janeiro 05, 2011

O maquinista

Michèle tomou o trem aquela manhã com uma sensação diferente. Às vezes ela sentia um aperto em seu peito e acreditava que era uma espécie de mau pressentimento. Sua mãe quando jovem sentia o mesmo e repetia "algo vai acontecer, acredite", até descobrir que sofria de pressão alta.
O vagão vazio, a voz simpática do novo moço que diz "este trem tem como destino..." fazia com que Michèle imaginasse quais seriam suas feições. Talvez um homem alto, de camisa azul clara, cabelos penteados e barba mal feita - não, este seria o homem de seus sonhos.
Sentada com sua meia calça, sua camiseta-vestido preta e um batom magenta que chama a atenção de todos, Michèle tira um livro da bolsa para ler. Inquieta, seus olhos variam das linhas do romance de ficção e as luzes que atraíam sua atenção do lado de fora.
Quando abaixou os olhos pela terceira vez e releu o primeiro parágrafo da página 12, sentiu alguém sentar ao seu lado.
- Você sempre lendo, Michèle! - e mesmo sem olhar ela poderia ter certeza que Tomás sorria.
- Sempre lendo, sempre lendo - disse ela dando-lhe um beijo na face.
Fechou o livro e o guardou. A voz do maquinista disse algo sobre a estação a qual o trem parara, e que ficariam ali aguardando liberação.
Enquanto ouvia a voz do maquinista alto, de cabelos penteados para trás e uma camisa azul clara, Michèle viu que o homem por quem estava apaixonada, o homem sentado ao seu lado fazendo comentários sobre seus hábitos de leitura, não tinha nada a ver com o maquinista de bela voz.
- Poderíamos sair qualquer dia, não é? - ele disse ao sair do trem, levantando-se e a olhando nos olhos. - Eu te ligo, pode ser?
Ela o olhou enquanto Tomás tentava se equilibrar.
- Acho que você não tem meu número, mas eu ligo pra você, então. Seria ótimo se saíssemos - o sorriso foi acentuado pela cor do batom e ele, Tomás, o grande homem da vida de Michèle, viu que ela era diferente do que ele pensava.
Michèle o viu virando as costas quando o belo maquinista disse a sua estação, e o sorriso de tchau que ele dera ao sair.
Quando o trem voltara a andar, ela tapara o rosto com a mão e se segurou para não gritar. Sempre que pensava nele, segurava-se para não gritar enquanto tremia de insanidade, ou sanidade.
O alívio no peito veio junto com sua estação. Desceu para o trabalho, e depois quase esquecer o encontro, foi almoçar. Olhava para o telefone como se ele fosse ligar. Discava o número dele como se ela fosse ligar. Até que seu horário acabou e ela voltou para seu cargo, esquecendo-o novamente.
Na volta para casa, desceu uma estação antes para comprar algo para comer e pegou um táxi para casa. Tomou um banho, pensando no que teria amanhã no trabalho, comeu sentindo saudade da comida da mãe e se sentou no sofá para ler. Seus olhos variavam entre o segundo parágrafo da página 12 e o telefone. Resolveu ligar.
- Alô, Tomás?
Sua saudação foi longa e ele parecia feliz. Michèle passou seu número de telefone e ele dissera que agora sim poderia ligar.
- Posso ligar quando quiser? - perguntou ele.
- Só quando quiser.
Não conversaram sobre mais nada. Desligaram logo.
Michèle pensou que deveriam contratar o maquinista de bela voz para trabalhar com telefonemas. Voltou a ler, e conseguiu ler 43 páginas sem a intromissão do nome Tomás em sua cabeça. Até ir dormir.
Encostou a cabeça no travesseiro e lembrou do trem, do sorriso, das costas, do telefone e a imagem incólume de Tomás. Fechou ambas as mãos no rosto e começou a tremer, ali, deitada. Bloqueando um grito do nome dele.
Suas artérias explodiriam com tanta pressão, seu cérebro implodiria por tantos pensamentos insistentes e cairia desfalecida de amor se o telefone não tocasse.
- Alô?
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Michèle virou de lado e pensou que deveriam contratar o maquinista alto, de cabelo penteado para trás, barba por fazer e a camisa azul clara para trabalhar com telefones.