janeiro 21, 2010

Leitura de Pensamentos

- Eu sou uma assassina? - Deixou escapar baixinho por seus lábios.
Essa era Clarice, a desesperada.
- O que você disse? - Perguntou ele adormecido.
Esse era Ártur, o insaciável.
Clarice se surpreendeu, achou que ele já dormia. E depois de um tempo, olhou para o teto do quarto, se apoiou pelo cotovelo e disse:
- Eu sou uma assassina? - enquanto Ártur ainda acordava.
- Não, querida - agora completamente acordado -, do que raios você está falando?
Clarice o olhou profundamente nos olhos, como eles sempre faziam, e riu como sempre ria para ele se tranqüilizar e achar que era uma pergunta sem nexo. Ele também riu e ela voltou a deitar.
- Você acha que eu penso demais na vida, amor? - ela perguntou olhando para o teto. Dessa vez ele se apoiou pelo cotovelo.
- Acho, mas gosto de você assim. Adoro te ver filosofando, pensando e com aquele silêncio sábio.
- Silêncio sábio? - ela o olhou sem entender.
- Ah, eu só queria dizer algo bonito como você sempre faz. - e abriu um sorriso amarelo.
- Hum, tá, então - riu - boa noite, amor. Pode dormir.
Então ele a beijou; um beijo rápido, mas apaixonado, e afundou no travesseiro.
Clarice não dormiu. Não dormia há dias.
Todas as noites pensava que ela matava a verdade, que fingia ser alguém que não era. Pensava que ninguém pode ser alguém de verdade quando não faz o que quer, o que gosta. Ela era uma bancária e queria ser artista. E a única verdade que ela achava conhecer era o amor que sentia pelo homem suado e ofegante deitado ao seu lado. Aquele era Àrtur, autêntico, vivia o máximo que podia. Enquanto ela vivia trancada nas incertezas.
De repente Àrtur se vira e diz:
- Querida, eu vivo o máximo que posso porque tenho você. Agora não pense que é uma pessoa diferente do que deve ser, não pense que você engana. Não pense que é infeliz. Vá, troque de emprego. Eu adoro seus quadros, seus poemas. Querida, amor da minha vida, você não é uma assassina.
Clarice o olhou atônita e ele entendeu o que ela queria saber.
- Não, eu não posso ler seus pensamentos. - e ela o olhou aliviada.
- Então... como? - disse ela intrigada, com a voz falhando.
- Eu te amo e você é uma parte de mim. Não há mais o que dizer.
Ela parou e gargalhou, sentiu-se tão tola quanto um dia poderia imaginar.
- Ártur, obrigada. - e o beijou; um beijo rápido, mas apaixonado, e afundou no travesseiro com lágrimas nos olhos.