse que ele era um doce por fazer tudo isso e que tudo ficaria bem. Essa foi a resposta de Ofelia por telefone naquela tarde chuvosa.
Quando ele chegou, a casa estava a mesma de todos os dias. Mas os filhos não estavam, o carro não estava na garagem e Ofelia não estava no sofá. Somente um bilhete em cima da mesa, que ao lê-lo, ele poderia até ouvir a voz de Ofelia.
"Duas moças ligaram para você hoje, mas desculpe, não anotei os nomes. Quando elas ligaram eu já havia me demitido desse casamento.
Agora você pode discutir com as paredes sobre o que aconteceu, talvez elas digam a você o que você queira ouvir.
Eu estava infeliz. Você estava infeliz e as crianças também. Estou levando as chaves de casa, do escritório, do carro e do armário atrás do quadro. Agora sim, meu amor, estamos bem.
Vamos sentir falta do que você era."
Ele se sentou no sofá e viu, de onde estava, que o armário atrás do quadro estava vazio. Suas "horas extras" foram embora com ela. Mas tudo bem.
Agora estava tudo bem.