Você amanhece com os ombros cansados, os olhos meio fechados e pensa "Vou tomar remédios para a minha dor de cabeça" e você não está com dor de cabeça. A única coisa que pode pensar é nos 34 minutos que dormiu essa noite.
Levanta da cama com os dois pés, chuta o criado mudo e vai até o banheiro. Você se olha no espelho, vê seu cabelo bagunçado, analisa seu rosto e pega um comprimido. Volta para a cama rindo, sabendo que deveria ir trabalhar. Mas a única coisa que pode pensar é que não está se importando hoje.
Deita na cama, diz coisas que nem mesmo você entende e afunda a cabeça no travesseiro. Pensa no dia anterior. Pensa na quantidade de criatividade que teve que drenar para as mãos. Pensa que não aguenta mais. E a única coisa que poderia fazer era comer o travesseiro de tanto se embrenhar nas suas penas.
Com raiva, você desiste e vai até a pequena cozinha do apartamento. Pega um copo de leite na geladeira, senta na sua cadeira preferida e cruza as pernas. Bebe um longo gole e olha para frente. E a única coisa que consegue pensar é porque o café acabou tão rápido.
Vai até o quarto, troca de roupa e sai. Não cumprimenta os vizinhos que saem com os cachorros e atravessa a porta da recepção. Olha no relógio e vê que são nove horas da manhã. E pensa em quanto tempo poderia ter gasto dentro de casa.
Você esbarra com alguém na rua, solta um "Perdão" e continua andando.
Você senta em um banco de concreto de uma construção moderna, olha para o céu e começa a imaginar desenhos nas nuvens. Resolve deitar para olhar melhor. Vê um pássaro delicado, flores, um cachorro e o rosto de alguém que não se lembra. Você começa a drenar criatividade para os olhos. E seus olhos se fecham.
Você acorda com os ombros rígidos e com dores nas costas. Olha em volta e vê a cidade viva, se movimentando. Arruma suas roupas e dá um sorriso.
E a única coisa que pode pensar é nos 26 minutos que dormiu.