Ele permaneceu deitado quando despertador tocou, e ainda deitado ficou quando o despertador caiu no chão na tentativa de ser desligado. Segundo ele, era um dia que seria diferente justamente por acordar diferente. Ao menos, em alguma coisa ele acreditava.
Levantou-se, foi para o banheiro e tomou um banho. Fez a barba - mas a manteve rala - e constatou que precisava cortar os cabelos encaracolados. Mesmo sendo jovem, achava que seus cachos davam a aparência de adolescente. Tomou café com pão amanhecido só de samba canção e meias, e voltou para o seu quarto, onde pôs a camisa branca, a calça social, a gravata ônix que tanto gostava e seu sapato gasto. A janela estava fechada e as nuvens cobriam o sol. A luz que pairava no quarto era de um verde-azulado que ele só vira na sua casa de infância. Um verde-azulado que o perseguia.
Pegou todas as chaves, a maleta, os cigarros e a carteira e fechou a porta do apartamento conferindo em qual andar estava o elevador. Esqueceu de buscar o paletó e não pretendia voltar.
No térreo, o porteiro lia um livro.
- Bom dia, senhor Andres - dizia o porteiro.
- Olá! Está gostando do livro? - perguntava Andres ainda andando.
- É muito bom! Estou quase no final!
E Andres continuou. Morava perto do trabalho e ia andando. Naquele dia tropeçara tantas vezes e não cumprimentara pessoas que conhecia pois estava distraído. Seus pensamentos adiantaram-se pelas ruas da cidade, cruzaram farois e pararam na mesma mulher, que àquela hora deveria estar deitada.
Trabalhou pensando nela. Durante seu almoço, queria ligar. Voltou ao trabalho imaginando-a e seu expediente terminou uma hora mais tarde. Era uma sexta-feira.
Jantou com os amigos, como toda sexta-feira, e bebeu além da conta. Permitiu-se por alguns minutos esquecer-se dela. Mas quando rachou a conta, despediu-se dos amigos e ficou novamente sozinho, ela voltou. E ele estava cansado de ela sempre voltar para sua cabeça, fazendo-o sentir dor como se doente estivesse.
Andou cambaleante pelas ruas seguindo seus pensamentos. A noite estava escura, mas as luzes da cidade iluminavam o caminho. Seus pés cambaleavam pela bebida e pela incerteza, e ele cumprimentava a todos que encontrava - até quem não conhecia.
Quando suas pernas alcançaram seus pensamentos, Andres a viu. A mulher que o adoecia, que o embebedava. Ela estava sentada em um banco, e parecia que a lua havia parado naquele ângulo somente para iluminar sua pele. Os cabelos estavam soltos e tocavam os braços nus dela. Os sapatos a tornavam um pouco mais alta, mas ela ainda poderia se aconchegar nos braços dele, como tantas vezes fizera antes.
- Virgínia - ele chamou.
Ela o olhou delicadamente, levantou-se e se aproximou como uma pluma ao vento. Abraçou-o e o beijou no rosto.
- Seus cachinhos estão crescendo, Andres! - disse enquanto enrolava alguns no dedo.
Ele concordou passando a mão na cabeça, e a abraçou de novo. Puxou-a com toda vontade para si, como se eles pudessem se unir em um só ser e que nunca mais se separaria. Beijou o pescoço de Virgínia, sentiu o cheio de seu cabelo e sorriu. Ali ficou por alguns segundos até beijá-la. Ela parecia tímida por fazer isso ali, na frente de todos, mas não o soltou. Mesmo reparando no gosto da bebida.
- Eu vim aqui para dizer que amo você. Amo mesmo, com todas as forças que eu tenho. E eu luto para não amar. Eu nem acredito em amor, mas ele vive em mim. E eu estou o vendo aqui na minha frente, Virgínia.
Ela enrubesceu. Por mais que sempre ouvisse isso, dele era verdadeiro. Nele ela sabia que poderia acreditar. No entanto, também sabia que não poderia deixar que isso acontecesse.
- Você não pode me amar, Andres. Sinto muito, mesmo - disse enquanto se virava e voltava para o banco onde estava sentada.
Andres ainda estava de pé, chorando por esse infeliz desencontro que o amor o fez passar, quando um belo carro parou e buzinou. Virgínia levantou do banco, ajeitou a saia e caminhou como uma pluma para o carro. Inclinou-se na janela e informou seu preço. E então Andres viu que o amor existia, dentro dele e dentro da carteira do dono do carro.
Voltou para casa distraído, tropeçando e secando as lágrimas. Chegou em seu prédio disfarçando o choro e ainda amando Virgínia.
- Terminei o livro, senhor Andres! - disse o porteiro quando o viu entrar.
Andres pigarreou e trouxe sua voz normal à tona.
- E o que achou?
- Ah, senhor Andres, é muito bom. Sua esposa tinha razão! Agradeça dona Felícia por mim - respondeu.
E então, cheirando ainda à Virgínia, Andres apertou a mão do porteiro e pegou o livro. Esperou o elevador sozinho e subiu até seu andar com um homem que também voltava do trabalho. Chegou em casa, beijou sua esposa, colocou o livro na estante, tomou banho e foi dormir aconchegado em Felícia, pensando em como era difícil amar uma mulher da vida, da rua, dos outros.