"Desculpe, desculpe". Eu disse. "Eu não sei o que aconteceu. Desculpe, não deveria ter feito você..." Respirei. "...você ouvir tudo isso. Desculpe."
Você me olhou e sorriu. Se soubesse o quanto eu gosto desse sorriso.
"Desculpe." Fiquei repetindo como uma idiota.
Você se sentou no banco e me puxou pelo braço. Até para movimentos simples como esse eu percebia a delicadeza do seu toque. Engraçado que você mexeu nos bolsos - confesso que tive pequenas esperanças - e tirou um lenço.
"Você tem um lenço?" Tive que rir. "Isso até parece cena de filme."
Você estava sério. Não riu.
"Bom. Eu não sei o que dizer."
Eu queria sair correndo daquele banco. Queria acabar com essa idiotice.
"Eu sei, não tem. Acho que nunca tive esperanças que dissesse algo, mas eu queria tentar." Meus olhos coçavam. Acho que eram as lágrimas.
Você era alto, tinha cabelos lisos e castanhos, olhos verdes, o físico normal para alguém da sua idade. E enquanto o olhava, imaginei como seriam nossos filhos.
"Vamos conversar, Alice. E por favor, não chore, assim você vai acabar comigo. Eu queria gostar de você. Queria gostar mais de você do que você gosta de mim."
Você pegou minha mão, apertou-a firme - pude sentir que a sua suava - e beijou o lado inferior na minha palma.
"Is.. Isso é uma completa idiotice." Puxei com tanta violência minha mão que acho que o assustei. "Não sei porque estou chorando. E daí que você não gosta de mim?!" Esfreguei meus olhos com força, de raiva. "Não é porque você não gosta que vou ficar aqui chorando como uma idiota. Aliás, sorte sua que não gosta. Teria que levar uma chorona para casa."
Você riu. E eu acho que nem tive a intenção. Na verdade, enquanto eu falava tudo aquilo, quase não percebi sua presença. Estava falando para mim. Para colocar na minha cabeça.
"Mas eu vou te levar para casa, Alice." Você colocou as mãos nos meus ombros. "Viemos no meu carro."
"Eu quero ir de ônibus." Disse.
"Pra quê? Vamos para casa juntos, a gente vai conversando. Você se distrai."
"Não." Meu tom de voz nunca tinha sido tão certo com você. "Eu quero me distrair sozinha."
"Tudo bem, então." Você passou as mãos nas têmporas. "E você está chateada comigo?"
"Por que haveria de estar?" Dei um sorriso sem um pingo de vontade de sorrir.
Você se calou. Eu não estava brava com você, Tarcísio. Estava brava comigo.
"Tarcísio, eu gosto muito de você." E o abracei.
"Eu também, Alice." Disse acariciando meus cabelos.
Tomei coragem e disse "Mas estou indo."
"Já? Vai, deixe eu te dar uma carona."
Levantei-me, peguei minha bolsa, bati nas suas pernas. Você riu de novo. E pela primeira e última vez, curvei-me e o dei um beijo. Foi tão rápido e nem pensei. Ah, Tarcísio, agradeço pelo que fez. Obrigada por pôr seus dedos embaixo dos meus cabelos e por me puxar para você.
Acabei me soltando de você uma hora ou outra e saí andando.
"Adeus, Tarcísio!" E fiz um aceno com a mão.
"Adeus? Nós ainda iremos nos ver." Engraçado o que você disse. É engraçado o que falamos sem saber se é verdade.
"Adeus."
Desci a rua, peguei um ônibus para o aeroporto. Fui-me embora, para nunca mais voltar.