maio 08, 2010

Como se você voltasse

A louça está lavada em cima da pia, o chão cheira a desinfetante cítrico e a televisão eu já desliguei.
Sentei-me no sofá com o cigarro na mão e esperei-a chegar.
Uma hora, duas horas, três horas. Eram 16:00 horas quando minha campainha tocou. Já fumara tantos cigarros e esperara por tanto tempo que nem meu pulmão nem minha cabeça sentiam nada.
Levantei-me, parei na frente do espelho manchado e tentei arrumar meu cabelo, que a almofada amassara, e a camisa que estava com a gola levantada. Cheguei ao ponto de arriscar abrir os dois primeiros botões. Sentia-me um adolescente novamente, tentando mostrar o máximo de pele possível.
Desde que ela se fora a casa não é a mesma. Quando nos casamos era a maior e mais bonita casa da vizinhança, tinha a fachada verde limão, a cor favorita dela. Hoje não passa de uma grande casa abandonada, com a grama alta e as árvores precisando de uma poda. Não durmo mais no nosso quarto, aquele com paredes vermelhas. Só durmo no quarto em que ela planejara ser o das crianças. Queríamos três filhos. Quando soubemos que nosso primogênito seria um garoto, compramos o berço branco, a poltrona azul escura, o papel de parede com desenhos de astronautas segurando gatinhos de pelúcia.
Ainda me lembro do dia em que colamos cada astronauta nas paredes azuis e verdes. Ela estava com cinco meses e estragamos a gigante lua que tínhamos comprado para colar no teto porque não entramos num acordo de qual lado ela estaria colada. Agora durmo no quarto que um dia tivera na porta uma pequena placa escrita "Lorenzo".
Hoje o berço está nos fundos da garagem ao lado da poltrona, e os pequenos astronautas estão começando a descolar das paredes do quarto. Quando os olho lembro dos bons momentos e dos planos malucos que construímos juntos para ele. Ela costumava sentar na poltrona para folhear revistas de enxovais para bebês enquanto eu montava o berço.
Estávamos no meio de maio, faltavam três meses para o nosso pequeno dormir naquele quarto ao fim do nosso corredor. Mas, durante uma noite, acordei incomodado por uma umidade na cama.
O desespero fez com que eu agisse sem controle. Pegara minha esposa no colo com urgência e fomos para o hospital. Na semana seguinte voltamos para casa, tive que retirar a pequena placa da porta do quarto que ficava ao fim do corredor. A casa toda entristeceu. Eu tinha que me mostrar forte, mas tinham noites que não suportava e chorava escondido no quarto que um dia fora do nosso pequeno.
Ela nunca mais foi a mesma, não entrava no quarto dos astronautas. E tudo começou a acontecer depois da perda de Lorenzo.
Dois anos se passaram, ela optou por trabalhar em casa e nunca mais falou em filhos. Eu saía mais tarde de casa e voltava mais cedo. Na hora de dormir ela se posicionava em meus braços para que eles a defendessem de qualquer coisa. Mesmo assim ela não falava com tanta frequência que me amava.
Até o dia em que ela se foi. Quando fecho os olhos ainda vejo o momento em que ela pôs a mão no meu rosto, disse "eu amo você" e partiu.
O espelho em que agora olho está faltando um pedaço. Quebrei-o no momento em que ela saiu daquela casa para não mais voltar.
A campainha tocou novamente. Arrumei o vaso de flores com margaridas que comprara do dia anterior, sentindo que ela viria. Destranquei a porta e sorri quando a abri.
Senti um abraço forte e fechando os olhos comecei a chorar.
Os braços me afastaram e disseram com voz firme "Humberto, você precisa ficar bem".
Eu chorava como uma criança.
"Humberto, sou eu, Estevan. Humberto, ela morreu há muito tempo. Você precisa ficar bem".
Chorei, chorei, chorei.
Só pude dizer "Eu sei, amigo, eu sei".