fevereiro 07, 2011

Aqui ou lá

Sebastian tocou a campainha tantas vezes que era idiotice tentar contar. Parou somente depois que a luz externa foi acesa. Ele sabia que uma hora ou outra, alguém atenderia. Um barulho de sapatos de salto caminhando inundou seus ouvidos, e ele percebeu que não estava sozinho mais na rua deserta. Virando a esquina, uma mulher que voltava do trabalho entrava na rua. Somente quando a mulher passou por Sebastian que alguém surgiu pela porta da frente da casa.
- Oi, Francis.
A mulher que atendera a porta usava um roupão e chinelos.
- Desculpe, quem é?
Sebastian apareceu onde ela poderia vê-lo completamente, inundado pela luz que iluminava o portão.
- Sebastian? Que bigode é esse?
Ele riu, e perguntou envergonhado se poderia entrar.
- Claro, pode sim - a voz de Francis era de surpresa -, mas vai ter que esperar um pouco. Vou trocar de roupa.
Depois de quase cinco minutos, Francis apareceu com as chaves e os mesmos chinelos. Deixou que ele entrasse e cumprimentou-o com um singelo aperto de mão. Caminharam pelo minúsculo jardim até chegarem a porta de onde ela saíra. Sentaram-se no sofá da sala - onde ele nunca havia estado - e ela ofereceu algo para beber, o que ele recusou.
- Então a que devo esta visita a essa hora? - ela perguntou. - A não ser esse bigode. Bigode, Sebastian? Quem diria.
Sebastian sorria engraçado. Suas covinhas o deixavam com um rosto de criança.
- É, Francis, um bigode. Eu ainda estou me acostumando... - e ficou em silêncio, talvez esperando alguma reação dela ou a coragem de lhe falar.
- Não quero parecer uma péssima anfitriã, mas você sabe, Sebastian, é tarde, amanhã logo cedo eu trabalho, e sua visita me deixou intrigada.
Ele sorriu novamente, pôs as mãos sobre os joelhos e respirou fundo.
- Eu acho que é quase óbvio que eu tenha vindo aqui por causa da Branca, Francis. Eu vim aqui para visitá-la, mas pelo silêncio, ela não está.
Então ele girou os olhos pela sala e viu que cada objeto ali parecia ter o toque dela. Os fones de ouvido ao da televisão, um chapéu, que poucas vezes ele a vira usando, em cima na estante de livros.
- Ah, sim. Não está. Ela vai passar a noite fora.
- Mesmo? Que pena. Foi dormir na casa do pai? - ele perguntou, esperando que a resposta fosse sim.
Sebastian ficou em silêncio por alguns instantes e o peso da resposta contaminava o ar.
- Não. Pelo visto você não ficou sabendo. Ela encontrou um rapaz - ela respondeu.
Sem ação, Sebastian sentiu sua saliva virar grãos de areia e arranhar sua garganta. Abaixou a cabeça e entrelaçou os dedos no cabelo.
- Ela está namorando?
- Sim, há algum tempo já. Não sei como não ficou sabendo. Ela fez o favor de contar a todo mundo - e ela sorriu.
Sebastian coçou a nuca, a palma da mão e olhou derrotado para Francis.
- Francis, eu me apaixonei por ela.
Surpresa, como em nenhum outro momento da noite, ela exclamou:
- Por isso essa visita a essa hora? Esse bigode? - e não pôde conter o riso. - Eu sempre achei a ideia de bigode dela fogo de palha. Tanto é que o rapaz não tem bigode ou nada do resto que ela procura. Ele nem ao menos parece você.
Ele afundou o rosto nas mãos e sua respiração ficou pesada.
- Sebastian, ela precisava de uma nova chance. Ela sempre sofreu por você, e eu entendo que você não tenha a correspondido, porque o amor às vezes prega peças, mas, Sebastian, ela agora está bem. Feliz, sabe? Aliás, prefiro nem contar que você esteve aqui.
Ele se sentiu derrotado. Talvez exatamente como ela se sentira na época em que ainda insistia nele. O coração parecia uma centrífuga. Os braços e as pernas estava inanimados. Sebastian sabia que aquilo era o cérebro que causava, mas a dor era como a mostrada em livros: vem bem do fundo do peito.
- Ela pelo menos pergunta ou fala de mim? - o resto de esperança foi-se com a resposta.
- Não.
Conversaram mais alguns minutos até que o relógio cuco da sala anunciou que já era tarde demais. Ele decidiu ir e Francis sugeriu uma carona. Que ele recusou.
- Boa noite, Francis. Eu mandaria um beijo para ela, mas o outro já deve suprir tudo o que ela precisa - e sorriu aquele sorriso envergonhado de criança.
- Ah, Sebastian! Olhe só, se algo tiver que acontecer entre vocês dois, vai acontecer. Seja aqui ou do outro lado do mundo.
Francis sorriu, apertou a mão de Sebastian e pediu para ele se cuidar. Trancou o portão, esperou que ele virasse a esquina e voltou para a sala de estar. Respirou fundo, apagou as luzes externas, bebeu um copo de água e enquanto ia para seu quarto, parou na frente da porta entreaberta do quarto da filha. Viu que o abajour ficara aceso. Entrou no quarto sem os chinelos, apagou a luz e se inclinou na direção da cama.
Deu um suave beijo na testa da filha que dormia enrolada no cobertor e sussurrou boa noite.
Porque se tiver que acontecer, vai acontecer. Seja aqui ou do outro lado do mundo.