Chovia enquanto Olga fazia nós na corda que encontrara. O tempo assim parecia passar mais rápido. Ela ria ao tentar desatá-los, como as relações que já tivera. Não era fácil se embolar com alguém e de repente tentar desamarrar tudo o que já aconteceu. Depois de várias tentativas, ela desistiu. Durante os minutos que brincara de nós, ela mal reparara no único rapaz que dividia a plataforma com ela. Ele, com um livro que ela já lera na mão, fingia não vê-la. Uma voz que indicava ser a última da escala, anunciava que o último trem estava atrasado.
Cansado de ficar onde o vento trazia o molhado e o frio da chuva, ele escolheu sentar-se ao lado dela. Reparara que Olga olhava para uma corda sobre sua meia calça sorrindo. Um sorriso tão sincero que o fez sorrir também, com o canto do olho.
"Eu adoro esse livro", disse ela. "O que você está achando?".
Surpreso e ainda sorrindo respondeu que não sabia, que talvez o mundo fosse além disso, que o amor fosse tão explosivo que não caberia em folhas tão velhas, que os olhos dela eram lindos...
Levantando-se, por um segundo ele achou que Olga fosse embora, mas ela se sentou novamente, em outra posição, de frente para ele. Olga elogiou as ruguinhas em volta dos olhos dele que dançavam ao sorrir.
Ele tentou resumir quais foram os momentos mais legais que ele já viveu, depois de ela perguntar. Quando perguntada sobre a mesma coisa, ela não quis responder. E poucos minutos se passaram, como se fossem horas num planeta desconhecido.
Ouviram passos na escada. Uma mulher diferente do que ambos costumam encontrar subia com seu filho recém nascido no colo. Sentou-se ao lado deles e começou a amamentar o neném.
Olga disse à mulher o quanto achava lindo crianças amamentando. É uma coisa além do corpo, da relação mãe e filho. É uma troca de vivências, um carinho inexplicável. E ele sorria para Olga. Contudo, a mulher sem parecer entender uma palavra, levantou-se e se sentou ao fim da plataforma.
Sozinhos, Olga colocou a mão próxima da dele, e ele a pegou. Beijaram-se e ele se sentiu como uma bomba atômica. Ela, colocava as pernas no colo dele e dizia que adorava tê-lo conhecido. Aliás, você pode me ajudar a desatar esse nó que eu fiz?
Ele, sorrindo, suas ruguinhas dançando, tirou a mão dos cachos dela e desfez o nó como se fosse o homem mais forte do mundo, ou como se o nó não fosse nada.
Olga pensou que aquele nó não era nada, e que queria amarrar um nó com ele ali, para sempre.
E então o trem chegou.
Sentaram-se em lugares diferentes e Olga segurava a corda amarrada na mão. O rapaz que deveria ter rugas que dançam ainda fingia não vê-la. Conversaram, beijaram-se e desamarraram um nó na cabeça dela - na dele também, mas ela ainda não sabia.
Depois de três estações e Olga com medo de ele descer sem se falarem, ela se levantou, caminhou sem precisar se equilibrar no apoio e pediu licença para a leitura dele.
"Tentei, mas não consegui. Você consegue desatar nós?", disse Olga sorrindo ao sorriso dele.