janeiro 26, 2011

Hierarquia

Meu pai entrou no quarto com um de meus livros na mão.
"Então o senhor estava com ele? E eu havia lhe perguntado!", e fui em sua direção. Quando saí da cama, o livro que lia caiu.
"Nem me atentei para o título. E eu esperava um pouco mais, sabia?", ele disse para meu desgosto.
"Ah, pai. Eu gostei tanto! E nem venha falar que eu pareço a minha mãe!", peguei o livro de sua mão e o que estava no chão para devolvê-los à prateleira.
"Você não parece sua mãe, sabe disso. Parece comigo. Isso de falar que parece com a mãe que foi embora é puro clichê!"
Nada disse. Deitei-me no chão, onde o sol ainda deixava suas marcas, rodeadas pelas grades da janela branca.
"Venha cá, levante", disse ele, estendendo sua mão de cinquenta e seis anos para a minha de dezenove.
"Vamos dançar", e ele me puxou.
Comecei a rir. No início foi tudo de brincadeira. Eu nunca soube dançar uma valsa, não dignamente como meu pai fazia. O ex-capitão de navio, acostumado com belas moças e boas músicas. Agora eu estava ali, como um espelho seu, mostrando os mesmos olhos escuros, cabelos escuros, teimosia e relutância. E então, a Miranda de dezenove anos surgia e pisava no pé dele.
"Eu sei que você é uma mulher grande, inteligente, orgulhosa, teimosa e linda, mas ainda sou seu pai, e preciso contar-lhe o que é a vida", ele disse e eu novamente pisei em seu pé. Quando vi que ele não se importava, encostei minha cabeça eu seu ombro, junto a seu cabelo curto que um dia fora tão escuro quanto o meu, esperando para aprender sobre como se dança e sobre a vida.
"Eu fui o príncipe encantado da sua mãe, mas antes que me corte no meio do assunto, dizendo que isso não existe, digo que sim. Miranda, o príncipe encantado não é aquele de filme, sem dúvida. Mas ele existe. Quando nós amamos mesmo uma pessoa, como amei sua mãe, aprendemos a amar até os defeitos irritantes - como o péssimo hábito de se achar superior a algumas pessoas. Enfim, ela também me amava - pelo menos naquela época - e eu fui o príncipe encantado dela. Fazia o que ela queria, mas a surpreendia, e ela a mesma coisa. O amor virou uma coisa idiota ultimamente, algo que todos dizem sem mesmo nem saber o significado, mas ainda é puro, importante.", ele respirou "E pare de pisar no meu pé."
Nada pude dizer, não entendi direito o que estava acontecendo.
"Por isso, se você realmente ama aquele rapaz..."
"Francisco", falei baixinho.
"Sim, bom, saiba que ele é o príncipe encantado que você esperou. O que você precisava.", ele parou de dançar e eu o abracei.
Não sei se ele sabia de minha longa história com Francisco, já que nunca citei seu nome, mas acredito que ele sentiu. Às vezes, os reis encantados descobrem quem são os príncipes secretos de suas princesas.
"Espero que ele saiba que você gosta tanto assim dele," disse meu pai quando me ouviu soluçar.
"Também espero", eu disse ao me separar dele.
Ele olhou pra minha lágrima e riu.
"Vocês princesas! Às vezes tão previsíveis!", ele virou as costas e se dirigiu ao seu quarto.
Parou a porta e se virou para mim, que já estava secando as lágrimas.
"Espero que ele saiba dançar tão bem quanto o rei", ele sorriu.
"Quanto o rei, Majestade? Isso eu não acredito", e isso eu defendi, com tudo o que meu pai me deixou.
Orgulho, teimosia e um belo castelo.